VÍDEO: MURILO CAMPANHA CONTA ITATINGA

O psicanalista Murilo Campanha fala sobre Itatinga, um dos maiores bairros de prostituição da América Latina, onde ele tem seu consultório.

O nadador

Uma crônica de Hugo Ciavatta.

Ainda que as bolachas falassem

Crônica de Fábio Accardo sobre infância e imaginação

Ousemos tocar estrelas

Uma reflexão de Thiago Aoki.

Entre o amarelo e o vermelho

Uma crônica de Hugo Ciavatta

O homem cordial vinhedense

A classe média vai ao barbeiro. Uma crônica de Caio Moretto.

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segunda-feira, 7 de março de 2016

Era Pavlov russo?

. . Por Thiago Aoki, com 0 comentários


- A vida é tão lógica como um gato: às vezes dá carinho porque quer comida; às vezes dá carinho mesmo sem querer comida; às vezes - muitas vezes, aliás - sequer dá carinho. Não vale a pena buscar coerência ou explicações.

- Pois é, e depois fica aqueles caras nos programas de televisão: “o gato é um felino caçador, por isso coloque a água longe da ração pra ele imaginar que está cumprindo um trajeto para o rio após a caça e blá blá blá”. E o gato nem aí pra nada disso, apenas puto de ter que andar da lavanderia até o corredor só pra tomar uma água...

- Dá vontade de pegar o cara que disse isso, convidar pra almoçar, colocar o prato com comida na mesa da sala e o copo de refrigerante no criado-mudo do quarto.

- Sim, e um cardápio bem apimentado de preferência... Mas o que isso tem a ver com a vida, tá dizendo que ela é fofinha, comilona, preguiçosa e dorme engraçada, tipo um gato?

- O que quis dizer é que na vida, quando você acha que encontrou um sentido prático, ela se comporta como um gato: danem-se os humanos, eu ajo como eu quero, não busque em mim nexos e linearidades.

- Nossa, que complicação, era mais fácil você dizer que a vida não tem lógica alguma, então.

- Ou que tentar entender racionalmente a vida seja tão improdutivo quanto tentar classificar como causa-efeito as ações de um bichano qualquer. Provavelmente Pavlov não teria sucesso se tivesse feito a experiência com um gato.

- Pavlov?

- Isso, aquele cientista russo que fez o cachorro salivar com um sino.

- Com um sino?

- É, ele fez o cachorro associar o sino com comida. Então quando o cão ouvia um sino ele começava a salivar.

- Por que diabos alguém faria isso com um cachorro? Coitado...

- Dizem que ele foi importante pra entender como nosso cérebro funciona, ou como nosso comportamento pode ser induzido de acordo com as situações.

- Ou manipulado... Dane-se, coitado do cachorro!

- É, dá dó... Pelo menos o Skinner fez com ratos.

- Fez o que?

- As experiências sobre o comportamento. Ele induzia os ratos a fazerem coisas como apertar uma barra pra ganhar comida.

- Coitado dos ratinhos!

- E depois ainda ele ficava reforçando o comportamento com estímulos ou então punindo para que eles deixassem de se comportar daquela maneira. Aquela coisa de reforço positivo, reforço negativo...

- Puta que pariu, que obsessão com isso...

- Com isso o que?

- Isso de querer controlar como todo mundo se comporta. Estimular, punir, reforçar...

- Mas olha que máximo, pensar que todos nossos atos são de alguma maneira induzidos por um monte de fatores inconscientes? Isso significa que nas pequenas coisas que fazemos podemos estar expondo um monte de coisas sobre nós mesmos que a gente mesmo não se dá conta. Acho isso incrível...

- Sim... Você, por exemplo... Ressaltou que o Pavlov era russo, mas não disse que o Skinner era americano...

- Que que tem?

- Oras, esses milhares de fatores inconscientes fizeram com que você dissesse que um era russo e omitisse que o outro era americano. Isso informa sobre você, sobre seus gostos, suas influências. Provavelmente você associa a Rússia a algo ruim, controladora, totalitária e considera os Estados Unidos o lugar da liberdade, dos direitos individuais...

- Ah, tá de brincadeira...

- É sério.. Esse seu, digamos... lapso... deve ter a ver com um monte de coisa: sua adoração por fast food, o modo como você odeia os filmes russos, seu vício por séries estadunidenses, sua paixão pelo Nirvana na adolescência, aquela professora que você odiava, Elvina Nikolaiev, você vive falando nela...

- Nossa, sério mesmo... Nunca ouvi tanta besteira... Sem falar que a dona Elvina - nem me lembre dela! - tinha descendência chechena, não russa...

- Mas na época da União Soviética era a mesma coisa... Mas enfim, fato é que você tem uma quedinha pelos ianques e um rancorzinho dos russos...

- Não diga besteira...

- Não sou eu que estou dizendo, é seu comportamento, as palavras que você escolheu... Os fatores inconscientes... Confessa, vai...

- Confessar o que? Nossa, sério mesmo que estou ainda dando corda pra essa sua teoria estúpida?!

- Não precisa negar, é normal ser imperialista. Tenho até amigos que são...

- Vai se ferrar! Aliás, como raios você sabe que o Skinner é americano se você nem o conhecia?!

- Não sabia, na verdade... Deduzi quando você ressaltou que o outro era russo... É o famoso pensamento binário... A gente tende a classificar o mundo em duas categorias: belo-feio, certo-errado, esquerda-direita, mulher-homem, ímpar-bar, russos-americanos... Logo...

- Logo?! Logo o que?! Ele podia ser afegão, dinamarquês, australiano, sírio, alemão...

- Mas o que ele é afinal?

- Americano, mas isso não quer dizer que...

- Rá! Não disse?! Logo, minha teoria estava certa.

- Logo nada! Logo o que você diz não tem lógica alguma!

- Tipo a vida?

- Tipo os gatos.

- Tipo os cientistas.

domingo, 21 de setembro de 2014

Conversa na Varanda

. . Por Thiago Aoki, com 0 comentários

Minha rotina? Vez ou outra acendo meu cachimbo, sentado aqui na varanda, olhando pro nada enquanto nada acontece. Que nem domingo de cidade do interior, sabe? Acendo o cachimbo, olho pro nada e a paz vem, ô se vem... Vem dançando miudinho, miudinho, me envolvendo todo e eu nem sei o que fazer com isso, fico aqui, encostado vendo nada acontecer, sem reação. Acho que porque os homens da minha idade nunca aprenderam, durante a vida, a serem conduzidos na dança. Mas quando acendo meu cachimbo, dou o primeiro trago, entregue à cadeira, penso como é bom ser conduzido, e como perdi tempo querendo estar sempre no comando. Você é novo, moço, experimenta parar e olhar pro nada de vez em quando, muitas coisas acontecem enquanto nada acontece, sabe?

Tenho não. Nem neto, nem neta... Também tenho não. Nem filho, nem filha... Tive já, mas é passado.  Se morreu ou me deixou? Faz alguma diferença, seu moço? Sei só que eu to aqui, e na minha varanda tem só duas cadeiras: uma pra mim e essa outra que você tá sentado, que é pra caso algum compadre venha tomar um café... Se me sinto sozinho? Olha, só posso dizer que fazia tempo que essa cadeira aí não sentia o peso de alguém.

Tome, pegue aqui seu café, bebida santa. Ah, tá doce, esqueci de avisar. Meu estômago já não aceita o café tão amargo, tem que ter um bocado de açúcar pra adoçar. Meu pai falava que estômago é igual coração, muita amargura e ele para de funcionar... Fica tranquilo, seu moço, os dois meus tão bem, só com o desgaste natural do tempo, mas no fundo eu sei que é que nem carro usado, depois que dá problema resolve mais não, você sabe bem...

Quando não tenho companhia? Sei não. Aí converso com meu radinho, coloco ele nessa cadeira que você tá e fico ouvindo enquanto olho pro nada. Às vezes fecho os olhos enquanto escuto, gosto de imaginar a beleza de quem tá falando no rádio, se é moça bonita, se é rapaz bem aparentado. Sabe, meu radinho tem um chiadinho, mas eu gosto, me lembra um monte de coisa boa, sabe? Aquela época que tinha mais porteira que sinaleiro, a gente ouvia cada moda linda, cada saudade em forma de acorde. Eu gosto de ouvir as modas, eu achei uma rádio aqui que sempre toca umas modas bonitas. Fora essa, tem uma outra que só passa notícia. Mas esa eu ouço só às vezes, vou falar a verdade pra você, cada desgraça que não dá nem pra imaginar. Só por Deus, se bem que com tanta coisa ruim que acontece, às vezes dá pra achar que o Diabo tá no comando. Deus me livre, vira essa boca pra lá.

Quando ouço umas desgraças sem tamanho, fico com raiva, coço tão forte a palma da minha mão que ela fica toda avermelhada. Eu queria era saber qual foi o bicho que mordeu o homem. Deve de ter sido um bem venenoso, desses que quando ferroa não tem volta, ou vai ver que alguma onça com doença contagiosa abocanhou o primeiro que passou, espalhou essas pragas pelo mundo e agora tá assim, cheio de desgraça por aí... To calmo moço, to calmo. Mas bom mesmo era quando tinha novela no rádio.

