VÍDEO: MURILO CAMPANHA CONTA ITATINGA

O psicanalista Murilo Campanha fala sobre Itatinga, um dos maiores bairros de prostituição da América Latina, onde ele tem seu consultório.

O nadador

Uma crônica de Hugo Ciavatta.

Ainda que as bolachas falassem

Crônica de Fábio Accardo sobre infância e imaginação

Ousemos tocar estrelas

Uma reflexão de Thiago Aoki.

Entre o amarelo e o vermelho

Uma crônica de Hugo Ciavatta

O homem cordial vinhedense

A classe média vai ao barbeiro. Uma crônica de Caio Moretto.

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quinta-feira, 10 de outubro de 2013

A menina mais chata do mundo

. . Por Unknown, com 2 comentários




Quando eu tinha quatro anos, minha mãe me veio com uma conversa de que eu ganharia uma irmãzinha. Conversa fiada, claro. Ganho nenhum, eu não havia pedido uma irmã, ou irmão, não era presente: eu não havia pedido concorrência. Era sim um grandiosíssimo absurdo, onde já se viu: quem tem como filho a mim, eu, eu mesmo, euzinho, vai lá querer outra criatura?! Não, claro que não, não tinha o menor cabimento. 






Quase vinte e dois anos depois, de maneira igualmente absurda, eu estava assistindo à TV, na sala, e papai virou-se pra mim comentando essa foto acima, mas uma das mãos ele levou ao rosto. Quem conhece papai sabe, ele é referência internacional em dramaticidade. Ele é mimado que só, é chorão, chorão, chorão, muito chorão, papai fala chorando, pede pra passarem o feijão na mesa do almoço e não se sabe se o estão impedindo de comer. Eu mesmo nunca sei se passo o feijão seguido de um lencinho, tamanho drama cotidiano. Papai levava uma das mãos ao rosto se referindo à foto, e disse, "ai, toda vez que olho pra esta foto, me vem até uma coisa, me emociono tanto". Três metros dali, no corredor-salinha-cafofo, o ser que habitava a foto, vinte anos maior, fez um "óinnnn" demorado. Ela já se tornou, mesmo, a menina mais chata do mundo. Eu, que sou muito sensível, oh, continuei trocando de canal na TV, indignado, não tinha desenho animado algum que prestasse.



Na foto, ela parece ter quatro anos, no máximo. Mas eu me lembro que, depois de mamãe me comunicar o "ganho" de uma irmãzinha, eu fiz o que deveria, negociei rapidamente. Lucila, amiga da família, acertou comigo, assim que nascesse Helena, eu lhe daria. Em troca, eu receberia uma incrível mamadeira de leite quente com mel, mais um pão de queijo autêntico. Perfeito, o trato foi selado.



Daí me ferrei, evidentemente, como era de se esperar. Nasceu aquela coisa que a gente carregava em cima de um carrinho. Eu fazia questão de destacar para todo mundo, ela tinha bochechas enormes. Toda vez que eu via Lucila, com quem eu tinha firmado acordo de troca, Santo Deus, que medo eu passava, corria, fugia, escondia o carrinho e aquele serzinho bochechudo. Nunca dei satisfação de cancelamento do trato. Quem sabe ainda hoje Lucila não aceita a pessoa? O problema é que ela ficou grande, e chata, muito chata, enjoada, intrometida, mimada, tornou-se a menina mais chata do mundo. Acho que Lucila não vai querer.

Um dia, poxa vida, eu me lembro bem, ela poderia ter perguntado pro meu pai, ou pra minha mãe, que era mais óbvio, mas não, a chata preferiu perguntar justamente pra mim. Ah, não perdoei. Ela queria saber de onde é que ela tinha vindo. Que pergunta existencial, filosófica. Não vacilei: você foi achada no bueiro, meu pai te encontrou numa boca de lobo. Foi o que eu disse. Pra quê? Minha vó, que Deus a tenha, pessoa mais boa que esse mundo já viu, me deu um sermão de horas, horas. Também, a pessoa de bochechas grandes resolveu chorar e chorar e chorar, só por causa de uma respostinha boba daquelas. Não disse que era chata? Desde pequenina.

