VÍDEO: MURILO CAMPANHA CONTA ITATINGA

O psicanalista Murilo Campanha fala sobre Itatinga, um dos maiores bairros de prostituição da América Latina, onde ele tem seu consultório.

O nadador

Uma crônica de Hugo Ciavatta.

Ainda que as bolachas falassem

Crônica de Fábio Accardo sobre infância e imaginação

Ousemos tocar estrelas

Uma reflexão de Thiago Aoki.

Entre o amarelo e o vermelho

Uma crônica de Hugo Ciavatta

O homem cordial vinhedense

A classe média vai ao barbeiro. Uma crônica de Caio Moretto.

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segunda-feira, 23 de junho de 2014

Poesia Conceitual

. . Por Caio Moretto, com 0 comentários

Poesia conceitual I

Manifestante é detido sem motivos, agredido com spray de pimenta após imobilizado, colocado em automóvel não identificado pela PM, levado a uma delegacia não informada e a ação dos advogados é obstruída.
- Noticia de jornal não é poesia.
- Não saiu em nenhum jornal.

Poesia conceitual II

Manifestante é detido sem motivos, agredido com spray de pimenta após imobilizado, colocado em automóvel não identificado pela PM, levado a uma delegacia não informada e a ação dos advogados é obstruída.
- Isso não é poesia.
- Também não é democracia.

Poesia conceitual III

Manifestante é detido sem motivos, agredido com spray de pimenta após imobilizado, colocado em automóvel não identificado pela PM, levado a uma delegacia não informada e a ação dos advogados é obstruída.
- Por que insiste nesse tema?
- Porque o tema existe.

Poesia conceitual IV

Para o espetáculo internacional, jornalismo em tempo real.
Para denunciar o abuso estatal, a violência policial e o escambau,
se virem com o boca a boca.

Poesia conceitual institucional número V

E quem falar será detido, agredido após imobilizado, colocado em automóvel não identificado pela PM, levado a uma delegacia não informada e a ação dos advogados será obstruída!

terça-feira, 4 de março de 2014

Nota Oficial sobre a repressão policial no carnaval de Barão Geraldo

. . Por Fábio Accardo, com 0 comentários


Dado os acontecimentos lamentáveis de violência policial durante o carnaval de Barão Geraldo, distrito de Campinas, abrimos espaço para hospedar a nota oficial do Bloco do Souza, que segue abaixo.


Bloco do Souza - Nota Oficial sobre a repressão policial no carnaval de Barão Geraldo

Durante a madrugada de ontem (03 para 04 de março), por volta das 02h da manhã, a roda de samba do Bloco do Souza, que acontecia depois da belíssima apresentação do Bloco Cupinzeiro, foi surpreendida por bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha.

Havia em torno de 500 pessoas quando a força policial (Guarda Municipal e Polícia Militar) chegou, sem nenhum diálogo ou interlocução com alguém do bloco. A roda de samba acontecia com muita paz, inclusive crianças brincavam no parquinho da Praça do Coco. 

O bloco, que ano passado teve como temática "SE NÃO FOR FALAR DE AMOR, EU NÃO QUERO NEM OUVIR" e esse ano trouxe o tema "NÃO VENHA BOTAR CORDA NO MEU BLOCO", foi atacado pela força policial enquanto os membros lutavam para salvar o carrinho que continha mesa, caixa de som e instrumentos musicais. Como a roda estava voltada para o centro da praça, praticamente ninguém conseguiu ver que a força policial estava chegando.

Após a correria, o que sobrou do bloco foi levado para a Moradia dos Estudantes da Unicamp, onde, na calçada, era possível ver pessoas feridas com bala de borracha, sufocadas com o gás lacrimogêneo ou simplesmente chorando assustadas e sem entender o porquê do ocorrido. Quando as pessoas ainda se recompunham aglomeradas, uma viatura da Polícia Militar parou, brecou ao lado destas, as encarou, sem prestar socorro, em mais uma atitude de intimidação. 

Somente nas primeiras horas do dia de hoje (04 de Março), é que o Bloco soube de supostas depredações que poderiam ter ocorrido na região central de Barão Geraldo e devido às informações desencontradas, não se pode afirmar como ou porque tudo começou. 

