VÍDEO: MURILO CAMPANHA CONTA ITATINGA

O psicanalista Murilo Campanha fala sobre Itatinga, um dos maiores bairros de prostituição da América Latina, onde ele tem seu consultório.

O nadador

Uma crônica de Hugo Ciavatta.

Ainda que as bolachas falassem

Crônica de Fábio Accardo sobre infância e imaginação

Ousemos tocar estrelas

Uma reflexão de Thiago Aoki.

Entre o amarelo e o vermelho

Uma crônica de Hugo Ciavatta

O homem cordial vinhedense

A classe média vai ao barbeiro. Uma crônica de Caio Moretto.

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sábado, 19 de junho de 2010

Saramago, amargo mago.

. . Por Thiago Aoki, com 2 comentários

Uma vez, ainda no colégio, questionando a imposição da leitura dos livros clássicos no ensino médio, perguntei ao professor de literatura qual seria o autor contemporâneo, vivo, que a disciplina estudaria daqui a cinquenta anos. Ele me respondeu que, de certo mesmo, apenas Gabriel García Marquéz e José Saramago. Ainda não estava preparado pros "100 anos de solidão" então peguei o único título que havia de Saramago na pequena biblioteca: "Evangelho segundo Jesus Cristo". O título não me entusiasmou, mas quando comecei a lê-lo, meio que para não dizer que não havia tentado, fiquei pasmo diante da primeira cena, o sexo entre José e Maria. Ainda incomodado com a linguagem que ignora travessões e abusa de vírgulas, só depois de dez, quinze páginas consegui o ritmo normal de leitura. Posteriormente, em uma entrevista ao Roda Viva, o autor alertaira aos que o condenava por tal hábito: bastaria ler seu texto em voz alta para conseguir entender sua linguagem. Mais que isso, jamais permitiu que se traduzisse seus livros em países de origem portuguesa.

A morte de Saramago, como esperado, tem causado uma polarização banal entre adeptos e críticos. Simpatizantes de Cuba e Simpatizantes da Veja. Ateus e criacionistas. Comunistas e Neoliberais. Defensores e críticos da Nova Reforma Ortográfica. Saramaguistas e Antunistas. Porém, para mim, o que mais me marca e me atrai em Saramago não é nenhum de seus posicionamento diante de tais polêmicas. O que mais me marca em Saramago são os disparos a queima roupa cujo gatilho suas palavras puxavam mirando o senso-comum. É a maestria com que ele pegava o que estava dado e questionava, seja em romance ou discursos. Saramago, para mim, eternizar-se-á como um provocador, que desfigurava cada certeza, cada normalidade. Tudo aquilo que quase em consenso aprovamos - tal qual democracia, utopia, Deus, linguagem - é passível de questionamento. Segui à risca a máxima de Nelson Rodrigues: toda a unanimidade é burra. E diante da veemência que pulsava de cada frase, pouco importa se comunista ou reacionário, realistas ou fantásticos, ateus ou fervorosos, foram Nelson Rodrigues e Saramago.

Em um dos livros do português, "O Homem Duplicado", o personagem principal trava diálogos densos com o "senso-comum" e deste conflito resulta suas ações. É exatamente isso que sinto quando leio ou ouço Saramago, uma batalha mórbida entre minhas crenças e o novo. Talvez o maior exemplo desse arranca rabo tenha sido quando entrei na internet para ler como tinha sido o debate sobre "utopia e realidade", entre José Saramago e Eduardo Galeano, no Fórum Social Mundial de 2005. Esperei o conforto, mas o que o trauma não me deixou apagar da memória em seu discurso foi a leitura das seguintes linhas:

“Se eu pudesse riscava a palavra utopia dos dicionários, mas claro não posso, não devo e nem o faria. Eu penso que nós, e há que reconhecer que os jovens são muito sensíveis à idéia da utopia, mas como toda a gente sabe, digamos, a utopia é algum coisa que não se sabe onde está. O próprio termo está a dizê- lo: U e topos. Portanto, algo que não se sabe onde está. Que se supõe que existe mas não se sabe onde está. Repara: há uma contradição interna no conceito de utopia, sobretudo no uso que se faz dele como algo que, de repente, toda a gente diz ou diz-se muitas vezes, todos nós precisamos de uma utopia. Eu acho que não precisamos de uma utopia.

