VÍDEO: MURILO CAMPANHA CONTA ITATINGA

O psicanalista Murilo Campanha fala sobre Itatinga, um dos maiores bairros de prostituição da América Latina, onde ele tem seu consultório.

O nadador

Uma crônica de Hugo Ciavatta.

Ainda que as bolachas falassem

Crônica de Fábio Accardo sobre infância e imaginação

Ousemos tocar estrelas

Uma reflexão de Thiago Aoki.

Entre o amarelo e o vermelho

Uma crônica de Hugo Ciavatta

O homem cordial vinhedense

A classe média vai ao barbeiro. Uma crônica de Caio Moretto.

Mostrando postagens com marcador Dilma. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Dilma. Mostrar todas as postagens

domingo, 16 de janeiro de 2011

Poeira Nas Entrelinhas

. . Por Fábio Accardo, com 3 comentários

Ler ouvindo "Eu quero é botar meu bloco na rua" de Sérgio Sampaio


Lembro-me de um dos indigestos contando-me uma história que lhe ocorrera num ônibus em Campinas, onde um certo senhor reclamava sobre qualquer coisa (que poderia não ter nem aberto a boca para tal). Reclamação essa menos importante aqui nesse relato, diante de tamanho impacto da sua ação seguinte. Segundo nosso indigesto detalhista o senhor teria coloca as costas da mão direita no ombro esquerdo e agitado a mão como se "espanasse" uma poeirinha ali, proferindo frase sem igual:

- No tempo das estrelinhas que era bom!

Não mais inquietante foi ler nessa última terça-feira, dia 12 de janeiro desse ano novo, o texto de Jorge Roriz (capitão da reserva do Exército e deputado federal pelo PP do Rio de Janeiro) publicado no espaço Tendências e Debates da Folha de São Paulo. O texto intitulado Comissão da Inverdade coloca a "revolução de 64" como um golpe democrático dos militares e nos "revela" que foi uma demanda da imprensa, da Igreja Católica, de empresários, de agricultores e de mulheres, que saíram às ruas pedindo aos militares que salvassem a nação da possibilidade de uma ditadura do proletariado e que os militares deflagraram um Estado democrático ao Brasil. O texto do comandante do exército e deputado federal faz referência a Comissão da Verdade, projeto de janeiro de 2010 do ainda presidente Lula, que previa uma comissão para apurar crimes de tortura e assassinato por militares durante o regime militar. Modificado em maio de 2010, prevê, então, a investigação de violação aos direitos humanos praticados durante o regime militar, tanto pelos militares como por grupos contra a ditadura.

O projeto parecia ter sido esquecido quando a então presidenta eleita Dilma Roussef apressa-se em aprovar o projeto. Participante ativa de grupos guerrilheiros armados da esquerda que lutavam contra a ditadura militar instaurada no Brasil, Dilma violou direitos e foi vítima de torturas. O caro Jorge Roriz parece tapar aos olhos para enxergar o número de casos de mortes e torturas a milhares de pessoas por todo o Brasil e enxerga com clareza e precisão o caso de um carro bomba que explodiu no QG do primeiro Exército matando UM almirante e UM recruta. Não é o caso aqui de auferir justiça nas mortes ou qualquer viés democrático ou anti-democrático às ações de um lado ou outro, mas não se pode fazer-se cegar estrelinhas no ombro e nacionalismos encravados no peito.

Ainda nesse curto período como presidenta Dilma já causou nova polêmica ao mandar retirar Bíblia e crucifixo do seu gabinete no Palácio da Planalto. Tema recorrente dos embates políticos nas campanhas eleitoreiras de 2010, Dilma, que diziam atéia, se colocou a favor da liberdade religiosa, escapando de uma caracterização que poderia tirar alguns votinhos dela.

Seria referida ação resultado do respeito a liberdade de culto ou de sua antiga prática libertária de esquerda?

Dizer que a esquerda só chegou ao poder graças aos militares de 64 que impediram a instalação de uma ditadura do proletariado...doeu!

domingo, 3 de outubro de 2010

Eu confesso...