Repare na foto, a pequena prendia o cabelo de forma ridícula. O capô do carro estava aberto, era um Chevett 78-79, verde - mas poderia ainda ser aquela Brasília vermelha, 77. Mamãe, de raiva, porque papai não vendia o Chevett por nada, anos depois deu fim no carro, ela o capotou. Juro, tenho pra mim que foi de propósito. A sombra ao fundo é um mistério, não é barrigudinha feito papai, não é fortinha feito mamãe, e é muito alta pra ser eu mesmo àquela época. Muita coisa mudou desde então, a árvore já é outra, a casa de frente também se modificou bastante, o corredor tem outras cores e da bicicleta ninguém sabe o destino. Tinha rodinhas a bicicleta, é verdade, e até hoje eu desconfio se a menina mais chata do mundo sabe mesmo andar sozinha, sem rodinhas. Sabe nada! Quem capturou o instante, atrás da lente, também é um mistério, há uma disputa, todo mundo quer dizer que foi quem tirou a foto. Eu não sei, pode ter sido eu mesmo. De todo modo, pelas redondezas eu estava e, na certa, inclusive, pronto pra chutar as rodinhas por pura atividade circense.

Pra mim, papai diz que se emociona, ninguém acredita nessa foto, porque a criatura foi flagrada em trânsito. Não, digo, não é porque ela estava andando de bicicleta, tsc. É a mais absoluta raridade, no caso, repare, porque ela não está chorando: é um momento único na vida da pessoa. Se não está chorando, porém, repare mais uma vez, por favor, eu insisto, ela está às voltas de um berreiro: ou vinha de choro, ou choraria instantes depois. É o hábito, tal como papai, a menina mais chata do mundo só chora.





quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Monocromatices Insurgentes

. . Por Fábio Accardo, com 1 commentário



Monocromatices Insurgentes

Se fez impossível
acreditar, mania passada
viver já não existia
olhos abertos sonhavam
a hora do infinito cerrar
(longe se via)


Da repetida sépia colore-se
a insurgencia de um mundo
reluzente sorrisos
intranquilas miradas
um rato de felicidade

Longe se vê

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

O dilema de Godard

. . Por Thiago Aoki, com 5 comentários




"Je vous salue Sarajevo" (acima), de 1993, estava na 29ª Bienal de Artes de São Paulo e tem como autor Jean-Luc Godard, que analisa uma única foto da guerra na Bósnia, ocorrida entre os anos de 1992 e 1995. Embora faça referência a uma guerra particular, o texto, além de belíssimo, tem como grande máxima uma definição universal que adoro:

“Pois há uma regra e uma exceção. Cultura é a regra. E arte a exceção. Todos falam a regra: cigarro, computador, camisetas, TV, turismo, guerra. Ninguém fala a exceção. (...) A regra quer a morte da exceção.

Mais ainda, se repararmos os cortes e closes de imagem que Godard usa durante o curta, a regra é mostrada com um fuzil na mão, apontando para corpos que insistem em subverter - “artistas da vida” tão grandiosos quanto Dostoievski, Cézanne ou Antonioni.

Ao espectador atento, a agressiva metáfora, impactante por se tratar de um momento claro de repressão, continua viva. Levando a cabo as definições, sempre que houve arte, houve regra e exceção. Se hoje há arte, deve, necessariamente, existir também uma regra que quer a “morte da exceção”. Essa regra, talvez não seja representada apenas diretamente com fuzis, mas, em tempos de relativa paz, transveste-se em imagens, padrões de comportamento, moralismos, mercadorias, e outros cerceamentos cotidianos que, com ou sem intenção, enclausura qualquer forma libertária que não esteja de acordo com as normas.