Então, quando digo que riscaria a palavra utopia e (....) se eu tivesse que substituí-la, então, enfim, substituí-lo-ía por uma palavra que já existe: esta palavra é simplesmente amanhã. É para amanhã o trabalho que hoje se faz. Portanto, coloquemos aquilo que é utopia, aquilo que é o conceito, não o coloquemos em lugar nenhum. Coloquemos no amanhã e no aqui. Porque o amanhã é a única utopia".


Diametralmente distinto do que os efusivos utopistas haviam dito até então. Segundo relatos, alguns na plateia aplaudiram muito, mas a maioria ficou em silêncio, daqueles que sentenciam a dúvida. Há quem diga que os próprios debatedores não se furtaram a admirá-lo diante da fala. Quando se trata de Saramago, é melhor não esperar carinho, e por essa credibilidade, acredito em sua lágrima emocionada ao assistir pela primeira vez o longa de Fernando Meirelles, tão criticado por amantes das formas e cegos do conteúdo.

Saramago se foi, e aqui me lembro da fala da personagem principal do magnífico "Ensaio sobre a cegueira". Com a cidade toda cega, ela era a única que enxergava. Eis que, depois de tantas batalhas e esforços de se viver em um mundo sem lei ou proibições, a população volta a enxergar. A personagem está reflexiva, a olhar de seu apartamento a comemoração e euforia de todos que voltavam a enxergar. Em resposta ao espanto do marido diante de sua frieza perante os acontecimentos, a personagem explica, em um dos mais belos trechos do livro: “Queres que te diga o que penso (...) Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, Cegos que veem, Cegos que, vendo, não veem”.

Saramago se foi e, se me sinto reflexivo, é porque penso que se, através de algum milagre ele ressucitasse, talvez pouco se animaria diante do mundo dos vivos, e, olhando para nossa gente, ele diria em tom sereno e reflexivo: "estamos todos mortos, mortos que vivem, mortos que, vivendo, não vivem".



Coluna do Leitor - Dúvida

. . Por Mistura Indigesta, com 1 commentário

Dúvida

A escola não me ensinou, nem minha família
A igreja não pregou e a sociedade não julgou
O partido não doutrinou nem o governo impôs



Ninguém me orientou nem deu palpites
Meu cérebro não foi lavado nem sujo

Não me reprimiram nem torturaram
Nunca me mostraram o caminho certo
Nem o errado
Não me convenceram

A maioria não venceu
Nem democraticamente
Nada fizeram por mim
Ingratos
Nem duvidaram
Nem contradisseram

Não opinaram




Nunca duvidei de nada
Antes.

E agora? Será que penso?
Logo, será que existo?
Consigo?



Lucas Salvador Andrietta, além de poeta mal disfarçado de programador, é frasista e proseador quando não está inventando próverbios. Toca violão, atua eventualmente como coroinha e também participa de vídeos caseiros. Ah, nas horas ociosas ele passa o tempo estudando economia.
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Em Recomendamos, contamos com dois excelente poetas: Nada Direito, de Rodrigo Gomes Lobo, e Nowhere Land, de Felipe Bier Nogueira. São paradas obrigatórias, por favor.

