VÍDEO: MURILO CAMPANHA CONTA ITATINGA

O psicanalista Murilo Campanha fala sobre Itatinga, um dos maiores bairros de prostituição da América Latina, onde ele tem seu consultório.

O nadador

Uma crônica de Hugo Ciavatta.

Ainda que as bolachas falassem

Crônica de Fábio Accardo sobre infância e imaginação

Ousemos tocar estrelas

Uma reflexão de Thiago Aoki.

Entre o amarelo e o vermelho

Uma crônica de Hugo Ciavatta

O homem cordial vinhedense

A classe média vai ao barbeiro. Uma crônica de Caio Moretto.

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quinta-feira, 5 de junho de 2014

Coluna do leitor: Tá Chegaaando a Hora

. . Por Mistura Indigesta, com 0 comentários

(por Márcio M. Ribeiro)

Minha relação com o futebol sempre foi muito mais de admirador do que de jogador, mas gosto de lembrar de duas partidas nas quais entrei em campo. Em nenhuma delas joguei com Pelé [1]. A primeira foi no começo dos anos 2000 em uma praia isolada de Ilha Bela. Lembro de como me senti em casa jogando na areia com um grupo de caiçaras que acabara de conhecer, mas que em menos de 45 minutos já me chamavam de Magrão. A segunda foi na Grécia, dez anos depois, com colegas de laboratório. Havia algo de certo na primeira partida e algo de errado na segunda. Sempre desconfiei que isso se relacionava com o fato de que os primeiros, como eu, jogavam se imaginando como seus ídolos. Cada jogada, ou era a frustração de não conseguir estufar aquele filó como sonhávamos, ou a consagração da firula exata invejada pelo compositor [2]. Além desta referência ao imaginário da infância, outra dimensão que deve ter alguma relevância é toda a gama de significados que eu compartilhava com aqueles de pés descalços, mas não com meus colegas de trabalho. Apesar de tudo o que tínhamos em comum, os europeus jamais compreenderiam o orgulho de Jackson do Pandeiro em 62 [3], as ironias de Moreira da Silva em 66 [4] ou a frustração de Luís Americo em 74 [5]. 

Passada a nostalgia que vem forte quando estamos longe, a pergunta que nunca me saiu da cabeça sempre foi: de onde vem esses significados compartilhados? Esse sentimento ufanista que doentemente me faz achar poético o menino que deixa a vida pela bola? [6

Já no começo do século XX Carmem Miranda repetia incansavelmente que "todos têm seu valor" [7], muito mais para convencer a si própria do que ao resto do mundo do valor do "povo brasileiro" em geral e do "caboclinho" em particular. Nem Leônidas, nem o tal povo brasileiro jamais precisariam disso, mas por aqui parece difícil se livrar deste sentimento. Eis que no fim dos anos 50 e começo dos 60, enfim, "provamos" nosso valor. Didi, Garrincha e Pelé mostraram pro mundo o que era "nossa" escola, como cantou Tom Zé anos depois: "[nessa época] ninguém sabia que diabo era brasil, se a capital disso aqui era la paz ou buenos aires (...) a gente não era nada. E deus se manifestou na forma dessas criaturas Pelé, Garrincha etc. para nos engrandecer como povo. Para a admiração do mundo" [8]. Pouco depois veio o golpe e os militares não perderam a chance de transformar esse sentimento de país colonizado em puro e simples ufanismo. "Torci, sofri, mas afinal ganhei o mundo. Sou tricampeão do mundo" cantavam os Golden Boys nessa época [9] (lembro desta música sempre que ouço aquela propaganda com o Paulo Miklos e a Fernanda Takai). Mas foi também na década de 70 que se acentuou o processo inverso. Nunca mais seria lançada uma música enaltecendo o futebol sem que viesse outra a reboque criticando-o. Se Jorge Ben homenageava Pelé [10], Gonzaguinha lembrava que craque mesmo é o povo brasileiro que carrega esse time de terceira divisão [11], povo que sempre soube que aqui só não há revolução porque nosso time sempre é campeão [12]. Enquanto Wilson Simonal tentava nos convencer de que aqui era o país do futebol e a deixarmos todo o resto pra fora [13] (como o Pelé no comercial do supermercado), Gabriel Pensador nos lembrava de que, se aqui era o país do futebol, é porque futebol não se aprende na escola e que, se de vez em quando nasce por aqui um Brazuca, o tempo todo morrem Zé Batalhas assinados pela PM [14].

Este ano a copa do mundo de futebol masculino será aqui perto. Neymar continuará fazendo seus gols e continuaremos sendo presos (por aqui, atacar pela esquerda é caso de polícia [15]) e haverá comemoração e haverá luta.

2  O Futebol - Chico Buarque
3  Scratch de Ouro - Jackson do Pandeiro
4  Morengueira contra 007 - Moreira da Silva
5  Camisa 10 - Luis Americo
7  Deixa falar - Carmen Miranda 
8  Frevo do Bi - Jackson do Pandeiro/Tom Zé
9  Sou tri-campeão - Golden Boys
10 O nome do rei é Pelé - Jorge Ben
11 E por falar em Pelé - Gonzaguinha
13 Aqui é o país do futebol - Wilson Simonal
14 Brazuca - Gabriel Pensador
15 Bola pra frente - Tom Zé

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Márcio M. Ribeiro começou sua carreira como goleiro-artilheiro em partidas de gol-a-gol com seu irmão. Quis a vida lhe oferecer novos destinos, logo passou a treinar como pivô de três dentro três fora com os amigos da rua. Jogador dedicado, sempre focado no trabalho em equipe, conquistou respeito. Hoje, atua no time de professores da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP, continua se destacando por seu posicionamento dentro e fora de campo e por suas belíssimas assistências.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Tipicamente argentina

. . Por Caio Moretto, com 1 commentário

Depois do abacate tipicamente chileno, eu achei que já estava acostumado com esse troca-troca gastronômico de nacionalidades. Afinal já acumulava vastos conhecimentos na área: sei que o pão francês, assim como o copo americano, é bem nosso, e que aquele sushi empanado que chamamos de hot roll não tem nada de japonês. Mesmo assim, a Argentina conseguiu me impressionar.

Logo no primeiro dia em Buenos Aires descobri, com muito entusiasmo, que uma das comidas mais típicas da cidade é a Milanesa. Não sei se você já teve esse estalo, mas a expressão à milanesa significa que algo é feito da maneira como se faz em Milão, na Itália. Da mesma forma, o queijo parmesão e a expressão à parmegiana deveriam referir-se à cidade de Parma. Sei que em São Paulo chamamos a pizza com parmesão de Napolitana. Mas tudo bem. Afinal, nada impede o ingrediente de ser de uma região e a tradição de outra.