Lembro-me que, durante as revoltas de Maio de 1968 na França, uma das frases mais pichadas nos muros dizia: “A arte está morta. Nem Godard poderá impedir”. O cineasta, nesse vídeo de 1993, exatos 25 anos depois, parece tentar responder à provocação. Para ele, a “arte de viver ainda floresce” e isso não é um otimismo. O “ainda” tem o sentido de reticências, indicando a possibilidade de futura suspensão da arte de viver - de subverter e fugir das regras impostas. Teríamos então uma sociedade apática e normativa, controlada pelo medo, sem contrapontos, sem arte.

Há filmes que duram dois minutos, mas permanecem latentes por tempo inestimável. Passados quase quinze anos do “Je vous salue Sarajevo”, as perguntas ficam e atormentam todos os dias: quanto de nós é regra ? E quanto ainda nos resta de exceção?




O vídeo é uma apresentação intitulada "Este lado para cima", do grupo teatral Brava Companhia, apresentado no Mirada, Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas de Santos, em 2010.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Explosões Dinâmicas - Fotografia e Arte

. . Por Fernando Mekaru, com 1 commentário

A fotografia é um campo relativamente controverso da arte, por normalmente exigir uma série de explicações para que se justifique qualificar uma foto como arte e a foto que se tira da família como algo mundano, que vez ou outra acabam caindo no interminável e trabalhoso debate sobre o que caracteriza os trabalhos de uma determinada mídia como sendo arte ou não. Os trabalhos de Martin Klimas, porém, são rápidos em dispensar explicações e deixar muito claro que a fotografia é uma arte tão válida quanto a pintura ou a escultura.



Klimas especializou-se em fotografar objetos frágeis em queda, mais especificamente registrando o exato momento em que tais objetos acabaram de se partir em muitos fragmentos após atingir o chão: como o título da postagem diz, a fragmentação dos objetos é capturada em filme como uma explosão dinâmica, que concede movimento e intensidade a um ato que, sem a câmera, nunca poderia ser vista a olho nu.

É digna de nota a característica mais importante da explosão dinâmica: ela existe por um único instante, e é impassível de ocorrer da mesma maneira mais de uma vez - cada escultura se parte de maneira diferente ao encontrar o chão, e os fragmentos percorrem diferentes trajetórias e desenham "estruturas" diferentes graças a isso. Os trabalhos de Klimas, nesse sentido, apresentam uma interessante contradição: são muito efêmeros, por consistirem em um único instante que ocorre graças a inúmeras variáveis aleatórias, mas ao mesmo tempo são eternos, já que foram registrados pela câmera e podem ser reproduzidos inúmeras vezes por outros meios técnicos.



Capturando um único instante, que seria invisível ao olho humano nas condições normais, e congelando-o de maneira que as minúciais invisíveis a olho nu tornem-se detalhes muito importantes para caracterizar a imagem, a máquina fotográfica acaba por gerar interpretações e significados que nunca seriam apreensíveis sem a sua utilização. A fotografia, sob a óptica da criação de signficados que não poderiam ser expressos por nenhum outro meio técnico, acaba por se consolidar enquanto arte nas louças e cerâmicas recém-fragmentadas do fotógrafo alemão.



Veja mais trabalhos no site do autor.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Elite Responsável?

. . Por Thiago Aoki, com 11 comentários


"É reconhecidamente um dos pontos de comércio mais elegantes da cidade. A rua, de acordo com a Mystery Shopping International, foi eleita uma das oito ruas mais luxuosas do mundo, e é o mais pujante símbolo dos Jardins, região de São Paulo que concentra grande parte do comércio de rua de luxo do país. Uma ampla reforma foi realizada durante 2006 ao custo de 8,5 milhões de reais, com enterramento de fios e padronização do mobiliário urbano. Cerca de metade do valor das obras é de origem de verbas municipais. No convite acerca da inauguração distribuído à imprensa, lia-se em um trecho: 'Poeira, marteladas e barulho acabaram. No lugar dos operários, homens e mulheres bem vestidos e com a aparência favorecida em todos os aspectos voltam a circular pelas calçadas da rua Oscar Freire'." (trechos retirados do Wikipedia sobre a rua Oscar Freire, São Paulo)

