VÍDEO: MURILO CAMPANHA CONTA ITATINGA

O psicanalista Murilo Campanha fala sobre Itatinga, um dos maiores bairros de prostituição da América Latina, onde ele tem seu consultório.

O nadador

Uma crônica de Hugo Ciavatta.

Ainda que as bolachas falassem

Crônica de Fábio Accardo sobre infância e imaginação

Ousemos tocar estrelas

Uma reflexão de Thiago Aoki.

Entre o amarelo e o vermelho

Uma crônica de Hugo Ciavatta

O homem cordial vinhedense

A classe média vai ao barbeiro. Uma crônica de Caio Moretto.

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quarta-feira, 3 de março de 2010

And the Oscar goes to...

. . Por Thiago Aoki, com 4 comentários

Domingo é dia de Oscar. Para um mísero blogueiro terceiromundista como eu, movido pelo "auto-baixo-financiamento", fica praticamente impossível assistir a todos os indicados. Porém, leal a minha cinefilia, fiz o básico, peguei as críticas, os favoritos e, auxiliado por minha fiel (espero!) namorada, saímos na empreitada de assistir aos principais concorrentes.

Pois bem, vamos em frente. Muita gente questiona o Oscar, seu glamour e ostentação. O favoritismo de "Avatar", de James Cameron, condiz com as críticas. Roteiro ruim, atuação fraca dos atores, montagem comum, mas com altíssimo grau tecnológico e um investimento estimado de básicos U$500 milhões, dinheiro com o qual, este que vos escreve, muito melhor aproveitando, construiria o estádio do Corinthians. Não comentarei aqui este filme, para isso já basta as milhares de reportagens que se embalaram na corrente do sucesso do longa. Apenas adianto que é perpassado por discussões superficiais e maniqueísta do malvado homem branco humano e sua relação mecânica/exploratória com a natureza, diferentemente da espécie de índio bonzinho que habita o outro planeta numa relação orgânica e religiosa de cooperação natural. Curiosamente, quando a coisa aperta o heroi branco norteamericano que resolve com tudo, abrindo mão de sua vida anterior pela causa dos explorados e indefesos índios, que obedecem a tudo que o novo brother ordena. Prefiro aqui, mostrar três filmes que, por qualquer amante das ciências humanas e suas intersecções com as telonas, devem ser assistidos, independente dos vencedores das estatuetas douradas.

Dos concorrentes à categoria, melhor filme é, sem dúvida, "Bastardos Inglórios", do diretor-pop entre os neocults Quentin Tarantino. É o que melhor faz aquilo que torna o cinema mágico: recria, inventa, questiona, inverte, leva a cabo as palavras de Federico Fellini, segundo o qual, "o cinema é o modo mais direto de entrar em competição com Deus". A fotografia, figurinos, diálogos, trilha sonora e montagem impecáveis. A primeira cena do filme no diálogo de um caça-judeus nazista, interpretado com maestria pelo poliglota Christoph Waltz, com um camponês já mereceria, por si, entrar para história do cinema. Mas, entre todas, três categorias deveriam obrigatoriamente ser levadas pelo Inglorious: "melhor diretor", "melhor roteiro original" e "melhor ator coadjuvante" - alguém por favor me explica o que foi essa atuação de Waltz? Há entre os conspiracionistas de plantão quem tenha dito que Tarantino estimula o revanchismo judeu que norteia a política externa contemporânea do eixo EUA-Israel. Balela. Pelo contrário, finalmente os judeus não são coitados, mas sim pessoas com sangue nas veias, que matam, torturam, contra-atacam, exercendo, de fato, sua função em uma guerra. Noutras palavras, é criado um mundo onde a moral tradicional torna-se segundo plano e o espectador é levado a torcer pelo massacre da milícia judaica, comandado pelo tentente Aldo Raine (mais uma ótima interpretação de Brad Pitt) sobre os nazis. Personagens fortes que criam entre si elos tênues e tensos e que, se existido tivessem - e quem garante que não? - mudariam a história do mundo. Insere-se, junto com "Pulp Fiction", na lista das melhores obras do diretor.



