VÍDEO: MURILO CAMPANHA CONTA ITATINGA

O psicanalista Murilo Campanha fala sobre Itatinga, um dos maiores bairros de prostituição da América Latina, onde ele tem seu consultório.

O nadador

Uma crônica de Hugo Ciavatta.

Ainda que as bolachas falassem

Crônica de Fábio Accardo sobre infância e imaginação

Ousemos tocar estrelas

Uma reflexão de Thiago Aoki.

Entre o amarelo e o vermelho

Uma crônica de Hugo Ciavatta

O homem cordial vinhedense

A classe média vai ao barbeiro. Uma crônica de Caio Moretto.

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quinta-feira, 25 de julho de 2013

Passarinho da sorte

. . Por Unknown, com 2 comentários



Não acredito em Deus, não acendo vela e só rezo de vez em quando. De vez em quando, é, não acredito mas adoro assistir a um culto, uma missa que seja. É mais fácil eu aceitar um convite para ir a uma igreja do que para ir ao cinema, juro. Mentira, tudo bem, eu exagerei, mas é quase isso. Se eu não acredito em Deus, no entanto, eu morro de medo Dele. É sério, vejo essas histórias de conversão, de espírito, de castigo, de punição, nossa, vivo caçoando da imagem Dele, imagina se Ele, digamos, me pega pra Cristo – ok, péssima.

Minha família é toda crente, meus pais, minha irmã, tios, vizinhos, primos, papagaios, gatos, cachorros, cada um com a sua crença. A maioria é católico não praticante, uma expressão religiosa absurda, todo mundo sabe, afinal, quem não pratica não é. Eu não entendo, e nem quero. Destituído que sou do órgão metafísico, autista que sou, não me faz sentido ‘vida após a morte’, por exemplo, porque se é ‘morte’, é fim da ‘vida’, cazzo. Assim, eu achava que somente eu mesmo vivia com medo de morrer. Ora, conforme as classificações disponíveis, se eu sou um desses agnósticos, ou ateus, só eu temeria deixar de viver.

Não, não, outro dia eu escutava minha mãe conversando com uma tia dela. Doente, de cama, cheia de dores, a velhinha repetia: ai, eu não quero morrer, eu tenho medo de morrer; ô minha filha, me ajuda, eu não quero morrer. Entre o sorriso desesperador de quem não tem o que fazer e a capacidade de retirar leveza de onde aparentemente nada resiste, senhora minha mãe respondia: peraí, pode parar com isso, que negócio é esse?; cresci ouvindo sermões e frequentando missas com minha mãe e com você, tia, depois veio o Espiritismo: eu nunca vi espírita com medo de morrer!; você é espírita e espírita não pode ter medo de morrer! 

Se Ele existir, que me perdoe, porque eu não segurei o riso ouvindo isso.

Já minha irmã não sabe, mas tenho pra mim que ela mais teme do que confia em Deus, igual a tia da minha mãe. Estávamos numa festa julina, dessas com balão, foguetório, quentão e quadrilha, quando minha irmã me sussurrou: ai, lá vem aquele homem, morro de medo dele. Era o senhor que levava o passarinho da sorte. Todo mundo já viu a gaiola cujo pássaro sai e busca um papelzinho para aquele que comprou sua própria sorte. No pequenino papel há uma mensagem cifrada, enigmática. Faz pelo menos 22 anos é o mesmo homem, talvez não o mesmo pássaro, quem leva a sorte às pessoas nas festas juninas aqui da paróquia.

Vestido de preto, com um bigode grisalho e uma boina também escura, ninguém me tira da cabeça que o homem do passarinho da sorte é como Deus. É, ué. Todo (‘santo’) dia aquele sujeito dobra os papeizinhos com as mensagens, as sortes, as possibilidades da vida de cada um. Aquele homem tem todos os acasos em suas mãos, reordena-os e os distribui na caixinha, todo (‘santo’) dia. Dizem que para Deus nada é impossível, pois bem, então nem tudo para o homem é possível. É Deus quem dá as possibilidades, quem oferece aos homens o que é possível em suas vidas. Justamente como faz o homem do passarinho da sorte. Deus ainda tem uma vantagem: que eu saiba, Ele não tem passarinho e nem cobra pra ler a sorte de ninguém, pelo contrário, já sai distribuindo Seus desígnios, queiram os homens ou não.