Se bem que às vezes tem umas conversas que eu gosto nessa rádio de notícias que falei pra você. Outro dia mesmo tinha um doutor falando, agora não sei direito se era médico ou algum letrado. Só sei que era inteligente e disse uma coisa tão interessante que eu até guardei. Ele disse que achava muito engraçado o ser humano dizer que o avesso da "morte" é "vida", porque se fosse pra ser certo, o avesso da "morte" era pra ser "nascimento". E não é que faz sentido mesmo? Quando alguém nasce a gente enche a cara de sorriso e nem pensa que aquilo é o avesso da morte não é mesmo? Só de ter pegado um nenezinho no colo, eu já vi até coronel abrir sorriso sem saber o porquê. Essa mentira que a gente conta de dizer que a vida é o avesso da morte deve ser pra não lembrar que na verdade é o contrário: vida é o caminho que a gente faz pra chegar até ela. Seja eu aqui com meu cachimbo, olhando pro nada, dançando com a paz. Ou o moço aí, todo de branco fazendo esse tanto de pergunta. Mais café?

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

A funcionária da biblioteca

. . Por Unknown, com 1 commentário


Tudo começou na saída do restaurante do clube. Quando já estava lá fora, na fila do cafézinho, me dei conta de que o prato estava nas minhas mãos, em vez de abandonado cinquenta metros atrás. Depois foi pegando a comida, já passado o feijão e a salada, percebi que precisava de um prato se eu quisesse mesmo carne e arroz. Ao redor, as pessoas riam. Bullying. Três vezes sentei diante do prato e me perguntava o que estava faltando, mas não encontrava uma resposta até que talheres se mostravam ausentes. Foi, foi e então, num belo - talvez nem tanto - dia, estranhamente, eu tinha dois garfos nas mãos para comer. Demorou, porém, entendi que não é bom comer pão de queijo antes das refeições, me deixa atrapalhado.

Não sabia se era progresso, repassando os acontecimentos na minha cabeça, se um avanço em relação a tantos anos de dedicação e correspondente alheamento, ou o fim, outra vez o fim. A primeira vez foi quando cheguei na biblioteca de tantos anos para mim e a funcionária, que atende por Aline, me recebeu visivelmente consternada, dizendo que tinham acabado as chaves dos armários para guardar a bolsa. Isso faz tempo. Não tive dúvidas, foi pura impulsividade, lhe perguntei abruptamente se ela não havia guardado uma chave só para mim. Ela ficou ruborizada. Triunfei. A estagiária ao lado dela, talvez por inveja - quero acreditar -, enquanto estendia a mão com uma chave restante, me olhou ¬¬. Não me abati, me mantive firme quanto às minhas intenções. Mesmo ruborizada, Aline me dizia não entender como poderiam ter acabado as chaves, que ainda era cedo demais, e que somente algum evento nos andares do prédio poderia ter provocado aquilo. Não contente com a primeira infâmia, que lástima, prossegui dizendo que depois de tanto tempo eu merecia uma chave cativa, como que em honra à minha presença diária. Foi demais, Aline me olhou como se contempla um pé de alface. Que fracasso, eu, que já escolhia as palavras para me declarar, então só queria um pão de queijo pra me consolar.

A biblioteca do clube era meu lugar preferido. No mundo mágico do clube, a biblioteca era a minha segunda casa. Juro, não estou me gabando: me tornei um mané por isso. Em todos esses anos, me lembro de uma funcionária lendária, a Luscínia, todo mundo morria de medo dela, sério, e eu também. Ela tomava muitos remédios, antidepressivos, não sei, e durante a noite, quando era o turno dela lá, era comum encontrá-la andando vagarosamente pelos corredores, arrastando as sandálias, empurrando os carrinhos abarrotados de livros. Luscínia usava calças largas que depois até viraram moda, calças que parecem aquelas de palhaço: hippie chique. Ela dizia um "oi" demorado, como quem se esforça muito pra levantar a língua, tinha uma voz tremida, era muito alta, quase do tamanho das estantes. As calças largas faziam dela uma imagem por demais caricata, enorme, fina, comprida e com a cintura e as pernas aparentemente largas. Havia um descompasso em Luscínia. Quantas vezes ela não me parava pra conversar, eu ali engolindo seco, respirando fundo pra não fazer xixi nas calças e ela no maior papo?! Quantas vezes eu não esperei a chuva passar debaixo da entrada coberta, ali na frente da biblioteca, enquanto Luscínia fumava um cigarro ofensivo de tão ruim?! Ela, olha só, inclusive emprestou um livro pra mim uma vez, mesmo eu estando suspenso depois de um atraso. Luscínia fez isso no nome dela, na carteirinha de funcionária. Mas ela virou lenda, desapareceu quando fiquei desempregado e parei de frequentar o clube. Dizem que ela, depois de afastada, se aposentou. Não sei mesmo.

Aline sempre ficou na recepção durante o dia e, nossa, como essa criatura me odiou. Nunca olhou na minha cara a tratante, nunca respondeu a nenhum dos meus milhares de "bom dia" e "boa tarde". Aline é uma nanica, não deve ter um metro e meio de altura, ridícula. Ela nunca usou crachá, então só descobri que o nome dela era Aline depois de muito tempo, daí fui ousado, passei a nomear o bom dia, era "oi, Aline, bom dia", e nada. Eu era rejeitado, oh, desprezado, oh, ignorado, oh, esquecido, oh, mas tudo isso me fez insistir. Eu brincava, às vezes, para outras pessoas me referia a ela como a funcionária que levava um dragão sobre os ombros, desfilando ódio e labaredas ao redor. Passei 47 anos, 8 meses e 19 dias tentando arrancar, na força bruta, um sorriso da Aline. Claro, nunca obtive sucesso. Ela, obviamente, me perseguia, o ódio dela era tamanho que, uma vez, eu já estava indo embora do clube, eu já tinha recebido aviso prévio na firma e emprestava um último livro na biblioteca antes de perder o vínculo: Aline me pediu, além da carteirinha, o R.G.!! Eu gargalhava, repetia, "não é possível, você só pode tá me zuando, cara, você me vê aqui há anos, toda semana, e vem me pedir o R.G. pra te provar que eu sou eu mesmo?! Ah, não é possível!!" Gente, como fiquei indignado aquele dia. Aline sempre me odiou. Acho que, naquele instante, se ela tivesse uma faca, ou uma tesoura que fosse nas mãos, ela tinha dado cabo à minha vida.

Duro é que sou muito bom, sou um dos melhores quando o assunto é tática e estratégia: pra provocar ciúmes na Aline, comecei a puxar conversa com outra funcionária, Sílvia, que também faz o turno durante o dia. Sílvia ficou minha amiga e sempre retornava assunto, trocava figurinha sobre amenidades, coisas sobre o tempo, se vai chover, sobre o fim de semana, sobre qualquer coisa que costure uns segundos de nosso dia. Ah, isso deve ter despertado a fúria, a voracidade, o ciúme, a inveja incontrolável na Aline. Porque eu quase me estatelei no chão quando, me vendo cruzar os corredores da biblioteca, Aline virou-se pra mim e disse "oi, Hugo, tudo bem?". Fiquei assustadíssimo aquele dia, durante a noite, inclusive, nem mesmo cochilar eu consegui, eu ficava reproduzindo a imagem da Aline se dirigindo a mim "Oi, Hugo, tudo bem?" - ela sabia o meu nome!

Ah, uma vez tive um pequeno sucesso. Versado também na arte de reclamar, passei a entrada da biblioteca praguejando contra a espécie de ser que deixara aquele ar condicionado efusivamente ligado. Lá fora já fazia muito frio, oras, para que raios o ar condicionado deveria estar ligado?! Aline estava sozinha no balcão: era a minha chance! Tentando ser eu mesmo sem ser eu mesmo, mesmo, fui de papinho: "Ui, tá frio aqui, né?!"; "Ai, não sei o que acontece, ligamos e desligamos o dia todo porque esfria demais, não conseguimos regular..."; "Ainda mais hoje com essa chuva pela manhã, né? Fica difícil com esse frio..."; "Difícil, o quê? Por que fica difícil?" - surpresa; "Ah, e a preguiça que dá, né?!"; "Ai, Hugo - ela sabia meu nome mesmo! - você não tem jeito de preguiçoso!" - toma essa mundo!; e eu, que não tenho dignidade, insisti: "Ah, o que é isso?! Se tem uma coisa que eu entendo bem é de preguiça, viu!". Enquanto Aline sorria, eu triunfava. Para um pão de queijo eu ia convidá-la quando, tadan, de repente, não mais que de repente, Sílvia chegou cortando o assunto, a conversa toda, o clima, me deixando sozinho, no vazio, levando Aline para uma conversa burocrática que fosse. Ah, conspiração, ah.

É tanto azar, que acho que perdi Aline de vez ontem. Foi demais pra mim, quatro policiais estavam entrando na biblioteca quando eu voltava ao armário para buscar meu giz de cera esquecido na mochila. Só percebi minha reação quando Aline jogou um copinho d'água no meu rosto, eu havia paralisado de medo. Mas não podia, eu tinha que impressioná-la, oras, quatro policiais na biblioteca, então me aproximei para saber o que se passava. Nenhum deles queria emprestar ou devolver um livro, uma pena, e um deles se dirigiu à Sílvia no balcão. Ele tinha um papel nas mãos e, enquanto se aproximava, ergueu e dispôs o papel sobre o balcão com a autoridade que ele e alguns outros mundo afora acreditam que tem, no tom cerimonioso de um coxinha típico:

- Estamos à procura d'o Café. Por gentileza, onde se encontra o Café?
- O Café, pois, onde está o Café, quero saber onde é que está meu amigo Rafael, o que fizeram com ele?! – me aproximei também do balcão enrolando meu bigode, a maneira Dalí.
- Temos esta ordem para cumprir – apontava para o papel – e precisamos d'o Café, aqui também diz que o Café está na biblioteca – transmitindo serenidade.
- É, traga o Café aqui imediatamente, rã! – exaltado, eu só queria impressionar Aline, que, do outro lado, via tudo aquilo com desdém.
- O senhor queira se conter, por favor, deixe que fazemos o nosso trabalho – insípido.