Diante das últimas ações discriminatórias e de violenta repressão das Forças Policiais, não só em Campinas, podemos concluir que estas mesmas ações durante o carnaval de Barão Geraldo ocasionaram o clima de insegurança e violência na noite passada.

O lema escolhido pelo Bloco e levado à rua este ano, "NÃO VENHA BOTAR CORDA NO MEU BLOCO", explicita o nosso posicionamento de ser contra ao “apartheid” de manifestações culturais, como o funk, o pagode ou quaisquer que sejam. Não entramos nesse ano na programação oficial e somos contra cordões de isolamento, áreas reservadas, separação cultural, e de classe, especialmente, em um carnaval de rua, que deveria ser aberto e do povo, onde todos possam construir, participar, se expressar e partilhar alegria.

Por fim, para além da indignação e do repúdio diante dos fatos desta madrugada, não podemos deixar de questionar: Quem está por trás da ação da polícia? Quem mandou a ação de repressão para acabar com o carnaval popular? Exigimos posicionamento oficial da Prefeitura Municipal de Campinas, da Secretaria Municipal de Cultura, por meio do Secretário de Cultura Ney Carrasco e ainda da Guarda Municipal e da Polícia Militar.

E tudo que se pensa na hora em que observamos a força policial tão despreparada para lidar com pessoas, é que, se com estudantes universitários, em um bairro classe média alta se age assim, imagina aonde a imprensa não chega.

BLOCO DO SOUZA
04/03/2014


OUTROS CARNAVAIS
(Jefferson Vasques)


Na cadência dos bumbos, 
e das bombas, 

com fogo nos pés
e gás nas rodas,

com a pele suada
tingida marcada,

seguimos o vertiginoso passo
da história.

São outros
os carnavais

mas velhas
as memórias

as sempre mesmas
alegorias de outrora:

na comissão de frente
a polícia vem grave, 
abrindo alas,
tocando o terror,
segurando as bases...

logo em seguida, 
afinando os surdos,
chorando a cuíca, 
desafinam 
os faceiros da mídia...

e, claro,
segurando o rojão,
assegurando a folia,
o cordão de isolamento
da justiça!

(são outros
os carnavais
que o Estado,
de camarote, 
financia)

Mas na cadência dos bumbos
na cadência das bombas,
os passistas vão sendo
batizados

e aprendem
o seu devido lado
na rua

o apertado passo da 
marcha

qual couro canta
na calada

o enredo que nos
aguarda.

Apesar
de toda a desarmonia, 
sim,
seguimos cantando, 
dançando e sorrindo

agora
empunhando 
novas máscaras

ousando novas
fantasias.

Assim,
aos poucos,
vamos forjando
um bloco
nosso partido alto
nesse samba!

E a cada novo
breque fora
do tempo
a cada nova
bomba

só cresce, 
- ah, só cresce! -
nossa roda 
de bamba!

sábado, 21 de dezembro de 2013

Vídeo - Murilo Campanha conta Itatinga em Campinas

. . Por Mistura Indigesta, com 1 commentário

O Mistura Indigesta lança hoje seu primeiro vídeo. É uma conversa com o psicanalista Murilo Campanha, que atende em um consultório no bairro do Itatinga, em Campinas, uma das maiores zonas de prostituição da América Latina.




sexta-feira, 28 de junho de 2013

O que vi nesses últimos dias - Sobre as manifestações pelo país

. . Por Thiago Aoki, com 3 comentários



Mas se através de tudo corre a esperança, então a coisa é atingida. No entanto a esperança não é para amanhã. A esperança é este instante. Precisa-se dar outro nome a certo tipo de esperança porque esta palavra significa sobretudo espera. A esperança é já. Deve haver uma palavra que signifique o que quero dizer. (Clarice Lispector)

Estranho esses últimos dias.

Vi pessoas discutindo estratégias de luta no café da manhã, política de mobilidade urbana no almoço e emendas constitucionais durante o jantar. Uma campeonato internacional no Brasil, é verdade, mas este ficou no máximo para o cafezinho entre as refeições.