. . Por Thiago Aoki, com 5 comentários

Esses dias, sem querer querendo, caiu no meu colo uma linda crônica de Tostão - fantástico futebolista e futebólogo. Dizia ele que é mentira a máxima segundo a qual a bola procura o craque. Pelo contrário, é ele que busca e encontra o lugar certo, na hora certa. "O grande craque, além da técnica e da habilidade, antevê o lance, inventa, improvisa e surpreende. Ele sabe antes dos outros. Como ele sabe? Sabendo. Existe um saber intuitivo que antecede o raciocínio lógico. Ele sabe, mas não sabe que sabe." ("O Corpo, a Alma e o Futebol" - Folha de São Paulo, 12/02/2006)

Para escrever essas linhas, Tostão deve ter pensado nos grandes mestres da bola, como Pelé, Cruyff, Romário. Ao lê-las, no entanto, me vêm à cabeça Drummond, Van Gogh, Cartier-Bresson. Que diabos havia na na cabeça do poeta mineiro no momento em que escrevia seus poemas? Ele aliás, tem uma célebre frase sobre Pelé: "O difícil, o extraordinário, não é fazer mil gols como Pelé. É fazer um gol como Pelé". O mesmo poderíamos dizer sobre sua poesia tão inovadora, e tão já sabidamente eterna. E Van Gogh, com sua pincelada única, que força estranha possuía suas mãos guiando seu pincel de modo que nenhum outro pudesse imitá-lo? Deve ser algo semelhante ao clique da câmera fotográfica de Cartier-Bresson, cujo instante, estático na foto, movimenta-se em nossos devaneios após contemplá-la.

Todos sabiam os conhecimentos específicos de sua área de atuação: literatura, pintura, fotografia. Mas não podemos considerar apenas uma técnica apurada. Algo ali os distinguiam da média. Algo não concreto, não didático, intuitivo, impossível de se quantificar ou coisificar, que nos permite e obriga a ficarmos encantados. Um saber para além da lógica, beirando o metafísico. Nosso próprio encantamento não depende do conhecimento estrito e racional. Não é preciso conhecer o movimento na harmonia musical ou a tonalidade em que se dá a progressão das notas para se encantar com "Jesus, alegria dos homens", obra imortal de Bach ou com o violão de Baden Powell. Acho que é isso: as obras desses artistas estão tão carregadas de inspiração e intuição, esse sexto sentido que Tostão descreveu, que não há como não nos entregarmos a elas.

E o que faz de uma obra medíocre seria o contrário. Podemos acertar o emprego de todas as crases e pontuação de um texto, mas odiarmos seu conteúdo ou forma. O texto de jornal, aquele que relata friamente uma notícia, diferencia-se de uma grande obra literária porque, por mais correto ortograficamente, não contem a subjetividade que a inspiração de seu autor poderia adicionar ao nosso cotidiano. Claro que cada um inspira-se de um modo e talvez seja apenas uma ideia minha pensar que Chico Buarque é melhor que Felipe Dylon. Como também há, quem sabe, quem prefira Felipe Melo ao Garrincha. Gosto é gosto e vice-versa.

Mas o que fazemos quando, apaixonados e esperando por Garrinchas, encontramos apenas Felipes Melos? Se ao nosso redor não encontramos praticamente nenhum resquício de nossas referências, de nossas inspirações, outrora completas? Se nada fosse suficiente para preencher qualquer tipo de esperança?

Chame do que quiser: vazio da modernidade, mal estar da pós-modernidade, fim das utopias. Mas eu simplesmente não aceito o menos pior, o básico. Aquele que, com muita sorte, tem apenas o conhecimento técnico da coisa. Que longe de inventar ou surpreender, padroniza, torna estático o que seria sublime. Aquele que é pragmático, utilitário e funcional - apenas.

Prefiro simplesmente me abster, esperar, enquanto busco noutros cantos outros encantos. Não quero levar comigo o desalento forçoso de achar magia onde não há. Como pode ser tão grande a distância entre o cheiro fétido que inalamos e o perfume suave e sedutor que deveríamos sentir? Nego-me a contentar com tão pouco, com o que não inspira... Nego-me a alimentar com comida podre para saciar a gula..

Nego-me a escolher entre o sórdido e o inconcebível.


Qual a confissão? Anularei meu voto no segundo turno das eleições de 2010 para presidência do Brasil. Por enquanto...

sábado, 4 de setembro de 2010

Eleições 2010 - Tiriricas e Batatas

. . Por Thiago Aoki, com 4 comentários

Essas eleições, repetindo o mérito da última copa do mundo, têm de tudo para ser uma das mais chatas e deprimente de todos os nossos poucos anos democráticos. Millôr tinha uma frase que era algo como "abaixo a extrema-esquerda, abaixo a extrema direita, mas, acima de tudo, abaixo o extremo-centro". Se pudesse, definiria nossos tempos como essa tragédia: a ditadura do extremo-centro. Se, ao invés de bobagens biográficas elencássemos algumas perguntas fundamentais, a resposta dos dois principais candidatos à presidência seria a mesma.


