VÍDEO: MURILO CAMPANHA CONTA ITATINGA

O psicanalista Murilo Campanha fala sobre Itatinga, um dos maiores bairros de prostituição da América Latina, onde ele tem seu consultório.

O nadador

Uma crônica de Hugo Ciavatta.

Ainda que as bolachas falassem

Crônica de Fábio Accardo sobre infância e imaginação

Ousemos tocar estrelas

Uma reflexão de Thiago Aoki.

Entre o amarelo e o vermelho

Uma crônica de Hugo Ciavatta

O homem cordial vinhedense

A classe média vai ao barbeiro. Uma crônica de Caio Moretto.

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sábado, 5 de março de 2011

Ctrl + Alt + Del

. . Por Unknown, com 0 comentários

Quando trabalhava, dentre as tais oito horas formais diárias cumpridas, a maior parte do tempo era passado em frente ao computador. No início do mês passado, contudo, terminado meu contrato, vivi uma dificuldade de concentração incrível. Meu cérebro, acostumado às abas e janelas, parecia pensar, procurar por um “Ctrl+Tab” ou "Alt+Tab" o tempo todo, querendo deixar pra trás o que via e lia, seja lá onde fosse. Como se o "Alt+Tab", atalho que utilizamos para trocar de janelas na área de trabalho, pudesse me fazer trocar de assunto, e o "Ctrl+Tab", usado pra mudar de abas nos navegadores de internet, me possibilitasse buscar uma novidade sobre determinado tema. As notícias que chegaram com o começo de fevereiro também não ajudavam.

- José Sarney eleito pela 4ª vez presidente do Senado, 01/02/2011.
Não desejava o encargo, dele não pude fugir, tendo na carne o alto preço do exercício destas funções. A confiança dos meus ilustres colegas conforta, redime e aumenta as minhas responsabilidades.

Alt+Tab

- Torcedores do Corinthians após eliminação do clube da Pré-Libertadores, 05/02/2011.
Quem não joga por amor, joga por terror

Ctrl+Tab

- Romário, ex-jogador de futebol, deixa a primeira sessão na Câmara Federal e joga Futvôlei no Rio, 08/02/2011.
Para aqueles que não sabem, não teve plenário e a presença não era obrigatória.

Alt+Tab

- Mubarak renuncia à presidência do Egito, 11/02/2011. Depois intensos protestos populares inspirados no processo que pressionou Ben Ali a deixar o governo da Tunísia, no dia 14 de janeiro.

Ctrl+Tab

- Marrocos, Argélia, Líbia, Bahein, Yemen: onda de protestos, de mudanças no chamado mundo árabe.

Alt+Tab

- Cine Belas-Artes resiste ao fechamento, por enquanto, 22/02/2011.


Ctrl+Tab



De repente, como diria o Aoki pentelhando, não mais que de repente, zaz, tudo se confundiu na minha cabeça e comecei a imaginar José Sarney, com aquele imenso bigode no qual esconde, não é possível, o mais absoluto cinismo imaginável, como o responsável pelo aumento da passagem de ônibus em São Paulo e pelo fechamento do Cine Belas-Artes, também na capital paulista. Romário, ao invés de ex-jogador de futebol e deputado que joga futvôlei durante uma sessão na Câmara, era incentivador, apoiador e ajudava a organizar não o protesto de torcedores do Corinthians, descontentes com a eliminação da equipe do Parque São Jorge da Taça Libertadores da América, mas agora ações contra um serviço de transporte público paulistano que humilha usuários diariamente. E aterrorizados não ficavam os jogadores do Corinthians com os protestos, mas o poder público, com a verdadeira pressão crescente das pessoas pelas ruas, tal como no mundo árabe, protestando contra o aumento da tarifa de ônibus e o fechamento do Cine Belas-Artes. Símbolo de uma cidade, de uma região, de um país todo, de um estilo de vida globalmente difundido, as Marginais Tietê e Pinheiros haviam sido paralisadas pelas manifestações. O congestionamento se estendia mais e mais pelas ruas, avenidas e rodovias, inclusive, do restante do Estado, o caos estava instalado. As pessoas se recusavam a entrar nas linhas de metrô da cidade, todas ficavam paradas diante das catracas.
"Ctrl+Tab" ou "Alt+Tab" já não faziam sentido, eu precisava era de um "Ctrl+Alt+Del" para reiniciar tudo, estava louco. Internet e computador não eram apenas um hábito, mas um vício.

Acho, também, que assisti muito ao Pink & Cérebro quando era criança. Não me fez bem.