Eu, que deixei de ser bobo faz muito, fiz pose e aguardei do lado, em silêncio. Por fim, o Café tinha açúcar, era branco e não atendia por Rafael. Não me interessei mais, dei de ombros e voltei para o meu canto. Munido do meu giz de cera, ainda tentei puxar assunto com Aline sobre café sem açúcar. Ela não entendia com eu saíra do terror imobilizado para o Clint Eastwood dos trópicos tentando interagir com os policiais, o olhar dela nesse momento eu gostaria de esquecer. Acho que a perdi para sempre. Definitivamente, nem em pequenas doses, pão de queijo nunca mais.




quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Memórias De Tempos Que Nunca Vieram - FINAL

. . Por Fábio Accardo, com 0 comentários


(final)

(ler antes parte primeira e segunda)



Da mesma forma que nós mais velhos, as crianças e os jovens começaram a frequentar os estabelecimentos de aprendizagem, onde passariam uma parte da vida aprendendo o novo modo de ser. Adaptação. Aprendiam as duas coisas mais importantes do novo padrão: a não existência da propriedade privada e a prevalência do interesse coletivo sobre o individual. Eu entendia que tudo deveria se assim para não haver disputas sobre tudo e todos. Concordava. Adorava. Porém, nem tudo seriam flores. O aprendizado deveria ser estendido à todos, pois sem isso nenhuma igualdade se sustentaria e poucos se tornariam privilegiados. E não só o aprendizado social foi preciso para garantir a comunidade em equilíbrio. Teríamos que nos organizar para coordenar a vida em comunidade. Assim, fomos submetidos a participar ativamente da organização da comunidade. Tínhamos que opinar, escolher e fazer as coisas acontecerem. Pude me sentir, assim, parte de um todo.



Mas talvez a mudança mais drástica aconteceu na produção alimentícia. Qualquer tipo antigo de produção foi abolido. E mesmo o caráter dos alimentos se modificou. Não mais teríamos que engolir as velhas cápsulas de alimentos. Os alimentos eram naturais. E o trabalho deveria ser privilégio de todos, assim como a riqueza dele produzida. Com todos trabalhando, a produção seria maior e sobraria um maior tempo para todos. Tempo utilizado para outras faculdades do prazer e da felicidade. Eu também trabalhava. Como todos. Sentia-me útil para o todo. Até quando foi preciso.



A mudança na produção foi seguida por outras. Eu constituíra uma ordem familiar. Morava com minha mulher e meus filhos numa casa. Contudo, todas as casas eram iguais e nossas roupas também. Não fazia muita diferença. Existiam até casais que eram iguais! Resultado dos velhos tempos. E os velhos tempos chegaram. Não aqueles dos anos passados. Mas as pessoas começaram a avançar suas idades. Não eram mais descartados numa certa idade. E, talvez, por tudo isso foram precisos centros de saúde. Cuidavam dos velhos e dos doentes. Sim. Existiam doentes e as pessoas se propunham a cuidar deles.



E os anos se sucederam um a um. A sociedade estava equilibrada. Tinha conseguido sua estabilidade. Todos pareciam iguais. Mas algo não estava certo. Sentíamos algo ruim. A felicidade era tanta que esses sentimentos não nos aborrecia. Eu era feliz e também não pude fazer nada.



Hoje não me lembro como tudo começara. Passados 53 anos desde a guerra contra os de cima, vivo hoje aqui, observando mais um ciclo de mudança. O novo desenvolvimento da tecnologia é ainda mais ameaçador. Mais violento. Mais rápido. Sem barreiras. Sem tempo. O nosso equilíbrio social fora desmanchado. Não conseguiram deter esse novo desenvolvimento. A racionalidade permanecera intrínseca. Não se modificou. E agora não se sabia para onde tudo iria. Voltaríamos para a velha clivagem? Ou algo seria diferente? Será que esses anos vividos no novo padrão faria as pessoas pensarem diferente? Ou a vida era simplesmente um ciclo: uma vez como tragédia e outra como farsa? E depois tudo de novo? Estou velho e não sei bem o que pensar. Preciso ir.


quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Memórias De Tempos Que Nunca Vieram - Parte Segunda

. . Por Fábio Accardo, com 0 comentários


(parte segunda)
(ler antes a parte primeira aqui)


O tempo era esse. As notícias circulavam. Vivíamos um tempo de repentina paz entre as tribos. Todos pareciam estar cooperar. Ajudavam-se. Eu não entendia muita coisa, mas colaborava com tudo aquilo. Eu ainda achava que alguma coisa deveria ser feita. E assim foi. Não demorou muito a acontecer e a guerra dos de cima conta os de baixo começara, sem prévio término.

Claramente éramos inferiores à eles, materialmente, tecnologicamente, e em número. Eles tinham seus clones. Nós, somente nós. Mas tínhamos uma vantagem: conhecíamos nosso território; eles nunca ouviram falar de nós. Além de tudo, conhecíamos, de certa forma, seu sistema e seus cidadãos. Nós éramos imprevisíveis. Guerrilhávamos juntos. Unidos. Apesar de tudo, eu só torcia para não morrer, não ser eliminado. Não entendia como podia chegar ao fim tudo aquilo depois de começado. Eu tinha lido pouco. Não conhecia tudo. Mas tinha esperanças que o fim ia chegar. Sentíamos. Tempos mais breves estavam por vir.

A guerra continuou por tempos a fio. A chuva e a escuridão tornaram-se mais abundantes. Tórridas. O ritmo da guerra me afligia. Não parava. Era como o mundo deles, o tempo não parava. Contudo, sentíamos algo diferente. E tudo aconteceu muito rápido. Num dia a chuva parou. Noutro o céu clareou. Pela primeira vez eu via o fim daquelas enormes pilastras de concreto e ferro. Eram verdadeiramente os de cima. Aquela visão me maravilhou. Nunca vira tamanha luminosidade. Como nos livros: um círculo luminoso que nos aquecia. Aquela visão me apeteceu e me cegou. Dos minutos seguintes à tudo aquilo só me lembro do som dos últimos tiros vindos de cima e o grito caloroso dos de baixo.

Mas nada muda assim tão de repente. As transformações demoram realmente para tomar efeito. A população de cima enfim desceu. Um primeiro contato. Estranhamento. Porém, tudo lentamente foi se encaixando. A produção de cima cessara. Os estoques de cápsulas de alimentação dera para o tempo necessário. Os cidadãos de cima podiam se sentir livres. Não sabiam o que era isso. Estavam perdidos. Algumas decisões foram tomadas.

O mundo habitado tinha acabado por se restringir à essas cidades altamente verticalizadas, contudo, também com alta densidade populacional. Existiam poucas delas no mapa. Os citadinos que não se adaptaram passaram a viver sob essas cidades, no chão. Éramos nós. Foi assim que houve a divisão entre os de cima e os de baixo. Isso pelo menos para nós. As novas gerações que se sucederam no mundo de lá nem mais sabiam da nossa existência. E todo o mundo habitado se restringiu à essas poucas cidades. O resto do mundo ficou sem utilização. Eu não conhecia o resto do mundo, somente encontrava relatos nos livros caídos. Agora o que se via era uma migração de toda a população para essas áreas desabitadas.

As multidões foram divididas em grupos de milhares de homens, organizados em comunidades que se auto-governavam. Esses grupos saíram em romaria à procura desses antigos espaços desabitados. Cidades degradadas onde poderiam recomeçar um novo modo de vida. A ideia era modificar tanto o modo de vida deles, como o nosso. Eu estava muito animado com tudo isso. Tempos bons sempre vem. Nunca demoram a passar.

A adaptação, naquele tempo, não foi fácil. As cidades, primeiro tiveram de sofrer reformas: sanitárias, habitacionais, nas vias de acesso. Todos ajudavam. Para mim a vida tinha recomeçado. Os dias se passavam e os mais velhos tinham palestras sobre o novo. Aprendíamos que depois de tudo reformado todos seríamos iguais, uns aos outros. O engraçado é que existiam alguns que eram mesmo iguais, no sentido literal. Nos divertíamos. Mas o sentido era outro. As diferenças de castas sumiriam. A clivagem inicial desaparecia. Não existiria os de baixo e os de cima. Formávamos uma coisa só. Aprendíamos que tudo aquilo fora causado a partir de uma coisa chamada propriedade privada. Um conceito que me lembro ter lido alguma vezes, mas certamente não compreendia bem. Diziam ser ela a essência das mazelas do homem. Produzia a desigualdades entre todos.

(continua)

sábado, 15 de dezembro de 2012

Memórias de Tempos Que Nunca Vieram - parte primeira

. . Por Fábio Accardo, com 1 commentário




(parte primeira)

“Hegel observa em uma de suas obras 
que todos os fatos e personagens de grande importância
na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes.
E esquece-se de acrescentar: a primeira como tragédia,
a segunda como farsa”.
[Karl Marx. 18 Brumário de Luís Bonaparte.]