Vi pela primeira vez reivindicações que não são apenas contra algo, mas por algo. Vi o congresso aprovando coisas que todos queriam à toque de caixa, consensos imediatos entre situação e oposição, como se quisessem em alguns dias acabar com séculos de distanciamento do resto do país. Vi lideranças se reunindo, marqueteiros se martelando, bandeiras sem saber quem as poderia defender.

Vi a mídia olhando-se no espelho, não gostando do que via, mas nada que apavorasse tanto como quando olhava pela janela e via a multidão dizendo que o povo não é bobo. Teve cronistas especializados em verdades absolutas voltando atrás, emissoras se justificando, termos que mudaram e o apoio às manifestações, agora democráticas. Um dicionário de antônimos em menos de uma semana, que contou ainda com dois garotos bailando jornalistas e coronéis no programa de TV.

Vi gente de verde amarelo dizendo coisas absurdas sobre o Brasil. Militantes de vermelho que não aceitaram gente diferenciada no protesto. Pessoas aprendendo política na prática, que tinham interesse e nunca souberam que podia ser tão legal esse treco. E no meio disso tudo, vi muitos que pareciam nada ter a perder, esses que vi, mas não identifiquei, tinham pedras nas mãos e os rostos escondidos, dava pra ver apenas os olhos. O que traziam esses olhares? Ainda me pergunto sem respostas.

Só sei que eu vi o Caveirão da polícia recuar e uma tropa da cavalaria fugindo de uma multidão.

Vi ainda gente ser demitida por posicionamentos políticos, um rapaz morrer caindo da ponte, uma gari enfartar com o gás, repórter tomando tiro de borracha no olho, chacinas na periferia, bombas lançadas de helicópteros contra a multidão, queimaduras de terceiro grau. Não, a barbárie não triunfou, ela apenas se expôs.

Mas também vi amigos criando, quase que por necessidade visceral. Inventando poesias, músicas, crônicas, quadrinhos, teorizando às pressas, como se dissessem, “eu também não sei o que será que será”. Alguns até se tornaram referências nas redes sociais. E na efervescência de ideias e produções despertas dentro cada um, uma alegria, ainda que contida, em pensar que a ação coletiva – adormecida há tanto tempo no colo de nosso ceticismo – poderia ser possível.

E talvez por isso, ou por algum motivo que ainda não consegui colocar em palavras, entre as frestas da fumaça do gás lacrimogêneo eu vi nesses últimos dias a esperança, nebulosamente, aparecer.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

SEIS NOTÍCIAS DA FOLHA SOBRE A PM QUE PODERIAM SER DA DITADURA

. . Por Caio Moretto, com 0 comentários

Em texto anterior tentei demonstrar que o problema da violência da PM não está unicamente na índole do policial por trás da farda, mas no próprio sistema de funcionamento militar da instituição, incompatível com nosso sistema democrático. Ocorreu-me, porém, que seria interessante mostrar exemplos de atos da PM consensualmente anti-democráticos. Para evitar acusações de manipulação de dados baseadas na fonte da informação, reuni seis notícias apenas da Folha de S.Paulo que relatam algumas ações da PM ocorridas nos últimos dias de manifestação que poderiam facilmente ser confundidas com notícias de uma ditadura.

(Clique com o botão direito no endereço e selecione "abrir link em janela anônima" para acessar o conteúdo)

1 - PRISÃO POR AVERIGUAÇÃO

2 - CENSURA DE IMAGENS OBRIGANDO MANIFESTANTES E REPÓRTERES A APAGAR ARQUIVOS

3 - APREENSÃO DE LIVRO EM CASA DE SUSPEITO PARA JUSTIFICAR PRISÃO POR PERFIL SUBVERSIVO

4 - TIRO DE BORRACHA NO OLHO DE PROFISSIONAL COBRINDO A MANIFESTAÇÃO

5 - OMISSÃO DE SOCORRO E TIROS CONTRA QUEM TENTAVA SOCORRER JOVEM FERIDO

6 - ASSASSINATO DE INOCENTES

Fora essas que a Folha revelou, temos visto diversas outras acusações contra ações da PM que não têm saído nos jornais, como abuso de manifestantes mulheres por parte de policiais, a instauração do toque de recolher em Belo Horizonte, fechamento do espaço aéreo durante manifestações para impedir fotos jornalísticas que possibilitem contagem mais precisa do número de participantes, bombas de gás lacrimogêneo em ambientes fechados e dentro de carros, tiros contra pessoas que estavam em suas residências apenas filmando as manifestações, policiais atuando sem identificação e outras que circulam pelas redes sociais por meio de denúncias e vídeos gravados por manifestantes.

