VÍDEO: MURILO CAMPANHA CONTA ITATINGA

O psicanalista Murilo Campanha fala sobre Itatinga, um dos maiores bairros de prostituição da América Latina, onde ele tem seu consultório.

O nadador

Uma crônica de Hugo Ciavatta.

Ainda que as bolachas falassem

Crônica de Fábio Accardo sobre infância e imaginação

Ousemos tocar estrelas

Uma reflexão de Thiago Aoki.

Entre o amarelo e o vermelho

Uma crônica de Hugo Ciavatta

O homem cordial vinhedense

A classe média vai ao barbeiro. Uma crônica de Caio Moretto.

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sexta-feira, 26 de junho de 2015

Coluna do Leitor - Deportações e usos da História

. . Por Mistura Indigesta, com 0 comentários



Narrativas históricas e as deportações iminentes na República Dominicana


Em Milot, vilarejo ao norte do Haiti, a cada dia aumenta a incerteza quanto ao futuro de familiares que cruzaram a fronteira para a República Dominicana. Muitos esperam a chegada massiva de pessoas que serão alvo de expulsão, nomeado pelo eufemismo de “repatriação” do lado dominicano, e outros tantos confiam na possibilidade de que seus parentes consigam escapar da polícia. A lei 168-14, votada pelo Tribunal Constitucional Dominicano, em setembro de 2013, jogou retroativamente milhares de haitianos(as) e dominicanos(as) de origem haitiana em um verdadeiro limbo jurídico. No dia 17 desse mês, chegou ao fim o duvidoso Plano de Regularização de Estrangeiros, e milhares de pessoas nascidas a partir de 1929, julgados como pessoas "em trânsito", perderam sua cidadania por não terem conseguido comprovar a residência de um de seus pais.

Para isso, o Estado e parte da opinião pública da República Dominicana encontram justificativa na (re)produção de uma narrativa histórica de argumentos simplistas, isolados e distorcidos que ganha ares de consenso na mídia dominicana e encontra ecos em jornais estrangeiros: os conflitos e o ódio racial entre as duas nações deita raízes no início do século XIX, precisamente em 1822. Nesse ano, o Haiti, já uma nação livre e independente, fruto das guerras anti-coloniais e de um projeto abolicionista efetivamente universal, estendeu sua jurisdição ao lado dominicano - ainda uma colônia espanhola - unificando a ilha e decretando o fim da escravidão em todo o seu território. O movimento nesse caso é feito por meio do silenciamento de fatos como a participação efetiva e o apoio de vilarejos e de grupos dominicanos à unificação. A esse conjunto de esquecimentos seletivos e oportunistas soma-se ainda a importante participação do Haiti na guerra pela segunda independência da República Dominicana, em 1865, por meio do auxílio às tropas revolucionárias que buscavam suprimentos e munição do lado haitiano e na participação efetiva de colaboradores haitiano-dominicanos no conflito.

Revisões sobre tais episódios foram levadas a cabo por intelectuais-políticos como Juan Bosch, cujo projeto político foi solapado por um golpe de estado de um outro político também afeito à produção de narrativas históricas, o ditador Rafael Trujillo. A partir de 1930, Trujillo iniciou um projeto de “dominicanização da fronteira”, destruindo um rico universo social marcado por trocas, trânsitos e liberdades. Seu projeto político ganhou ainda um viés ideológico centrado, sobretudo, na consolidação do “anti-haitianismo”, política identitária baseada na produção de essencialismos e preconceitos frente à população vizinha, tendo como um dos seus mais marcantes resultados o sangrento massacre de 1937. A simbólica data de 1929 parece ter sido cuidadosamente escolhida pelos juristas que votaram a lei 168-14, desrespeitando a memória desse evento e tentando, sem sucesso, desvincularem-se do fantasma do ditador.

Nesse jogo de produção de narrativas deturpadas e de aplicação de políticas discriminatórias, muitos residentes da República Dominicana começaram a sofrer as consequências dessa lei, aprovada em maio de 2014, expostos(as) a ameaças de expulsão, a abusos e à perda de direitos. Na reprodução de uma imagem de um imigrante perigoso, "em trânsito" e atavicamente atrelado a fatos históricos equivocados, tira-se do campo de visão (e do próprio domínio da razão) a quantidade de riquezas geradas pelo trabalho de haitianos e haitianas nos campos de arroz e de cana-de-açúcar e na construção civil por todo o país.

Se voltarmos ao vilarejo de Milot, o auxílio que familiares vivendo fora do país enviam por meio de remessas garante uma maior diversidade de fontes de renda e a possibilidade de dar conta de instabilidades ecológicas, garantindo recursos para o plantio e a colheita. Recursos muitas vezes mais efetivos do que os planos e projetos de ONGs na região. Se pensarmos ainda no cenário da capital, Porto-Príncipe, devastada pelo terremoto de janeiro 2012, as remessas garantem a continuidade dos esforços de reconstrução de modo mais eficaz do que qualquer outro organismo que tenta gerenciar do alto os enormes fluxos da ajuda internacional.

Na definição das políticas de “lei e de ordem” na República Dominicana, narrativas sobre o passado e a escrita da história tornam-se objeto de disputa pública com atores em posições marcadamente desiguais. Se o passado poderia ser a matéria de um futuro imaginado como um lugar de grandes esperanças, como o é para tantos que migram "buscando a vida", ao invés disso, incertezas se multiplicam em meio a violências que ganham a chancela e a mão pesada do Estado.

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Algumas organizações na República Dominicana que lutam por direitos civis:




Rodrigo Charafeddine Bulamah, de Rondonópolis para o mundo, mestre e doutorando em antropologia pela UNICAMP, atualmente realiza trabalho de campo no Haiti.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Cadê o controle remoto?