Lá, na rua Oscar Freire, nas paredes de uma loja especializada em óculos de sol, acaba de ser inaugurada uma exposição com fotos clicadas por moradores de rua. Antes, os mesmos passaram por 5 meses de curso em fotografia digital. A ideia é fruto de parceria entre o Instituto Brasis e a loja Op Art, dos quais Marcos Amaro é presidente e dono, respectivamente. A exposição, na sequência, deve passar pela Daslu, loja de artigos de luxo localizada no bairro do Morumbi cercada por imensa favela.

Luz de Velas. Foto de Marli Pereira Dias, moradora de rua.
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Há algum tempo, a mesma Daslu, cuja dona é Eliane Tranchesi, cedeu, polemicamente, espaço para o lançamento do excelente livro do rapper brasileiro MV Bill, intitulado "Falcão, meninos do tráfico", que relata situações de violência vividas por crianças das favelas brasileiras ligadas ao tráfico de drogas. À época, Lúcia Mineiro, socióloga - tinha que ser! - chamada para dar uma palestra durante o evento, causou alvoroço:

- "Estamos aqui na Daslu, no templo do consumismo! Isso aqui também é responsável pela violência."

Imediatamente, a líder comunitária da favela pegou o microfone, defendeu a - segundo ela - "amiga pessoal" e dona da botique, emocionando os clientes presentes.

- "O que essa mulher [Lúcia] falou não tem nada a ver! Misturou consumismo com violência! Estamos aqui num evento tão bonito..."

Por fim, foi a vez da própria Eliane, que nove meses antes havia sido presa por sonegação fiscal, advogar-se a si mesma.

- "Ela tem que entender que o consumo é bom! Nós, empresários, geramos empregos, pagamos impostos, gente!"

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As imagens expostas na Op Art por moradores de rua impressionam pela qualidade das imagens e densidade autobiográfica que contêm em si, escapando de estereótipos ou dramatizações autopiedosas. Assim como o livro de MV Bill, além de muito bem escrito, mostrou um Brasil errante, até então pouco conhecido em tamanha riqueza de detalhes.

O que está em questão, no entanto, não é a qualidade dos trabalhos, mas a estratégia do "choque" provocado ao levar para a elite realidades tão contrastantes através da arte. Há tempos ouvimos sobre a "perversidade de nossa elite". Alguns pensadores reformistas defendem uma modificação cultural e humanista nas classes dominantes como condição para que haja o bem estar social - ou, nas palavras de Marcos "o capital é uma ferramenta quase sempre usada para gerar mais capital. Eu estou tentando entender como usar ele para criar cidadania”. Mas para mim, o argumento de diminuir o hiato entre as classes é inconsistente. Porque simplesmente não há um hiato, hiato algum, entre o consumidor da alta moda e o morador de rua ou traficante da favela. Há, sim, uma relação de interdependêcia e de dominação. Porque, em última instância, a socióloga está certa, todos queremos aquele tênis, aquele vestido, aquele sanduíche - seja qual for a classe. A "arte social", neste caso, posta à contemplação nas paredes ou limpando nome de marcas, não basta. É preciso algo maior que isso e menor que um assalto. Se quer tocar e modificar de verdade a elite, a arte à ela levada deve conter o tom de denúncia, mostrar sua responsabilidade como topo da pirâmide. Talvez a fala da socióloga pode ter sido uma boa tentativa, mas além de constrangimento e subsídio para essa postagem, pouco efeito surtiu. Isso porque dizer aos templos do consumo qual seu papel nesse circo de horrores ultrapassa os limites da vinculação da marca às questões sociais, "pega mal". Aí que está: Por mais que seja tudo bem intencionado, há um hiato, aí sim, entre o que transforma de verdade uma atitude e o que apenas serve como desencargo de consciência ou valorização da marca.