Se você também quer participar de nossa Coluna do Leitor, basta enviar seu texto (conto, crônica, crítica cultural, poesia, etc) para misturaindigesta@gmail.com

terça-feira, 8 de junho de 2010

Coluna do Leitor - Um Futebol de Domingo

. . Por Thiago Aoki, com 3 comentários

Um futebol de domingo
por Daniel Gorte-Dalmoro

Era para ser uma pelada de domingo de manhã, nada mais. E dava a impressão de que assim seria. Estávamos em cinco e esperávamos por mais gente, para completar dois times e começar a jogar. Batíamos bola – uma bola de futebol society – enquanto isso. Foi quando chegaram duas pessoas mais, uma delas trazendo uma bola de salão (não por acaso mais apropriada para quando se joga futebol de salão). Trocamos de bola para continuar aquecendo. E quando a bola de salão parou nos meus pés, senti que o que eu tinha ali não era uma bola, mas meus doze, treze anos. A partir desse instante, pela próxima hora, aquele não seria mais um simples jogo de domingo de manhã, mas meus velhos jogos de fim de tarde, de segunda à sexta, quando a chuva não caía bem na hora e tirava o ânimo de subir o morro.

Olhei para o lado, onde estavam o Pilati, o Fido, o Tobias, o Rodolfo, o Odená – que tinha um fusca pintado igual ao do filme Se meu fusca falasse, e, por ser mais velho, se sentia no direito de não jogar no gol –, o Cristiano (que tudo mundo queria pro seu time, já que não se incomodava em jogar de gol), entre outros?

Esperamos um tempo mais, ver se chegava mais alguém. Não chegou. Chamamos algumas pessoas que também procuravam mais gente para jogar. Olhei um tanto receoso: na minha experiência de mais de uma década atrás, gente que vem de fora costuma jogar mais sério, dar mais porrada, reclamar mais. Foi isso que acabou com aquele grupo que por três (ou seriam quatro?) anos se reunia quase religiosamente às 17h30 na quadra do meio do Patão, de segunda à sexta.

Contudo, os tempos são outros, e o grupo é outro também. Não é só uma década que me separa daquele grupo, como uns mil quilômetros de distância, em média. Mas alguma coisa ali me fez me sentir que eu era o mesmo. A bola pesada na quadra de cimento, na qual é bom não cair para não se ralar? Eu na ala esquerda lamentando que não sei rodar e tentando ver se alguém no meu time tinha afinidade ao jeito que eu jogo? De qualquer forma, tratei de jogar como jogava antigamente (e como ainda jogo atualmente): para me divertir, desestressar e não para arrumar briga. Coisa que aprendi com o tempo e não sabia aquele tempo: tratei de ignorar e mesmo fazer piada e rir do colega de jogo que não parava de reclamar: estava lá para brincar e nada mais. E como toda brincadeira, jogava sério o suficiente para marcar gols e descontraído o bastante para não me incomodar em perder ou ganhar. Perdi o jogo, mas saí me achando o melhor em campo, como todo mundo.

Na volta, voltei tentando encontrar a escola onde estudei na pré-escola, a Associação de Pais e Mestre, onde casais mais ou menos na mesma idade que eu se escondiam para subverter os costumes – ou ao menos assim pensavam fazê-lo –; a casa onde morava uma família de negros (isso é marcante em uma cidade onde praticamente todo mundo é branco de ascendência italiana ou alemã), a casa onde tinha um são bernardo, a outra em que um dia eu tinha entrado para ver um tucano; a casa dos padres, quase caindo aos pedaços, e a dos Nezelo, que tinha um carrão antigo, banheirão, com velocímetro em milhas e marcha do lado do volante, e um porão cheio de peles (e pulgas). Eu me pergunta se iria assistir tv ou jogar mega-drive ao voltar para casa. Quem sabe passar na locadora alugar uma fita?

Porém não foi isso que encontrei pelo caminho. Encontrei uma avenida vazia, que pelo silêncio até lembrava o caminho de outrora até minha casa. E foi tudo. Pouco depois de vencer essa avenida, ao me deparar com ruas mais movimentadas, me deparei também com os pequenos desrespeitos quotidianos que preciso engolir diariamente. Eles foram me trazendo de volta para a casa de agora. Quando finalmente abri a porta, senti uma dor nas costas – antigamente eu não me contundia a cada jogo que jogava –, e me vi preocupado com o que fazer para o almoço. Eu voltava a 2008. 1995 ficava perdido em algum canto da minha memória, esperando ser iluminado por uma próxima bola de salão em uma quadra de cimento sob o sol de primavera.