Então a milanesa é tipicamente argentina. Até aí, sem crise. Sei que houve uma forte imigração italiana na Argentina, tudo ainda poderia ser explicado. E, meio turistas meio antropólogos, ficamos sempre nos divertindo no limite entre o exótico e o mal-explicado. Fomos, então, jantar em uma magnífica rede chamada El Club de la Milanesa.

Mas, che, o futebol não é mais inglês. E já no nome os porteños deixavam claro que lutariam pela receita italiana. Numa faixa abaixo do logo, sem muitos dribles, estamparam que o novo nome do prato agora é Argentinadas. Faltou fair play? Faz parte do jogo, pensei.

milanesa-napolitana2No cardápio, porém, o item mais pedido desafiava qualquer lingüista ou geógrafo. Estava lá, debaixo de meus olhos, num controverso gol de mão, o prato mais pedido: a argetiníssima milanesa napolitana, um tenro bife à milanesa com molho vermelho e queijo. Uma delícia. Igualzinho ao parmegiana brasileiro, só que argentino milanês e napolitano.

Era tão boa que saí arrasado. Quis voltar cinco vezes, para não sair por baixo e passar uma mensagem. Mas éramos turistas. Respeitamos a casa e voltamos só três.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Coluna do Leitor - Um Laicismo Equivocado

. . Por Mistura Indigesta, com 3 comentários




Iranianas choram por conta da decisão da FIFA pela preservação de um
espaço público laico e democrático


Foi com pesar que soube da notícia de que a seleção iraniana feminina de futebol havia sido desclassificada das eliminatórias para a próxima edição dos jogos olímpicos, que acontecerão em Londres, em 2012. E o mérito não é o futebol desta equipe, que nunca vi em campo. A eliminação é decorrente do fato de elas terem entrado em jogo, contra a seleção jordaniana, cobrindo suas cabeças com o véu (vestimenta mais do que conhecida, e comum na cultura dos países de maioria muçulmana).

A FIFA, entidade máxima do futebol mundial (a despeito de todos os casos de corrupção que a envolveram nestas últimas semanas), estabeleceu protocolo para que nos jogos de futebol sejam proibidas quaisquer manifestações de caráter ideológico, pessoal, comercial e, como se vê, religioso.

Discussão semelhante, a respeito de manifestações religiosas, surgiu na Copa de 2010, por conta de críticas a jogadores que, em suas entrevistas ou em comemorações de gols, faziam vistosas exibições de textos com referências a figura de Jesus Cristo, ou declarações em que enfatizavam seus agradecimentos a Deus.

Esta busca por um terreno laico para o exercício do esporte, como algumas autoridades do mundo da bola, principalmente europeus, tem procurado afirmar, parece estar em um âmbito bastante equivocado. Eu poderia dizer até, perigoso.

Sempre fui crítico deste tipo de política de contenção de manifestações. No primeiro momento em que surgiram as críticas aos jogadores cristãos a respeito de seus proselitismos dentro das quatro linhas, sempre concordei que qualquer exagero deveria ser discutido e trabalhado em outras esferas que não o da proibição pura e simples. O futebol, como principal esporte mundial, envolve diversas identidades culturais, inclusive religiosas. Portanto, sempre entendi que atitudes sensatas deveriam trabalhar o esporte como espaço democrático de manifestação de idéias e identidades, sob a égide da tolerância e do diálogo.

Agora, a proibição da seleção feminina iraniana de participar das próximas olímpiadas, por conta do uso do véu, é evidência maior de que, não apenas a FIFA não se dispõe à construção de um diálogo internacional a respeito das diferentes identidades culturais, como demonstra que sua decisão bebe da mesma fonte das políticas de intolerância secular que ascendem em um número significativo de países europeus, baseadas no discurso de que o espaço público laico deve ser preservado de qualquer interferência de fundo religioso, e que todos os cidadãos, a despeito de suas crenças e valores, deve submeter-se em última instância à tutela do Estado nacional e isento de valores religiosos.

É necessário observar, porém, que tais políticas inserem-se em um contexto agudo de emergência de uma nova direita nacionalista, temerosa com o ingresso de contingentes de imigrantes, sobretudo vindos de países de predominância muçulmana - os mesmos países que, em época anteriores, foram sugadas por estes Estados europeus, antigos impérios coloniais que interferiram (e até hoje interferem) na soberania destes povos.

Em tempos de debates acalorados sobre a inclusão de novos atores sociais na cena política, de um necessário revigoramento das discussões a respeito do multiculturalismo, e de um novo ascenso do movimentos democráticos (no mundo árabe, e que já bate à porta dos países europeus), a política de intolerância à identidade religiosa só possibilita afirmar que o laicismo, como eixo organizacional do Estado e da sociedade contemporânea, necessita assumir um novo significado, pelo qual não seja capaz de construir (e nem mesmo de tangenciar) discursos de exclusão de identidades culturais, sobretudo religiosas.

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Sydnei Melo é sociólogo e misturou-se com a “gente diferenciada” deste blog logo na faculdade. Cristão crítico, sempre se posicionou sem medo sobre todos assuntos.

sábado, 5 de março de 2011

Ctrl + Alt + Del

. . Por Unknown, com 0 comentários

Quando trabalhava, dentre as tais oito horas formais diárias cumpridas, a maior parte do tempo era passado em frente ao computador. No início do mês passado, contudo, terminado meu contrato, vivi uma dificuldade de concentração incrível. Meu cérebro, acostumado às abas e janelas, parecia pensar, procurar por um “Ctrl+Tab” ou "Alt+Tab" o tempo todo, querendo deixar pra trás o que via e lia, seja lá onde fosse. Como se o "Alt+Tab", atalho que utilizamos para trocar de janelas na área de trabalho, pudesse me fazer trocar de assunto, e o "Ctrl+Tab", usado pra mudar de abas nos navegadores de internet, me possibilitasse buscar uma novidade sobre determinado tema. As notícias que chegaram com o começo de fevereiro também não ajudavam.

- José Sarney eleito pela 4ª vez presidente do Senado, 01/02/2011.
Não desejava o encargo, dele não pude fugir, tendo na carne o alto preço do exercício destas funções. A confiança dos meus ilustres colegas conforta, redime e aumenta as minhas responsabilidades.