Era tempo de mudanças e todos pressentiam isso. Talvez porque as notícias não paravam de circular. Ou boatos, não sei. Mas pressentíamos. A vida escura estava prestes a clarear. Não que eu tivesse muitas reclamações a fazer. Na verdade não as tinha. Fui um dos poucos que conseguiu sobreviver por muito tempo por ali. E talvez esse seja o motivo de eu não reclamar mais. Porém, solidarizava com os mais jovens. Corajosos, dispostos à tudo. Bastava um passo fora e começavam as guerras. Eram tempos difíceis aqueles.

A vida era cinza. Tudo era cinza para nós. Acima de nós era cinza, e ainda por cima caiam coisas daquele lugar. Ficávamos sempre alerta. Muitos morriam esmagados. Nunca tive muita certeza, mas diziam que lá para cima é que a vida fervilhava. O tempo não parava. As pessoas não paravam. O mundo não parava naquele lugar. Lembro que apenas informações marginais chegavam a nós, e não sabíamos de onde vinham. Mas eram tão impossíveis as histórias de lá que até pareciam verdade. Eram? Pareciam? Imagino que sim.

Diziam que os homens eram fabricados em laboratório e produzidos por máquinas. Todos iguais. Iguaizinhos. Eu não podia acreditar. E o que era pior, ninguém mantinha relações com ninguém. No máximo formais e somente no limite de cada casta. Imagine você: ser criado em laboratório, condicionado por máquinas, limitado à sua casta e sem relações pessoais. Que merda de vida! Não que a nossa aqui embaixo fosse muito melhor, mas ainda a preferia. Não tínhamos quem nos mandasse nada. A lei do mais forte prevalecia, mas sozinho não se ia a lugar algum. Tribos, guerrilhas suburbanas, tudo em meio ao caos dos miseráveis.

Lá tudo era asseado. Limpo. Não se conhecia sujeira e notícias nossa, da nossa gente, não chegavam por lá. Quem apenas nos conhecia eram os praticantes da lei. Eram eles que nos atiravam sem perguntar, reprimiam por reprimir. Faziam isso por não terem mais o que fazer por lá. Seus serviços não eram mais necessários. Ficavam ociosos. Nos reprimiam para continuarmos com medo. Vivíamos desse modo: sob o domínio do medo. Mas lembro que eles tinham alguma outra função. Ah! Sim! Queimavam livros. Houve épocas onde chovia fogo por aqui, juntamente com nosso perene garoa diária. Eram livros que caiam do alto e por passarem pela chuva alguns chegavam quase inteiros. Tudo que nos era relegado conseguíamos dessa forma: do céu. E os livros foram sempre bem vindos. Faziam-nos sonhar, questionar, pensar. Mundos impossíveis, nova realidade, mudança. E só podíamos isso, pois éramos, de certa forma, livres para pensar.

O condicionamento humano a que eram submetidos todos de lá, tornava-os reclusos a suas tarefas diárias e nada mais. O condicionamento levava as pessoas a serem felizes no que eram delimitados a fazer, sem a menor possibilidade de pensar sobre isso. Questionar. Bem, isso era impossível, pois não tinham conhecimento sobre outra forma de vida. Suas formas de interação social – na verdade midiática – só serviam para reforçar sua consciência de casta. Ainda existiam os tais comprimidos amarelos, serviam para os momentos mais sombrios da mente e os deixavam mais normais.

Por menos que eu conhecesse tudo isso, não me animava a ideias desse controle das pessoas. Contudo, já estava passando da idade e me acostumava com tal fato. Mas éramos poucos nessa situação. Os jovens, leitores assíduos dos livros reles queimados, começaram a se questionar sobre toda a situação: a vida que levávamos, a condição de vida dos de cima, e essa divisão entre eles e nós, os de cima e os de baixo. Acharam que nada estava certo. Alguma coisa devia mudar.


(continua)

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

a moto dos recados

. . Por Unknown, com 1 commentário




- Bem, não esquece de trazer o remédio, passa no postinho antes do almoço, senão à tarde fico sem meu remédio, tá? - disse a senhora.
- ah, tá bom, Bem, vou deixar um recado, uma anotação na moto pra lembrar – em um pedaço de papel, entre o guidão e o tanque, escreveu “buscar remédio” e pregou com um adesivo entre os outros 179 lembretes que já levava na moto.

antes de chegar para o almoço, então, o Bem passou no postinho, pegou o remédio e estava indo pra casa com a moto, um modelo barulhento e azul, antiquíssimo. numa avenida já próximo de casa, contudo, ele percebeu o trânsito lento e, assim, dirigiu-se para o acostamento. entre os veículos que ultrapassou, havia uma viatura da polícia. de todo modo, não obteve muito sucesso com o desvio, porque alguns metros depois nem a moto passava pelo engarrafamento. mas Bem não quis ficar parado e, ao dar a volta pelo quarteirão, refazendo o desvio, reencontrou a mesma viatura, tendo que a ultrapassar novamente. dessa vez, inclusive, ao realizar a manobra, precisou cruzar a frente do veículo e fez sinal com a mão, já que as lanternas com a seta não funcionavam. a sirene soou e, cauteloso, Bem não arriscou, olhou serenamente, percebeu o gesto do policial e parou a moto em seguida. a viatura também estacionou. o trânsito seguia parado lá adiante, indiferente, enquanto o policial se aproximou do Bem dizendo:


- olá. documentos, por favor, do veículo e do senhor.

- oi. ah, aqui estão, seu guarda.


(enquanto o guarda averiguava os papéis, Bem interrompeu, entre o cinismo, a sonsice e o fofismo)

- ô, seu guarda, o que foi que eu fiz?

(silêncio)


- primeiro fez uma ultrapassagem pela direita, depois deu sinal de conversão com a mão.

- ô, seu guarda, mas não é proibido fazer sinal com a mão agora, é? não pode mais agora, é?

- o senhor não tem lanterna, não?

- ah, ter eu tenho, mas não funciona... e mesmo que eu tivesse, seu guarda, eles – eles, eles, sempre eles – não me respeitam! - com algum ímpeto.

(silêncio)


- ter e não funcionar: o senhor não tem lanterna: os documentos ficam comigo: queira, por favor, me acompanhar até o distrito, sua moto está apreendida.
- ô, seu guarda, eu te acompanho, sim, não tem problema, mas aqui ó – apontava a sacolinha presa ao guidão –, preciso levar esse remédio pra minha mulher. acabei de pegar ali no postinho, sabe, isso não pode ficar fora da geladeira. e olha esse sol, rapaz. vou levar os remédios e depois vou lá no distrito, tudo bem?

(silêncio – o guarda foi até a viatura com os documentos, mas retornou rapidamente)

- vi o recado anotado aí – apontou com o dedo para o papel preso no tanque da moto com um adesivo – “buscar remédio”, é.... olha só, o senhor tá liberado hoje, estão aqui os documentos, mas conserte as lanternas e não me faça mais ultrapassagens pela direita.

dois meses e meio depois disso, o pedaço de papel com “buscar remédio” continuava preso sobre o tanque da moto. afinal, vai quê, né.



quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

o homem que nunca viu um filme até o fim

. . Por Unknown, com 1 commentário




O homem sempre dorme, sempre, por isso jamais conseguiu ver um filme até o fim. Desde criança, ele dorme em qualquer lugar, basta estar parado. De pé ou sentado, não importa, ele cochila, entra em sono profundo e até sonha. Seu apelido desde pirralho, inclusive, é soneca, uma referência ao anão da Branca de Neve, obviamente.  Ele cresceu, mas nada mudou. Não foi diferente, portanto, quando decidiu ser cinéfilo. Alguns minutos diante de uma película e ele já estava entregue à sonolência, não demorava e, ploft, ele dormia. Muitas e muitas vezes foi ao cinema, mas percebeu logo, ainda jovenzinho, que gastava dinheiro à toa. Assim, oras, não tinha cabimento, ele desistiu de ser cinéfilo.


Parte de sua família padece da mesma moléstia, é verdade. Suspeita-se de que o avô materno do homem que nunca viu um filme até o fim seja o pivô de tal pertubação. Dos seis filhos do velhinho, apenas a mãe do homem que nunca viu um filme até o fim terminou acometida pela mesma desventura. 


Almoçar com a mãe aos domingos se tornou, após tantos anos, não apenas mera formalidade, ritual enfadonho e desprovido de sentido para a família do homem que nunca viu um filme até o fim. É um verdadeiro evento social, uma festa praticamente. Todos, familiares, vizinhos, amigos se revezam à mesa com o passar dos meses, aos domingos, para assistir à mulher, hoje uma jovem senhora. Ainda com o garfo e a faca nas mãos, sobre o prato, ela simplesmente viaja atrás de suas próprias pálpebras, em silêncio, por alguns minutos, para em seguida assustar-se consigo mesma e voltar a comer. Que alegria é a cena, especialmente para a juventude, os pequeninos netos.


A felicidade só não é compartilhada pelo velho, o epicentro da moléstia na família, avô do homem que jamais viu um filme até o fim. Um dos filhos diz, em resposta ao silêncio e amargor senil, que em razão de cochilar muitas vezes durante o dia, repetidamente, ao longo de tantos anos, o velho não conseguiu seu grande objetivo de vida: ele não enriqueceu. Enquanto parava dormindo, ficou para trás diante de seus contemporâneos competidores que lutaram para açambarcar moedinhas pelo mundo.