Esse é o ponto de meu ceticismo.

Espero estar errado.

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Misturas Relacionadas

Filme: "Um sonho possível"

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Ordem e Regresso.

. . Por Thiago Aoki, com 4 comentários

Começou nesta terça-feira (21/o9) a aguardada Bienal Internacional de Arte de São Paulo 2010. Com o orçamento muito maior do que o de 2008, a ideia é que o "vazio" da edição anterior seja preenchido. Para isso, uma variedade de estilos e performances que abordarão a conturbada relação entre Arte e Política. Ironicamente, o episódio que agita as preliminares do início das exposições parece justamente exemplificar os emaranhados que envolvem o fazer arte/política em nosso país. O fato é que a OAB-SP ameaça lançar veto ao trabalho do artista plástico pernambucano Gil Vicente, que fez um autorretrato (abaixo) pra lá de provocativo, no qual o próprio artista está em posição de assassinar os dois últimos presidentes da república: FHC e Lula. Segundo a entidade, a imagem faz "apologia à violência".


Segundo o autor da polêmica, a ideia era "descarregar o inconsciente" e afirma ainda que sua lista possui outros nomes como o papa Bento 16, George W. Bush, a rainha Elizabeth e Ahmadinejad, presidente iraniano. Todos personagens que representam intimamente o poder. A organização da Bienal, acertadamente, fez questão de manter a exposição em lugar de destaque e espera que a OAB recue a violação contra a autonomia do artista.

O caso e o trabalho do artista nordestino me remeteu à fotógrafa inglesa Alison Jackson, autora do livro de fotografias "Confidential" (imagens abaixo, clique para ampliar). Seu trabalho, muito interessante, consiste em fotografias com contornos de voyeurismo, na qual personalidades famosas são retratadas, como se fossem "flagras" dos paparazzos. Obviamente que os modelos fotográficos são apenas sósias muito bem maquiados, porém a brincadeira com o escândalo e com a sociedade do espetáculo, na qual as celebridades, ou melhor, suas imagens detêm poder desproporcional, é divertidíssimo.



A sensação que temos ao observar essas fotos, é um choque de realidade. Como se a relação tão íntima e distante que temos com a imagem de cada celebridade ruísse e, agora, temos não mais um ícone idealizado, mas um imoral qualquer, de carne e osso, que participa de orgias, faz cocôs, maltrata crianças. Como se a imagem fosse um valor de troca, um componente do status quo.



Seja pela inglesa ou pelo pernambucano, ambos, de certo modo, vingando-se dos centros de status e poder, fica claro que, para a arte que contesta ou subverte a normalidade, independente do mérito de sua ação, é necessária relativa liberdade. Deve ser permitido que no imaginário, nosso e do artista, matemos presidentes, estraguemos celebridades ou pintemos paredes antes limpas. Como cada um recebe as balas - ora subjetivas, ora cruas - disparadas pela arte é outra história.

Independente de ser descrente ou entusiasta da arte de Gil Vicente como ação política (se é que há uma ação política), espero que o artista pernambucano vença a queda de braço institucional e, assim como Alison Jackson, possa expressar suas angústias com o exagero que lhe parecer necessário. Do contrário, caminharemos no sentido oposto, no caminho da arte adestrada, da arte boa-conduta, e, pior, da obviedade.

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Posts anteriores sobre a Bienal 2010:
Um Spray na mão e uma Bienal na cabeça.
Bienal 2010 - Política, Rua e Rebolation

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Futebógrafos

. . Por Thiago Aoki, com 1 commentário

Já mostrei, por este blog, contornos de minha paixão pelo Futebol. Corinthiano roxo, a mais remota lembrança que me vem à mente é estar nos ombros de meu pai, em um bar da longínqua Lins, assistindo jogos do brasileiro de 1990, com menos de três anos de idade, o que me faz questionar se não nasci já com o gene alvi-negro - ainda que eu tenda a delegar tudo no mundo como uma construção social. Eis que hoje necessitava escrever algo para o Mistura, porém não sai de minha cabeça o Corinthians e sua estreia na libertadores, então resolvi misturar indigestamente Arte e Futebol, apresentando três trabalhos de artistas-craques que tratam o tema com maestria.