Alt+Tab

- Torcedores do Corinthians após eliminação do clube da Pré-Libertadores, 05/02/2011.
Quem não joga por amor, joga por terror

Ctrl+Tab

- Romário, ex-jogador de futebol, deixa a primeira sessão na Câmara Federal e joga Futvôlei no Rio, 08/02/2011.
Para aqueles que não sabem, não teve plenário e a presença não era obrigatória.

Alt+Tab

- Mubarak renuncia à presidência do Egito, 11/02/2011. Depois intensos protestos populares inspirados no processo que pressionou Ben Ali a deixar o governo da Tunísia, no dia 14 de janeiro.

Ctrl+Tab

- Marrocos, Argélia, Líbia, Bahein, Yemen: onda de protestos, de mudanças no chamado mundo árabe.

Alt+Tab

- Cine Belas-Artes resiste ao fechamento, por enquanto, 22/02/2011.


Ctrl+Tab



De repente, como diria o Aoki pentelhando, não mais que de repente, zaz, tudo se confundiu na minha cabeça e comecei a imaginar José Sarney, com aquele imenso bigode no qual esconde, não é possível, o mais absoluto cinismo imaginável, como o responsável pelo aumento da passagem de ônibus em São Paulo e pelo fechamento do Cine Belas-Artes, também na capital paulista. Romário, ao invés de ex-jogador de futebol e deputado que joga futvôlei durante uma sessão na Câmara, era incentivador, apoiador e ajudava a organizar não o protesto de torcedores do Corinthians, descontentes com a eliminação da equipe do Parque São Jorge da Taça Libertadores da América, mas agora ações contra um serviço de transporte público paulistano que humilha usuários diariamente. E aterrorizados não ficavam os jogadores do Corinthians com os protestos, mas o poder público, com a verdadeira pressão crescente das pessoas pelas ruas, tal como no mundo árabe, protestando contra o aumento da tarifa de ônibus e o fechamento do Cine Belas-Artes. Símbolo de uma cidade, de uma região, de um país todo, de um estilo de vida globalmente difundido, as Marginais Tietê e Pinheiros haviam sido paralisadas pelas manifestações. O congestionamento se estendia mais e mais pelas ruas, avenidas e rodovias, inclusive, do restante do Estado, o caos estava instalado. As pessoas se recusavam a entrar nas linhas de metrô da cidade, todas ficavam paradas diante das catracas.
"Ctrl+Tab" ou "Alt+Tab" já não faziam sentido, eu precisava era de um "Ctrl+Alt+Del" para reiniciar tudo, estava louco. Internet e computador não eram apenas um hábito, mas um vício.

Acho, também, que assisti muito ao Pink & Cérebro quando era criança. Não me fez bem.

Tsc tsc tsc


quarta-feira, 23 de junho de 2010

Equação dos Machos Perdidos

. . Por Thiago Aoki, com 1 commentário

Para ser alguém, há que se aproveitar da popularidade de outrém. Com isso, embalo na postagem anterior ("Zero, a Bandeira do Zeca", de nosso indigestíssimo Hugo Ciavatta) e também na enfadonha Copa do Mundo para entrar em outra canção numérica, um pouco mais óbvia e menos intertextual, "Regra Três".

Assim diz a letra da canção de Vinícius de Moraes e Toquinho:

Regra Três

Tantas você fez
Que ela cansou
Porque você, rapaz
Abusou da Regra Três
Onde menos vale mais

Da Primeira vez
Ela chorou
Mas resolveu ficar
É que os momentos felizes
Tinham deixado raizes
No seu penar
Depois perdeu a esperança
Porque o perdão também cansa
De perdoar

Tem sempre um dia
Em que a casa cai
Pois vai curtir
Seu deserto vai

Mas deixe a lâmpada acesa
Se algum dia a tristeza
Quiser entrar
E uma bebida por perto
Porque você pode estar certo
Que vai chorar


Neste caso, os próprios compositores já deixaram claro algumas vezes a origem do termo. Ingenuamente, acreditei por épocas, que se referisse a uma expressão algorítima, aquela famosa regrinha de três que forma uma equação, uma igualdade. Entretanto, em show que assisti de Toquinho no ano de 2005, o próprio desfez minha viagem matemática. Regra Três é oriunda do futebol. É a terceira parte da regra, que diz respeito às substituições no decorrer da partida. Assim, "abusar da Regra Três", no contexto da música, é abusar da substituição da mulher "titular" pela "reserva".

A mulher, traída, e o homem, a "curtir seu deserto" - uma das expressões mais tristes da MPB, apesar da ironia da canção - compõem uma letra de advertência e conselho por parte do eu lírico, que chega a recomendar ao amigo chifrador abandonado, que deixe "uma bebida por perto/porque você pode estar certo/ que vai chorar" (parênteses: reparem que, se em vez do Toquinho, esses versos fossem do Reginaldo Rossi, logo tava aí todo mundo dizendo que era brega e pastelão). Voltando ao assunto, o cenário nos remete ao novo livro do ótimo cronista futebolístico Xico Sá. O livro chama-se "Chabadabada - Aventuras e desventuras do Macho Perdido e da Fêmea que se acha". Segundo o autor, o livro traz conjunto de crônicas cujas matérias primas são conversas com garçons, filosofias de buteco, brigas caseiras de vizinhos, barracos entre casais, e outras. Em suas palavras, a ideia é "atualizar para 2010 uma situação que existe desde Adão e Eva".

No limite do politicamente incorreto e da ironia que vai do fino ao escrachado, passando pela brincadeira com grandes pensadores e filósofos, as crônicas de Xico Sá são deliciosas. Neste livro, o autor exercita seu lado pouco conhecido, de estar fora da estreita coluna de esportes da Folha de São Paulo, mas isso não preocupa. Tanto no jornal como no Cartão Verde, programa esportivo da TV Cultura do qual faz parte, Xico já extapolava as quatro linhas, chegando avidamente ao imaginário e cotidiano popular.

Onde entra o "Vida Noves fora Zero", você deve estar se perguntando? Bom, para responder a pergunta e mostrar um pouco mais do trabalho de Xico Sá, deixo-lhes, como lembrança, trecho de uma crônica dentre as tantas presentes em seu novo livro, espero que gostem. Fica também o convite ao ótimo blog do autor, intitulado provocatoriamente como "O Carapuceiro"..