O homem que nunca viu um filme até o fim, contudo, tenta manter o bom humor, afinal, não lhe resta muito. Ele nunca teve muitos amigos, mesmo porque não consegue manter uma conversa aprofundada com ninguém. O simples silêncio, a espera para ouvir alguém já lhe adormece facilmente. Ninguém o suporta, acreditam ser falta de edução, uma verdadeira ofensa. Os tempos são modernos, ninguém também tem tempo para esperar, ver o que está acontecendo, há pressa, as moedinhas estão aí pelo mundo. A única pessoa que parou foi uma mulher, uma vez, em uma viagem ao povoado vizinho. Vejam só, ela tornou-se a esposa do homem que nunca viu um filme até o fim. Que criatura compreensiva, diziam alguns. Para outros, ela não passa de uma tonta apaixonada - perdõe a redundância, leitor apressado -, pois cada vez que o homem que nunca viu um filme até o fim cochila diante de palavras demoradas da mulher, voilà, é evidente o sorriso de amor que se desenha no rosto dela. 


O primogênito do casal, pobrezinho, tudo indica que herdou a enfermidade do pai. Não fosse a curva na estrada que faz o ônibus do povoado à cidade, onde está o colégio mais próximo, o menino não chegaria às aulas, não teria se alfabetizado. Recentemente, ele também virou motivo de comentários rasteiros entre os colegas, foi no fim do ano passado, quando visitou o sítio da família de uma amiguinha próximo à represa da região. Numa tarde quente, já feita a sesta depois do almoço, ele disse a todos que ia à represa se refrescar. O tempo, como é de costume, foi passando, o sol então já havia se posto, fazia horas e todos estavam preocupadíssimos com a ausência do menino. Mas finalmente ele apareceu sorrindo de timidez: havia dormido dentro d'água, sentado num barranco. O barulho de uma capivara no mato, suspeita ele, fizera-o despertar assustado na escuridão, perdido. Desde aquele dia, familiares e amigos se mantém próximo do menino, evitam deixá-lo só em qualquer lugar ermo. É preciso cuidado, é uma suspeita muito forte a de que ele tenha herdado a enfermidade do pai, do homem que nunca viu um filme até o fim.


Todos na família, vítimas ou não da moléstia, já sabem, mais do que qualquer outra pessoa neste mundo, um dia podem não acordar de um cochilo. É por isso que todos guardam respeito aos mais velhos, como ao avô e à mãe do homem que nunca viu um filme até o fim.


O homem que nunca viu um filme até o fim, todavia, está disposto a vencer seu problema. Há alguns anos tem juntado moedinhas entusiasmadamente. Ele quer comprar uma esteira ou uma bicicleta ergométrica, ainda não se decidiu, mas não é para se exercitar. Para isso, claro, ele tem muita preguiça. O plano do homem que nunca viu um filme até o fim é treinar para alugar um DVD, um filme de 2h é a sua meta. Ele já tentou, algumas vezes, ver um filme em casa, sozinho, sem a mulher ou os filhos. Sempre sem que ninguém o veja, já que sente muita vergonha de tal moléstia. Nunca deu certo. Mesmo embebido em café arábico, energético importado que seja, depois dos primeiros minutos, se o filme for de aventura ou de ação, um terror, sequer o clímax às vezes é capaz de despertá-lo, uma lástima. Já tentou, inclusive, assistir a um filme de pé, mas acordou com o abraço da esposa, que lhe pedia para não se importar mais com isso. Persistente, ele cultiva a expectativa de que desenvolva resistência física o suficiente para caminhar, correr ou mesmo pedalar durante as duas horas de um filme e, assim, finalmente ver uma película até o final.


Suerte, pois, ao homem que nunca viu um filme até o fim.



domingo, 11 de novembro de 2012

a moçoila e o pentelho

. . Por Unknown, com 0 comentários



o mundo todo é uma grande farsa, trágica ou engraçada, ou tragicamente engraçada, ou engraçadamente trágica. não, eu sei que não é, tudo bem. era só uma frase de efeito inicial pra puxar assunto, mas é mais ou menos por aí. é matemática a coisa, como um gráfico, dá pra ir avaliando a variação entre o divertido e o aterrorizante, e no meio disso aparece o papinho, a conversa de elevador, o chaveco de padaria.

porque anos atrás, o homem ainda era moço, não tinha se desenvolvido enquanto moçoila. ele tinha lá seus 17, por aí, branco, branquelo, branco mais branco que de tão branco que era, era vermelho. ele teve um namorico, coisa de portão e de praça – faz tempo mesmo, sério –, com uma moça negra. a menina era negra negra, preta, não era mulatinha, mulata, morena, era negra. nossa, foi um bafafá, um diz que diz, um zum zum zum. aquela coisa, né, o moço branquelo tinha que ficar ouvindo os amigos (sic), na rua, no trabalho, na oficina, na vizinhança, pra tudo que era lado: “ô, rapaz, você, branquinho desse jeito, metidinho a napolitano, namorando uma negrinha … imagina só aquele bando de urubu no teu pé depois, quando vocês tiverem filhos”. to falando que o mundo é imbecil, assustador, escroto. mas pode ser engraçado, não nego. não neste caso.

quis o destino, deus, o acaso, ou coisa que o valha, que o namorico não vingasse. c'est la vie. o casal não deu certo, mas não foi por causa dos comentários. só não deu certo. o tempo passou, parari parará, o cara branquelo e vermelho conheceu outra, casou-se e teve um filho: um safado(!) esse branquelo vermelho.

lá estava ele no supermercado um dia com seu pequeno de uns três anos. enquanto a esposa preferia comprar as coisas sozinha entre as prateleiras, o homem branquelo e vermelho circulava com o pivete, ia pelo shopping, pelos corredores, dava um jeito de passar o tempo. de repente, o infante sumiu, desapareceu, fugiu! que apuro, que desespero passou o homem branquelo vermelho. depois de quase uma hora buscando pelo nanico, tadan, lá estava ele de mãos dadas com outra criança. naquele momento, então, o homem branquelo e vermelho não soube o que pensar, não sabia se era engraçado ou simplesmente trágico, ele viu na criança ele mesmo anos atrás, era o pai no filho a cena diante de seus próprios olhos. a menina era um pouco maior que o filho dele, ela era negra, de cabelos compridos, trançados. ao homem branquelo vermelho, ela não pareceu assustada, ou desconfortável, ao mesmo tempo, ela não estava completamente à vontade. a menina estava também com os pais, daí o homem branquelo vermelho se aproximou, meio sem jeito, meio que se desculpando, “ô, meu filho, eu estava te procurando”. os pais dela sorriram, pelo menos, enquanto o filho virou-se para o homem branquelo vermelho:

- ô, pai, essa aqui é a menina mais bonita do mundo.
- ah, oi … vamos, Hugo, mamãe está nos esperando já, vamos...
- não, pai, eu não vou, não. eu vou ficar aqui com ela. tchau.
- Hugo …





sábado, 20 de outubro de 2012

Reencontro com Madiba

. . Por Unknown, com 0 comentários

"Sonhar é acordar-se para dentro.
(Mário Quintana)



Vi Nelson Mandela novamente, mas dessa vez foi muito rápido, mal pude desfrutar a presença dele e de sua esposa, foi apenas de passagem. O sol já havia cruzado metade de um céu aberto, a luz intensa cansava a vista, deixava o corpo devagar e as sombras mal cresciam para o outro lado de qualquer objeto anunciando a tarde. Meus olhos, há dias, eram como que puxados à minha frente, sufocados em qualquer lugar. Eu ia ao encontro de Bruno, amigo que viveu em Paris e com quem passei alguns dias em Buenos Aires, tempos atrás.

Pela rua, antes de chegar numa esquina, percebi que dois homens carregavam pelos braços e pelas pernas um outro sujeito, alguns metros adiante. Imaginei um acidente, um mal súbito, nada demais, mas não, o sujeito carregado morria. Largado entre a rua e o canteiro, aquele homem tinha os olhos revirados, mãos, braços, pernas e pés contorcidos, girando a cabeça ao redor da boca entre-aberta. Os outros dois homens gritavam “tá morrendo, tá morrendo”, pediam ajuda, que ligassem para uma ambulância, o sujeito precisava ser socorrido, oras. Não me perguntei se era possível driblar o inadiável, não pensei nada, não reagi, não me mexi. Já havia visto mortos, jamais alguém morrendo. “Morreu, morreu”, foi o que guardei do grito quando o corpo do sujeito parou de pulsar e o pescoço decaiu. Sobre o corpo, então, a perna de um velho se estendeu, e assim que os joelhos senis bateram o chão, as mãos enrugadas e juntas golpearam veloz e insistentemente o peito do moribundo. Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, e os olhos do sujeito se abriram de novo. Fui embora.

Encontrei Bruno em seguida, ele biografou o músico Johnny Carter, saxofonista, virtuoso homem do jazz que inventava um novo tempo em suas apresentações, como quem, ao mesmo tempo, desdenhava do tempo daqueles que lhe assistiam. Bruno se lembrava de algumas palavras de Johnny:

Nunca he pensado en nada, solamente de golpe me doy cuenta de lo que he pensado, pero eso no tiene gracia, verdad? Qué gracia va a tener darse cuenta de que uno ha pensado algo? Para el caso es lo mismo que si pensaras tú o cualquier outro. No soy yo, yo. Simplemente saco provecho de lo que pienso, pero simpre después, y eso es lo que no aguanto. Ah, es difícil, es tan difícil... (…) Es fácil de explicar, sabes, pero es fácil porque en realidad no es la verdadera explicación. La verdadera explicación sencillamente no se puede explicar. (…) No era pensar, me parece que ya te he dicho muchas veces que yo no pienso nunca; estoy como parado em una esquina viendo pasar lo que pienso, pero no pienso lo que veo.