Todas essas são notícias sobre a PM que circularam em apenas duas semanas de manifestações. Podemos seguir acreditando no discurso de que são abusos isolados e culpando os PMs que cumpriram as ordens ou podemos nos colocar seriamente a discussão sobre a coerência de termos uma polícia militar em um regime democrático e aproveitar esse período para democratizar e desmilitarizar nossa polícia.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

A PM e o equilíbrio de poderes

. . Por Caio Moretto, com 1 commentário

Vejo pessoas falando muito de equilíbrio de poderes após a ideia de constituinte. Que bom! Mas vamos manter a coerência e falar também do equilíbrio de poderes quando a Polícia Militar cria o pânico e mata antes de julgar. Quem foi juiz, legislador e executor? Não vejo ninguém falando de equilíbrio de poderes contra a PM.

Falar pela desmilitarização da polícia é respeitar o homem e a mulher por trás da farda, pois não há possibilidade de humanização do profissional nessa lógica militar. O direito militar funciona na lógica dos fins, não se preocupa com a legitimidade dos meios. Se um PM descumpre uma ordem injusta não há nada que a população possa fazer para que pague quem deu a ordem e não quem se recusou a cumpri-la, porque o que diz se a ordem foi boa ou não, pela lógica militar, é se foi alcançada ou não sua finalidade (que não é proteger o cidadão, e sim à ordem, deixemos de ingenuidade). Desmilitarizar a polícia é dar ao policial a garantia de que ele não precisará cumprir ordens injustas, que é o mínimo de garantia que uma pessoa precisa ter para trabalhar de forma digna. Desmilitarizar a polícia é estender aos policiais os direitos democráticos que já conquistamos.

A mídia incentiva a ação da PM contra o vandalismo como se isso fosse defender a democracia, mas a PM não se submete às nossas leis civis, a essa que chamamos de Constituição e que tantos têm falado em proteger após essa ideia de constituinte. Se vamos falar de Estado democrático de direito não temos que incluir a polícia nessa lógica? A gente vai comprar o discurso da mídia e fingir que não viu que o "vândalo" que deu o pontapé inicial para começar a invasão do Congresso era fuzileiro infiltrado? Que não vê as chacinas no Rio? A prisão para averiguação?

Se quisermos (e aqui me incluo como cristão) falar de não violência, não podemos ver a PM como exceção. Quem traça essa linha? Se não adotarmos uma postura crítica acabaremos defendendo o opressor achando que está defendendo a democracia. Que democracia é essa em que o poder militar assume todos os poderes e não se submete a leis criadas pelo povo?

Não vai ter golpe nenhum porque não precisa: vivemos em uma guerra civil não declarada. Quando Martin Luther King apontava as vitórias do movimento não violento tinha uma que era especialmente significativa: trazer para a luz do dia e para o centro da cidade a violência que é cometida à noite na periferia. É isso que eu tenho visto.

Se o objetivo é a democracia, não é necessário que a polícia se submeta às leis democráticas?

domingo, 29 de janeiro de 2012

A violência das Leis

. . Por Caio Moretto, com 1 commentário

“As notícias de Pinheirinho são de revirar o estômago”

– Hugo Ciavatta

“Porque a legalidade nem sempre está ao lado da moralidade”

-Thaís Soares

Separar filhos dos pais e ameaçar a perda da guarda por causa da falta de moradia (que o próprio governo acabou de tirar); usar ação policial violenta dentro dos alojamentos criados pela própria prefeitura como solução emergencial à desocupação; usar farda sem identificação para atos de violência; não permitir o registro e sequer a entrada da imprensa no local; dizer que está tudo sendo feito para cumprir a lei e que não houve confronto quando há vídeos que provam o contrário. Que democracia é essa?

Relatos e imagens da ação policial no Pinheirinho.