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Daniel Gorte-Dalmoro é mais um raro pensador vivo, escreve crônicas - como essa, escrita em 28/09/08 - no Blog cOmportamento gEral, é um dos idealizadores e executores do projeto Casuística e já se atreveu a criar e manter o famigerado Trezenhum. Dentre tantas heresias, a maior é ser assíduo frequentador do Mistura Indigesta. Como recompensa por tal sacrifício, coloca também em seu currículo o fato de estreiar a nossa Coluna do Leitor. Se você quer participar, basta enviar seu texto (conto, crônica, crítica cultural, etc) para misturaindigesta@gmail.com

sábado, 29 de maio de 2010

Divulgando - Festival Internacional da Leitura de Campinas

. . Por Thiago Aoki, com 0 comentários


Acontece, a partir de hoje, o 2° Festival Internacional da Leitura de Campinas (FILC). Nós que, por vezes, criticamos a apatia cultural campineira, inadimissível por seu tamanho e estrutura, temos que reconhecer quão interessante se faz esta proposta. O evento, parecido até no nome com a FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty), ainda não possui tal dimensão, porém caminha, a passos largos para se tornar referência nos bastidores da literatura nacional.

Este ano, a programação conta com grandes nomes da literatura contemporânea. Só para citar alguns:

Thiago de Mello - Um dos principais poetas brasileiro do século XX, autor do magnífico "Estatutos do Homem", dedicado a Carlos Heitor Cony e escrito durante exílio no Chile, em 1964, onde teve Pablo Neruda como seu principal amigo. Talvez um pouco desconhecido por seu regionalismo, por sua raiz amazonense, que o tirou dos grandes centros cooptados pela indústria cultural brasileira.

Rubem Alves - Apesar de nascido em Minas, Rubem Alves é considerado o grande expoente campineiro na filosofia e educação. Sua fala, que este blogueiro teve oportunidade de ouvir algumas vezes, é um deleite, assim como suas crônicas e pensamentos. Seus temas prediletos são educação, tempo, envelhecimento, literatura, arte. Deu pra entender já né?

Gabriela Leite - Ex-prostituta, acabou se tornando socióloga pela USP. Talvez ali tenha percebido que sua antiga profissão não fosse assim tão imoral se comparada aos autos da academia. É fundadora da ONG Davida, que defende os direitos das prostitutas e idealizadora da Daspu, grife desenvolvida por garotas de programa.

Allan Sieber - Grande acerto em colocar os quadrinistas como parte integrante da produção literária . Dos contemporâneos, Sieber é um dos melhores e mais inovadores. Integrante do politicamente incorreto compartilhado por seu amigo André Dhamer, Sieber hoje escreve tiras para a Folha de são Paulo e possui o Blog "Allan Sieber Talk to Himself Show".

Vamos parar por aqui pra não ficar tão longa a postagem. Mas além de todos os convidados, o Festival terá como autora homenageada a grandiosa, imensa, Hilda Hilst. Por fim, diversos show e intervenções culturais ocorrerão durante as mesas e palestras. Para começar bem, a abertura oficial será hoje (29/05) à noite, com, nada mais nada menos que, Luiz Melodia e Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas, imperdível.

Os eventos ocorrerão em três pontos da cidade: SESC, Lago do Rosário e Estação Guanabara.

Para maiores e melhores informações, consultem o site oficial, com a programação completa.
Mas, independente de tudo, mexa-se.

domingo, 9 de maio de 2010

Esperança Equilibrista

. . Por Thiago Aoki, com 4 comentários

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo."