Bruno me confessava, com isso, a profunda e ressentida inveja que tinha de Johnny. Johnny zombava de toda a fraqueza transbordante de Bruno. Johnny sorria, simplesmente, debochava de qualquer um. Mais, Johnny debocha de si mesmo, nada lhe importava, a não ser sua própria alegria, uma felicidade estúpida como a de quem está prestes a desaparecer, irresponsável. Porém, Bruno ponderava:

Envidio todo menos su dolor, cosa que nadie dejará de comprender, pero aun en su dolor tiene que haber atisbos de algo que me es negado. Envidio a Johnny y al mismo tiempo me da rabia que se esté destruyendo por el mal empleo de sus dones, por la estúpida acumulación de insensatez que requiere su presión de vida. (...) Y todo eso lo sostengo desde mi cobardía personal, y quizá en el fondo quisiera que Johnny acabara de una vez, como una estrella que se rompe en mil pedazos y deja idiotas a los astrónomos durante una semana, y después uno se va a dormir y mañana es otro día.

Era isso, eu dizia a Bruno, era justamente esse o sentimento que gostaria de desfrutar, essa intensidade, tal como Johnny nos apresentava, mas sem o medo que eu sentia. Porque eu tremia, minha palavras vacilavam ao imaginar que poderia apenas cruzar rapidamente com Madiba, como quem dá um bom dia, um oi, tudo bem pelo caminho e segue indiferente. Bruno rebatia, sorria, ele dizia que eu não passava de um idealista, iludindo a mim mesmo, preso a delírios adolescentes. Eu, que vira Madiba algumas vezes antes de o conhecer de fato naquele almoço, insistia com Bruno, lhe dizia que não. Eu confessava, havia sentido Madiba, percebido seu abraço, aquela presença, inclusive o perfume que vinha de Madiba. Nada era igual, nada pode ser igual, eu repetia a Bruno, que sorria largamente.

Eu rejeitava o pensamento de que não mais pudesse ver Madiba, ou de que não mais pudesse estar em sua presença como quem contempla um Miró ou o rabisco entre azulejos na parede da cozinha, como quem esquece o que procurava e se deixa escolher sabores de suco instantâneo na prateleira do supermercado. Dizia isso a Bruno naquela tarde, contando a cena que me ocorrera pouco antes, a caminho de seu encontro. Talvez não houvesse outra oportunidade de estar com Madiba, eu dizia a um Bruno impassível. Me angustiava imaginar que não conseguisse sequer admirar aquele sorriso de Madiba e sua gentileza diante das coisas, de uma vida compartilhada com a senhora sua esposa, entre gestos e olhares que revelavam personagens dele, de palavras firmes, procedimentos duros e cândidos como somente os idiotas podem ser. Madiba era um idiota, eu também sou um idiota, eu dizia, e por fim Bruno reagiu sorrindo um sorriso de deboche que eu não conhecia nele. Bruno delirava, e eu já não o suportava depois daqueles minutos de uma tarde quente. Voltamos a Johnny, nas palavras de seu biógrafo:

Pero no voy a eso, lo que quería explicarme a mí mismo es que la distancia que va de Johnny a nosotros no tiene explicación, no se funda en diferencias explicables. Y me parece que él es el primero en pagar las consecuencias de eso, que lo afecta tanto como a nosotros. (...) a reconocer que quizá lo que pasa es que Johnny es un hombre entre los ángeles, una realidad entre las irrealidades que somos todos nosotros. Y a lo mejor es por eso que Johnny me toca la cara con los dedos y me hace sentir tan infeliz, tan transparente, tan poca cosa con mi buena salud, mi casa, mi mujer, mi prestigio. Mi prestigio, sobre todo. Sobre todo mi prestigio.

Eu sequer havia ouvido falar do músico, tampouco conhecia as canções, o jazz de Johnny Carter, no entanto, diante das palavras daquele meu velho amigo, de um Bruno fora de si, eu não sabia o que dizer, desejava defender Johnny de tamanha crueldade:

Nadie puede ser más vulgar, más común, más atado a las circunstancias de una pobre vida; accesible por todos lados, aparentemente. No es ninguna excepción, aparentemente. Cualquiera puede ser como Johnny, siempre que acepte ser un pobre diablo enfermo y vicioso y sin voluntad y lleno de poesía y de talento. Aparentemente. Yo que me he pasado la vida admirando a los genios, a los Picasso, a los Einstein, a toda la santa lista que cualquiera puede fabricar en un minuto (y Gandhi, y Chaplin, y Stravinsky), estoy dispuesto como cualquiera a admitir que esos fenómenos andan pos las nubes, y que con ellos no hay que extrañarse de nada. Son diferentes, no hay vuelta que darle. En cambio la diferencia de Johnny es secreta, irritante por lo misteriosa, porque no tiene ninguna explicación. Johnny no es un genio, no ha descubierto nada, hace jazz como varios miles de negros y de blancos, y aunque lo hace mejor que todos ellos, hay que reconocer que eso depende un poco de los gustos del público, de las modas, del tiempo, en suma.

Me desesperei diante dessas palavras de um Bruno desprezível, soberbo como o são as minhocas, não pude suportar. Nunca havia visto um homem morrer, já havia visto homens mortos, naquela tarde quente, quando meus olhos me espremiam, matei Bruno.




*Bruno é narrador e personagem de El perseguidor, de Júlio Cortázar.

sábado, 28 de julho de 2012

Como me tornei gastrítico

. . Por Unknown, com 0 comentários


Os meninos, donos e senhores da casa, 
fecharam portas e janelas,
 e quebraram a lâmpada acesa de um lustre da sala.
 Um jorro de luz dourada e fresca feito água
 começou a sair da lâmpada quebrada,
 e deixaram correr até que o nível chegou a quatro palmos. 
Então desligaram a corrente,
 tiraram o barco, e navegaram com prazer
 entre as ilhas da casa.” 
(A luz é como a água
Gabriel Gárcia Márquez)

Tudo começou quando passei a levar as coisas a sério. Mas isso não foi uma opção minha, uma escolha, ao mesmo tempo, tampouco foi fruto de condições que me foram impostas por outras pessoas ou circunstâncias, uma necessidade obrigatória e inescapável. Só hoje percebo que, simplesmente, a partir de determinado momento, de um período, passei a levar as coisas a sério. É o único comentário que encontro.

Eu devia ter uns 14 anos, ou talvez já estivesse passado dos 27, não me lembro, já faz muito, mas, apesar da diferença entre as datas, minha gastrite deve ter começado nesse intervalo. Ali me encontrei enquanto sujeito, ser humano, como se diz, e não enquanto alface, claro. E se parece absurdo falar de um adolescente para um homem a beira dos trinta indiferentemente, quando tudo isso já passou há tanto não existe diferença alguma. Sabe como são as lembranças, meio imprecisas, embaçadas, esfumaçadas, envolvidas de incerteza. Assim, fica mais difícil ainda falar da minha gastrite, que me acompanha desde então. Nalguns momentos, não percebo mais a respiração pelo movimento do diafragma, ou palpitações que sejam, não penso num conceito importante, ou sequer me ocorre aquela citação precisa, apenas sinto que, por dentro, da altura do umbigo ao queixo, tenho um enorme e vibrante estômago sofrendo.

A primeira recordação me vem de uma namorada, óbvio, que me deixou sem que eu tenha imaginado qualquer esfacelamento, ausência ou perda de encanto. Andávamos pela rua, no caminho da minha casa, quando ela, enquanto eu mordiscava meu pão de queijo, me disse que encontrara outra pessoa, e também sobre como era compreender a condição de nossas vidas: às vezes, para alguns, de estoica solidão. O pão de queijo, carnudo, quente, macio, autêntico, naquele instante, ressecou-se, tornou-se praticamente uma massa de polvilho velha: a saliva eu perdera. Segundos depois, o entendimento, o raciocínio enfim compreendeu o que o corpo, por meio do paladar, já havia entendido. Não era só mais um fora, como se diz hoje, mas o tom cerimonioso fizera daquelas palavras uma ameaça de destino. Levei muitos anos para digerir aquele pão de queijo.

Depois disso, duas coisas me marcaram profundamente o desentendimento.

Estava num ônibus cruzando a cidade para o trabalho e, descendo uma avenida movimentada, ouvimos todos ali dentro, de repente, a sirene esganiçada, como todas o são, é verdade, de uma ambulância. O motorista, como todos nós, assustou-se ao mesmo tempo em que tentou tirar o enorme veículo que dirigia do caminho. No movimento brusco, um rapaz lá no fundo, mais ou menos na mesma direção que a minha, um pouco atrás, gritou que ali não viajavam vacas e bois, não. O motorista não se manifestou, já o cobrador, que ainda naquele tempo era uma profissão, não se conteve. Segundos antes da manifestação do sujeito, o cobrador estava a vontade, esparramado, com as pernas voltadas para a frente do ônibus, o corpo para trás. No entanto, ao reagir, ajeitou-se na poltrona, fez-se imperioso. Aqui não tem vagabundo pra você sair gritando, não, viu, irmão, disse, aqui é tudo pai de família, dobrava as mangas da camisa para trás, erguendo o indicador. Você não viu, não percebeu a ambulância que passou, não, questionou. Sentado, mais ou menos na mesma direção para a qual o cobrador olhava ao falar, não assistia às mangas serem dobradas assustado ou com medo, mas não é coragem minha, confesso. A discussão mudou de tom. Não venha justificar o erro do outro, cara, pela voz, o rapaz transmitia um nervoso soluçar. Esse motorista vem dirigindo assim lá desde baixo, feito louco, completou. Não havia mais mangas e o dedo do cobrador estava decidido a não se abaixar, enquanto ele finalizou. Olha só, aqui ninguém é obrigado a ouvir gritaria, se você quer se queixar, ao descer, anote o número do veículo e ligue no telefone que está ao lado do mesmo número na parte de trás do ônibus, mas não venha gritar com pai de família, rapaz, finalizou o cobrador. Nunca o barulho do trânsito lá fora foi tão alto enquanto aquele rapaz não desceu no ponto que o esperava. A saída mesmo foi espetacular, com mochila sendo jogada no ponto e coreografia improvisada para anotar os tais números. Todos estávamos num silêncio que possibilitou ouvir o arfar do motorista ao arrancar, muito mais veloz do que vinha anteriormente. Talvez fosse o estômago dele reagindo, quem sabe.

