Quebro minha cabeça pensando por que a poesia está em baixa. Não só o seu consumo, mas sua produção. É claro que olhar a prateleira de uma livraria não é a melhor forma de compreender a arte, mas poucos novos poetas surgem, inclusive nos blogs da vida. Todos sonham ser escritores, poucos poetas, estes já são espécies raras dentro ou fora de nossa indústria cultural. A indagação é recorrente a qualquer pessoa que pense nossa literatura. Em uma fala que tive a oportunidade de presenciar, de Antônio Cícero, um de nossos poetas contemporâneos, ele afirmou que a poesia não é como outros os demais campos artísticos, pois necessitam de uma interpretação peculiar, não basta ler um poema para ler um poema, despende-se tempo e subjetividade na sua compreensão. O esforço exigido é muitas vezes caro ao pragmatismo de nosso cotidiano cada vez mais frenético. Em uma poesia de Drummond, por exemplo, encontramos muitas figuras de linguagens, trocadilhos, brincadeiras com o ritmo e com a forma, uma fluência particular e complexa em suas entrelinhas. Além disso, tem uma questão educacional que está diretamente relacionada à poesia - o modo como aprendemos literatura em nossos colégios é o mais chato possível (não entrarei no mérito da questão por hora).
Estou de acordo. Porém, há um fator também importante por demais e que muitas vezes não é colocado na discussão, que é a oralidade. O individualismo, de trancafiarmo-nos em nossos cantos e encantos, enclausurando-nos cada vez mais em nossas especializações também apunhala nossa literatura. Um projeto interessantíssimo que pode exemplificar é a Cooperifa, sarau realizado na periferia. Com a preocupação de tirar a poesia do altar, e neste sentido diferencia-se dos saraus tradicionais, busca-se que pessoas "comuns" possam pensar e fazer poesia, independente da "instrução". E é o ritmo oral e não o escrito, que possibilita a ascenção da poesia, em um lugar em que a tradição não permitiu. (vale também conhecer as Edições Toró que têm publicado e disponibilizado para download boa parte desses novos poetas).
Estou de acordo. Porém, há um fator também importante por demais e que muitas vezes não é colocado na discussão, que é a oralidade. O individualismo, de trancafiarmo-nos em nossos cantos e encantos, enclausurando-nos cada vez mais em nossas especializações também apunhala nossa literatura. Um projeto interessantíssimo que pode exemplificar é a Cooperifa, sarau realizado na periferia. Com a preocupação de tirar a poesia do altar, e neste sentido diferencia-se dos saraus tradicionais, busca-se que pessoas "comuns" possam pensar e fazer poesia, independente da "instrução". E é o ritmo oral e não o escrito, que possibilita a ascenção da poesia, em um lugar em que a tradição não permitiu. (vale também conhecer as Edições Toró que têm publicado e disponibilizado para download boa parte desses novos poetas).
Outro exemplo da importância da oralidade é Patativa do Assaré, nordestino, um dos maiores poetas brasileiros do século XX, que fazia seu poema feito música, cantando. Patativa pouco conhecido foi, e ressurge, com atraso, após sua morte. Diz que ele, tardiamente alfabetizado, não gostava de escrever os poemas, pois só gostava deles quando falado, cantado. O próprio Wikipedia nos alerta: "A transcrição de sua obra para os meios gráficos perde boa parte da significação expressa por meios não-verbais (voz, entonação, pausas, ritmo, pigarro e a linguagem corporal através de expressões faciais, gestos) que realçam características expressas somente no ato performático (como ironia, veemência, hesitação, etc.)".
Por fim, para não ficar apenas nas exceções, volto a Drummond e seu belo poema erótico "A Lingua Lambe".
A Língua Lambe
A língua lambe as pétalas vermelhas
da rosa pluriaberta; a língua lavra
certo oculto botão, e vai tecendo
lépidas variações de leves ritmos.
E lambe, lambilonga, lambilenta,
a licorina gruta cabeluda,
e, quanto mais lambente, mais ativa,
atinge o céu do céu, entre gemidos,
entre gritos, balidos e rugidos
de leões na floresta, enfurecidos.
A língua lambe as pétalas vermelhas
da rosa pluriaberta; a língua lavra
certo oculto botão, e vai tecendo
lépidas variações de leves ritmos.
E lambe, lambilonga, lambilenta,
a licorina gruta cabeluda,
e, quanto mais lambente, mais ativa,
atinge o céu do céu, entre gemidos,
entre gritos, balidos e rugidos
de leões na floresta, enfurecidos.
O ritmo e aliterações (repetições de fonemas, no caso as sílabas com "L") impõem ao leitor, desavisado, que faça com sua língua e boca o movimento do sexo oral, termo que em nenhum momento aparece escrito estritamente, a não ser por metáforas preciosas. Porém, se você está lendo "de cabeça", na tela de seu computador, provavelmente perderá boa parte de seu conteúdo.
Por esses todos e pela sobrevida do poético, se for ler poesia, em prosa ou verso, cante-a, mesmo que baixinho.
Por esses todos e pela sobrevida do poético, se for ler poesia, em prosa ou verso, cante-a, mesmo que baixinho.