VÍDEO: MURILO CAMPANHA CONTA ITATINGA

O psicanalista Murilo Campanha fala sobre Itatinga, um dos maiores bairros de prostituição da América Latina, onde ele tem seu consultório.

O nadador

Uma crônica de Hugo Ciavatta.

Ainda que as bolachas falassem

Crônica de Fábio Accardo sobre infância e imaginação

Ousemos tocar estrelas

Uma reflexão de Thiago Aoki.

Entre o amarelo e o vermelho

Uma crônica de Hugo Ciavatta

O homem cordial vinhedense

A classe média vai ao barbeiro. Uma crônica de Caio Moretto.

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domingo, 20 de maio de 2012

Quem/o que você quer ser quando crescer?

. . Por Caio Moretto, com 1 commentário


Para onde vai o operário? Teria vergonha de chamá-lo irmão.
Ele sabe que não é, nunca foi meu irmão, que não nos entenderemos nunca.
E me despreza... Ou talvez seja eu próprio que me despreze a seus olhos.”

(O operário no mar, Carlos Drummond de Andrade)

Que espelho cruel é um homem sem a sorte que eu tive. Penso nas pessoas que não têm nada e me desprezo a seus olhos. Quase não tenho coragem de pensá-las no singular. Dói menos pensar na miséria do que em um único miserável. Minha melancolia gauche não suporta um indivíduo singular. Que fiz eu para merecer tão mais que ele?

Tento ser feliz por culpa. Olho para minha tristeza, para meus problemas: problemas pequenos de um coração pequeno. Minha tentativa é matá-los de vergonha, por serem fúteis, por não serem nada: que são os meus problemas perto dos problemas de um desafortunado? Eu tive sorte. Fico feliz por um instante. Não seria justo ser triste. O mínimo que devo ao miserável é ser feliz. Será que ele se imagina em meu lugar? Serei eu um espelho menos cruel? Se a felicidade não está em mim... Com meu salário ele seria feliz? Quantos espelhos quebraria? Será que me olharia nos olhos? Não, pensar que no meu lugar ele seria fraco como eu não me redime.

Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo, mas estou cheio de escravos”
(O sentimento do mundo, Carlos Drummond de Andrade)

Não sou livre. Vejo as pessoas e vejo seus problemas. Vejo milhões de pedras no meio do caminho. Não pego nenhuma. Tenho medo da avalanche? Não. Elogio a avalanche. Mas não movo uma pedra. A metáfora é fraca. As palavras são fracas. Não são pedras, são pessoas. O mundo não tem problemas. Tem pessoas com problemas. Que são problemas sem pessoas? Pedra sou eu, que as vejo e não faço nada. Que poderia fazer eu com sonhos burgueses em frente ao espelho? Em frente ao operário?

Sim, meu coração é muito pequeno. Só agora vejo que nele não cabem os homens.”
(Mundo grande, Carlos Drummond de Andrade)

Quero ajudar o próximo, mas faço contas. Meu coração empresa não admite o prejuízo.

Quem eu quero ser quando crescer? Penso que quero uma casa, um emprego, um carro; que não quero problemas, quanto mais os do outro; penso que quero sossego. Mas não sei se é verdade. Que faria eu com o sentimento do mundo e sonhos tão burgueses? Mais escravos? Problemas pequenos de um coração pequeno. Sossegar um coração pequeno pode ser fatal.

Leio em Antônio Cândido que a ideia de escravo em Drummond é a de um homem privado dos meios de humanizar-se. Pode um burguês humanizar-se? Posso eu?

Quero ser livre de escravos. Quero libertar-me, mas poesia não me basta; o lirismo não me redime mais que a cerveja; e viver bêbado tampouco me liberta. É tudo anestesia, coragem artificial, fuga momentânea da coerência para poder olhar um irmão nos olhos.

Me libertará o amor? O amor me inspira e me dá coragem, mas começo a achar que só existe amor verdadeiro onde existem problemas, ou melhor, que só percebo o amor quando percebo os problemas dos outros. Acho que o eu quero mesmo é poder olhar nos olhos.