Inspirado por e-mail de um Indigesto amigo, percebi que quando penso em Fernando Pessoa, o que me vem a cabeça são esses versos, os primeiros da bela "Tabacaria", poema de Álvaro de Campos, mais um de seus múltiplos personagens. Então me pergunto: por que aquele mesmo poeta fingidor que nos inspira a passar além da dor e a não apequenarmos nossa alma, no poema "Mar Português", agora nos condena a não sermos nada? Pior, por que gostamos de ler coisa tão trágica ou grandiosa sobre nós mesmos? Em suma, a malvada esperança.

No final de "Memórias Póstumas de Brás Cubas", ao fazer um balanço de sua vida, o personagem-narrador diz que teve seus êxitos e fracassos, e que algum desatento poderia pensar que seu saldo, em vida, fora nulo. Porém, lembra-se de fato que lhe fazia o saldo positivo: "não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria". Um dos mais belos trechos de Machado de Assis.

Em "Morte e Vida Severina", nosso João Cabral de Melo Neto nos narra a história de Severino, um retirante como outro qualquer, que busca de trabalho e encontra a mais crua miséria. Numa dessas andanças, conhece José, mestre carpina, morador de um mocambo paupérrimo. Ao constatar tanta pobreza, fome e falta de perspectivas no local, Severino indaga:

"— Seu José, mestre carpina,
que diferença faria
se em vez de continuar
tomasse a melhor saída:
a de saltar, numa noite,
fora da ponte e da vida?"

Seu José não responde à pergunta pois uma mulher entra, interrompe e lhe anuncia o nascimento de novo filho, a mulher de José daria a luz, naquele momento. Eis que, no trecho final, após a criança já ter vindo ao mundo, saudada pelas pessoas do vilarejo, a resposta de seu José vem:

"— Severino retirante,
deixe agora que lhe diga:
eu não sei bem a resposta
da pergunta que fazia,
se não vale mais saltar
fora da ponte e da vida;
nem conheço essa resposta,
se quer mesmo que lhe diga;
é difícil defender,
só com palavras, a vida,
ainda mais quando ela é
esta que vê, severina;
mas se responder não pude
à pergunta que fazia,
ela, a vida, a respondeu
com sua presença viva.
E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
mesmo quando é uma explosão
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina."


Contrariamente ao Brás Cubas, seu José transmitiu a uma criatura o legado de nossa miséria. E esses versos, além de responderem ao Severino, servem também de contra-argumento a Brás Cubas. João Cabral explica, como diriam os filósofos do "Terra Samba", "como essa gente que sofre com fome e que passa mal / vai batucar na panela vazia e fazer carnaval". A esperança existente no povo brasileiro talvez seja o mais intrigante de nossos patrimônios simbólicos. É uma faca de dois gumes, cujo corte resultaria em duas metades opostas: frustração e conquista. Voltando a Pessoa, saber-se nada, mas viver com a coragem de se atravessar um mar bravo, ainda que se esteja fadado a nada conseguir. É missão do Severino que cada um tem em si atenuar o legado da miséria, sem saltar da ponte da vida. Miséria humana, miséria física, miséria moral.



Enfim, não caiam nesse "manifesto" da Coca-Cola - cá entre nós, esses caras do marketing são realmente bons.. Essa ideia de meio-cheio, meio-vazio é uma falsa polêmica que fica bonita ao som de Bob Dylan, mas não me engana. Tanto faz o otimismo ou pessimismo, ver a vida como copo cheio ou vazio, desde que não se ignore a profundidade do copo e o conteúdo do líquido, ou seja, até onde e como se pode chegar. Seria mais coerente que a popaganda incentivasse o público-alvo a se questionar sobre o líquido que preenche seu copo, sua vida, mas acho que isso os fariam perder alguns clientes. Melhor mesmo mesmo mantê-los conformados.

