VÍDEO: MURILO CAMPANHA CONTA ITATINGA

O psicanalista Murilo Campanha fala sobre Itatinga, um dos maiores bairros de prostituição da América Latina, onde ele tem seu consultório.

O nadador

Uma crônica de Hugo Ciavatta.

Ainda que as bolachas falassem

Crônica de Fábio Accardo sobre infância e imaginação

Ousemos tocar estrelas

Uma reflexão de Thiago Aoki.

Entre o amarelo e o vermelho

Uma crônica de Hugo Ciavatta

O homem cordial vinhedense

A classe média vai ao barbeiro. Uma crônica de Caio Moretto.

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segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Seção 11/09

. . Por Thiago Aoki, com 2 comentários

(Na seção 11/09 do purgatório, onde as almas falam a mesma língua)

-Além de tudo, jogaram meu corpo no mar.

-Me chamou?

-Não, disse “além de”, e não “Allende”. Dizia que além de tudo, jogaram meu corpo no mar. Até hoje não me conformo.

-Mas também, o que você esperava depois de matar 2996 civis.

-Não fui eu, foram mártires de Alá.

-Mas você comandou.

-Quem comandou foi a vontade de Alá. Feliz aquele que foi escolhido por Alá para ser um mártir.

-Olha, estou aqui no purgatório há 37 anos, e seus "mártires" há 10. Acho que se você e eles tivessem seguido tão bem as ordens Dele, não estariam aqui ainda.

-Malditos americanos.

-Veja, em primeiro lugar, prefiro que diga estadunidenses, pois também somos americanos. E mesmo assim, o povo estadunidense nada tem com isso. Você colocou-se no direito de ser Deus e matar pessoas por causa de disputas políticas religiosas econômicas, em suma, em nome do poder.

-Olha só quem está falando... Seu jeitinho paz e amor que deu certo né? Já pensou que pela sua incompetência e falta de pulso é que o seu país passou 17 anos em uma das piores ditaduras das Américas? Não se sente culpado? E toda essa sua benevolência te deixa aqui, no purgatório, como eu..

-Culpado? Por seguir minhas convicções? Claro que não, morri por elas e morreria de novo. Mesmo que, depois de minha morte, um amigo escritor colombiano tenha dito, com sabedoria, que meu erro foi a “amêndoa legalista que havia dentro de mim”.

-Viu só? Por isso joguei aviões em prédios he he he...

-Você é doente, fanático, o que é diferente...

-Vocês ocidentais, sempre legando ao irracional as atitudes que diferem da de vocês... É essa prepotência de julgamento que gera o ódio, meu combustível. Aliás, você esquerdista, e adorador de poesias, devia conhecer aquela frase de seu amiguinho comunista “O que é o assalto a um banco comparado à fundação de um banco?” É isso que penso! Qual o pecado moral de matar pessoas sujas? Quantas pessoas os americanos mataram depois da gente?

-Não posso estar escutando isso, Bin Laden citando Brecht! Não desvirtue e descontextualize Brecht, pelo amor de meus ouvidos... A frase que você deveria reproduzir era outra: “Pela Razão ou Pela Força”.

-Como?

-É o lema autoritário gravado em nossa moeda chilena. Brincava com amigos que deveríamos mudar para “Pela Razão, NÃO pela força”.

-Besteira, prefiro a frase da moeda...

-É, se “Alá” fez alguma coisa correta foi não te colocar no poder... Ainda bem que o oriente se livrou dessa... Coitados...

-Não precisamos de sua piedade... Nem de dizer o que é melhor para nós... E nem que diga o nome de Alá em vão...

-Pare com isso... Deixe de orgulho, estamos mortos e veja só... Os Estados Unidos financiaram o golpe que me matou e a ditadura sangrenta de Pinochet. O mesmo Estados Unidos que te armou, matou e está criando guerra atrás de guerra para exportar fast foods e importar petróleo no Oriente Médio. E derrotados, cá estamos no purgatório, um lugar sem território, sem nação, sem blocos econômicos, sem dinheiro, à espera do seu Alá.

-Se a mim faltou razão, a você faltou força.

-Acho que você não entendeu nada... A força que quero, não vem dessa militarização ridícula, que reproduz toda a lógica de dominação estadunidense. Quero a força das ruas, do espírito de revolta potencializado de cada chileno... Cheguei a dizer em entrevistas, que, em minha época, o povo tinha o governo, mas não tinha o poder! Jamais sairia matando inocentes por aí...