Nada de anormal no espelho, se aquele era mesmo eu”. (
O opositor, Luís Fernando Veríssimo)

Levanto o rosto e me procuro no operário, no cortador de cana, no menino de rua, no cobrador de ônibus, no alcoólatra, no mendigo. Enxergo apenas meu vulto, uma imagem de mim que ainda não se encontrou com suas próprias ações. Que espelho cruel que é alguém sem a sorte que eu tive: se nele não me vejo, que sou eu? Eu quero me humanizar.

De que me vale a coerência dos que trocam de espelhos? Eu quero é poder olhar o homem nos olhos. Qualquer homem. Quero problemas que não sejam meus. Mas meu coração ainda faz contas. E eu tenho medo.


*Texto-desafio proposto por Thiago.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Não me dê conselhos

. . Por Caio Moretto, com 5 comentários

- Oi, meu nome é Caio e estou a 12 dias sem beber.

- Pô, de novo? Você não consegue engatar um mês sem recair? Pensa na Mari pelo menos!

- Falou o senhor-bom-moço! O que você está fazendo aqui, então, mané?

Existe uma regra nos grupos Alcoólicos Anônimos que é bastante simples: ninguém comenta o problema do outro. Você vai, fala dos seus problemas e, se tudo der certo, dos seus progressos. Ouve o depoimento dos outros e pensa a respeito do que foi falado. Ninguém dá conselhos.

O conselho tem um poder perverso. Tira o foco de nós. É simples. Quando o outro fala você pode pensar no que ele está fazendo errado ou o que você está fazendo errado. E ver o problema do outro é muito mais fácil.

É engraçado isso. A gente só enxerga a nossa fraqueza no outro, quando não pode apontá-la nele.

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olhar_para_si_(ESCHER)Li esses dias o projeto de mestrado do Hugo, Esmeralda – Por que não dancei: autobiografia como exercício etnográfico e um pensamento ficou me perseguindo, me desconcentrando e me desconcertando a cada linha:

- Se toda crítica é autobiográfica. Por que não o contrário?

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Levei o texto do Hugo e essa pergunta para caminhar comigo por outras leituras e acabamos nos encontrando com esse texto do Luís Fernando Veríssimo sobre Fellini.

“Sendo o mais narcisista, Fellini é o mais italiano dos diretores italianos. E o mais divertido. O narcisismo italiano não implica introspecção ou exagerada auto-analise. Nem um fascínio exclusivo com o próprio umbigo. Ao contrário, é tão expansivo e abrangente que requer um espelho do tamanho da Itália.”

Um espelho do tamanho da Itália é uma autobiografia, uma crítica ou um exercício etnográfico?

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Querido Hugo, sua companhia em meus pensamentos ligou vários pontos. Acreditei ter entendido provisoriamente tudo sobre o mundo e sobre mim.

Essa separação entre crítica e autobiografia que me tirou o sono e me encurtou as unhas é absurda. É impossível falar de si sem falar do mundo e ingênuo achar que fala do mundo sem falar de si. Mas que bobagem, não?

“Parece-me um paradoxo crucial. Para existir plenamente como indivíduos, temos de nos inscrever numa narrativa mais ampla que a nossa.” (Jonathan Nossiter, Gosto e Poder)

Claro que hoje eu acordei com mais perguntas. Mas eram outras.

Obrigado,

Caio

P.S.: Peço apenas um favor. Só por hoje, não me dê conselhos, que eu estou em construção.

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“Isso de querer ser exatamente o que agente é, ainda vai nos levar além” (Paulo Leminski)