. . Por Unknown, com 5 comentários

Há um enunciado, impreciso de minha parte, que atribuem a Deleuze, ou a Deleuze e Guattari, que gostaria profundamente de conhecer a obra, ou contexto em que ela foi utilizada. Isto, porque me dá receio falar dessa frase como se conhecesse os mesmos filósofos e suas respectivas obras. E possivelmente só me lembre dela porque um professor a repetia sempre muitas vezes. Tenho pra mim que em O que é a filosofia? a sentença a que me refiro não está. Como um excelente aforismo, é curta, bastante ampla e, por isso, me soa perigosa, pois assim me parecem aforismos: quando uma mesma sentença é utilizada em contextos diferentes, pode ter seu sentido muito alterado, quem a enuncia lhe atribui um significado desejado, e que outrora poderia não possuir. Mal comparando, seria como vestir roupas pretas dizendo ser “anarquista”, pois assim foram um dia identificados os integrantes desse movimento, e ainda podem ser; só que na Itália do período Mussolini, a cor negra das roupas lembraria os “camisas negras”, por exemplo, que nada tinham de “libertários”. Desse modo, é bom saber o contexto no qual uma oração é empregada para não cair em um quadro teórico indesejado.
Passados poucos dias da tragédia incomparável que se sucedeu no dia 12 de janeiro de 2010 no Haiti, o mundo inteiro sabendo, comentando e já tendo visto, pelos mais diferentes meios de comunicação, a magnitude de tudo, eu me perguntava qual era o sentido de “tolerar o intolerável”, de Deleuze. Acompanhando a reação de algumas pessoas, repetidas vezes, pedindo para trocar de canal na televisão, ou mudar de assunto, diante do "Haiti". Não toleramos, ou toleramos o intolerável? Será que cabe a oração nesta circunstância? Também me canso de repetições, era exaustivo tudo aquilo, um show, no sentido perverso do termo, um espetáculo macabro de imagens e vídeos. Um país esquecido, explorado, abandonado pela história dos destinados ao “progresso da civilização”, e que então se tornou o centro das atenções, mais do que nunca, urgentes. Por que virar o rosto e seguir caminho? Insensibilidade, não são pessoas legais? É como um filme de terror?
Outro filósofo, estadunidense, Richard Rorty, num conhecido debate com o antropólogo Clifford Geertz sobre etnocentrismo, relativismo, diversidade cultural, pontua muito bem um traço de nossa sociedade liberal, democrática: a tolerância à diversidade. Abriríamos constantemente, afirma Rorty, novas janelas para o mundo, para a multiplicidade presente nele, com cuidado, já que, mesmo assim, não compartilharíamos determinadas crenças, valores, pensando em radicalismos e fundamentalismos religiosos espalhados mundo afora. Tenho cá pra mim que, se não ignoramos “as janelas abertas”, estamos é fechando-as.
Agora, o que me deixou profundamente ... sem saber o que dizer ... foi um comentário no jornal Folha de São Paulo após o depoimento do nosso professor, Omar Ribeiro Thomaz, no mesmo jornal. Thomaz estava no Haiti junto com alunos e amigos nossos, desde o início de janeiro, o artigo dele foi publicado no dia 14 de janeiro. No relato de Omar, há um trecho claro, explícito, onde aquele país depois de um passado de escravidão negra, da proclamação da república ignorada, de um cenário político durante a Guerra Fria que os submeteu, como a quase toda América, à agenda estadunidense, de intervenção americana também sobre a economia, que sobre o manto da "ajuda" só destruiu, enfim, a forma como tudo isto pode se expressar seria então na cor da pele. Transcrevo: “Diante da fúria da natureza não cabe outro sentimento que o de uma frustração que deita raízes numa história profunda e que subitamente pode ganhar cor: o mundo dos brancos nos destruiu; o mundo dos brancos diz que quer fazer alguma coisa, mas o que faz, além de nutrir seus telejornais com fotos miseráveis que só fazem alimentar a satisfação autocentrada dos países ditos ocidentais? Não são poucos os agentes das organizações internacionais que anunciam que a “comunidade internacional” estaria cansada do Haiti. Após escutar os haitianos ao longo de anos, de tentar entender o sentido de sua história, digo que são os haitianos que estão fartos das promessas daqueles que dizem representar a “comunidade internacional”. E então, no dia seguinte, surge o dito comentário infeliz: "Assim como muitos sindicatos usam a luta de classes contínua como ferramenta para alimentar o seu fundo de comércio, alguns antropólogos parecem usar a luta racial para o seu. É o que concluo após a leitura do aloprado artigo de ontem de Omar Ribeiro Thomaz. Se alguém tiver dúvida de que a antropologia brasileira do século 21 tem uma agenda ideológica muito definida, basta ler as paranóias publicadas naquele artigo. São as viúvas do comunismo procurando outras bandeiras para prosseguir com sua luta destruidora da sociedade, não respeitando nem as tragédias dos povos." (João Luiz Da Costa Carvalho Vidigal - São Paulo, SP).
Por favor, “luta destruidora da sociedade, não respeitando nem as tragédias dos povos”?
?
O que seria “respeitar”? Tolerar o intolerável?
Por fim, dias depois, um dos editores do mesmo jornal, Ruy Castro, resumiu bem: “Nenhum livro, filme ou série de TV jamais poderá dar conta da real dimensão da tragédia de Porto Príncipe. Mesmo a simples reconstituição de um desses – daqueles – dramas individuais está além da capacidade humana de descrever o terror”. Só me pergunto qual o “terror” é aquele que vivemos, estando ou não no Haiti.
Quando inventarem um controle remoto pra trocar desses “tipos de canal”, por favor, me avisem...

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