-Que cuti-cuti Allende! Por que não abre uma ONG? Abraça uma árvore? Quanta ingenuidade... Olhe pra mim... Meu poder vem da minha força! Da minha capacidade de destruir em nome de meus ideais, assim é o mundo, admita. Se chegasse ao poder, como você chegou, criaria a mais poderosa e disciplinada nação. Colocaria cada inimigo de Alá, no mármore do inferno!

-Em tempo de primavera árabe e revoltas estudantis chilenas, espero que, diferente de você, os homens tenham aprendido com a história.

-Aprenderam nada, continuam a ouvir ocidentais... Matam as pessoas erradas...

-Sinceramente, não dá pra conversar com você, é um fascista tal qual Bush, mas ainda mais decadente.

(Silêncio... Bin Laden abre a bolsa e começa a ler o Alcorão, quando é interrompido por Allende)

-Aliás, agora que está morto, por favor, me diga... Você tinha, digamos... Ligações com Bush antes do atentado? Digo, ele já sabia de tudo? Foi uma farsa minuciosamente armada?

-Olha... V-V-Veja bem... É uma questão delicada... Hum... Vamos fazer o seguinte, antes me responda... Você se suicidou mesmo ou foi assassinado pelos militares?

-Não é tão simples assim, o que aconteceu foi que...

(Nesse momento, uma luz amarela radiante paira sobre a cabeça de Allende, cegando-o. Também não consegue nada enxergar Bin Laden, que protege os olhos, ardem muito. Quando, enfim recupera a visão, está sozinho na seção 11/09 do purgatório. Já não há ninguém ao seu lado. Abre o Alcorão e recomeça a leitura.)


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thiago@misturaindigesta.com.br

sábado, 27 de agosto de 2011

Chamam-na educação. E não é.

. . Por Caio Moretto, com 5 comentários

As manifestações estudantis chilenas já duram mais de três meses. Os estudantes reivindicam uma educação pública, gratuita e de qualidade. Quando a repressão começou a ficar mais violenta, professores e um grande número dos pais desses alunos se uniram em apoio aos jovens. Há alguns dias os trabalhadores entraram em greve geral (não sem suas bandeiras particulares, tudo bem, mas) ao lado dos manifestantes e a situação anda bem tensa. Nessa sexta-feira, atingido por uma bala perdida (ponto que a mídia tem focado bastante) morreu um garoto de 16 anos, Manuel Gutiérrez Reinoso.

A notícia me pegou meio de surpresa. Tentei continuar com o que estava fazendo e até escrevi outro texto, mas não consegui publicar. Um poema de Brecht não me deixava.

Palavra inocente é tolice.
Uma testa sem rugas indica insensibilidade.
Aquele que ri apenas não recebeu ainda
A terrível notícia.

Há momentos em que não é possível seguir adiante. A ruga é necessária, nem que seja apenas para lembrança, para garantir que não perdi a sensibilidade.

Que tempos são esses, em que
Falar de árvores é quase um crime
Pois implica silenciar sobre tantas barbaridades?

Não acho que seja necessário ser sério, nem que seja proibida a poesia numa hora dessas. Muito pelo contrário, contra uma notícia dessas é válido tudo aquilo que me humaniza. Resolvi, então, me entregar ao assunto. Li e reuni as matérias que encontrei. Uma me chamou a atenção: “Transição democrática no Chile ainda não foi completada” escreveu o Financial Times. De fato não foi. Assim como a norte-americana e a brasileira. Não acredito que nenhuma transição democrática tenha sido completada. Chamam-na democracia e não é. Democracia é um conceito bastante elástico. Seu significado depende do quanto exigimos dele.

O que o Chile está exigindo de sua democracia?

O que preocupa um garoto de 16 anos?

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* Trechos do poema Aos que deverão nascer, de Bertolt Brecht.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

A ditadura exumada - Aversão oficial

. . Por Caio Moretto, com 4 comentários

allende
Quando ouvi pela primeira vez a notícia que os chilenos queriam exumar o corpo de seu ex-presidente Salvador Allende, achei incrível. Nós não conseguimos nem falar sobre a nossa história e eles estavam, literalmente, desenterrando a deles. Fiquei animadíssimo. Isabel Allende, parente mais influente do morto (que não tem nada a ver com a escritora) coordenou a ação, que deveria descobrir de uma vez por todas se o falecido se matou ou foi assassinado.