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Olhares Cotidianos

. . Por Unknown, com 5 comentários

"Nada me impressionou mais no relato que li, certa vez, sobre os últimos dias da Segunda Guerra Mundial na Europa do que saber que, enquanto as tropas russas entravam em Berlim, em algumas zonas da cidade o leite continuava a ser entregue, os carteiros continuavam a fazer suas rondas, a vida "normal" seguia seu curso. Não sei se achei isso admirável - o poder de resistência ao caos do banal e do cotidiano - ou um exemplo assustador da rotina desconsiderando a História. Viver "normalmente" num mundo em conflito permanente entre riqueza e miséria, privilégio e exclusão, progresso e atraso é a experiência comum de todo o mundo. Isso inclui os desenvolvidos e os sub, inclui todos sem exceção - a não ser, talvez, os escandinavos. Mas mantemos nossas rotinas mesmo sabendo dos bilhões de despossuídos da Terra, incluindo os que vemos pelas nossas janelas. Fazer o quê? Sentimos muito, nos indignamos, votamos em quem promete melhorar a situação pelo menos na nossa vizinhança, mas nossas vidas têm que seguir seu curso. Como em Berlim, o conflito está acontecendo longe do nosso cotidiano. Mas às vezes - como no Rio -, o conflito invade o cotidiano. A rotina é abalroada pela História. Nosso dia a dia não é mais refúgio nem álibi e somos obrigados a enfrentar a realidade."
(Luis Fernando Verissimo, A rotina e a História. O Estado de São Paulo, 9 de dezembro de 2010)

O dia mal amanheceu e, já de pé, é preciso tomar o café rapidamente antes que um possível atraso no trânsito atrase ainda mais o planejamento das visitas. É só mais um quarto indiferenciado, igual a tantos outros no edifício, num prédio também comum a tantos outros. Não, a primeira cena não é o traseiro de uma bela moça deitada num quarto de hotel, como no filme. Se tudo aqui pode ser visto como uma Viagem, um percurso cheio de estranhamento, falta lirismo ao olhar e aos olhares pelo caminho agora. Porque no corredor, ainda que muito cedo, o olhar com o qual se encontra é o mesmo daqueles dias em muitos lugares pela cidade, arregalado, mas ali com os olhos baixos e cravados num canto da parede, como se não prestasse atenção à passagem, embora cumprimente, dê "bom dia" e continue virado para baixo, numa subserviência que se confunde com (auto)repressão sofrida, e um pedido de "por favor, me ignore como sempre", ou "não me humilhe com sua presença". E depois de um "bom dia" quase formalmente obrigado, já no elevador social, com uns olhos que dessa vez não estão baixos, apenas no vazio, pro lado, pra cima, tanto faz, o saguão lhe reserva, além dos tais olhos arregalados, sorrisos de plástico não arregalados ao Senhor. E antes fosse Ele.
- Bom dia, senhor. Posso ajudar?
Após olhar pra trás e para os dois lados. - Bom dia ... Senhor?! (risos de constrangimento) Gostaria de retirar o carro do estacionamento, por favor.
Um carimbo, uma assinatura, e um pedido ao telefone, pronto:
- O veículo está a caminho, senhor. Mais alguma coisa?
- Não, obrigado. Tchau, tchau.
- Tenha um bom dia, senhor.

(Senhor, senhor, senhor... É adorável ser mimado, bajulado, paparicado, no entanto, ser servido é muito diferente. É uma humilhação recíproca, muitas vezes, de algo que alguém poderia muito bem fazer sozinho, mas que outro te faz, simplesmente.)
Curioso funcionários para cima e para baixo com as coisas de hóspede, quando não há necessidade alguma, parece que esperam alguma coisa em troca no final. Talvez um obrigado, valeu, parceiro, não precisava. Mas com o carro que saia na frente ficou um dinheiro na mão do manobrista … ? … Hum, gorjeta! Os sorrisos, a espera de alguns, isso explica expressões de contragosto depois de uma espera ou percurso não retribuído. E a cara de pobre meio que ajuda alguns outros hóspedes, às vezes, quando não, são apenas desprezados mesmo, e o serviço vira um favor. Ironias. Ainda bem que nem todos agem desse modo.

Pé na rua, ou melhor, rodas. A visita estava marcada, a espera é que não estava. Então, nada como conhecer a vizinhança, as pessoas que trabalham no local, interagir, não é mesmo, já que andava com preguiça até pra isso … Os olhos arregalados da vizinha do comércio na frente de nada sabia, somente que ali se juntava um monte de lixo, e “a mulher” logo voltaria pra reabrir o galpão. O simpático patrício de olhos arregalados, protegidos por um impactante par de fundos de garrafa, e que caminhava por detrás do próprio portão de sua casa, disse a mesma coisa, que “a mulher” fora com o caminhão, devia de ter ido buscar mais lixo.