O primeiro, Caio Vilela que, paralelamente ao seu trabalho de jornalista, quase que como hobby, começou a tirar foto de todas as peladas com as quais se deparava por todo o mundo. A brincadeira tornou-se o livro "Futebol sem Fronteiras", com imagens surpreendentes nos mais inusitados destinos. Ganhou notoriedade há algumas semana ao participar do programas Altas Horas, da TV globo. A entrevista no vídeo abaixo, realizada pela Folha de São Paulo, ajuda a melhor compreender seu trabalho.



O segundo, Daniel Kfouri, muito bem apadrinhado por Juca Kfouri, seu pai, um dos mais renomados analistas esportivos do país. Mas, diferentemente do que os conspiracionistas podem pensar, seu trabalho mostra que o sucesso do filho não é resultado do jabá e curujice do pai. O fotógrafo, que já reformara visualmente a revista Sexy e fora chefe de arte da Caros Amigos, acaba de ser premiado pelo tradicional World Press Photo. As fotos especialmente bem finalizadas, possuem um tom mais artístico, em geral preto e branco, aproveitando muito dos contrastes. Coloco ao lado um aperitivo cujo prato principal pode ser melhor degustado em seu site oficial, no qual eu destacaria a galeria "Várzea II", com fotos simplesmente esplendorosas.

Por fim, o trabalho de João Máximo e Leonel Kaz. Ambos, desta vez não-fotógrafos, publicaram o "Brasil: Um século de futebol", selecionando 180 imagens dentre as 60 mil que por suas mãos passaram. Este livro foi um pouco deixado de lado pela mídia, talvez pela falta de apadrinhamento dos autores ou alto valor da obra (em torno de R$150,00), porém não fica atrás das obras anteriores. É uma compição de fotografias desde 1886 aos dias atuais que, complementado pelo texto dos organizadores, recontam a história do futebol brasileiro. Mostra muito bem como no Brasil, qualquer lugar é lugar para uma boa pelada. Deixa um pouco de lado a fotografia glamurosa grandes clubes e grandes torcidas para destacar-se com o futebol do cotidiano, da várzea e do improviso, aquele que efetivamente faz do Brasil o país do futebol. O livro possui fotos incríveis, como a pernas tortas de Garrincha, Leônidas da Silva no alfaiate, Didi andando de bicicleta com Pelé, mas desistam, para mim, nenhuma delas superará a da capa do livro (dir.), um extenso campo de terrão que abriga dentro das suas quatro linhas uma enorme árvore assistindo tranquilamente ao rachão, o qual sequer podemos entender a divisão de times. Mas não se deixem levar apenas pelas imagens, os textos são ótimos e perpassam temas desde racismo até o futebol colocado como cultura nacional.

Isso sim é futebol-arte. Às vezes, em meio a tantas brigas e tumultos por causa da redonda, me pergunto se uma educação que nos ajude a ver o futebol como um todo não seria a melhor maneira de combater a violência no esporte, mas isso fica para um próximo post porque agora é hora de torcer pro Corinthians - e seja o que Deus quiser.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Conversa de doidos - Chema Madoz e Luis Buñuel