Se Tarantino abusa da imaginação, o filme de Lee Daniels, "Preciosa - uma história de esperança", vale-se da ultra-realidade para contar seu roteiro. A história se passa no Harlem, bairro negro americano, em 1987, e tem como protagonista Claireece Precious (daí o irônico "preciosa") Jones, a atriz Gabourey Sidibe - negra, gorda e feia. Além disso, espera seu segundo filho, com 16 anos, ambos resultados de estupro incestuoso por parte do pai. Sua mãe, com atuação impecável de Mo'Nique, à maltrata verbal e fisicamente, fazendo-a de escrava, e exigindo que o Estado lhe dê a pensão pelas netas, já que a "preciosa" ainda não chegou à maioridade. Eis que uma professora lésbica de humanidade incrível, a bela Paula Patton, chama Jones para uma escola alternativa, com outras jovens socialmente excluídas. Soma-se a ela uma assistente social (Mariah Carey), provavelmente inexistente no mundo tamanho acerto em suas atitudes, e as coisas começam a mudar. O filme escapa de duas possíveis armadilhas. A primeira seria o maniqueísmo sensacionalisa, que não ocorre, visto atitudes violentas da própria Preciosa, bem como alguns sentimentos humanos reproduzidos pela mãe. A segunda poderia ser o excesso de personagens densos, mas cada um é bem incorporado ao roteiro. Enfim, é um filme que emociona, e que mostra com muita propriedade a segregação racial nos EUA, em pleno início da década de 1990. Mereceria "Melhor Atriz" e "Melhor Atriz Coadjuvante", embora a maior parte da crítica considera o longa apenas favorito no segundo quesito, já que Meryl Streep ainda é a queridinha dos estadunidenses. Mas, independente disso, será estranho ver uma negra, gorda, que fez o papel que fez, sendo premiada pela fábrica de rostos padronizados de Hollywood. Em uma das cenas do filme, Preciosa olha para o espelho e vê refletida uma loira, branca de cabelos lisos, como ela gostaria de ser, de certa forma uma crítica a todo esse espetáculo. Tudo bem, eu também acho o indiano "Quem quer ser um milionário" contraditório com os padrões do Oscar devido ao roteiro também crítico à seletiva espetacularização social decorrente da premiação. Vai entender, mas será, sem dúvida um momento interessante de se acompanhar, espero que o discurso da atriz, Mo'Nique ou Gabourey Sidibe, ao menos ele, seja contundente como o filme.



Com menos holofotes, o falsamente despretencioso "Amor sem escalas" - de Jason Reitman, famoso por "Juno" - também trata de um tema caro à sociedade contemporânea, a frieza do mundo corporativo. George Clooney intepreta um executivo de uma empresa que terceiriza demissões, tendo, portanto, como função correr os EUA para demitir pessoas, o que faz com êxito e sem demonstrações de remorsos. Rian Binghan, personagem de Clooney, sequer tem residência física, e trata com extrema indiferença sua família, e seu sonho é completar 10 milhões de milhas viajadas. A trama se inicia quando Binghan conhece a igualmente workaholic Alex, interpretada Vera Farmiga, que pode ser considerada sua versão feminina e inicia um romance executivo, pautado pelos seus encontros durante a vida de trabalho. Entra também na vida de Binghan, a jovem Natalie, uma espécie de trainee do executivo, que tenta fazer pose de durona mas não consegue suportar a crueldade requerida pela função de seu chefe. Enfim, é uma comédia romântica na qual o romance torna-se segundo plano, visto que os questionamentos de Natalie sobre a desumanização do mundo corporativo, bem como os diálogos com os trabalhadores que são mandados embora, roubam a cena. Embora não preencha nenhum quesito da premiação de domingo como favorito absoluto - talvez Clooney corra por fora como melhor ator -, é um filme que vale a pena ser visto. Repete a difícil tarefa, normalemente executada por Woody Allen, de tocar em questões delicadas e tensas de maneira cômica e leve, sem ser, entretanto, superficial ou simplista. Assim, a melhor classificação, como afirmei anteriormente, seria de "falsamente despretencioso".



Faço uma ressalva para "Guerra ao Terror", que vem sendo aclamado pela crítica e deve levar algumas estatuetas. Assisti há algum tempo, antes de chegar aos cines, e não gostei, mas o sentimento foi tão distinto da análise corrente, que prefiro, humildemente, aguardar para assistí-lo novamente, para ter uma opinião melhor formada, embora tenha certeza que, no quesito guerra, nem se compare ao "No vale das sombras", de 2007, que nada levou, tanto da crítica como do certame de Hollywood. O que o Oscar nos mostra? Características da indústria cinematográfica e padronizações estadunidense, bem como os discursos aceito pela hegemônica indústria de entretenimento, é claro. Mas também filmes que merecem ser levados adiante, para além do ilusório galmour hollywoodiano. Bom Oscar a todos!

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Pandora, Coruja Branca e Paulistão

. . Por Thiago Aoki, com 6 comentários

Primeiramente, gostaria de agradecer ao milhares de e-mail de nossos assíduos leitores dizendo que sentiam falta de minhas postagens. As férias de uma semana que tirei da internet me fizeram bem. Em contrapartida aos quilos a mais, o namoro nos impulsiona culturalmente, pelo menos no que diz respeito ao cinema. Fazia tempo que não enfrentava as telonas, mas resolvi seguir o conselho de um de nossos Indigestos e voltar à ativa. De quebra, foram três filmes. Pela ordem: "Contatos de quarto grau" (Olatunde Osunsanimi), "Abraços Partidos" (Pedro Almodóvar) e "Avatar"(James Cameron). Deixarei o filme do espanhol de lado, acho que está um pouco desconexo em minha cabeça, talvez por não ter encontrado o Almodóvar da freneticidade de seus trabalhos anteriores, mas um filme mais sensível, lento e silencioso. Ficará para uma próxima.Vamos aos que sobraram. Neste post, falarei sobre os filmes de Osunsanimi e Cameron, pois acredito que possam nos dizer muito sobre as limitações e tendências tomadas pelo cinema contemporâneo.