Na calçada, aquela mulher de negro que olhava, arregalada e desconfiada, desconfiada se aproxima pra dizer o mesmo, que “ela voltaria logo”. E a senhorazinha sentada na escada da entrada, enquanto arrastava os olhos arregalados junto ao calcanhar no cimento, resmungava qualquer coisa pela falta de dinheiro. A mesma mulher de negro não era desconfiada, não, o movimento da cabeça era muito rápido, e o tom de voz era diferente agora, muito diferente em poucos segundos:
- Tá, tá, vai pra lá com essa conversa. Vai, vai, fica aí com a tua igreja e o teu Senhor!
(Senhor de novo? Potz … Não, dessa vez é Ele, de fato)
Atravessa a rua, irritada, discute, discute, argumenta, se altera, volta e senta, tudo isso faz sozinha. A senhorazinha sentada não deixa por menos:
- Fica aí falando mal das igrejas do Senhor que cê vai ver só!
(Impossível de acreditar, o sentimento de desespero ensaia dar as caras. De quem é a loucura?)

Caminhar pela rua, abandonando a calorosa discussão deve ajudar a engolir a situação. Mas é bom voltar logo, há outra visita marcada, e longe, claro. Nada lá é próximo, nada, ninguém, tudo é distante.

Ah, “a mulher chegou”:
- Vamos ali no bar, porque como cêis vê, não tem lugar aqui pra gente conversar, só os bag de prástico e papelão que nesse mês nóis num conseguiu vendê tão ocupando tudo, daqui a pouco temô que botar as coisa até na calçada, vai ver.
- Ah, sem problemas. Tomamos uma água, inclusive. Que calor é esse, né?
- Pro cêis vê, daqui a pouco cai aquela chuva de novo …


- Foi uma felicidade pra nóis trabalha na corrida, ah, nem fale, ganhamo cento e vinte reais em três dia. Eles vinha busca nóis lá na central de triagem, cedinho, depois voltamos a noite, deu quase uns quatro reais a hora de trabalho, né?! Era tanto material, tanta latinha, tanto papel, e o material, os resíduo ficou tudo pra gente vender pra recicrage, foi ótimo. Nunca trabalhamo tanto, ficamo atrás dos cesto, embaixo, era muito rápido, as pessoa ia passando, jogando as coisa, e já enchia tudo, trocávamo rapidinho e levávamo pros container, quando chegamo de volta já tava cheio os cesto de novo, e eram grandes, viu, pro cêis vê! Nhá, foi bom demais!
(Quase quatro reais a hora, três dias, cento e vinte reais? Matemática avançada, então foram mais dez horas de trabalho por dia. Se você está dizendo, com os mesmos olhos arregalados, com essa boca de poucos dentes apodrecidos, com esses braços sujos, com esse rosto marcado da sujeira que revira diariamente, e com essa felicidade humilhante pra qualquer ser humano, que trabalhou bastante naqueles dias, então realmente deve ter trabalhado feito um rato, escondido, sem ninguém ver, e mesmo que visível por poucos instantes, sem ninguém perceber. Agora que porra de remédio cê toma pra uma alegria assim?!)
- Expectativa?! Ah, ter um espaço maior pra trabalhar, né?! Cêis estão vendo, né?!
- Sim, sim, tá certo. Muito obrigado, viu, Dona. Vamos indo, então, estamos atrasados já. Tchau tchau.
- Obrigado por terem vindo, viu, corre porque si a chuva que vier pega ocêis, só bem tarde vão chegar no centro. E vão com Deus.
(… não, não, não, Dona, cê não tá entendendo, meu. cê não tá ligada. cê não pode dizer isso, tá ligado, não cola no enredo, saca? cê tem é que ficar com ódio, ódio, ódio, entende? cê tem é que ajudar a botar fogo em tudo isso, porra. que merda! e não achar que tá tudo indo, que vai dar tudo certo, só falta dizer que tudo vai dar "super certo", porque não vai, não tá, não tá, NÃO TÁ …)