Tsc tsc tsc


quinta-feira, 18 de março de 2010

O dia em que Jesus matou o criador (a Glauco)

. . Por Thiago Aoki, com 1 commentário

Relutei, mas foi inútil, seria impossível não falar de Glauco.

É que senti uma raiva imensa de não ter falado dele ainda vivo, como por vezes havia planejado. Com certeza, seria alvo de alguma matéria envolvendo a tríade que compunha com Laerte e Angeli. Mas a raiva é porque agora, estapafurdiamente, matérias a mil vem sendo publicadas na grande mídia, em geral recheadas de hipocrisia e oportunismo. Parece que mais importante do que a biografia e órfãos personagens deixados pelo cartunista, tem sido o assassinato em si. Já houve quem diga que o caso ressucita a velha falácia da pena de morte. Mais ainda, a culpa seria do Santo Daime e seu teor alucinógeno. Por outro lado, alguns colunistas políticos que sequer algum dia dissera algo sobre o cartunista ou história em quadrinhos, hoje o colocam como o grande mártir opositor de Lula - esquecendo-se da oposição veemente que o próprio Glauco fizera a todos os governos anteriores. Show de horror e sensacionalismo instrumental dos velhos abutres que fazem com que a perda irreparável em nossa cultura se transforme em mero episódio das páginas policiais.

De todas mesmo, a melhor e mais digna foi a cobertura da Folha de São Paulo, que num primeiro momento deixou todos os espaços para charges e quadrinhos em branco, com a assinatura do falecido, e depois lançou dois cadernos com homenagens ao artista. Gostei também do jornal ter comparado a importância de Glauco, pai de Geraldão, para o Brasil, como a de Charles Schulz, pai de Snoopy para os EUA ou de Quino, pai da Mafalda, para a Argentina. Foi, inclusive na própria Folha, na seção infantil (Folinha), que conheci Geraldinho, que logo virou Geraldão, que me apresentou pra Dona Marta, que me mostrou o Casal Neuras, que apontou Doy Jorge, que jurava que já havia sido abduzido pelos Ozetês, que mais pareciam Los 3 amigos, disfarçados, fugindo de Nojinsk, que na verdade apenas procurava por Faquinha. De fato, os quadrinhos de Glauco e companhia deixavam mais forte o café matinal e mais fácil de ignorar a sujeira do banheiro de minha república durante a sua utilização.

O humor ácido e ligeiro do quadrinista - muito bem descrito em uma crônica de Marcelo Coelho em 1987 - traz consigo uma falsa ingenuidade das mais interessantes. Vale-se de exageros do cotidiano para criticar costumes, políticas e conservadorismos dos mais prejudiciais. Infelizmente, pouco se fala hoje sobre a possibilidade de integração dos quadrinhos com a educação, numa didática multidisciplinar que acrescentariam muito às aulas formais. Tampouco se diz sobre o descaso e preconceito com o qual o quadrinho de costumes vem sendo tratado, muitas vezes não como arte, mas simples ilustrador das notícias, feito o pianista que toca na praça de alimentação do shopping, para ninguém ouvir, apenas adornando o refeitório. Discussões estas que seriam muito mais bem-vinda do que aquilo que ando lendo por aí sobre sua morte.

Por fim, o mais bonito mesmo ficou por conta da homenagem de todos os cartunistas, reconhecendo o grandioso trabalho de Glauco. O blog Universo HQ fez uma, digamos, arrecadação de todas essas homenagens e colocou em seu site. Vale a pena apreciar uma por uma, mas deixo aqui, duas das que mais gostei, talvez por terem sido desenhadas por amigos próximos ao cartunista. A primeira, feita a quatro mãos por Laerte/Angeli, mostra uma árvore, em meio à cidade cinza, em cujo tronco surge um dos semblantes dos desenhos de Glauco. A segunda, de Caco Galhardo, que se auto-identifica como discípulo do quadrinista, mostra, sobre uma pilha de diversos livros teóricos, típicos de uma formação intelectual requintada, uma "Love Story" do Geraldão.

Esse post, na verdade, menos do que celebrar o sétimo dia da morte de Glauco, foi simplesmente um pretexto para a mea-culpa feita no início do texto e também para exibir esses dois quadrinhos, que, para mim, são os que mais sintetizam o vazio deixado por Glauco, irreparável por estas enúmeras postagens que surgem, ou pela pífia e infame prisão de alguém que, ironicamente, se identifica como Jesus, o redentor.

"Quando eu saí deste mundo
Eu deixei minha porta aberta
Eu deixei minha porta fina
Para ver quem me acerta "
(trecho de um dos hinos composto por Glauco, para sua igreja)

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