Não me vinham por quês, não procurava por explicações, esclarecimentos ou resoluções, não pensava em nada, apenas sentia meu estômago.

Outra vez foi tentando relaxar, fugir do trabalho que colocava o jaleco em mim 24h. Como qualquer menino chorão, corri para os braços de mamãe. Já muito mais esperto diante dessas situações, abraçava o sarcasmo antes que a desfaçatez do absurdo se ajustasse ao conveniente. Em menos de quarenta minutos de estrada, diante das mais de seis horas de viagem que me esperavam, ouvi tapas e pequenos gritos de me devolve, é meu. Quando sai da vigília, os gritos e tapas ficaram mais altos, não eram apenas irmãos ou uma mãe e crianças num entrevero, como eu imaginava sonhar. É bom lembrar,  algumas pessoas usavam músicas altas nos aparelhos celulares naquela época. Então, a mulher pediu para a moça abaixar o volume da música, a moça não abaixou, a mulher tomou da moça o aparelho e foi feito o alvoroço. Quando achei que deveria levantar a cabeça da poltrona e olhar, somente ver mesmo o que já tinha ouvido, o aparelho celular cruzou os ares do corredor do ônibus. O aparelho ainda bateu as costas de uma poltrona lá na frente e caiu no colo de outra moça, esta se levantou como... como tudo aqui desde o começo, que se percebe pobre literária e metaforicamente, em uma película de zumbis lado B. Você está louca, sua gorda, escrota, se esse negócio acerta a minha cabeça eu te estouro. Uau, engoli. A moça, dona do aparelho, tinha uma criança de três anos que àquela altura estava em muitas lágrimas, escondida debaixo da poltrona da mãe. Enquanto isso, seguia a troca de tapas e ameaças ao som de Jesus, Deus, põe Deus no coração, gente, repetidos por uma senhora de voz adocicada. Outros gritos avisaram o motorista: já era tempo de parar aquela viagem. A polícia foi chamada, a briga foi separada, a criança tirada debaixo da poltrona e dos berros. A mulher quase atingida pelo aparelho celular, contudo, ainda se mantinha de pé, retrucou uma das ameaças de agressão, alternava dois passos a frente e um para trás, dois para trás e um para a frente, fazendo esvoaçar a jaqueta longa e ressoar o tamanco no assoalho: ê, você cala a sua boca, sua gorda, escrota, vai emagrecer, faz só dois anos que eu to na rua de novo e a última pessoa que me ameaçou tá morta. Mata, mas sem barulho que eu quero dormir, gente, alguém poderia ter dito.

Essas lembranças não são do pensamento, são do corpo, são dor física, nesses momentos o que eu tenho é um estômago queimando. No ônibus de viagem, foi um período em que eu já não queria uma crença renovada para enfrentar o mundo, reconhecer-me diante das coisas e entender onde eu estava, não, preferia o cinismo, uma franqueza cretina. Eu, que nunca fui um bêbado, que nunca fui de comida gordurosa, que cruzei a infância com fama de menino tranquilo, distraído, alegre, bem humorado, ploft, passei a sujeito preso numa caixa de Omeprazol, com dicas para reconhecer excessos de ansiedade e nervosismo, com exercícios de relaxamento e auto-controle para não enfrentar crises de gastrite. O mundo e as pessoas não eram o que eu queria ou esperava que fossem, me diziam, como se diz aos adolescentes, aos jovens, aos adultos imaturos. Não, mas já naquela época, eu sabia que eu não era nada, que era apenas mais um, e tampouco estive à procura de um caminho, de um lugar para ir, sabia resignadamente que o que nos resta na vida é esmiuçar uma diversão qualquer diante de tudo. Alguns diziam que eu precisava de fantasia e imaginação para o meu realismo fatalista. Nos livros, para eles, eu deveria encontrar um remédio. Que mundo.

Pois bem, hoje pouca coisa mudou, não saio sem comprimidos para o caso de um ataque, mas paro e retiro do real-absurdo que me aparecer as duas palavras que compõem a mesma expressão. Sonho com as coisas, fragmentando-as, até que percam o lastro: como um sobrado azul de portão branco, paredes arranhadas pelo tempo e jardim desgovernado, quando eu tenho um chapéu também azul que me cobre o rosto, uma máscara, enfeites e algum desconcerto, talvez revolta, encerrado aos pés de uma grande árvore que não entende o inverno. Encontro nas paredes do sobrado o número 183, mas queria que fosse o 44, não, o 77, e faço do que vejo combinações que me deem um 4 ou um 7 repetidos. Minto, só queria escrever.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Anti-Soneto ou Cenas de Uma Loja de Eletrônicos

. . Por Thiago Aoki, com 0 comentários


Lendo nos jornais, a realidade parece um soneto métrico e rimado, que não sabe se lindo ou se chato. Mas certamente insuficiente.

Entretanto, a vida urge. A luta de todo homem é ter motivo pra se desafiar. Pode até ser divertido. Deitar nos trilhos com os olhos aberto para ver por debaixo do trem. Usar espelho no sapato para dançar com a moça de saia sem que ela perceba.

E assim, com esse espírito, o senhor que assobia na construção só pensa na morena que conheceu no samba do domingo à tarde. O maluco que vagueia pela rua só pensa em conseguir dinheiro pra pinga. O homem que compra ouro – pelo menos é o que se lê em seu colete azul – pede um pingado na pastelaria, parece apressado. Pelo barulho das lojas se abrindo, é mesmo hora de correr atrás do dourado.

É só mais uma manhã que demarca o início de mais um dia no centro da cidade.

Na televisão do mostruário da loja de eletrônicos é possível assistir à rica socialite lamentando a violência de seu país – “por que não nasci na Europa?”. Deitados no chão da calçada da loja, dois mendigos discutiam para saber quem tem razão sobre a existência de Deus, antes de serem expulsos pelo segurança.

Malandro que é malandro sabe negociar. Ou, como disse o tio do pastel, bamba que é bamba não tem medo de bacharel. Com os raios de Sol, os mais friorentos fogem das sombras, é inverno em julho.

Em poucos minutos já não se vê os mendigos, tampouco a socialite, animais se atacando deixam a tela mais bonita.

Esqueça todas as certezas, compartilhamentos de razões absolutas e lições de equilíbrio proferidas pelos puristas formadores de opiniões. No mundo real, há que se ser dionisíaco, perder a compostura. Escrever torto por linhas retas, buscar o anjo torto que atormenta o poeta. Este, na busca do imensurável, já não mede mais os versos, apenas grita em autodefesa poesias para sobreviver ao gauche destino.

Na vitrine da loja de eletrônicos, ainda embaçada pela neblina matinal, agora se vê uma criança desenhando com sua mão um coração distorcido. E, nesse momento, tanto faz quem inventou o Bóson de Higgs.

- Filho, vamos embora, senão o moço vai brigar com você.

A mãe aponta para o segurança, que não esboça reação enquanto o menino chora escandalosamente. Desconcertada, a jovem tenta ainda contornar a situação enquanto afasta o garoto da vitrine.

- Olha lá, que lindo, o leão correndo atrás do veadinho.