Os olhos arregalados bem que podiam entrar numa daquelas categorias antiquadas, ultrapassadas, como se fossem traços, aspectos culturais, atravessando classes sociais, gênero, cor de pele. Afinal, se uma bandeira, se uma cor, se uma religião não define muita coisa, por que cargas d'água o rosto vai definir alguém … ? Assim, grotescamente, a explicação para os olhos arregalados, dos quais nem os orientais ali presentes escapam, seria fruto do volume de informação, da exigência de atenção que a cidade obrigaria, mergulhada em caótica pouco comparável, em confusão fascinante, num entorpecimento estúpido do qual muitos dizem saber a idiotice que é viver ali, mas da qual não saem pelo encanto paradoxal que tudo aquilo propicia, e por medo de perder o que reclamar, isto é, a própria condição. E se existem formas distintas de arregalar os olhos, infelizmente esta não é a de uma menina bonita com cara de sonsa. Naquela cidade imensa o movimento de arregalar os olhos não advém de susto, brincadeira ou diversão espontânea, imagina-se, apenas do cansaço, do medo, do receio, da preocupação, daquilo que alguns nativos chamam de estresse. Se fosse de qualquer alegria banal, o arregalar não traria pelos cantos brancos dos olhos aquelas marquinhas amareladas, pequeninos traços de esforço, de exaustão. Antes, em lugares distantes dali, e ali mesmo, ouvia-se a expressão “introspecção”, ou “ensimesmamento”. Arcaismo, sem dúvida, porque lá, na terra dos olhos arregalados, o ensimesmamento parece comum, é um peso diante dos olhos, como se os forçasse a saltar. A aparente introspecção já não se identifica mais, justamente por ter se tornado natural, tão normal pelas ruas.
Absurdos.

André Dahmer. Malvados

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Entre falas, coelhos e lapsos: escrita

. . Por Unknown, com 5 comentários

De ideias de girico, algumas vezes, mas apenas algumas vezes, que fique bem claro, muito raramente, aparecem coisas legais. Não digo isso por pura pretensão generalista, somente porque o sujeito que mediou os diálogos que foram editados em Conversa Sobre O Tempo solta uma pérola na abertura digna de nota. O jornalista Arthur Dapieve compara o encontro de Luis Fernando Verissimo e Zuenir Ventura a um reality show: uma ideia de girico. Você já imaginou Luis Fernando Verissimo e Zuenir Ventura em alguma coisa que lembre, de relance, de longe, sem óculos e um pouco ébrio, enfim, que lembre alguma coisa parecida com um Big Brother Brasil, ou A Fazenda, pra não dizer A Casa dos Artistas? Não dá. Uma ideia de girico, mas apenas para aqueles precipitados, como eu, que lêem a primeira oração e quase fecham o livro. Porque Dapieve se explica em seguida, dando a peculiaridade do encontro, realizado ao longo de cinco dias. O jornalista, assim, apresenta o resultado das conversas entre os escritores e amigos que o livro nos traz, e que dispensa incentivos a leitura. Dividida em quatro partes, Amizade & Família, Paixões, Política e Morte, esta última talvez reserve os momentos mais impressionantes do livro.
Me chamaram a atenção, contudo, as falas de Ventura e L.F. Verissimo a respeito da relação deles com a escrita.

Ventura: Escrever é realmente pra mim muito mais penoso. Ler é que é bom. Mas, enfim, escrevo por necessidade, escrevo porque é realmente o ganha-pão, minha maneira de viver, de sobreviver. (...)

L.F.Verissimo: Eu não concordo com a ideia de que o escritor tem uma função social. É sempre por prazer, para fazer uma terapia individual, fazer literatura é ter uma história que tem que botar para fora, de alguma forma. Mas acho que é também uma forma de organizar o meu pensamento. Muitas vezes eu descubro o que penso sobre determinado assunto quando começo a escrever sobre aquilo. É a tua reação diante do mundo, diante das coisas. É uma maneira de botar as tuas ideias para fora.

Ventura: Eu acho que, no meu caso, tem também essa pretensão, do papel, da função social. Existe a vontade de escrever para comunicar, para intervir de alguma maneira, mostrar sua opinião ou sua indignação, ou o que seja, em relação a um fato, a um episódio. (...) Isso pra mim é uma motivação, mas a motivação de escrever é muito mais a necessidade. (p.130-131)

Prazer, necessidade, função social, exteriorizar um história, ou um pensamento... Entre as discordâncias de ambos, me veio um conto de Julio Cortázar.

