VÍDEO: MURILO CAMPANHA CONTA ITATINGA

O psicanalista Murilo Campanha fala sobre Itatinga, um dos maiores bairros de prostituição da América Latina, onde ele tem seu consultório.

O nadador

Uma crônica de Hugo Ciavatta.

Ainda que as bolachas falassem

Crônica de Fábio Accardo sobre infância e imaginação

Ousemos tocar estrelas

Uma reflexão de Thiago Aoki.

Entre o amarelo e o vermelho

Uma crônica de Hugo Ciavatta

O homem cordial vinhedense

A classe média vai ao barbeiro. Uma crônica de Caio Moretto.

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sábado, 27 de agosto de 2011

Chamam-na educação. E não é.

. . Por Caio Moretto, com 5 comentários

As manifestações estudantis chilenas já duram mais de três meses. Os estudantes reivindicam uma educação pública, gratuita e de qualidade. Quando a repressão começou a ficar mais violenta, professores e um grande número dos pais desses alunos se uniram em apoio aos jovens. Há alguns dias os trabalhadores entraram em greve geral (não sem suas bandeiras particulares, tudo bem, mas) ao lado dos manifestantes e a situação anda bem tensa. Nessa sexta-feira, atingido por uma bala perdida (ponto que a mídia tem focado bastante) morreu um garoto de 16 anos, Manuel Gutiérrez Reinoso.

A notícia me pegou meio de surpresa. Tentei continuar com o que estava fazendo e até escrevi outro texto, mas não consegui publicar. Um poema de Brecht não me deixava.

Palavra inocente é tolice.
Uma testa sem rugas indica insensibilidade.
Aquele que ri apenas não recebeu ainda
A terrível notícia.

Há momentos em que não é possível seguir adiante. A ruga é necessária, nem que seja apenas para lembrança, para garantir que não perdi a sensibilidade.

Que tempos são esses, em que
Falar de árvores é quase um crime
Pois implica silenciar sobre tantas barbaridades?

Não acho que seja necessário ser sério, nem que seja proibida a poesia numa hora dessas. Muito pelo contrário, contra uma notícia dessas é válido tudo aquilo que me humaniza. Resolvi, então, me entregar ao assunto. Li e reuni as matérias que encontrei. Uma me chamou a atenção: “Transição democrática no Chile ainda não foi completada” escreveu o Financial Times. De fato não foi. Assim como a norte-americana e a brasileira. Não acredito que nenhuma transição democrática tenha sido completada. Chamam-na democracia e não é. Democracia é um conceito bastante elástico. Seu significado depende do quanto exigimos dele.

O que o Chile está exigindo de sua democracia?

O que preocupa um garoto de 16 anos?

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* Trechos do poema Aos que deverão nascer, de Bertolt Brecht.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Crianças Contemporâneas

. . Por Thiago Aoki, com 3 comentários

(Aviso já: um texto um pouco mais longo e denso sobre arte contemporânea)

Esses dias, tive contato com uma palavra que me remeteu à sua beleza enquanto termo e fonema: "Hermético". Escutei-a em seu terceiro significado no dicionário Houaiss: "difícil de entender e/ou interpretar, obscuro, ininteligível". Dizia-se que a arte contemporânea, mais especificamente a dança contemporânea, seria "hermética", daí sua baixa popularidade e dificuldade em formar um público que venha de outro lugar que não da própria classe artística.

Algumas linhas pedagógicas afirmam que o brinquedo, do modo como o conhecemos, mais limita do que educa uma criança. Isso porque o brinquedo tem uma estrutura rígida com regras de como deve ser usado, muitas vezes estimulando o pensamento único e a repetição de movimentos. Um exemplo grotesco: nada mais se faz em um escorregador do que subir a escada e descer a rampa bundado, repetindo-se ciclicamente. Pouco se estimularia, em ambos casos, a imaginação e a sinestesia da qual a criança poderia provar. A proposta é que as escolas comecem a construir espaços semi-estruturados, com elementos que forneçam possibilidades, cuja brincadeira ou atividade seja norteada pela imaginação da própria criança, evitando que a criança seja condicionada a partir da estrutura em si. Ela mesmo criará suas regras e normas.

Me parece que esse tem sido o movimento na arte contemporânea hoje, ao trazer às exposições e espetáculos com tamanho grau de obscuridade. Espera-se que cada um que se depare com o trabalho tenha significado/experiência distintos, chamando isso de "ampliação da subjetividade do espectador".

O problema é que se esquece da praticidade que se tem em descer um escorregador. Além disso, para a criança, ela nunca está apenas descendo uma rampa, seria menosprezá-la. Rubem Alves disse alguma coisa no sentido de que deveríamos viver nossa vida com o espanto e a curiosidade de uma criança que encontra uma conchinha. O escorregador do clube, para mim, já foi ponte, tunel do tempo e até cachoeira.

Do mesmo modo, não acho que é o caso de culpar apenas o público pelo "baixo grau de instrução", "pouco contato com as artes" ou "falta de sensibilidade". Não, não é culpa do futebol. É simplesmente natural sentirmo-nos afugentados diante do novo, daquilo que nos foge do controle, do comum. Precisa-se sim, do lado do artista, pensar para quem e até quem chegará a arte que está fazendo. É possível uma arte provocativa, que consiga seduzir o público, mas que não caia no mero hermetismo, tampouco seja óbvia e que ainda obtenha a proeza de ser aclamada pela crítica? É. Acreditem, já brinquei em escorregadores que davam várias voltas, de diferentes formatos, velocidades, texturas, até com recursos tecnológicos. E a molecada adorava. Também já tive a oportuidade de conhecer diversos espetáculos, exposições, intervenções dos mais inovadores serem aplaudidos de pé por pessoas das mais tradicionais.

Entretanto, em alguns momentos, o que a suposta inovação tem provocado - tanto para o público da arte contemporênea como para as crianças exiladas de seus parquinhos - é o mesmo que alguns críticos fazem ao utilizarem o termo "hermético", ao invés de "obscuro": nada.

Muitas vezes, uma tela branca é apenas uma tela branca. Ou, como disse algum antropólogo, num contexto bem diferente, uma piscadela é apenas uma piscadela.

(PS: Espero não ter sido (tão) obscuro, quer dizer, hermético. E sim, sou leigo)

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