A Polícia Militar já provou que o Selo Pinochet de Direitos Humanos foi um prêmio merecido. A Folha de S. Paulo publicou esta semana que um em cada cinco mortos em São Paulo é vítima da PM. E todo mundo já percebeu que, mesmo assim, a receita de Kassab para governar a capital paulista é colocar o maior número possível de militares no comando das subprefeituras. Isso tudo sem falar da mal planejada e violenta ação na cracolândia.

Mas este não é mais um texto sobre a injustificável violência das recentes ações policiais. Quero falar de uma outra forma de violência menos comentada (como já escrevi em outro post, é dificil falar de outra coisa quando a barbárie arromba a porta) que se evidenciou na tentativa alckimista de se isentar da responsabilidade sobre a ação violenta no Pinheirinho, passando a bola para o judiciário e para a inevitabilidade do cumprimento da lei. Cortando as palavras difíceis, Alckmin diz que não havia o que ele pudesse fazer, pois era preciso cumprir a lei e que abusos serão investigados. Como se a brutalidade de nossa polícia não bastasse, o governador nos alerta, assim, sobre a violência impessoal de nossas leis.

Boechat sobre a desocupação da Favela do Pinheirinho.

As comparações de Alckmin com Hitler se multiplicaram na internet, obedecendo a lei de Godwin. Apesar do uso exagerado desse recurso, acho importante que a comparação esteja sempre à mente. O nazismo foi talvez o pior episódio de nossa história e devemos organizar todos nossos esforços enquanto sociólogos e enquanto seres humanos para impedir que ele se repita. A referência, porém, está desgastada. Assim, associamos rapidamente a comparação nazista à violência policial, mas não paramos para pensar nas outras formas de opressão que caracterizam um regime ditatorial. Por isso, apesar de toda análise carregar direta ou indiretamente uma proposta de transformação, acho que é interessante, em alguns momentos, tentar separar os métodos de militâncias, que valorizam mais a caricatura, dos métodos de estudo, que valorizam mais a análise.

Leo Strauss chamou de reductio ad Hitlerum a manobra de tentar invalidar um argumento dizendo que o mesmo era utilizado por Hitler. Nas palavras do sociólogo “é preciso evitar a falácia que nas últimas décadas tem sido frequentemente utilizada em substituição ao reductio ad absurdum: o reductio ad Hitlerum. Uma opinião não é refutada pelo fato de ocorrer que ela tenha sido compartilhada por Hitler”.

Não gosto de citar Marx, por motivo semelhante: não gosto de dividir o público por seus preconceitos acadêmicos. Sempre que Marx é citado, corre-se o risco de perder o interesse ou o foco leitor, que se distrai com discussões sobre a validade ou não do marxismo e a tentativa de rotular o escritor de marxista ou não-marxista, como se esses fossem os dois únicos carimbos que possuísse. Enfim, Marx rouba a atenção da discussão que se propunha originalmente – no nosso caso, a crítica ao argumento legalista na defesa da reintegração de posse no Pinheirinho. Por isso, antes de fazer a próxima citação, peço que todos nos empenhemos em evitar um possível reductio ad Marxium. Se mesmo assim o leitor não conseguir ler a citação com alguma dose de imparcialidade, substitua-a por algum trecho da mais anarquista e antropológica Origem da desigualdade entre os homens, de Rousseau, ou procure outro pensador. O argumento que quero mostrar aqui não é exclusivo nem original de Marx e não quero abordar as propostas de ação por ele propostas. Portanto, não precisamos ser marxistas (seja lá o que isso signifique hoje) para concordar com a ideia de que a lei não é neutra e não garante a igualdade entre os homens. A citação do 18 Brumário de Luís Bonaparte, contudo, traz sutilezas interessantes e é a única à qual minha pouca erudição foi capaz de recorrer neste momento.