Estive no Chile na semana do veredicto. Além de estar curioso para saber o final da história, essa era uma das poucas notícias recentes que sabia sobre o país. Então, na primeira oportunidade que tive de puxar assunto com um chileno, achei que seria adequado trazer a questão. Perguntei à motorista do ônibus. Achei que ela ficaria feliz de saber de meu interesse sobre sua terra e de saber que estávamos acompanhando o antifuneral até no Brasil. Mas, sem querer falar muito a respeito, ela me respondeu grosseiramente: “Allende se asesinou”. Se asesinou? Como assim? Quis perguntar pelo menos se ele se asesinou sozinho ou se a armada ajudou, mas tive vergonha. Descontente com meus ambíguos conhecimentos de portunhol, passei o dia sem entender a resposta.

No dia seguinte fizemos um Free Walking Tour pelo centro de Santiago. Em frente ao Palácio de la Moneda, sede do poder executivo, paramos para ouvir algumas explicações dramatizadas por nosso guia em inglês. O idioma estrangeiro não chegava a nos denunciar, mas parados em praça pública na hora do rush... Até o mais analfabeto dos chilenos sabia que éramos turistas. Os apressados nos espiavam e, com o canto do olho - da direita ou da esquerda -, verificavam o que se dizia com tantos gestos sobre seu país. Até que, sem que eu precisasse perguntar, o guia resolveu comentar sobre o morto. “Salvador Allende committed suicide”, contou. Desta vez em inglês claro e pausado, praticamente for dummies. Tentou engatar a contar sobre a perícia, as armas e as balas encontradas na cena do crime, mas, do outro lado da rua, um grito o interrompeu: “Es mentira!”. Com a credibilidade questionada, contentou-se em dar uma risada e dizer que esta era apenas a versão oficial, não necessariamente aceita por todos.

Neste dia, frustrado com o sentimento de que a história não passa de um apanhado de versões oficiais, fiquei pensando sobre o caso brasileiro. Sempre fui pela abertura dos arquivos da ditadura no Brasil. Porém, começo a ponderar que, dependendo do presidente, talvez eu prefira um bom lacre numerado.
Só se exuma um corpo uma vez. E, por mais que mude o governo, conta-se apenas uma versão oficial. Um governo se diz diferente do outro, mas o medo de que uma crise política possa ser mal vista internacionalmente e virar uma crise econômica impõe silenciosamente uma série de regras de conduta. Essa é uma delas. Portanto, se exumarmos a ditadura, teremos uma única chance a uma única versão oficial. E, com o oficial errado, podemos acabar passando a vida do outro lado da rua, gritando, como bêbados, que é tudo mentira.

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GASPARI, Elio. A ditadura exumada. Santiago: Mistura Indigesta, 2011. (Es mentira!)

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quinta-feira, 28 de julho de 2011

Tipicamente chileno

. . Por Caio Moretto, com 6 comentários

Difícil dizer o que é típico de um país. Tenho certeza que os chilenos comem mais no McDonald's do que nos restaurantes de comida chilena que aceitam dólares e têm cardápio em diversos idiomas. Por isso, no Chile, fui ao McDonald's. Lá encontrei um divertido McItália, que levava a mesma carne dos outros lanches e um exótico creme de abacate. Achei engraçado. Nunca havia associado Itália a abacate.

dog-de-abacate

No dia seguinte, passeando pelo centro de Santiago vi uma barraquinha de cachorro quente super movimentada. “Vou descobrir qual é o dogão tipico do fim de expediente chileno”, pensei. No cardápio, desses bem feitinhos, impressos em gráfica, estava em primeiro lugar: hot dog brasileño. Pão, salsicha e o exótico creme de abacate. Apesar de ser um grande entusiasta, não conheço todas as variações da baixa gastronomia brasileira. Sei que paulista come hot dog com purê de batata, que carioca tira sarro e que prensado é coisa de fim de balada. Mas nunca ouvi falar de cachorro quente com abacate.

Claro que eu fui em restaurantes chilenos e comi todas os pratos que o turista deve comer. Mas garanto que se você se for à Santiago e ver alguma comida com creme de abacate pode comer com vontade. Abacate não assumido é tipicamente chileno.

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