PS: Com o Corinthians eliminado na Libertadores, escrever sobre esperança foi uma terapia corinthiana, obrigado...

domingo, 4 de abril de 2010

Crônica nossa de cada dia nos dai hoje

. . Por Thiago Aoki, com 4 comentários

Toc Toc Toc. A traseira do lápis na madeira da mesa. Provavelmente, ambas vieram de árvores distintas. Quando, sem o auxílio do homem, essas duas madeiras teriam a capacidade de se encontrar? Nunca. O homem que o lápis segura martela-o a buscar ideia ou inspiração para próxima crônica. Passa o tempo, nada vem, muda a tática. Agora anda pelo corredor da casa, passa incomodado, cômodo a cômodo, como se ideias fossem objetos perdidos entre os móveis, esperando ser encontradas. Anda, cantarola, esperneia, rodopia, abre a geladeira. Volta. Senta na cama, e sem remoto controle liga a TV, espera que de algum modo Deus, ou o diretor da emissora, traga-lhe algo novo. Quem sabe uma tragédia, um novo espetáculo, o surgimento de um novo herói, algo que o valha. Nada disso, nem daquilo. Apenas uma entrevista com o político mais importante na hierarquia democrática do país. O presidente sabe dialogar como poucos, pela primeira vez pós-docs e analfabetos entendem o que sai da boca do engravatado barbudo que à TV aparece. Não serve, não vai elogiá-lo, muda o canal. Duas famílias brigam ao vivo, tem suspeita de traição no meio. A "máquina da verdade", que no fundo é um aparelho de frequencia cardíaca, vai ajudar a resolver o impasse. Deveriam testar em quem inventou esse programa, para ver se dentro do peito algo bate. Muda o canal. Um cantor assume sua homossexualidade para o mundo, bem quando os holofotes tentavam esquivar-se de sua imagem. Oportunismo? Não cabia ao homem responder a essa pergunta ou contribuir para falsas polêmicas. Muda o canal. Jogo do Palmeiras, nada mais desinspirador, melhor desligar antes que tal 0x0 concretize-se no formato de uma crônica ruim. Desliga a TV. Pensou em recorrer ao álcool, ler algum livro, lembrar de crônicas inspiradoras, contos curtos esquecidos, filmes que viu recentemente, grandes partidas do Corinthians, filósofos com frases facilmente-descontextualizáveis-de-origem-duvidosa, ditados populares. Nada. Estava frente à frente com a desitência e ao seu caminho seguiu, lentamente, flertando-a nos olhos, passo a passo. Eis que, a um milímetro do triste e resignado encontro, toca seu telefone. Alguns minutos de conversa e ele volta, acelerado, precisava escrever qualquer coisa. Lápis é lento. Liga o computador. Tec Tec Tec. Faria uma crítica à indústria do entretenimento, falaria sobre a necessidade de não ser complacente aos políticos, sobre a justa visibilidade da causa homossexual, mostraria como uma sociedade decadente muitas vezes não estimula as potencialidades individuas, como tudo aquela mer..mercadoria é desinspiradora, sobre como todo esse lixo cultural levou os poetas à extinção. Relacionaria tudo isso para culminar o texto demonstrando que não basta queixar-se niilisticamente dessas adversidades onipresentes. É necessário contraatacá-las, com pedras e poesias. Citaria Weber e o desencanto do mundo, passaria pelo pessimismo revolucionário dos primeiros modernistas, chegaria às lições, de inspiração antropofágica, deixadas pelos tropicalistas e terminaria por fim com uma frase impactante, embora descontextualizada de Schopenhauer (será que é dele mesmo?): "o destino embaralha as cartas, e nós jogamos com elas". Tudo isso do modo mais picareta do mundo, através de uma crônica cujo tema seria a dificuldade de se escrever uma crônica! Era o único modo de tratar tudo aquilo respeitando os limites de linha do editorial. Quem disse que o mundo é cronicamente inviável ? Seria acima de tudo uma crônica sobre as possibilidades humanas! Começaria com uma metáfora, precisava de uma metáfora, talvez um encontro entre madeiras de origens e processos diferentes! Assim foi e, como um raio, escreveu a bendita, coisa de 15 minutos, desfazendo-se de toda uma tarde gorda vivida à base de nhaca e cafeína. -Alguém há de ler, colocarei um título que chame a atenção, sou tão bom nisso que poderia ser o responsável pelos nomes das operações secretas da Polícia Federal! - sonhava após concluir sua missão. Dormiria satisfeito, ego robusto, inteligência socialmente validada - seus colegas-universitários-recém-formados adorariam! - e espírito apaziguado, ainda que em contradição com o rumo mundano. Quem ligou pra ele? Metro e meio de inspiração!