Carta a una Señorita en París está em "La isla al mediodia". O conto inicia-se com o narrador remetendo suas palavras à Andrée, proprietária do apartamento onde o próprio narrador se encontra. Há uma queixa do narrador, na carta, que se refere à dificuldade por entrar em uma "ordem fechada", como ele mesmo anuncia de início, ou: "Me es amargo entrar en un ámbito donde alguien que vive bellamente lo ha dispuesto todo como una reinteración visible de su alma". Ele situa essa dificuldade ao lado dos coelhinhos vomitados por ele, fato que o levou a escrever a mesma carta. Não, não está errado, o narrador vomita coelhos ao longo da carta. Isso, aqueles animaizinhos brancos mesmo, eles vão aparecendo enquanto ele conta os dias vividos no apartamento de Andrée. Cortázar é conhecido por uma escrita demasiado alegórica, com metáforas pouco usuais para falar de uma determinada temática. Difícil é saber, assim, exatamente, o que o escritor argentino diz quando usa o "vomitar coelhos".... "Como siempre me ha sucedido estando a solas, guardaba el hecho igual que se guardan tantas constancias de lo que acaece (o hace uno acaecer) en la privácia total." O narrador do conto relata, ainda, que soube, que sentiu que logo vomitaria um coelhinho ao entrar na casa de Andrée, e foram dez desde então. Todos os coelhos estariam agora dentro do armário dela, dormindo durante a noite. Dessa forma, a empregada, Sara, parecia desconhecer a existência dos coelhos, uma existência apenas noturna: "Su día principia a esa hora que sigue a la cena, cuando Sara se lleva la bandeja con un menudo tintinear de tenacillas de azúcar, me desea buenas noches - sí, me las desea, Andrée, lo más amargo es que me desea las buenas noches - y se encierra en su cuarto y de pronto estoy yo solo, solo con el armario condenado, solo con mi deber y mi tristeza."
Amargura, tristeza, e angústia também, quem sabe, sejam materializados em forma de coelhos na carta, na qual o narrador justifica a escrita em um momento: porque gosta de escrever e pois chove, simplesmente, construindo um cenário de solidão e isolamento.

Com as discordâncias de Luis Fernando Verissimo e Zuenir Ventura, o conto de Cortázar talvez nos ajude um pouco, imagino. Mas, antes, é justamente por L.F.Verissimo e Ventura discordarem da relação que eles próprios mantém com a escrita, como escritores, que a produção deles se torna atrativa. Se fossem iguais, seriam chatas, provavelmente. Tal como o são, são belas em suas diferenças.
Já o narrador de Cortázar, quando está estranhando profundamente o apartamento de Andrée, diz que "las costumbres son formas concretas del ritmo, son la cuota del ritmo que nos ayuda a vivir". No caso dele, num "ritmo" de angústia e solidão, aparentemente. Enfim, isso me fez imaginar que a escrita pode ser um "costume", muitas vezes ligado à memória, também, e não necessariamente amargurado:

"Estando mais ou menos na metade da metade da minha vida (1/4), já me dei conta de que me esqueço de várias coisas que vivi. Trechos cotidianos, principalmente, que me deixam surpresa quando os recordo. Se isso já ocorre agora, quando eu estiver em outras décadas talvez irei acreditar que minha vida foi composta só das recordações mais fortes, algo que penso ser muito sacana por parte do meu cérebro. Eu não respirei apenas aquilo que me marcou, existiram zilhões de dias e momentos banais. (...) Se estou condenada a deletá-las da memória só porque é assim que as coisas ficam com o tempo, pra que as vivi então? (…) É por isso que escrevo tanto, pra sempre ter ao meu alcance minha vida inteira." (Lapsos, Fernanda Maria Ribeiro Fernandes)

Quando a escrita aparece entre a memória e os fatos da vida, quase como uma ferramenta de registro, nesse pequeno espaço entre elas parece surgir a criação, a invenção de algo que não é nem o acontecimento em si, nem apenas a lembrança, mas literatura.

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