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domingo, 18 de março de 2012

O cinza de David Small

. . Por Unknown, com 3 comentários

"(...) cuando el enfermo se acostumbraba a su estado de vigilia,
empezaban a borrarse de su memoria los recuerdos de la infancia,
luego el nombre y la noción de las cosas,
y por último la identidad de las personas
y aun la conciencia del proprio ser,
hasta hundierse en una especie de idiotez sin passado."
(G.G. Márquez)

Nos últimos anos, muitas são as HQs (Histórias em Quadrinhos) autobiográficas. Uma rápida pesquisa pela internet traz nomes como “Fun Home”, de Alison Bechdel, “Mas ele diz que me ama”, de Rosalind Penfold, “Essa Bunch É um Amor”, de Aline Kominsky-Crumb, e “Persépolis”, de Marjane Satrapi. Essa última, inclusive, ficou bastante conhecida com a adaptação ao cinema. Mas inventariar essas publicações - curiosamente escritas por mulheres -, numa verdadeira obsessão "estatística" a procura de elementos recorrentes nesse cenário, não parece responder à razão do suposto crescimento de títulos desse gênero. Mesmo que um hipotético painel dessas publicações fornecesse uma visão das temáticas presentes nas histórias de cada desenhista, suas mais variadas origens pelo mundo, épocas e influências, traços e grafias igualmente diversificadas, haveria de haver aquela historia pra nos deixar desconcertados. Foi assim que passei dias, semanas com “Cicatrizes”, de David Small.


Não conhecia “Cicatrizes”, nunca tinha sequer ouvido falar do autor, mas a capa (à esquerda), o cinza, a opacidade, a fresta pela qual corre a luz do quarto depois da escada, tudo isso me assustou. Eu tampouco sabia que o livro era autobiográfico. Mas com ele em mãos, era apenas uma história que parecia envolver medo, suspense e, quem sabe, terror. A contra capa (à direita), no entanto, diz que o rosto de um jovem, de um homem, carrega o menino que outrora foi. Qualquer obviedade, porém, fica para trás com a leitura, que se torna apressada a cada página, tal é o envolvimento que provoca. Uma tarde, uma manhã ou uma noite, que seja, é o suficiente para não descansar enquanto não virar a última página do livro. É como se fôssemos engolidos pelo papel.

Engolido tal como o menino David nesta imagem (abaixo). A referência a Lewis Carroll e ao “Alice No País das Maravilhas” é explícita, já que Alice cai na toca de um coelho e vive uma aventura fantástica, imaginária, como que adentrando os meandros de seus sonhos. David Small, todavia, foge da mensagem de Carroll e mergulha no real, duro, pétreo. Os quadrinhos, os desenhos dele talvez fossem o recanto de seus sonhos, a forma de não ver tão de perto o mundo ao redor.


Porque o mundo de Small, então menino e adolescente, é mais de sombras que de lugares, é mais de esguelha, mais de fechaduras, mais de repreensões que de sorrisos. E isso se reflete em quase todos os personagens da trama, em seus familiares, especialmente. A câmera que os retrata tem a lente torta, quebrada, desajustada, esvazia-os, eles raramente têm olhos, muitas vezes, somente os óculos preenchidos de branco encontram o leitor. A vida de Small não é uma história de terror, é apenas real, demasiadamente.

A exceção é o analista com que o jovem David Small conversa. Novamente, a referência a Carroll é evidente, pois o analista aparece como um coelho, como aquele que guia ou inquieta Alice. É ele quem lhe diz o que é quase impossível para qualquer um, ainda mais para uma criança, aceitar: a mais absurda revelação, tão clara ao longo daqueles anos todos. Se nossas convenções não permitem imaginar, o traço de Small não, era apenas uma questão de tempo para nos assaltar, percebemos em seguida. Depois das palavras do coelho, o que Small descobre não tem nada demais, é absolutamente normal. O casamento insosso dos pais, a infelicidade de todos e a dificuldade por representar uma vida que eles não queriam. Após aquelas palavras do terapeuta, segue o silêncio de Small, o grito, o sufoco e, finalmente, o universo dele parece humanizado. Seus familiares, seu mundo, a Detroit em que viveu, todo o cinza, se não adquire cor depois disso, pelo menos o faz deixar o absurdo e encarar cruamente a tristeza.

Por fim, me lembrei de François Dosse, em “O desafio biográfico”. O filósofo francês, ao recuperar diversos pensadores desse gênero tão controverso, diz que textos (auto)biográficos quase que desidratam o passado para consumo, como se retirassem dele a intensidade do trágico, ao mesmo tempo em que o deixariam doce, singelo, agradável para o hoje. Assim, nessas escritas de si, o passado passaria a ser visto de maneira encantada. Para Dosse, ainda, poderíamos imaginar encontrar nesse gênero a conhecida reafirmação do Eu, dos escritores, do autores desses textos, ou da busca por modelos de vida para os leitores. Dosse, porém, talvez não dissesse isso se tivesse diante dele a história e os desenhos de David Small.

(para Fábio Accardo de Freitas, que faz anos hoje)

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