Ah, esqueci de alertar: há quem o considere machista... Pura Blasfêmia e falta de amor, quer dizer, humor...
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A Arte de pedir em namoro
Xico Sá

É namoro ou amizade? Rolo, cacho, ensaio de amor, romance ou pura clandestinidade? “Qualé a sua, meu rapaz?!”, indaga a nobre gazela. E o homem do tempo nem chove nem molha. Só no mormaço, só na leseira das nuvens esparsas.

No tempo do amor líquido, para lembrar o título do ótimo livro de Zygmunt Bauman sobre a fragilidade dos encontros amorosos de hoje em dia, é difícil saber quando é namoro ou apenas um lero-lero, vida noves fora zero... (Clique aqui para ver a crônica na íntegra)

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Copa Chata, Música (i)Legal

. . Por Thiago Aoki, com 1 commentário

A Copa do Mundo freiou por alguns dias as postagens nesse Blog. Tento hoje sair de meu ostracismo literário, aproveitando o jogo entre EUA e Eslovênia, provavelmente tão ou mais péssimo como os demais, em uma copa em que a coisa mais legal tem sido a "supercâmeralenta". O legal é ficar bolando teorias conspiratórias sobre os destinos da Copa, como por exemplo o fato de a África do Sul ter sido praticamente eliminada por um time só de brancos (Uruguai) em um dia símbolo da luta contra o apartheid, 34 anos do massacre estudantil de Soweto. Ou então o gol do Maicon contra a Coreia do norte que foi uma "BOMBA"! (tá, essa foi de mal gosto..) Melhor ainda são as gafes que as TVs adoram cometer nessa época. A mais recente foi aquele canal americano que colocou o mapa da América do Sul enquanto falava da Copa da África, há quem diga que a foto, reproduzida à esquerda seja uma montagem. Com o time razoável dos ianques, talvez eles já estejam melhor no futebol do que na geografia, ou simplesmente estejam demonstrando curiosa dificuldade em enxergar as periferias mundiais.

Voltando às gafes, a moda é o "Cala Boca Galvão". Para quem não sabe foi uma falsa campanha publicitária, difundida pelo mundo, típica de quem não tem o que fazer. Nela, espalhou-se para a gringaiada, via redes sociais, que cada pessoa que escrevesse "Cala Boca Galvão" no twitter doaria U$0,10 para a fundação brasileira que estaria preservando um raro papagaio em extinção da espécie Galvão. A solidariedade foi tanta que a frase foi a mais dita na internet por dias e obrigou o NYTimes a emitir nota desmentindo a falsa instituição de caridade. Pra quem não acredita, veja o genial vídeo "Save Galvao Birds Campaingn". Mesmo assim, ainda acho que a Copa sem Galvão é como BBB sem Bial ou Flamengo sem Obina: fica melhor, mas perde a graça. Aliás, a campanha lembrou o Peru Pequeno, vídeo hit da copa de 2006, quando algum malvado fez com que torcedores japoneses gritassem "Peru Pequeno" efusivamente, sob a justificativa que isso significaria "Zico is the best". Na época, Zico era treinador da seleção oriental.

A internet tem dessas. Aliás, outra boa surpresa que tive na rede, ao buscar músicas para uma viagem, foi a descoberta de Blogs cujos autores disponibilizam discos inteiros para download. Não entrarei aqui na discussão sobre direitos autorais, e o politicamente correto que esquece que é inviável que um CD tenha o valor de 10% do salário mínimo. Mesmo assim, faço questão de divulgar esses Blogs - já inclusos em nossa Sessão Recomendamos - que disponibilizam as músicas sem motivação mercadológica, mas pela paixão pelas canções. Aliás, muito mais legal do que os arquivos para download são as resenhas e crônicas muito bem feitas sobre os artistas e a música. Vamos ao jabá:

Playlist Pessoal - Como o próprio nome já diz, o autor disponibiliza para Download centenas de CDs e músicas que integram seu repertório auditivo pessoal. Mais legal ainda são as coletâneas com misturas temáticas - e perfeitamente idigestíveis - organizadas voluntariosamente pelo autor do Blog. Música e Playlist de ótima qualidade.

Sintonia - Mais um site com diversos CDs disponíveis para download, mas, se visitá-lo, não pare por aí. Informações variadas sobre cantores e conjuntos, bem como histórias dos bastidores da música e áudios pra lá de raros. Destaque especial sobre os artigos e musicais disponíveis sobre a música baiana. Vale a pena entrar em sintonia com esse blog.

Abracadabra - Um trabalho fantástico, penoso e minucioso. Há, neste blog, LPs dos mais diversos, em geral das décadas de 1960/70, do gênero MPB. Todos incrivelmente disponíveis para download gratuito, com excelente qualidade de gravação e remasterização.


Por fim, acho que outro portal que merece nosso respeito é o da gravadora Trama, que tem interesse comercial como todas as outras, mas isso não os impediu de sacar que a música deve, até para se vender um conceito e não apenas o disco, ser mais respeitada. Na onda da impossibilidade de limites da rede, a gravadora deixa discos inteiros prontos para serem copiados, atitude justificada por um Manifesto muito bem escrito. Mais que ideologia, me parece uma resposta coerente, um "se não pode contra eles, jogue com eles".


Falando em jogar, preciso exercitar meu antihegemonismonorteamericano, torcendo pra Eslovênia.


A todos uma boa copa e uma boa música...

