VÍDEO: MURILO CAMPANHA CONTA ITATINGA

O psicanalista Murilo Campanha fala sobre Itatinga, um dos maiores bairros de prostituição da América Latina, onde ele tem seu consultório.

O nadador

Uma crônica de Hugo Ciavatta.

Ainda que as bolachas falassem

Crônica de Fábio Accardo sobre infância e imaginação

Ousemos tocar estrelas

Uma reflexão de Thiago Aoki.

Entre o amarelo e o vermelho

Uma crônica de Hugo Ciavatta

O homem cordial vinhedense

A classe média vai ao barbeiro. Uma crônica de Caio Moretto.

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sexta-feira, 1 de abril de 2011

Como dizia o Poeta...

. . Por Mistura Indigesta, com 3 comentários

"Que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem com balanças nem barômetros etc. Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós." (Manoel de Barros)

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Certo dia, alguém me disse que em uma de suas últimas palestras, já velhinho, o educador Paulo Freire foi perguntado qual seria seu próximo projeto. Após pensar um pouco, ele respondeu, sereno:

- “Será o mesmo projeto que tenho desde o primeiro, fazer de minha prática o mais próximo da coerência com o que eu acredito.”

Assim como todo diz-que-diz, nunca saberei se o episódio realmente aconteceu, mas pouco importa, não irei ao Google conferir. Pra mim, é tão belo, que virou verdade. Se, na “Pedagogia do Oprimido” temos a certeza de que escreveu: “não é no silêncio que os homens se fazem, mas na palavra, no trabalho, na ação-reflexão”, por que não sonhar com a situação da palestra? Poderia ser dele; é dele.

Foi usando o Google que me decepcionei com Einstein. Sempre ouvi que a frase “o único lugar que o sucesso vem antes do trabalho é o dicionário” fora dele. O maldito translator, tão útil em outras situações, desta vez estragou a graça quando descobri que, em alemão, o termo “trabalho” se escreve “Arbeit” e a palavra “sucesso” se escreve “Erfolg”. Por lá, nem no dicionário o sucesso vem antes do trabalho. Pouco provável ter partido da boca do cientista germânico. A frase deve ser brasileiro mesmo, sei lá, Eike Batista. Dane-se, decepcionei-me. Até perdi a vontade de trabalhar, culpa do Google.

Pior mesmo foi o que aconteceu com o poeta brasileiro Eduardo Alves, que escreveu, em um jornal estudantil dos anos 60 o belo poema “No Caminho com Maiakovski”, uma homenagem ao poeta russo. Roberto Freire escreveu o trecho abaixo em seu livro e, numa tremenda confusão, deu crédito ao russo, e não ao brasileiro.

"[...]
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem;
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.
[...]"

Dali pra frente, o poema, agora russo, espalhou-se feito vento. A confusão só foi desfeita quando, em um episódio de uma novela de Manoel Carlos, a chatíssima “Mulheres Apaixonadas”, Cristiana Torloni leu o poema e deu os créditos correto a Eduardo Alves. É, a Globo contribuindo com a cultura nacional. Mesmo assim, até hoje recebemos via e-mail com a assinatura de Maiakovski.

Mais e mais e mais exemplos de quase verdades, de quase autores, poderiam ser lembrados. O mundo da informação e das redes nos mostra que tudo pode ser desvendado, desmascarado. O sexo gravado no celular, a tecnologia que evitaria erros no futebol, flagras de paparazzo, sites de pesquisa com filtros finos, câmeras de alta definição, a quantificação. Todo sucesso é, agora, numerável. A verdade, somada aos medos, constroem o argumento maior do caminho enfadonho: humanidade, lá vamos nós! E não precisa ser Orwell ou Huxley para dizer isso, basta tentar ver um pouco além dos olhos.

Manoel de Barros, poeta daqueles que nem mil anos trarão algum parecido, dizia que “inventar aumenta o mundo” e defendia “tudo que não invento, é falso”. Em vez de proibir, procurar culpados ou donos, melhor o caminho dos poetas e das crianças. Estas, se perguntam e se exclamam ingênuas, sem saber que pecam. É preciso crescer mais devagarzinho.

(No fundo, tanto faz quem escreveu, quem disse, quem tem culpa...)

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