VÍDEO: MURILO CAMPANHA CONTA ITATINGA

O psicanalista Murilo Campanha fala sobre Itatinga, um dos maiores bairros de prostituição da América Latina, onde ele tem seu consultório.

O nadador

Uma crônica de Hugo Ciavatta.

Ainda que as bolachas falassem

Crônica de Fábio Accardo sobre infância e imaginação

Ousemos tocar estrelas

Uma reflexão de Thiago Aoki.

Entre o amarelo e o vermelho

Uma crônica de Hugo Ciavatta

O homem cordial vinhedense

A classe média vai ao barbeiro. Uma crônica de Caio Moretto.

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quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Nona Sinfonia, microcosmo social.

. . Por Thiago Aoki, com 1 commentário

Antes de começar, deixo claro: música clássica nunca foi o meu forte. Embora tenha dado diversos mergulhos, ainda me parece um lugar muito distante e enigmático, ainda mais se levada em conta minha ignorância técnica para tal. Mas ocorre que, cada dia mais, tem me incomodado essa limitação. Assim, youtube afora, busquei informações e linhas cronológicas para me inteirar do assunto, porque pra mim, sentir uma música, foge à racionalidade estrita. Não precisamos saber sobre o movimento na partitura para sentir a religiosidade de "Jesus, alegria dos Homens", de Bach; ou para saber a grandeza de João Carlos Martins em seu piano, dentre tantos outos exemplos. Com estas inquietações na cabeça, chamou-me a atenção uma frase que li, atribuida a Bakunin, que após assistir à "Sinfonia n. 9" (no vídeo abaixo, sob regência de Leonard Bernstein), de Ludwig Van Bethooven, em concerto de Wagner, teria se levantado e afirmado que "tudo passará, o mundo perecerá, mas a nona sinfonia permanecerá". É esta sinfonia e sua eternidade o motivo desta postagem.





A relação entre Campo Muscial e Ciências Humanas é, por vezes, complexa e mal estabelecida. O potencial da música enquanto fonte documental é, recorrentemente, ignorado pelos analistas socias, que limitam-se a analisar as letras para ilustrar seus pontos de vista. Mas, como fazer uma análise sociológica/histórica de uma música clássica ou instrumental?

Weber já respondeu essa pergunta. Então, como que por brincadeira Weberiana, analisar ainda superficialmente a sociologia embutida na nona sinfonia de Beethoven começa a ficar divertido. Isso porque nela, e em Beethoven, temos implícitas algumas das mais importantes características da sociedade moderna.

1) Sociedade do espetáculo e estratificação de classes - Guy Debord, filósofo marginalizado em sua época, e agora retomado por qualquer sociólogo que estude a sociedade contemporânea, demonstra o vértice central que ocupa a espetacularização dos elementos em todos os setores sociais. Beethoven, foi um dos primeiros a levar a música que adornava festas nobres para o centro dos espetáculos públicos. Os músicos não mais apenas alegrariam as cortes, mas seria a música o próprio espetáculo e quem quisesse que a fosse contemplá-la. Se hoje existem espetáculos artísticos da proporção do "Cirque du Soleil" ou "Blue Man Group", agradeçam ao compositor. Observando essa inovação de Beethoven em colocar a música como "prato principal", clarificou-se as camadas sociais em interação e conflito no século XIX. O espetáculo está dado, mas para se ter acesso ou ser protagonista do mesmo era preciso passar por uma seleção social rigorosa. A grandeza dos espetáculos e busca por status daqueles que os assistiam contrastava com a exploração social vigente no campesinato e trabalho urbano nascente. Beethoven era pra poucos, assim como hoje ainda temos nichos sociais predominantes em cada música, ainda que em menor proporção, ou vocês pensam que o público consumidor majoritário do Chico Buarque é o mesmo do Calypso?

2) Apropriação Política da Arte - Isso já é velho, mas acompanha a história da nona sinfonia. Como se sabe, a nona sinfonia é inspirada no poema do alemão Friederich Schiller, intitulado "À Alegria". Os nazistas bizonhamente colocaram o compositor e poeta, ambos adeptos dos ideais da Revolução Francesa, como símbolo da grandeza cultural do Reich e da superioridade da raça ariana. Vejam este vídeo de 1942 e tenham uma ideia. Talvez por isso Kubrick ironizou no famoso "Laranja Mecânica", em cena em que o rapaz torturado era obrigado a ouvir por horas a nona sinfonia. Vale também lembrar que a sinfonia, rearranjada por Hebert Von Karajan, tornou-se hino da União Europeia.

3) Nação e Transição - O quarto movimento, o mais conhecido da música - aquele utilizado por brinquedos de bebês, trilhas sonoras de filmes, entre outros - chama-se "Ode à Alegria", e ao ouví-lo, o que percebemos, a partir da progressão de suas notas, é a o mesmo movimento da esperança e grandeza, o que diz muito sobre nacionalismo nascente e dominante no século XIX. Alguns pedagogos e musicólogos dizem que ouvir Beethoven e Mozart durante os primeiros anos de vida ajudam os bebês desenvolver o cérebro e percepção, mas me parece que o que vale mesmo são as emoções sentidas durante todo o trajeto da sinfonia.

Apenas uma brincadeira, apontamentos superficiais que nos ajudam a entender a razão da dimensão da arte ou porque algumas obras se tornam eternas, ou, sob a hégide de uma frase do próprio Beethoven, "a música é uma revelação superior a toda sabedoria e filosofia". Mas, o mais importante é que não pensemos que a música, essa reveladora, esteja isenta do todo social. Também nela - de Calypso a Beethoven, de "Rebolation" à "Nona Sinfonia" - estão contidos elementos e contradições de uma época. Distrinchar com a lupa humana essas nuâncias é tarefa nossa, ainda que com muita dificuldade saibamos diferenciar flauta de clarinete.

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