Nesta semana, com a visita do Papa, eu confesso, estou adorando esse Natal fora de época. Não tem presente, mas as pessoas estão todas falando de Amor. Uns comedidos, outros mais saidinhos; uns dizem que é preciso reformar as condições de viver o Amor; outros respondem que o Amor é livre, nem vem. Enfim, está bonito, pessoal, porque enquanto existir Amor, está valendo. Agora, se o Amor não existir, hum, aí complica, é melhor correr como se fugisse da PM. Não dizem que Deus é Amor?! – não, sem silogismo com Stevie Wonder, ou trocadilhos dessa vez, por favor. Você pode não acreditar e Ele nem existir, mas é bom ir na igreja. Aliás, vejo entendidos dizendo que Bergoglio mudará os rumos dessa Igreja que habita o século XIII desde Paulo de Tarso, leio que Francisco I brinca, dizendo que Deus é brasileiro, de que é preciso ter fé, celebrar e viver o Amor Dele. 

Deus, enquanto isso...





quarta-feira, 3 de abril de 2013

Se eu fosse Deus...

. . Por Thiago Aoki, com 2 comentários


Se eu fosse Deus, iniciaria meu reinado aconselhando o tempo a sossegar. Para que no mundo, cada ser humano tivesse o direito inalienável de ficar em casa nas tardes chuvosas e de dormir após o almoço. Proibiria ainda qualquer criança de perder o tempo de seus pais para o trabalho. Sob minha égide, nunca, em hipótese alguma, um filho morreria antes de seu pai ou de sua mãe.

Se eu fosse Deus, iluminaria o horizonte da humanidade, para que o hoje sempre aprenda com o ontem e que, mesmo assim, ninguém tenha medo de aceitar novas ideias, novos gostos, novos ritmos, muito menos de construir um amanhã melhor. Usando de meus truques, faria com que nenhum jovem se conformasse com a realidade, por melhor que ela fosse. Roubaria os termos "ousadia", "inovação" e "criatividade" do ambiente corporativo e os distribuiria mundo afora.

Aliás, se eu fosse mesmo o todo poderoso, colocaria no mundo mais artistas do que banqueiros, e extinguiria cartões de crédito, catracas e manuais de auto-ajuda financeira. Desse jeito, não seria possível que as palavras dívida ou dinheiro ocupasse integralmente a cabeça, o sono e a saúde de uma pessoa.

Resumindo, se eu fosse Deus decretaria ao mundo dos homens um monte de coisas básicas. Que ninguém passasse fome, que ninguém fizesse guerra, que ninguém ficasse constrangido ao assumir sua sexualidade, que ninguém tivesse vergonha de dançar ridiculamente, que ninguém tivesse medo de sair a pé de casa às quatro da manhã pra passear, que ninguém pudesse comprar um vinho por trezentos e cinquenta e três mil reais...

Se eu fosse Deus, haveria no mundo mais barulho de samba do que de tiros, mais gemidos de amor do que  de dor, mais skatistas que policiais. Nos jornais, a sessão de quadrinhos seria sempre maior do que a de economia e política. E, de tão alegre a vida, não havendo motivo para passeatas ou procissões, as ruas seriam tomadas por carnavais de todos os tipos.

Por fim, após tantos feitos, sugeriria aos homens que houvesse um concílio entre os poetas para ver quem seria meu novo representante na terra e assim toda cerimônia religiosa seria, na verdade, um belo sarau, onde cada um poderia escrever e recitar seu próprio sermão. Todos seriam fieis à arte ou ao que lhe fizesse bem e ninguém faria promessa para emagrecer, mas sim para engordar a alma. Não haveriam penitências nem dízimos, e apenas a vida seria celebrada.

E somente assim, se eu fosse Deus, observaria do alto de uma nuvem, segurando meu cajado, os homens satisfeitos, olhando para cima, vociferando sem temor algum: seja feita a vossa vontade.

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