. . Por Thiago Aoki, com 3 comentários

Se José María Rodriguez Madoz fosse brasileiro, provavelmente seria conhecido como Zé Maria ou simplesmente Zé. Mas é espanhol, nascido em Madri, 1958, e por lá ficou conhecido como Chema Madoz, azar o nosso que sequer conseguimos pronunciar seu nome. Por que José Maria tornou-se Chema? Não sei, mas essa mania de mudar o sentido lógico das coisas pode dizer muito sobre esse fotógrafo, pois é exatamente isso que ele faz em seu trabalho.
Com sua Hasselblad, Madoz pega os objetos comuns do cotidiano e alterna sua funcionalidade e sentido. Não é nonsense, tampouco ingênuo. Não apenas o contraste do preto e branco muito bem utilizados destaca o fotógrafo, mas especialmente o conteúdo de sua obra. Suas fotografias possuem um ar de ironia e provocação. Ao nos depararmos com as mesmas, é impossível não questionarmo-nos sobre a normalidade, ou melhor, sobre sua imposição. Quanto do que fazemos e dizemos acontecem apenas pelo hábito de fazermos do mesmo modo? Ainda mais em uma sociedade onde as possibilidades de mudanças tornam-se cada vez mais escassas, um mundo mergulhado na apatia política-social. Pode ser que essa impressão que tenho de Madoz seja viagem de minha imaginação, mas acho que é justamente nisso que o fotógrafo baseia-se: na interpretação que cada espectador terá daquela, digamos, "disfuncionalidade" dos objetos. É brincar com a própria imaginação, levá-la para além da razão estrita e ativar outras percepções, como aconteceu comigo. Luis Buñuel, o grande surrealista do cinema, amigo pessoal de Dalí, afirmara que "a imaginação é o nosso primeiro privilégio, tão inexplicável como o caso que a provoca". Engraçado que foi justamente Buñuel que me veio a cabeça quando vi pela primeira vez as imagens de Madoz. Aliás, mais especificamente uma cena do filme "O fantasma da liberdade"(1974), um dos últimos de sua filmografia. Esta cena abaixo, para mim é uma das mais magníficas do cinema.



Inclusive, se você começou a ler esse mísero post por aqui - pra ver do que se trata o vídeo e se valia a pena ler esta coluna desde o início - faço-lhe um apelo para que assista, pelo menos os cinco primeiros minutos desta cena. Nela, duas famílias burguesas típicas da época do filme combinam um encontro. Quando Buñuel mostra a mesa, a surpresa é que invés de cadeiras, temos privadas e invés de refeição revistas. Durante a conversa, um dos homens divaga sobre o problema da superpopulação, como todas aquelas pessoas terão condição para "evacuar"- leia-se cagar. A conversa é interrompida pela garotinha, filha do casal, que diz "Mãe, estou com fome" e a mãe, constrangida, logo corrige a menina, dizendo para não usar palavras impróprias na mesa. Logo depois, um dos homens pede licença e pergunta baixinho à empregada "onde fica a sala de jantar", então, segue para um cômodo parecido com um banheiro, mas que invés de privada tem uma cadeira e invés de revista, comida e vinho. Ele senta e faz sua refeição. E por aí vai, não me estenderei (isso mesmo, estender é com "s" e extensão é com "x", obrigado pela correção Rita) porque só essa cena valeria um post inteiro. No filme, cujo título, segundo o próprio autor, é uma alusão à primeira frase do Manifesto do Partido Comunista, de Karl Marx ("Um fantasma ronda a Europa, o fantasma do comunismo"), Buñuel critica veementemente o modo de vida burguês e a liberdade prometida pela sociedade de consumo, através justamente do trajeto normalidade-absurdo, mais ou menos o mesmo trajeto percorrido por Madoz.

E em ambos, guardados seus distintos contextos, saímos com a sensação de que o absurdo não é tão absurdo assim, ou, talvez, que a realidade, o cotidiano, o normal sejam também um grande devaneio. E é com este argumento que, antes que me questionem, fujo da rotulação de Madoz a alguma escola artística, mais fácil escolher um hospício.