O inevitável estado-maior das liberdades de 1848, a liberdade pessoal, as liberdades de imprensa, de palavra, de associação de reunião, de educação, de religião etc., receberam um uniforme constitucional que as fez invulneráveis. Com efeito, cada um dessas liberdades é proclamada como direito absoluto do cidadão francês, mas sempre acompanhada da restrição à margem, no sentido de que é ilimitada desde que não esteja limitada pelos “direitos iguais dos outros e pela segurança pública” ou por “leis destinadas a restabelecer precisamente essa harmonia das liberdades individuais entre si e com a segurança pública. (...) A Constituição, por conseguinte, refere-se constantemente a futuras leis orgânicas que deverão pôr em prática aquelas restrições e regular o gozo dessas liberdades irrestritas de maneira que não colidam nem entre si nem com a segurança pública. E mais tarde essas leis orgânicas foram promulgadas pelos amigos da ordem e todas aquelas liberdades foram regulamentadas de tal maneira que a burguesia no gozo delas, se encontra livre de interferência por parte dos direitos das outras classes. (...) Como resultado, ambos os lados invocam devidamente, e com pleno direito, a Constituição: os amigos da ordem, que ab-rogam todas essas liberdades, e os democratas, que as reivindicam. Pois cada parágrafo da Constituição encerra sua própria antítese, sua própria Câmara Alta e Câmara Baixa, isto é, liberdade na frase geral, ab-rogação da liberdade na nota à margem. Assim, desde que o nome da liberdade seja respeitado e impedida apenas sua realização efetiva – de acordo com a lei, naturalmente – a existência constitucional da liberdade permanece intacta, inviolada, por mais mortais que sejam os golpes assestados contra sua existência na vida real.

A estratégia de buscar na necessidade do cumprimento das leis a justificativa e a isenção moral para a brusca retirada dos moradores do Pinheirinho de suas casas é colocada em xeque com a simples pergunta: “e o direito à moradia?”. O argumento foi resumido criativamente com as seguintes palavras de ordem: “quando morar é um privilégio, ocupar é um direito”. Eis o centro da questão. Há direitos que valem mais do que outros. Por que o governo não se vale do mesmo empenho utilizado na retirada das famílias para garantir a moradia digna àqueles que acusa de invasores e ocupantes? Os dois lados poderiam, como vimos no trecho citado, invocar a Constituição com pleno direito. Os retirados já não o fazem, pois sabem na prática que a lei não é neutra. O direito de moradia é liberdade genérica e não vale nada.

Cumprir a lei e investigar os abusos seria uma resposta bastante satisfatória numa situação ideal. Numa situação de desigualdade garantida por lei, ela é inaceitável. Como disse Boechat, “a lei está errada!”. A lei não é aqui senão o próprio abuso, a solidificação das desigualdades. A violência do Estado é manifesta em suas leis tanto quanto em suas ações violentas.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Selo Pinochet de Direitos Humanos 2011