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Coisas do interior

. . Por Unknown, com 0 comentários

Faz alguns dias, simplesmente enquanto conversava com meu pai e meu tio, no centro da cidade de Ribeirão Preto, nos aconteceu um feliz encontro. Coisas do interior. Os passantes, volta e meia, eram recordados por ambos, e a mim cabia apenas ouvir, porque nenhum daqueles era do meu tempo, claro. Fisicamente, só chego aos sessenta, se chegar, em quase quatro décadas, já eles, se não chegaram ainda, já ultrapassaram a marca. De figuras lendárias, ricos, ex-ricos, fazendeiros, famílias respeitadas, pés-rapados e agora homens de “sucesso”, ou o inverso, a craques do futebol na cidade, não faltavam velhinhos transeuntes para terem suas memórias procuradas pelos meus “historiadores”. Foi assim que apareceu um simpático ex-jogador do Palmeiras (ou seria Palestra Itália ainda, àquela época?), que depois se transferiu para o Botinha, ou Botafogo F.C. de Ribeirão Preto. Em seguida, Antoninho, como ficou conhecido, seria a primeira negociação do clube da cidade diretamente com o exterior, com um clube italiano.
Antoninho hoje deve ter lá seus mais de setenta anos, mas é um velhinho conservado, como se diz, falante, ativo, bastante sorridente. Quando ele se aproximou da gente, não me lembro porque razão, todos os três, de alguma forma, se conheciam. Coisas do interior. O assunto não poderia ser outro: futebol. Seleção brasileira, Copas do Mundo, grandes craques do passado, o futebol na cidade, e a recente convocação de Dunga eram assuntos que não poderiam faltar. Entretanto, outras reminiscências, recordações, comparações não foram esquecidas, também. Depois de algumas considerações a respeito das atuais dificuldades dos clubes pequenos no futebol, da dificuldade para formar jogadores diante de uma ascensão cada vez mais precoce, Antoninho lembrou um pouco de sua trajetória. Vindo de uma cidadezinha do interior de São Paulo, próximo a Lindóia, pelo que lembro, foi jogar no Palmeiras antes de vir para o Botafogo. Naquele período, final dos anos cinqüenta e início dos sessenta, um jogador de futebol quase não possuía prestígio social. Até pra arranjar namorada era complicado, dizia ele, pois se apresentar para o pai da moça como bolero era assinar o nariz torcido do futuro sogro. A situação é semelhante agora para os sociólogos...
Entre as recordações, o ex-jogador nos contou uma história curiosa, que não deixa esquecer as sucessivas maiores transações do futebol mundial (a última, se não estou enganado, é a de Cristiano Ronaldo, do Manchester United ao Real Madrid). Antoninho, quando foi negociado com o Fiorentina da Itália, na década de 60, nos lembrava da dificuldade que foi para receber a sua parte na negociação, porque, difícil imaginar hoje, não havia banco na cidade de sua família. A retirada do dinheiro teve de ser feita em São Paulo, só depois o montante viajou para o interior. A surpresa maior ainda estava por vir, já que quando chegou ali, na armazém da família, o avô dele, ao ver o pacote de notas sobre o balcão, arregaladamente perguntou: “Quanto será que pesa isso?!”. Coisas do interior.

Anos atrás, li aquele A Hora da Estrela, de Clarice Lispector. Demorei um bocado, apesar do livro ser curtinho, pois me foi uma leitura arrastada. Já no começo fica bem confuso, e nem por isso menos bonito, marcante. São os devaneios do narrador Rodrigo S.M. que, de cara, lança um "Tudo no mundo começa com um sim" e desembesta em reflexões existenciais, desfazendo um possível lirismo romântico da oração inicial. Nesse caso, ao invés de tentar descrever, talvez seja melhor apenas transcrever: "Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever. Como começar pelo início, se as coisas acontecem antes de acontecer? Se antes da pré-pré-história já havia os monstros apocalípticos? Se esta história não existe, passará a existir. Pensar é um ato. Sentir é um fato. Os dois juntos - sou eu que escrevo o que estou escrevendo. Deus é o mundo. A verdade é sempre um contato interior e inexplicável. A minha vida, a mais verdadeira, é irreconhecível, extremamente interior e não tem uma só palavra que a signifique." Foi assim que conheci Clarice Lispector (algumas obrigações colegiais a gente agradece), que intriga, angustia e encanta ao mesmo tempo. Porém, se o trecho citado, por exemplo, dentre outros, pode ser profundo, denso, obscuro, sufocando diante de questões tão viscerais, como "coisas do interior", outra oração do livro, já em seu final, à época e ainda hoje, tomara que sempre, muito me inquieta: "Qual é o peso da luz?".
Macabéa, a personagem do livro é... macabéa. Clarice Lispector não somente deu nome a personagem, criou um adjetivo, ora, Macabéa é macabéa, simplesmente. É pobre, pobre de existência, possui uma simplicidade que humilha a si e ao leitor, é insignificante e desprezível, ou seria insignificada e despercebida, numa miséria que não se restringe ao material, pois poderia ser rica e rodeada de bens e permanecer asquerosa. A vida de Macabéa, ela própria, seus interlocutores, diálogos, relações, tudo parece retirado de uma enorme crueldade. Uma violência literária, com a qual a autora resseca, esquadrinha uma personagem para, por fim, mostrar o quanto somos todos macabéa. Vazios.
E, no desfecho do romance, entre os sonhos de glamour de Macabéa, se realiza, ou se atualiza a sua tragédia, ela é morta atropelada. Momento, então, de encontro com uma glória inventada (e qual não é?) e descrita magnificamente por Rodrigo S.M., como se os sentimentos faltantes da história e do mundo narrados, a esperança em relação ao futuro e a beleza do Amor, por exemplo, cruzassem o cenário, ironicamente, para mostrarem as suas ausências, suas inexistências. Rodrigo S.M. pergunta, enfim: "Qual é o peso da luz?". Peso e principalmente luz que depois fui descobrir que pode ser a fama, a celebrização, o reconhecimento, o ser Marilyn Monroe que Macabéa tanto gostaria acontecendo justo na sua morte.

Vale o quanto pesa? Uma nota de cem vale mais que dez moedas de um real, apesar da nota ser mais leve. O valor é simbólico, pessoal e socialmente atribuído. Coisas pesadas ou leves podem valer, ambas, muito, ou absolutamente nada. E quem dá o peso, a Física, a massa dos corpos? Acho que não... A fama, por exemplo, não se "pesa" objetivamente, ainda que ela seja medida a torto e a direito, e tem um valor, muitas vezes, "furado". Clarice Lispector, sim, é "pesada" e possui um interior triste, melancólico e, mesmo assim, de um valor que só a beleza pode atribuir.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Coluna do Leitor - Um Futebol de Domingo

. . Por Thiago Aoki, com 3 comentários

Um futebol de domingo
por Daniel Gorte-Dalmoro

Era para ser uma pelada de domingo de manhã, nada mais. E dava a impressão de que assim seria. Estávamos em cinco e esperávamos por mais gente, para completar dois times e começar a jogar. Batíamos bola – uma bola de futebol society – enquanto isso. Foi quando chegaram duas pessoas mais, uma delas trazendo uma bola de salão (não por acaso mais apropriada para quando se joga futebol de salão). Trocamos de bola para continuar aquecendo. E quando a bola de salão parou nos meus pés, senti que o que eu tinha ali não era uma bola, mas meus doze, treze anos. A partir desse instante, pela próxima hora, aquele não seria mais um simples jogo de domingo de manhã, mas meus velhos jogos de fim de tarde, de segunda à sexta, quando a chuva não caía bem na hora e tirava o ânimo de subir o morro.