quarta-feira, 31 de março de 2010

Bola Pra Frente

. . Por Thiago Aoki, com 0 comentários

Sim, fiquei com o papel póstumo do Mistura. 2010 retira mais um de nós brasileiros, mais uma perda, mais um vazio. Depois de Glauco, morreu esta semana Armando Nogueira, cronista esportivo da mais alta qualidade. Neste caso, a lacuna a ser preenchida é ainda maior do que aquela provocada pela morte do cartunista. Afinal, no caso de Glauco temos duas gerações da mais alta qualidade para recompor o quadro, diferentemente do caso da crônica esportiva praticada por Armando. Isto porque o gênero, composto em sua maioria por jornalistas ou ex-jogadores, anda cada vez mais técnico, fazendo análises frias sobre os esquemas táticos e (des)organizações esportivas. Não que seja dispensável esse tipo de excerto, porém cronistas mais lúdicos e literários como Armando Nogueira, João Saldanha, Nelson Rodrigues, Mário Filho, estão em falta. A escassez de tal figura tão importante no imaginário esportivo é, de certo modo, também consequência de um futebol dito moderno, onde o "profissionalismo", "força física" e "tática" vêm tomando conta dos gramados.

Juca Kfouri faz muito bem a parte investigativa. Xico Sá, Torero e Mário Prata têm humor refinado. Nando Reis dá voz aos torcedores. Esquema tático é com o PVC. Ugo Giorgetti também conta causos. Mas, quem se aproxima da poesia de Armando Nogueira? Talvez Tostão, não sei. Ainda assim, poucos, na crônica esportiva, ainda são frasistas, ainda não foram corrompidos pela dicotomia polemicista-padronizado. Quem, de algum modo escreveria frases como:

"Se pelé não fosse homem seria bola"
"A tabelinha de Pelé e Tostão confirma a existência de Deus"
"Para Garrincha, a superfície de um lenço era um latifúndio"
"Os cartolas pecam por ação, omissão ou comissão"
"Tu, em campo, parecia tantos, e no entanto, que encanto! Eras um só, Milton Santos"
"A seleção brasileira jogou com a frieza e a indiferença dos apátridas" (sobre eliminação da copa de 2006)
"Deus castiga quem o craque fustiga"
"Se a bola soubesse o encanto que tem não, não passaria a vida rolando de pé em pé"

Nas áureas épocas em que assistia TV a cabo, acompanhava seu programa na TV, onde entrevistava e lia crônicas. Era sensacional. Depois, apenas pelo google tinha contato com os textos do cronista. E foi também pelo google que soube de sua morte. Na verdade, o último texto que li de Armando, foi quando ainda trabalhava na livraria contentando-me em ver, por juz, seu nome entre os eleitos pela coletênea "Os melhores da crônica brasileira", da José Olympio, de 1977. A crônica (que mais parecia um conto) chamava-se "Peladas" e coloco-a ao lado de outra de Nelson Rodrigues - sobre a invasão do Maracanã de 1976, escrita para "O Globo" - como as duas maiores, ou pelo menos mais marcantes que me lembro de ter lido.

Mais do que a morte de uma história, até então viva, do futebol, perdemos em poesia e fino trato com a pelota. O consolo é que estava velhinho, impossibilitado pelo câncer de fazer praticamente tudo.


Só mesmo por ele e por Garrincha pra alguém torcer pro Botafogo.


Bola pra frente, rumo ao gol.

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