VÍDEO: MURILO CAMPANHA CONTA ITATINGA

O psicanalista Murilo Campanha fala sobre Itatinga, um dos maiores bairros de prostituição da América Latina, onde ele tem seu consultório.

O nadador

Uma crônica de Hugo Ciavatta.

Ainda que as bolachas falassem

Crônica de Fábio Accardo sobre infância e imaginação

Ousemos tocar estrelas

Uma reflexão de Thiago Aoki.

Entre o amarelo e o vermelho

Uma crônica de Hugo Ciavatta

O homem cordial vinhedense

A classe média vai ao barbeiro. Uma crônica de Caio Moretto.

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sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Um herói para Samuel

. . Por Caio Moretto, com 1 commentário





Certa vez, numa calourada do curso de ciências sociais da Unicamp, chamaram o prof. Sérgio Silva para falar na aula magna. O tema era Maio de 68. Já tínhamos ouvido suas aulas sobre indústria cultural, sociedade do espetáculo etc. Mas dessa vez o professor, o ícone, o cara que estava lá quando tudo aconteceu, ia falar sobre Maio de 68! Depois de grande rebuliço (a minha versão preferida é a contada com a dramaticidade do Sumaré, que não usa essas palavras estranhas como “reboliço”, mas que faz a gente se imaginar sentado na primeira fileira), o professor liga o microfone e declara da maneira mais clara que poderia: “maio de 1968 não existiu”.

Eu nunca fui de ter heróis, porque sempre tive essa impressão de que eles nunca existiram, de que são uma grande invenção. Maio de 1968, como é no imaginário dos calouros de ciências sociais, certamente não existiu. Se existiu algo, foi talvez apenas um grupo de pessoas que saíram nas ruas para reivindicar que a a dita democracia se convertesse minimamente em direitos à população.

Maio de 1968, para muitos, foi apenas um ano de trabalho, de formatura, de dramas pessoais mais ou menos descolados da realidade social, o que se chama, muitas vezes, de dramas burgueses. O mesmo pode ser dito da ditadura civil-militar para muitos brasileiros que mal a perceberam. Em certo sentido, 68 na França não foi diferente de 2013 no Brasil, nem do que está acontecendo aqui hoje. 

Me peguei pensando nisso tudo porque não sei que histórias de heróis gostaria de contar para o Samuel. Desde que a Mari engravidou, não participamos mais de nenhuma manifestação. A partir de então, toda vez que tem protesto, fico em casa preocupado com xs amigxs e conhecidxs que estão lá, mostrando a cara. 

Às vezes me pego pensando: “Que saco, por que eles vão? Só para a gente ficar preocupado!” Mas logo me deparo com as histórias de colegas em seus dramas cotidianos: uma colega agredida na rua por sua identidade de gênero, um aluno que não poderá pagar a faculdade, uma vizinha que não levará a filha de novo ao médico ah, já estava tudo bem, não vou pagar mais duas passagens de ida e duas de volta. E volto a pensar no Samuel, nos heróis e em como os nossos dramas individuais são afetados pela realidade social.

Não sei quais serão as escolhas e os desejos do Samuel, que sonhos terá, qual será sua profissão, seu estado de saúde ou sequer como será sua capacidade física de se locomover. Também não sei até quando teremos aulas de filosofia e sociologia no Ensino Médio e, portanto, não sei qual será nossa situação financeira como família no próximo ano. Mas fico feliz que ainda tenha gente lutando para que isso não importe, para que ele possa ter todos seus direitos como cidadão e possa se realizar plenamente como ser humano independente de quanto dinheiro a gente tenha.

Já começo a pensar em como contarei ao meu filho a história dessas pessoas que lutam para que a dita democracia se converta minimamente em direitos à população, a história desses momentos épicos que não existem, mas que mudam as nossas vidas. Carxs amigxs, vocês são a inspiração da minha vida, são o mais próximo de heróis que eu jamais tive. Contarei a história de vocês com entusiasmo e com a esperança de que algum dia alguém diga de nosso tempo, idealizando nossas conquistas, que ele também não existiu.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Samuel e a indústria cultural

. . Por Caio Moretto, com 0 comentários



O encontro entre Salvador Dali (esquerda) e Andy Warhol (direita).


Dizem que a primeira obra de toda criança é seu próprio cocô e que é por isso que ela se apega tanto à criação. Alguns psicólogos defendem até que os pais levem o artista para se despedir da obra antes de jogá-la ao esquecimento. Não sei se faz sentido, mas como o Samuel anda explorando bastante suas possibilidades artísticas recentemente, eu tento incentivar.

Ontem, contei para ele a lenda de Salvador Dali. Sabe, filho, ao contrário do que estamos acostumados a ver, o pintor surrealista desfrutou de sua fama ainda em vida e soube cultivar uma imagem pessoal que atraía tanto quanto sua arte. Depois dele, talvez só Andy Warhol tenha conseguido unir de forma tão indissolúvel vida e obra.

Andy Warhol, lá pelo seu terceiro minuto de fama, resolve presentear Dalí: uma homenagem. O espanhol morava em um hotel nos EUA e passava as tardes esbanjando sua extravagância e genialidade no bar do estabelecimento, que ostentava a própria presença do mestre como sua principal atração. Warhol leva a Dalí um de seus mais famosos quadros: um estêncil da Marilyn Monroe.

Nesse momento, abri uma parêntesis para explicar ao Samuel a tese de Walter Benjamin de como a arte produzida em série perderia sua unicidade (qual é a Marilyn mais original?) e a tese de Adorno de que a indústria cultural levaria à produção de obras que são apenas a consagração dos valores já consagrados pela classe dominante (para que me preocupar em criar algo belo se a sociedade já me diz que Marilyn Monroe é bela? O objetivo não é vender?)

Diz a lenda (e reinvento com toda a liberdade artística de um professor tentando encantar seus alunos) que Dalí ignora Warhol, levanta-se, segura seu pincel orgânico e mija na obra ali mesmo! O que me encanta mais nessa anedota, porém, é que se conta que Andy Warhol sorriu, que ele comemorou! Em um mundo incapaz de produzir a unicidade, ali estava, na sua frente, a única Marilyn da série mijada por Salvador Dalí: valor inestimável.

A genialidade, às vezes, precisa de algum tempo para não ser tomada por loucura. Eu já havia me esquecido de toda essa história, quando cheguei em casa, ontem, e encontrei as cópias impressas de alguns textos meus todas molhadas, cheirando à urina. Caminhei pela casa perplexo, tentando compreender aquilo que achava ser mais uma obra dadaísta de meu filho. Samuel, você está louco? Poxa, filho... Samuel, seu gênio!

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