Olhei para o lado, onde estavam o Pilati, o Fido, o Tobias, o Rodolfo, o Odená – que tinha um fusca pintado igual ao do filme Se meu fusca falasse, e, por ser mais velho, se sentia no direito de não jogar no gol –, o Cristiano (que tudo mundo queria pro seu time, já que não se incomodava em jogar de gol), entre outros?

Esperamos um tempo mais, ver se chegava mais alguém. Não chegou. Chamamos algumas pessoas que também procuravam mais gente para jogar. Olhei um tanto receoso: na minha experiência de mais de uma década atrás, gente que vem de fora costuma jogar mais sério, dar mais porrada, reclamar mais. Foi isso que acabou com aquele grupo que por três (ou seriam quatro?) anos se reunia quase religiosamente às 17h30 na quadra do meio do Patão, de segunda à sexta.

Contudo, os tempos são outros, e o grupo é outro também. Não é só uma década que me separa daquele grupo, como uns mil quilômetros de distância, em média. Mas alguma coisa ali me fez me sentir que eu era o mesmo. A bola pesada na quadra de cimento, na qual é bom não cair para não se ralar? Eu na ala esquerda lamentando que não sei rodar e tentando ver se alguém no meu time tinha afinidade ao jeito que eu jogo? De qualquer forma, tratei de jogar como jogava antigamente (e como ainda jogo atualmente): para me divertir, desestressar e não para arrumar briga. Coisa que aprendi com o tempo e não sabia aquele tempo: tratei de ignorar e mesmo fazer piada e rir do colega de jogo que não parava de reclamar: estava lá para brincar e nada mais. E como toda brincadeira, jogava sério o suficiente para marcar gols e descontraído o bastante para não me incomodar em perder ou ganhar. Perdi o jogo, mas saí me achando o melhor em campo, como todo mundo.

Na volta, voltei tentando encontrar a escola onde estudei na pré-escola, a Associação de Pais e Mestre, onde casais mais ou menos na mesma idade que eu se escondiam para subverter os costumes – ou ao menos assim pensavam fazê-lo –; a casa onde morava uma família de negros (isso é marcante em uma cidade onde praticamente todo mundo é branco de ascendência italiana ou alemã), a casa onde tinha um são bernardo, a outra em que um dia eu tinha entrado para ver um tucano; a casa dos padres, quase caindo aos pedaços, e a dos Nezelo, que tinha um carrão antigo, banheirão, com velocímetro em milhas e marcha do lado do volante, e um porão cheio de peles (e pulgas). Eu me pergunta se iria assistir tv ou jogar mega-drive ao voltar para casa. Quem sabe passar na locadora alugar uma fita?

Porém não foi isso que encontrei pelo caminho. Encontrei uma avenida vazia, que pelo silêncio até lembrava o caminho de outrora até minha casa. E foi tudo. Pouco depois de vencer essa avenida, ao me deparar com ruas mais movimentadas, me deparei também com os pequenos desrespeitos quotidianos que preciso engolir diariamente. Eles foram me trazendo de volta para a casa de agora. Quando finalmente abri a porta, senti uma dor nas costas – antigamente eu não me contundia a cada jogo que jogava –, e me vi preocupado com o que fazer para o almoço. Eu voltava a 2008. 1995 ficava perdido em algum canto da minha memória, esperando ser iluminado por uma próxima bola de salão em uma quadra de cimento sob o sol de primavera.

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Daniel Gorte-Dalmoro é mais um raro pensador vivo, escreve crônicas - como essa, escrita em 28/09/08 - no Blog cOmportamento gEral, é um dos idealizadores e executores do projeto Casuística e já se atreveu a criar e manter o famigerado Trezenhum. Dentre tantas heresias, a maior é ser assíduo frequentador do Mistura Indigesta. Como recompensa por tal sacrifício, coloca também em seu currículo o fato de estreiar a nossa Coluna do Leitor. Se você quer participar, basta enviar seu texto (conto, crônica, crítica cultural, etc) para misturaindigesta@gmail.com

quarta-feira, 19 de maio de 2010

A Copa vem aí...

. . Por Thiago Aoki, com 2 comentários

Que o futebol é parte integrante da Cultura Nacional, isso é um fato. E fica ainda mais evidente a cada Copa do Mundo como ele se constitui como parte da identidade nacional. Ainda mais se pensamos que nossa identidade é construída não apenas por nós mesmos, mas principalmente pelo modo como as outras pessoas nos enxergam. Tanto que alguns rebeldes em 1970 negavam-se, sob protesto, a torcer pela seleção brasileira, considerando o esporte como manipulação e alienação política. A seleção encantou e ganhou. Talvez hoje esses rebeldes sintam-se um tanto quanto arrependidos de tal proposicionamento ou ainda torçam o nariz ao ver tamanha espetacularização econômica que domina o esporte. Ou ambos. O número de marcas que apoiam a seleção nunca foi tão grande e a verba de contratos e patrocínios praticamente quadruplicou de 2006 para 2010. Dizer-se apoiador da seleção brasileira significa, na propaganda, dizer que sua empresa é responsável pela alegria proporcionada a cada brasileiro. E mesmo que não ganhemos a Copa, a culpa não será de quem investiu no time. Se intelectuais não gostam de tanto iêiêiê, quem trabalha certamente prefere perder 90 minutos da árdua escala para ver a amarelinha brilhar. Folguinha para ver os jogos da seleção é quase artigo da CLT. Em meio a essa euforia e super-produção futebolística que vivemos, lembro-me aqui, através de leitura do ótimo Blog da Redação do UOL, de uma das mais fantásticas jogadas de marketing que já existiram, realizada no final de 2009, na Itália, pela cerveja Heineken, patrocinadora oficial da Champions League.



