VÍDEO: MURILO CAMPANHA CONTA ITATINGA

O psicanalista Murilo Campanha fala sobre Itatinga, um dos maiores bairros de prostituição da América Latina, onde ele tem seu consultório.

O nadador

Uma crônica de Hugo Ciavatta.

Ainda que as bolachas falassem

Crônica de Fábio Accardo sobre infância e imaginação

Ousemos tocar estrelas

Uma reflexão de Thiago Aoki.

Entre o amarelo e o vermelho

Uma crônica de Hugo Ciavatta

O homem cordial vinhedense

A classe média vai ao barbeiro. Uma crônica de Caio Moretto.

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quinta-feira, 10 de março de 2011

Por uma política das Baratas...

. . Por Thiago Aoki, com 3 comentários

Primeiro, foi simples como reajustar os ponteiros do relógio e fingir que voltei no tempo. Depois, foi difícil, como mexer em lixos sem luva e, no final das contas, com o que me constituíra.

A história da humanidade contada em livros, os filósofos que venceram, os sempre-mesmos-donos-do-poder e o poema - métrico e rigoroso - do trágico jornal de cada dia. Todos eles convencem: somos avessos a mudanças.

Kafka mostrou que, às vezes, é preciso ser barata para se sentir humano. A política dominante, seja ela de exceção ou permanente, tem eliminado sistematicamente as baratas do mundo. A necessidade de cada ser nascido neste país tornar-se barata deve ser a base de qualquer proposta de uma nova política.

Não havendo condições múltiplas para o distanciamento (para se ser barata) não é possível se encontrar no mundo, mas isso não tem desesperado ou provocado hecatombes, pois sequer se tem a possibilidade de procura. E assim perpetuam-se os dias.

O objetivo da educação deveria ser o de se preocupar com o que as pessoas trazem consigo para então transformá-las em baratas e promover a reflexão crítica (ai, que medo de usar essa tão malfadada palavra!). Explico-me, o batido termo “reflexão crítica” nada tem de esquerdista ou qualquer “ista”, como indica a primeira leitura. Pelo contrário, longe de esboçar uma ideologia, é a possibilidade de escolha de instrumentos para se compreender o processo em que estamos inseridos. Deveria ser pressuposto para qualquer mudança, destra ou canhota.

A cultura, por outro lado, teria que partir daquilo que as pessoas não têm, do que causa estranhamento. Até repulsa é melhor do que o entretenimento que acomoda o mundo à mediocridade (no sentido etimológico da palavra – “situação mediana, comum”). A autonomia ideal do artista deveria permitir que ele fosse uma barata ainda mais barata que as outras, avessa ao óbvio, provocativa – com merecido financiamento.

(diminuir verba desses dois orçamentos não é postura de qualquer governo preocupado com as baratas)

Mas não é possível ser barata sem o risco de ser pisoteado. Nem na academia, templo do saber, aconchego da certeza. Tampouco no mercado, límpido rio de fluxo contínuo, com poucos navegantes e muitos peixes. A casa da barata é suja, incerta, muda a cada novo lixo, itinerante, sem as amarras do que é certo ou constante. Sem rumo, as baratas vagueiam pela rua em meio ao fétido, observando sujeiras escrotas e ticando item por item, com mais interrogações e exclamações do que pontos finais no corriqueiro tsunami de almas. (credo, "tsunami de almas" isso soa tão apelativo! Por que sentimos um quê de vergonha alheia com posturas humanistas em um mundo tão sabidamente desumano?).

A esquerda tem sido politicamente correta demais para as baratas (defendem os bois e a sustentabilidade, mas não exitam em jogar veneno na primeira cucaracha com perguntas impertinentes que encontram pela frente). A direita quer manter coisas como estão e isso as baratas também não gostam, já que sua função primeira é provocar momentos de exceção. No fundo suas antenas – esquerda e direita – percebem dos dois lados o sonho de um mundo sem baratas.

Sem espaços fixos, as baratas atuam em brechas, no escuro, por frestas pequeninas de algumas casas, bem menores que a janela com vista pro mar ou a tela LCD expandida. Às vezes em grupos, assutam alguns, provocam outros, voam causando pequenos estragos, ativam com ira a chinelada dogmática. Diz-se, da barata, “tonta”, por não ter um rumo certo, mas, no fundo, ela não quer ter um rumo, porque toda direção que serve de norte é, por si só, incompatível com sua natureza. Ela muda constantemente, pois está sempre se estranhando e estranhando a tudo que encontra pelo caminho - o mais normal comportamento e o mais inconseqüente devaneio. Pensa sempre porque incomoda tanto a diferença e como carregar o fardo de ser nojenta. E não pense que com tantas mudanças de rumo ela não vai a lugar algum. Ela apenas não é linear como a lógica de nosso tempo espera.

A última vez que encontrei uma barata, faz umas duas semanas, ela estava atrás de meu shampoo, escondida no canto do banheiro. Ela me perguntou com voz serena:

- Por que Nelson Rodrigues explica melhor a sociedade que Marx?

Fiquei em silêncio que confidenciava minha não resposta.

Antes de abrir as asas e levantar voo com medo de uma chinelada, ela segredou pra mim:

- As vezes, ser barata dói.

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