Cameron, cria, através de sofisticados efeitos de computação gráfica e o investimento de U$500mi, Pandora, uma lua do planeta Polifemo, habitada pela também criada civilização Navi. Poderia aqui discorrer acerca das incongruências do filme: sobre o sempre heroi estadunidense, cujo maniqueísmo é extremo ao ser um tetraplégico que enfrenta um insensível capitalista que apenas que explorar Pandora e o chefe do exército que é tão mal que ao bombardear os "inocentes" Navis pede ao piloto do avião: "Vamos logo com isso que eu quero voltar para janta". Enfim, o roteiro é fraco, com discussões superficiais ancorada na "onda ambientalista" que assume o mundo, personagens ridículos e diálogos banais . Mas me recuso a dar ibope para essa discussão, até porque minha cisma contra o politicamente correto já me levara ao cinema preconceituado quanto a isso. Quem quiser ler mais sobre o conteúdo em si, leia a polêmica coluna escrita por Luiz Felipe Pondé na Folha de SP. O que me ficou à mente, entretanto, é a potencialidade dos efeitos visuais. É praticamente impossível não se sentir atraído pelo universo criado, pela riqueza de cada detalhe de Pandora e dos Navis. Se deixa a desejar no conteúdo, sobra em seus recursos técnicos. Um enredo completamente fantasmagórico, mas que, no cinema 3D, assume ares de realidade. Impressiona como nos satisfaz o sentimento de participar do cinema tridimensional como estar participando de uma quase-realidade, de tão otimizada a qualidade da imagem. O próprio título "Avatar" remete a uma representação do real, através de um mundo paralelo, virtual. Não duvido que, em breve, tenhamos outras formas sensoriais como o olfato ou o paladar, dentro da sala cinematográfica. O paradoxo de presenciar um filme, na minha opinião, ruim, mas, ao mesmo tempo, sair do cinema com a estranha sensação de que não teria graça mais assistir qualquer filme que não fosse 3D, me aporrinha as paredes da caxola.

"Contatos de quarto grau" também se apropria de nossa relação com a realidade para causar impactos no espectador. Este já é um filme mais bem feito, entreteu durante todo o tempo, eletrizante, sabe criar um ambiente de suspense assustador sem ser vulgar, valeu o ingresso. Trata-se de uma psicóloga, Abigail Tyler, que, após morte misteriosa do seu marido, também psicólogo, resolve dar sequência aos estudos do mesmo. Para isso, se manda para o Alaska, onde, para seu espanto, diversas pessoas, que sequer se conhecem, têm crises de insônia após sonhar com uma coruja branca, todas entre 2h e 3h da marugada. Então, a mulher recorre à hipnose para entender melhor o que se passa com os pacientes durante as noites de sono interrompido, e por aí vai. Mas o que inova mesmo é a utilização de áudio e vídeos reais gravados pela psicóloga durante as seções. Veja o Trailler abaixo para ter uma ideia.




Eu mesmo sou cético quanto a ET´s, OVNIs ou coisa que o valha, é um assunto que não me desperta tanto interesse, porém o filme me deu calafrios. Esses documentos são colocados em momentos estratégicos, nas situações mais apavoantes, mesclando com a atuação dos atores, e consegue cutucar o ceticismo racional com vara curta. Aquela coisa de "uma imagem vale mais que mil palavras" não vale só pro corno que pega no flagra. Se, quando sabemos que o filme é baseado em fatos reais já temos um elemento a mais na emoção do suspense, no "Contatos", além desse recurso, temos o vídeo e áudio do registro da pesquisa, o que amplifica ainda mais o medo.

Nessa instrumentalização do real para conquistar o espectador, apresentada de forma distinta por ambos filmes, temos o alicerce daqueles que ganham, ano a ano, peso no mercado da produção cinematográfica. A fantasiosidade performática do Avatar, ou do Crepúsculo, com vampiros que fazem cosquinhas em Anne Rice, por um lado. E a espetacularização do real (achavam que era só o Datena?) em filmes como "Contatos" ou o "Exorcismo de Emily Rose", por outro.

Ainda com medo de sonhar com corujas brancas e com raiva de ter pertido dez minutos do Corinthians e Palmeiras - o que me custou o gol do Jorge Henrique, melhor jogador do Brasil, na atualidade - para ver a guerrinha entre Navis e Colonizadores, saí das múltiplas seções do cinema com uma ideia fixa concluinte: vamos ao cinema para reencontrar nossa relação com o mundo, desafiando cada filme, para que ele supere ou corrobore aquilo que, de fato, acreditamos. Quando não acontece nem um nem outro, bem melhor o campeonato paulista, ainda mais se o Corinthians vencer...

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