O projeto ficou denominado como "Heineken Case Study" (Estudo de caso da Heineken) e tinha como alvo a grande partida da primeira fase da Champions League: Real Madrid x Milan, clássico que praticamente parou a Europa na época de seu acontecimento. A ideia era complexa. A Heineken combinou com pouco mais de 200 italianos entre professores, chefes executivos e namoradas para convencerem seus pares (alunos, empregados e namorados), todos fanáticos pelos times em questão, a assistirem a um concerto de música erudita que ocorreria no mesmo dia e horário do jogo, sem contar a estes que seriam vítimas da ação publicitária. Pois bem, a partir de argumentos esdrúxulos, torcedores fanáticos submeteram-se a assistir ao concerto e, durante a execução, um telão transmitia poesias diversas. Era claro no rosto de cada "espectador" a angústia e desespero por não estar acompanhando à partida. Após 15 minutos de tortura, aparece, no telão, algo como "É difícil dizer um não para sua namorada ?" "E para seu chefe?" "E para a partida?" "Como vocês iriam perder essa partida?". E logo a música característica da Champions League começa a ser ouvida e a reação da plateia é mostrada ao vivo para mais de 1,5 milhões de espectadores que aguardavam a transmissão da partida. "Nesse momento, Milan e Real Madrid estão subindo ao campo". E, então, a partida começa a ser transmitida ao vivo no telão, para alívio, aplauso e euforia das cobaia da "pegadinha" da Heineken.

Além da genial publicidade, que conquistou a web e noticiários durante aquele período, o que fica claro é o poderio que o futebol tem para com o mundo. A copa vai chegando e cada vez mais é difícil e constrangedor dizer-se não acompanhante do mundo futebolístico. Pior ainda é preferir concerto e poesia às quatro linhas. Por outro lado, seria argumento cult e elitista pensar que aqueles que preferem o clássico europeu à música clássica são atrasados culturalmente. Inclusive, acho que boa parte dos que se consideram "eruditos", preferem que apenas uma minoria tenha condição de ser. O fato é que se trata de dois eventos culturais distintos, cada qual com seu público-alvo e popularidade. Eu mesmo, confesso, preferiria ir ao estádio num jogo do Corinthians do campeonato paulista do que a um camarote do show do Chico Buarque no Citibank Hall, e creio que o próprio Chico entenderia minha escolha. Porque tanto é verdade a máxima de Guimarães Rosa já citada em outro post de que "pão ou pães é questão de opiniães", como aquela anônima que diz: "gosto é igual braço, tem gente que tem, tem gente que não tem".

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Dia Onze são Vinte e Três

. . Por Unknown, com 3 comentários

É irritante o tanto que se fala sobre isso e, irritado, resolvi então dar o meu palpite. Porque dia 11 de maio é uma terça-feira pós Dia das Mães. E estarão contentes e orgulhosas vinte e três mamães, aquelas que terão seus filhos na lista do ex-capitão do tetra, agora técnico da seleção brasileira de futebol, Carlos Caetano Bledorn Verri, o Dunga. Nos últimos dias, o comandante das camisas amarelas soltou uma "pérola" digna de nota, e bem explorada já por muitos também. Quem mais o fez com bom humor e classe foi Xico Sá. Mas falou o Dunga mais ou menos assim: “No futebol não há surpresas, quem trabalha com futebol, quem vive o futebol, sabe que não existe surpresa”. Simplesmente, infeliz. Quando ouvi isso na televisão, a única coisa que me veio à mente foi, “puxa, jurava que gol-contra era uma fatalidade!”, ironicamente.
São-paulino pessimista que sou, registrado em cartório com coração ribeirãopretano e panterino, já imaginava, era previsível, pra seguir os ditames do professor Dunga, que o meu time não passaria pelo Santos da garotada de futebol bonito. Nem era pessimismo, era só um “realismo fatalista”, convenhamos. Parecia impossível, como foi. E outro exemplo logo me veio pra dizer o contrário, calma lá, “o Barça não perde pra esse time da Inter de Milão, pode ganhar de pouco, empatar, mas não perde”. Perder de ‘três a um’ na Itália é que eu não esperava mesmo. Não dava pra dizer que era impossível se classificar jogando em casa, porém era muito difícil, pra qualquer equipe seria - infelizmente, para a fantástica equipe do Barcelona, também -, vencer, obrigatoriamente, por uma grande diferença de gols. Na Itália, parecia nhaca, a bola não estava entrando. É preciso lembrar ainda os méritos da equipe da Internazionale, taticamente quase impecável, de atletas de muita qualidade também. Mesmo assim, torci como uma criança catalã hoje pela equipe grená, com os olhos mais atentos que nunca no Pulga. Como se pedisse, a cada instante, que uma surpresa, paradoxalmente, bastante esperada, por fim, acontecesse. Não deu certo, uma escalação estranha do Barça, com pouca movimentação em campo dos jogadores, ao mesmo tempo que a Inter parecia plantada dentro da área de seu goleiro Júlio Cesar, com "quinze jogadores" de branco, era a impressão que eu tinha. Uma pena, a escola de futebol "de resultado" venceu hoje mais uma vez.
Não conseguia esquecer, só para outra vez contrapor aquela declaração equivocada de Dunga, que nas quartas de final da Liga dos Campeões da Europa, depois que Lionel Messi marcou quatro vezes no Camp Nou, nem ele, nem ele acreditava. As câmeras filmavam ele ainda em campo todo atordoado, rindo. Até o melhor jogador do mundo atualmente, que todos perguntam se é de verdade, se é humano, pois parece fazer coisas impossíveis com uma tranqüilidade absurda, estava fora de si, em êxtase, perdido diante da surpresa que então ali acontecia. Muita gente gosta de se questionar “onde é que ele vai parar?”, quando o melhor seria, “quando é que ele vai começar?”, já que um futebol como o dele e da equipe catalã a gente quer ver sempre, como se estivesse começando, na expectativa de ir ao estádio, sentar em frente a tv e acompanhar contente. Me arrisco: que Messi não pare nem contra a seleção brasileira!
Já que fora de campo a coisa anda pra lá de ruim, é de uma equipe como a do Santos, com Neymar, Paulo Henrique (Ganso) e companhia, de jogadores como foram, para a nossa geração, Zidane, Ronaldo, Ronaldinho (este, quem sabe, ainda pode ser), Romário, verdadeiros inventores, criadores, artistas do esporte, que por enquanto seguimos com vontade acompanhar o esporte. Figuras assim tornam previsível o inusitado.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Bola Pra Frente

. . Por Thiago Aoki, com 0 comentários

Sim, fiquei com o papel póstumo do Mistura. 2010 retira mais um de nós brasileiros, mais uma perda, mais um vazio. Depois de Glauco, morreu esta semana Armando Nogueira, cronista esportivo da mais alta qualidade. Neste caso, a lacuna a ser preenchida é ainda maior do que aquela provocada pela morte do cartunista. Afinal, no caso de Glauco temos duas gerações da mais alta qualidade para recompor o quadro, diferentemente do caso da crônica esportiva praticada por Armando. Isto porque o gênero, composto em sua maioria por jornalistas ou ex-jogadores, anda cada vez mais técnico, fazendo análises frias sobre os esquemas táticos e (des)organizações esportivas. Não que seja dispensável esse tipo de excerto, porém cronistas mais lúdicos e literários como Armando Nogueira, João Saldanha, Nelson Rodrigues, Mário Filho, estão em falta. A escassez de tal figura tão importante no imaginário esportivo é, de certo modo, também consequência de um futebol dito moderno, onde o "profissionalismo", "força física" e "tática" vêm tomando conta dos gramados.