. . Por Caio Moretto, com 5 comentários

selo_pinochet3 Trabalhei algum tempo como redator publicitário. Durante a crise de consciência que começou a me afastar deste ofício, um amigo, na tentativa de me convencer a continuar na área, acabou me dando o empurrão final que eu precisava para sair. Na época estávamos fazendo a propaganda de um selo ambiental para uma companhia de papel, que carinhosamente apelidei de Selo Pinochet de Direitos Humanos. Tentando aliviar minha consciência ele me disse: “Armas não matam pessoas, pessoas matam pessoas.”
procusto Existe uma figura da mitologia grega que se repete em algumas outras mitologias. Não sei a explicação. Trata-se do sádico Procrusto. Gentil, ele recebia os estrangeiros em sua casa. Se o hóspede fosse menor do que a cama oferecida, ele o esticava até ocupar todo o espaço. Caso fosse maior do que o leito, toda parte do corpo que ficasse para fora era amputada. Reza a lenda (e a wikipedia) que alguns habitantes de Sodoma e Gomorra utilizavam esse método de tortura com forasteiros. Novamente, não sei o que é verdade. A parte mais cruel, porém, é que Procusto tinha duas camas, de tamanhos diferentes.
Nós não somos muito diferentes. Quando convém, subordinamos o problema moral e individual ao coletivo ou ao próximo e nos acomodamos no fatalismo de suas determinações: “sou assim porque não tive educação”, “meus pais não me deixavam fazer nada/ não impuseram limites”, “é o sistema” ou ainda outra que costuma passar desapercebida “se eu não fizer este trabalho outro fará em meu lugar”. Porém, quando não convém, ignoramos toda forma de determinação e culpamos os erros individuais: “o problema não é a forma de governo, é o governante corrupto”, “não é a polícia, é o policial que abusa do poder” ou “só pessoas matam pessoas”. E assim vamos fazendo nossa sociologia desregrada, alternando culpados para não mudar nada e continuar com nossa consciência tranquila ou  para arranjar bodes expiatórios, executá-los secretamente num porão, no deserto ou no oceano e seguirmos com nossas vidas.
Não há, porém, nenhum determinismo no mundo que anule uma intenção. Marketing é maquiagem: você pode usar para esconder os defeitos ou para realçar as qualidades. Mas neutro não pode ser. Marketing toma partido por princípio. Tem sempre uma intenção. Essa é a própria ideia do marketing. As empresas que mais poluem são as que mais investem em programas (e em publicidade) de responsabilidade ambiental. Isso para não falar em responsabilidade social e escravidão moderna.
Por isso fiquei em alerta quando vi a seguinte notícia: Estigmatizada, PM paulista quer investir em Direitos Humanos. Nos dias seguintes vi uma imagem, duas notícias e um pm_spray_criancarelato chocante sobre a polícias paulista, carioca e americanas. A imagem é esta ao lado. As medidas já foram tomadas e o capitão da PM Bruno Schorcht, que disparou o spray na criança foi promovido! Nos EUA circula um vídeo semelhante, do policial John Pike esvaziando seu spray de pimenta em manifestantes sentados e pacíficos no campus da UC Davis, na Califórnia. O relato é o espancamento do antropólogo Danilo Paiva Ramos por um PM na Avenida Paulista. E as notícias foram, primeiro, a doação de US$ 4,6 milhões feitas pelo banco JP Morgan Chase à polícia de Nova York, a maior já feita à fundação em sua história. A nota foi publicada no site do banco sem grandes preocupações. Nos dias seguinte mais de 700 manifestantes do movimento Occupy Wall Street foram presos nas cercanias do banco. Por fim, li com desgosto a nomeação do tenente-coronel Salvador Modesto Madia, co-executor do massacre do Carandirú, ao comando da Rota.
Portanto, é com muita insatisfação que entrego este Selo Pinochet de Direitos Humanos à Policia Militar, seus representantes Bruno Schorcht, Salvador Modesto Madia e John Pike, aos bancos e instituições que desinteressadamente investem na militarização da polícia e do exército e à todos nós que continuamos acreditando que o preço da liberdade é a eterna e militarizada vigilância.
A minha alma tá armada e apontada para cara do sossego
Paz sem voz, não é paz, é medo
As vezes eu falo com a vida, as vezes é ela quem diz:
"Qual a paz que eu não quero conservar, prá tentar ser feliz?"

terça-feira, 7 de junho de 2011

Amai-vos uns aos outros

. . Por Fábio Accardo, com 2 comentários

Ao que me toca a memória, nas brincadeiras infantis, de rua, havia uma que chamava polícia e ladrão de fácil explicativa: quem é polícia tem que "pegar" o ladrão. Jogo simples baseado num fato social onde a polícia é vista como agente da segurança e da ordem social e que deve prender o ladrão, aquele agente que causa desordem.

Lembranças me vêem a mente sobre o fato de nossa bandeira nacional ter algo de positivo quanto a ordem na sociedade. Uma professora de um colégio católico no qual estudei, acho que de geografia (ou história), lembrava que a ordem era princípio básico para o progresso de um povo.

Lembro-me de há tempos ter visto um filme em que bombeiros não serviam mais para apagar fogo, resgatar pessoas, salvar bichos, etc Essas coisas não mais existiam. As pessoas, naquele filme, viviam de pastilhas coloridas e "apreciavam" muito a televisão. Mas haviam os rebeldes que liam livros. Essas para o sistema podiam pensar e por isso poderiam ser diferenciadas e causar alguma desarmonia na sociedade. Bombeiros, então, serviam para colocar fogo nos livros. Incendiá-los. Numa busca interminável pela ordem na sociedade.

Bombeiros e policiais, são agentes da ordem. A nossa bandeira diz que a ordem leva ao progresso.

Policiais prendem bombeiros.

Bombeiros são agentes da desordem?

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