Veja mais imagens de Chema Madoz em seu site oficial.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Jerry Uelsmann - Fotografia e Surrealismo

. . Por Thiago Aoki, com 4 comentários



Não sei se vocês notam, mas há palavras que, de tão divulgadas, vulgarizam-se. Se pegarmos a política como exemplo, "comunista" e "neoliberal" é o que mais se diz sem se saber o significado. Já nos RHs das empresas, a moda é a "pró-atividade" e o "dinamicidade". No caso da arte e cultura, diria que é o surrealismo. Até propaganda de chocolate já usou o termo para dizer que o doce era "surreal". O surrealismo, como se sabe, expandiu-se e tomou forma com Salvador Dalí e André Breton. Mas o que mais me incomoda, escapando ao público leigo, é a confusão que se faz entre uma arte surrealista e a arte conceitual abstrata. Tenho horrores a rótulos, justamente porque, embora interessantes didaticamente, levam a equívocos grotescos como este, visto que a lógica de romper-se com a razão, dominante no surrealismo é praticamente oposta à dominância do conceito na arte conceitual. Foi aí que resolvi pesquisar um pouco sobre alguns artistas surrealistas contemporâneos até para melhor compreendê-los e distinguí-los. O primeiro que me interessou foi Jerry Uelsmann, cujas fotografias espalham-se por este post (clique para ampliá-las).

Uelsmann é de 1934, nascido em Detroit, EUA. Em uma época em que sequer a fotografia digital existia, o fotógrafo revolucionou com incríveis manipulações de imagem. Ele mesmo, em entrevista à revista Photos explica os efeitos que utiliza desde à decada de 1960, sob desaprovação dos fotógrafos da época: "É puramente fotomontagem. A foto é feita com a combinação no processo de revelação no 'darkroom' , usando alguns ampliadores e movimentando o papel. Não há corte ou colagem de papel. A imagem final fica numa folha fotográfica". Assim, sem os recursos de nossa época, Uelsmann, que até hoje prefere o 'darkroon' ao photoshop, praticamente cria um novo estilo da fotografia, rotulado por muitos críticos como parte da "fotografia surrealista". O processo criativo, portanto, o motor da fotografia de Uelsmann, é enganosamente simples, como afirmou em excelente entrevista ao site Shutterbug "Meu processo criativo se inicia quando saio com a câmera e interajo com o mundo. Não há coisas desinteressantes. O que há são pessoas desinteressantes. Para mim, dar a volta no quarteirão onde moro levaria cinco minutos, mas, quando estou com a câmera, levaria cinco horas. Se consegue chegar a um ponto onde você responde emocionalmente, e não intelectualmente, há um mundo inteiro para encontrar com sua câmera.(...) Mas minha aproximação incial é muito não-intelectual. Hoje há muita arte dita conceitual que inicia-se em uma teoria particular e então o indivíduo ajusta a imagem"(Trad Livre). Parece-me que, nessa fala, Uelsmann coloca a principal distinção entre o surrealismo e a arte conceitual, no que diz respeito ao processo de criação artística.

O fotógrafo e "image-maker", como ele mesmo se intitula, ainda revela a influência de Carl Jung, -aquele da teoria dos arquétipos e inconsciente coletivo - e do filósofo francês Jacques Derrida, principalmente por sua teoria dos múltiplos significados. Embora não o tenha citado nas entrevistas que pesquisei, é impossível não
lembramos de Salvador Dalí (figura colorida à direita) quando vemos a obra de Uelsmann.
Independente de rotulá-lo estritamente como surrealista, o certo é a influência que sofreu conscientemente ou não (o que seria muita ingenuidade!) desta escola. De qualquer modo, fica o convite aos que lêem essa coluna de visitar a galeria virtual de Uelsmann - em seu site oficial ou no Modernbook - e viajar nas imagens que, além de técnicamentes muito bem feitas, trazem um pitaco a mais da subversão da fotografia tradicional, aquela do mero retrato da realidade. Há de se romper com a lógica racional que estagna, ou, como Breton afirma em seu Manifesto Surrealista, "(...)se a razão objetiva prejudica terrivelmente - como é o caso - quem nela confia, não convirá fazer abstração dessas categorias?" Espero que este seja o primeiro de muitos posts sobre o tema.

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