Juca Kfouri faz muito bem a parte investigativa. Xico Sá, Torero e Mário Prata têm humor refinado. Nando Reis dá voz aos torcedores. Esquema tático é com o PVC. Ugo Giorgetti também conta causos. Mas, quem se aproxima da poesia de Armando Nogueira? Talvez Tostão, não sei. Ainda assim, poucos, na crônica esportiva, ainda são frasistas, ainda não foram corrompidos pela dicotomia polemicista-padronizado. Quem, de algum modo escreveria frases como:

"Se pelé não fosse homem seria bola"
"A tabelinha de Pelé e Tostão confirma a existência de Deus"
"Para Garrincha, a superfície de um lenço era um latifúndio"
"Os cartolas pecam por ação, omissão ou comissão"
"Tu, em campo, parecia tantos, e no entanto, que encanto! Eras um só, Milton Santos"
"A seleção brasileira jogou com a frieza e a indiferença dos apátridas" (sobre eliminação da copa de 2006)
"Deus castiga quem o craque fustiga"
"Se a bola soubesse o encanto que tem não, não passaria a vida rolando de pé em pé"

Nas áureas épocas em que assistia TV a cabo, acompanhava seu programa na TV, onde entrevistava e lia crônicas. Era sensacional. Depois, apenas pelo google tinha contato com os textos do cronista. E foi também pelo google que soube de sua morte. Na verdade, o último texto que li de Armando, foi quando ainda trabalhava na livraria contentando-me em ver, por juz, seu nome entre os eleitos pela coletênea "Os melhores da crônica brasileira", da José Olympio, de 1977. A crônica (que mais parecia um conto) chamava-se "Peladas" e coloco-a ao lado de outra de Nelson Rodrigues - sobre a invasão do Maracanã de 1976, escrita para "O Globo" - como as duas maiores, ou pelo menos mais marcantes que me lembro de ter lido.

Mais do que a morte de uma história, até então viva, do futebol, perdemos em poesia e fino trato com a pelota. O consolo é que estava velhinho, impossibilitado pelo câncer de fazer praticamente tudo.


Só mesmo por ele e por Garrincha pra alguém torcer pro Botafogo.


Bola pra frente, rumo ao gol.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Futebógrafos

. . Por Thiago Aoki, com 1 commentário

Já mostrei, por este blog, contornos de minha paixão pelo Futebol. Corinthiano roxo, a mais remota lembrança que me vem à mente é estar nos ombros de meu pai, em um bar da longínqua Lins, assistindo jogos do brasileiro de 1990, com menos de três anos de idade, o que me faz questionar se não nasci já com o gene alvi-negro - ainda que eu tenda a delegar tudo no mundo como uma construção social. Eis que hoje necessitava escrever algo para o Mistura, porém não sai de minha cabeça o Corinthians e sua estreia na libertadores, então resolvi misturar indigestamente Arte e Futebol, apresentando três trabalhos de artistas-craques que tratam o tema com maestria.

O primeiro, Caio Vilela que, paralelamente ao seu trabalho de jornalista, quase que como hobby, começou a tirar foto de todas as peladas com as quais se deparava por todo o mundo. A brincadeira tornou-se o livro "Futebol sem Fronteiras", com imagens surpreendentes nos mais inusitados destinos. Ganhou notoriedade há algumas semana ao participar do programas Altas Horas, da TV globo. A entrevista no vídeo abaixo, realizada pela Folha de São Paulo, ajuda a melhor compreender seu trabalho.



O segundo, Daniel Kfouri, muito bem apadrinhado por Juca Kfouri, seu pai, um dos mais renomados analistas esportivos do país. Mas, diferentemente do que os conspiracionistas podem pensar, seu trabalho mostra que o sucesso do filho não é resultado do jabá e curujice do pai. O fotógrafo, que já reformara visualmente a revista Sexy e fora chefe de arte da Caros Amigos, acaba de ser premiado pelo tradicional World Press Photo. As fotos especialmente bem finalizadas, possuem um tom mais artístico, em geral preto e branco, aproveitando muito dos contrastes. Coloco ao lado um aperitivo cujo prato principal pode ser melhor degustado em seu site oficial, no qual eu destacaria a galeria "Várzea II", com fotos simplesmente esplendorosas.

Por fim, o trabalho de João Máximo e Leonel Kaz. Ambos, desta vez não-fotógrafos, publicaram o "Brasil: Um século de futebol", selecionando 180 imagens dentre as 60 mil que por suas mãos passaram. Este livro foi um pouco deixado de lado pela mídia, talvez pela falta de apadrinhamento dos autores ou alto valor da obra (em torno de R$150,00), porém não fica atrás das obras anteriores. É uma compição de fotografias desde 1886 aos dias atuais que, complementado pelo texto dos organizadores, recontam a história do futebol brasileiro. Mostra muito bem como no Brasil, qualquer lugar é lugar para uma boa pelada. Deixa um pouco de lado a fotografia glamurosa grandes clubes e grandes torcidas para destacar-se com o futebol do cotidiano, da várzea e do improviso, aquele que efetivamente faz do Brasil o país do futebol. O livro possui fotos incríveis, como a pernas tortas de Garrincha, Leônidas da Silva no alfaiate, Didi andando de bicicleta com Pelé, mas desistam, para mim, nenhuma delas superará a da capa do livro (dir.), um extenso campo de terrão que abriga dentro das suas quatro linhas uma enorme árvore assistindo tranquilamente ao rachão, o qual sequer podemos entender a divisão de times. Mas não se deixem levar apenas pelas imagens, os textos são ótimos e perpassam temas desde racismo até o futebol colocado como cultura nacional.

Isso sim é futebol-arte. Às vezes, em meio a tantas brigas e tumultos por causa da redonda, me pergunto se uma educação que nos ajude a ver o futebol como um todo não seria a melhor maneira de combater a violência no esporte, mas isso fica para um próximo post porque agora é hora de torcer pro Corinthians - e seja o que Deus quiser.

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