-O senhor é a favor da intervenção do governo na economia?
-Sim, para estimular o desenvolvimento, mas sem quebras de contrato e autoritarismo.
-O senhor é a favor da reforma tributária e do corte de impostos?
-Sim, mas de forma responsável para não afetar áreas fundamentais
-Como o senhor vê a relação da economia com o meio-ambiente?
-É possível que o país se desenvolva economicamente de forma sustentável.
-Qual a relação de seu governo com os movimentos sociais?
-Vamos manter o diálogo, mas sempre respeitando o Estado de direito.


Não, eu não queria Stálins e Hitlers, mas me dá uma coceirinha saudosista pensar que já tivemos Brizola e Lacerda. Que algum dia fomos pautados em uma discussão de como deveria ser constituido nosso Estado e qual projeto de nação gostaríamos. Hoje o que temos é isso. Se você duvida, entre no site de qualquer um dos candidatos e busque, por exemplo, entender as estratégias dos futuros governos para a cultura. Se você encontrar algo que não seja amplo e superficial, alguma diretriz ou plano estratégico e pragmático, por favor me envie.

Esses dias, o ministro da cultura disse que Tiririca, candidato a deputado federal, faz "deboche com democracia". Na verdade, acho é que falta deboche com a democracia. Falta, como tudo no mundo, sair de uma certa hipocrisia do politicamente correto, ser um pouco mais agressivo, no sentido de questionar essa coisa disforme que a democracia brasileira. Isso porque passamos quatro anos sem fazer absolutamente nada no que se refira a uma ação política, para, às vésperas da eleição, criticar com sete pedras um "palhaço" que diz que "pior que tá não fica". Claro, ele não tem instrução, formação, conhecimento político, blá blá blá. E pior é dizer que o povo vota no Tiririca porque "é burro". Muito mais eficiente entender a estapafúrdia candidatura como uma crítica a esse modelo por si só ridículo, com brechas e sujeiras, sem o mínimo de dignidade, moral, intelectual e política.

A democracia brasileira parece uma grande peça de Nelson Rodrigues, onde tudo está podre e tal podridão é proporcional à altura que o personagem ocupa dentro do centro de decisões. Eike Batista disse, no roda viva, que pouco acompanha o debate eleitoral. Ser o oitavo homem mais rico do mundo tem suas vantagens. Ele sabe que continuará como está, seja qual for o novo preseidente. Ele continuará vencedor e rico. Mas, contrário do que disse, não porque ele não dependa do governo, mas porque o governo depende dele. Isso que é crescimento sustentável.

Walter Benjamin, propõe pessimistamente em suas "Teses sobre a filosofia da história" que a história é como um amontoado de escombros que se acumulam com o tempo. Acho que Machado de Assis aprofunda a análise quando fala sobre o escravo de Brás-Cubas em sua infância, Prudêncio, que na época era menino como seu senhor. Após anos de humilhação, servindo de "cavalinho" e aguentando a tudo calado, resignado, Prudêncio é liberto. Brás-Cubas o encontra, já velho e surpreende-se com a cena. Em uma praça pública, lá estava Prudêncio, homem livre, chicoteando um escravo que comprou com o dinheiro da alforria. Para mim é uma das passagens mais trágicas e sintomáticas de nosso mundo. É como se reproduzíssemos a cada segundo esse monte de escombros, essa dominação, essa sujeira. Pense em seu tabalho e fica mais fácil de visualizar prudêncios e mais prudêncios. Porque é isso que as eleições e nosso direito têm sido, fábricas de prudêncios que reproduzem exatamente aquilo que se critica: a apatia.

Pelo amor de Deus - sim, ele existe - este não um texto niilista, essa ideia de que é melhor perecer do que lutar contra o invencível. O niilismo é a filosofia que, em nossas universidades e centros intelectualoides, tem subsidiado o conformismo, a inoperância. Tampouco se defende aqui o inverso da democracia, a ditadura - balela pensar que aquilo sombrio foi uma época de florescimento. O fato é que, como alguém disse, a "democracia pode ser arma e armadilha", no nosso caso tem sido apenas armadilha.

É uma provocaçãozinha por uma ação política que seja transformadora, que busque o novo, que não apenas se defenda e critique, mas que tenha propostas de ataques. E principalmente que não se esgote em períodos de voto. Não sei se ela existe, mas é melhor construí-la.

E rápido.

Por hora, aos vencedores as batatas.

    • + Lidos
    • Cardápio
    • Antigos