O menino ainda não parece convencido, mas vai se afastando aos poucos da vitrine. Pouco importa, em meio a tudo, ainda é possível ver a esperança na ponta de seus dedos.

domingo, 1 de julho de 2012

Desavisado*

. . Por Unknown, com 0 comentários



"
Ver você como uma coisa, que eles são capazes de ver você como uma coisa. 
Sabe o que isso quer dizer? É terrível, nós sabemos como isso é terrível enquanto ideia,
 que é errado, e achamos que sabemos todas essas coisas sobre direitos humanos
 e dignidade humana e como é terrível tirar a humanidade de alguém,
 é só isso que a gente diz, a humanidade de alguém,
 mas ver a coisa acontecer com você, ver, e agora você sabe de verdade.
 Não é só uma ideia ou uma causa para ficar todo careta.
 Faça acontecer isso e você terá um gostinho de verdade (...)
 E agora você sabe o poder que isso tem.
 O poder total.
 Porque se você consegue realmente ver alguém como uma coisa
 você pode fazer com o outro qualquer coisa,
 fica tudo de fora, humanidade, dignidade, direitos, justiça - tudo de fora."
(David Foster Wallace)




Meu nome? Inês, doutor. 'Doutor' não? Tá. Senhor me desculpe então, por favor. 'Senhor' também não? Tá. Ainda não é doutor, né – sorri. E 'Senhor' tá no céu, a gente sabe... mas se esquece, né, ou é Ele que se esquece da gente – sorri. Onde é que eu tava nos dias 21 e 22 de janeiro deste ano? Mas isso o senhor já sabe. Ai, me desculpe, 'senhor' não: você, você já sabe. Ah, tá, quer escrever, contar o que aconteceu lá no dia 22, como foi tudo. Olha, vai ser difícil, quase impossível, viu, eu acho. Porque talvez mesmo com aquelas câmeras por todas as ruas e cantos do condomínio da dona Matilde, que eu trabalho aqui em São José mesmo, na saída da cidade, e mesmo que você entreviste a porção de gente que vivia e estava lá, não vai conseguir contar o que meu menino viu e sentiu aquele dia. Disso você já sabe, né, pois só to avisando. Por que falei do menino e não do que eu passei? Porque a gente esperava já, né, esperava era pelo pior e ele veio. Ah, a gente estava lá fazia uns anos, eu mais meu menino e meu marido também, meu segundo marido. A gente veio de Piquiurama, eu nasci foi ali pertinho no Paraná mesmo. Meu menino é do primeiro marido, um desgraçado que larguei, depois foi que arranjei esse outro traste aí – sorri. A gente primeiro foi pra São Paulo, ficou lá um tempo. Norival, meu marido hoje, estava trabalhando pra uma transportadora, mas eu não queria ficar naquela cidade lá, não, Deus que me livre, lá perto daquela estação da Luz, num prédio velho, sem nada. A gente é muito simples, sabe, mas não queria meu menino crescendo pra ver tudo aquilo lá não... Nada por nada, Norival arranjou uma outra transportadora em São José e a gente veio, depois consegui ficar de doméstica numas casas que o pessoal indicou. A gente veio direto pra cá, quer dizer, pra lá, né. Quem foi que falou pra gente de lá? Não, não teve nada de movimento – sorri – de partido político, não. Falaram pro Norival lá na transportadora mesmo, nosso vizinho lá trabalhava com o Norival. Se não tinha partido e movimento lá, organização? Claro que tinha, moço, mas que coisa isso que vocês tem que falar, credo. Tinha pra lá de mil de gente lá, daí umas dez pessoas, to exagerando, vai, era de um partido, outras cinco, de outro, e eles tudo brigavam, né, nossa, só confusão. Vinha lá um pessoal da faculdade, nos fins de semana, faziam reuniões, coisa pequena, mas nunca fui, não, eles passavam avisando todo mundo. Eles faziam trabalhos, cuidavam das crianças, nada demais. Tinha reunião toda semana também, por setor, nestas eu ia às vezes, pra gente saber como é que estavam as coisas. Eles ofereciam uns cursos técnicos até, e não era dos partidos, era da prefeitura, moço, olha o rolo que vocês criaram. Mas o espaço, o terreno era todo bem organizado, isso a gente tem de reconhecer. A gente tinha energia elétrica da prefeitura, vieram os caminhões uma vez e desenharam direitinho as ruas, iam asfaltar, falaram. Todo mundo cadastrado, preocupado com a questão do esgoto. As pessoas falam, aqueles meninos dos jornais, da faculdade, sempre falavam também: os partidos. Nosso partido lá era o da sobrevivência, né. Eles acham que a gente é muito malandro de ir morar lá, é... Malandragem agora é medo de passar fome. Ô mundo esse, viu – sorri. É engraçado isso, as pessoas falam aí, comentam, né, ah, os traficantes, ah, os bandidos, os presidiários. Claro que tinha, tinha de monte, mas daí a dizer que só tinha gente assim é maluquice, né. E por que é que quem um dia foi preso sempre será bandido, me diz? Tanta gente diferente lá, gente trabalhadora, dedicada, respeitadora, era um bairro igual aos outros, moço, só isso. Pra onde é que essa gente vai, onde é que essa gente fica se não tem nada, gente? Acaba assim mesmo. E vem pra onde a gente tá tudo agora, né. É isso. Que que as pessoas pensam? Norival já teve preso também, já roubou, já deu tiro pra fugir da polícia, não é santo, não, eu também já vendi baseado vagabundo, pacotinho de pó quando o medo de faltar comida foi maior que o de encarar uma cama de cimento e um sol gradeado. A gente lá era tudo como se fosse só “ex-” alguma coisa, né, ex-traficante, ex-ladrão, ex-preso, só que aí, como você já sabe, você viu, tem foto, tem vídeo, vocês tudo viram, naquela manhã de domingo a gente virou foi ex-mulher, ex-homem, ex-criança: ex-ser humano. A gente então era sei lá o quê, pior que bicho. A gente já estava alerta fazia tempo, mas no sábado, como todo sábado, mesmo que para alguns todo dia seja sábado – sorri –, a gente tomou uma cervejinha, queimou umas gordurinhas até de noite, pessoal lá tocou música, dormi mais tarde e acordei com meu menino gritando “mãe!!, mãe!!, mãe!!” do meu lado. Os olhos dele estavam do tamanho do barraco, coitado. Eu ainda meio zonza, o Norival foi saindo pra ver o que acontecia. Meu menino dizia que estavam gritando fazia tempo, que parecia que era a polícia, que tava correria. Foi tempo dele dizer isso, eu ficar de pé, o Norival entrou de novo no barraco gritando, e eu, que já ia ralhar com o menino pra parar de repetir a mesma coisa, me assustei também, porque o Norival foi juntando o que viu pela frente, roupa, documento, o que deu mesmo, enquanto dizia que era a polícia mesmo, que era o Choque, que a gente estava sendo posto pra fora. Estava meio escuro ainda, mas no final do corredor dos barracos dava pra ver os escudos juntinho, um do lado do outro, avançando. Os gritos de que era pra gente sair na outra direção iam ficando cada vez mais perto, cada vez mais perto. Norival e os vizinhos, o pessoal lá fora ainda ficou pedindo calma pros Choque, que tinha criança, bebê lá, pra esperar as mulheres saírem direito primeiro. Eles iam avançando. Dava pra ver, vocês viram as fotos, né, policial entrando nos barracos lá na frente, quebrando e derrubando tudo. A gente ouviu tiro, sim, não sei o que era, não, deviam tá atrás de bandido, incriminar alguém, foragido, não sei. Disseram que morreu gente, não vi, não sei, vai ver que sim. Morre tanta gente toda hora. Bateu a raiva só lá fora, sabe, aí eu gritava, xingava, filhos de uma puta. Puta não, né, que puta não tem nada com isso. Desgraçados. Era como se nada do que ficou lá fosse nosso, como se eu não tivesse trabalhado, suado todo dia pra comprar e montar as coisas do nosso barraco. O sol ainda não tinha nascido direito e a gente lá fora foi juntando umas madeiras, tacando fogo, como se quisesse avisar o que estava acontecendo. Mas avisar pra quem, né... Alguém vai dizer, "pros partidos" - sorri. Ah, tá. As crianças ficaram amuadinhas, todo mundo com medo, a gente gritando, um monte de gente correndo, as pessoas foram percebendo que o bairro todo estava cercado. Não tinha o que fazer. Além deles fazerem aquilo, tirar tudo da gente quase na madrugada de um domingo, queriam que a gente assistisse a tudo, de pertinho, sem poder fazer nada, porque crueldade pouca é besteira, né – sorri. Foi muito rápido. Depois a gente foi levado lá praquelas tenda que vocês viram. Era pra triagem, diziam. Triagem, gente, se a gente era tudo cadastrado lá... A gente não é boi, não. Aí foi esperar, né, esperar o dia passar, acabar todo aquele inferno. Minha vó, mãe da minha mãe, dizia que não podia falar essas palavras porque atraía, não podia falar 'desgraça', não podia 'câncer', não podia, atraía coisa ruim. Vai ver ela estava certa, mas não foi a gente que atraiu, não, porque a desgraça, o inferno já está aí antes da gente, e ele vem sem nem a gente chamar. Tá tudo errado, né, desde o começo. Meu pai errou quando se juntou com minha mãe, os pais do Norival a mesma coisa, eu também, quando me juntei com aquele primeiro desgraçado, mas a gente quer acertar, né, e carece é de sorte. Agora é ver até quando vai durar essa bolsa aluguel que a gente tá recebendo, e tanta gente ficou sem... Com o dinheiro, a gente tá num quarto nesse cortiço aqui atrás, sabe. To lá na dona Matilde, o Norival na transportadora fazendo os bicos de sempre, o menino tá no colégio: vê se estuda, né, é melhor. Quero mais filho não, gosto do menino, sei o que é ter um monte de irmão, é bom, mas é duro também. Passei lá no Pinheirinho outro dia, vi que não fizeram nada, teve corrida de carro lá, né, na terra, mas teve gente que foi morar lá de novo, fez barraco e tudo e foi despejado de novo também, né. Tem que ir atrás do dono daquele lugar lá, moço, porque tá feio lá, viu, abandonado, fiquei com medo, estava parecendo as noites lá perto da onde a gente morava em São Paulo. Os nóias, uns coitado que nem consegue para em pé direito, tudo sujo, jogado, ziguezagueando. Não é medo deles, sabe, é também, é estranho, é dó, um clima que dá medo, sabe. Daqui a pouco, aquele lugar vira sei lá o quê, ou a gente mesmo acaba voltando pra lá, né...


*texto ficcional, fruto dessa história de desafio no blog: foi proposto pela leitora Lais Fraga, indigesta por aliança

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