VÍDEO: MURILO CAMPANHA CONTA ITATINGA

O psicanalista Murilo Campanha fala sobre Itatinga, um dos maiores bairros de prostituição da América Latina, onde ele tem seu consultório.

O nadador

Uma crônica de Hugo Ciavatta.

Ainda que as bolachas falassem

Crônica de Fábio Accardo sobre infância e imaginação

Ousemos tocar estrelas

Uma reflexão de Thiago Aoki.

Entre o amarelo e o vermelho

Uma crônica de Hugo Ciavatta

O homem cordial vinhedense

A classe média vai ao barbeiro. Uma crônica de Caio Moretto.

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sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Olhares Cotidianos

. . Por Unknown, com 5 comentários

"Nada me impressionou mais no relato que li, certa vez, sobre os últimos dias da Segunda Guerra Mundial na Europa do que saber que, enquanto as tropas russas entravam em Berlim, em algumas zonas da cidade o leite continuava a ser entregue, os carteiros continuavam a fazer suas rondas, a vida "normal" seguia seu curso. Não sei se achei isso admirável - o poder de resistência ao caos do banal e do cotidiano - ou um exemplo assustador da rotina desconsiderando a História. Viver "normalmente" num mundo em conflito permanente entre riqueza e miséria, privilégio e exclusão, progresso e atraso é a experiência comum de todo o mundo. Isso inclui os desenvolvidos e os sub, inclui todos sem exceção - a não ser, talvez, os escandinavos. Mas mantemos nossas rotinas mesmo sabendo dos bilhões de despossuídos da Terra, incluindo os que vemos pelas nossas janelas. Fazer o quê? Sentimos muito, nos indignamos, votamos em quem promete melhorar a situação pelo menos na nossa vizinhança, mas nossas vidas têm que seguir seu curso. Como em Berlim, o conflito está acontecendo longe do nosso cotidiano. Mas às vezes - como no Rio -, o conflito invade o cotidiano. A rotina é abalroada pela História. Nosso dia a dia não é mais refúgio nem álibi e somos obrigados a enfrentar a realidade."
(Luis Fernando Verissimo, A rotina e a História. O Estado de São Paulo, 9 de dezembro de 2010)

O dia mal amanheceu e, já de pé, é preciso tomar o café rapidamente antes que um possível atraso no trânsito atrase ainda mais o planejamento das visitas. É só mais um quarto indiferenciado, igual a tantos outros no edifício, num prédio também comum a tantos outros. Não, a primeira cena não é o traseiro de uma bela moça deitada num quarto de hotel, como no filme. Se tudo aqui pode ser visto como uma Viagem, um percurso cheio de estranhamento, falta lirismo ao olhar e aos olhares pelo caminho agora. Porque no corredor, ainda que muito cedo, o olhar com o qual se encontra é o mesmo daqueles dias em muitos lugares pela cidade, arregalado, mas ali com os olhos baixos e cravados num canto da parede, como se não prestasse atenção à passagem, embora cumprimente, dê "bom dia" e continue virado para baixo, numa subserviência que se confunde com (auto)repressão sofrida, e um pedido de "por favor, me ignore como sempre", ou "não me humilhe com sua presença". E depois de um "bom dia" quase formalmente obrigado, já no elevador social, com uns olhos que dessa vez não estão baixos, apenas no vazio, pro lado, pra cima, tanto faz, o saguão lhe reserva, além dos tais olhos arregalados, sorrisos de plástico não arregalados ao Senhor. E antes fosse Ele.
- Bom dia, senhor. Posso ajudar?
Após olhar pra trás e para os dois lados. - Bom dia ... Senhor?! (risos de constrangimento) Gostaria de retirar o carro do estacionamento, por favor.
Um carimbo, uma assinatura, e um pedido ao telefone, pronto:
- O veículo está a caminho, senhor. Mais alguma coisa?
- Não, obrigado. Tchau, tchau.
- Tenha um bom dia, senhor.

(Senhor, senhor, senhor... É adorável ser mimado, bajulado, paparicado, no entanto, ser servido é muito diferente. É uma humilhação recíproca, muitas vezes, de algo que alguém poderia muito bem fazer sozinho, mas que outro te faz, simplesmente.)
Curioso funcionários para cima e para baixo com as coisas de hóspede, quando não há necessidade alguma, parece que esperam alguma coisa em troca no final. Talvez um obrigado, valeu, parceiro, não precisava. Mas com o carro que saia na frente ficou um dinheiro na mão do manobrista … ? … Hum, gorjeta! Os sorrisos, a espera de alguns, isso explica expressões de contragosto depois de uma espera ou percurso não retribuído. E a cara de pobre meio que ajuda alguns outros hóspedes, às vezes, quando não, são apenas desprezados mesmo, e o serviço vira um favor. Ironias. Ainda bem que nem todos agem desse modo.

Pé na rua, ou melhor, rodas. A visita estava marcada, a espera é que não estava. Então, nada como conhecer a vizinhança, as pessoas que trabalham no local, interagir, não é mesmo, já que andava com preguiça até pra isso … Os olhos arregalados da vizinha do comércio na frente de nada sabia, somente que ali se juntava um monte de lixo, e “a mulher” logo voltaria pra reabrir o galpão. O simpático patrício de olhos arregalados, protegidos por um impactante par de fundos de garrafa, e que caminhava por detrás do próprio portão de sua casa, disse a mesma coisa, que “a mulher” fora com o caminhão, devia de ter ido buscar mais lixo.

Na calçada, aquela mulher de negro que olhava, arregalada e desconfiada, desconfiada se aproxima pra dizer o mesmo, que “ela voltaria logo”. E a senhorazinha sentada na escada da entrada, enquanto arrastava os olhos arregalados junto ao calcanhar no cimento, resmungava qualquer coisa pela falta de dinheiro. A mesma mulher de negro não era desconfiada, não, o movimento da cabeça era muito rápido, e o tom de voz era diferente agora, muito diferente em poucos segundos:
- Tá, tá, vai pra lá com essa conversa. Vai, vai, fica aí com a tua igreja e o teu Senhor!
(Senhor de novo? Potz … Não, dessa vez é Ele, de fato)
Atravessa a rua, irritada, discute, discute, argumenta, se altera, volta e senta, tudo isso faz sozinha. A senhorazinha sentada não deixa por menos:
- Fica aí falando mal das igrejas do Senhor que cê vai ver só!
(Impossível de acreditar, o sentimento de desespero ensaia dar as caras. De quem é a loucura?)

Caminhar pela rua, abandonando a calorosa discussão deve ajudar a engolir a situação. Mas é bom voltar logo, há outra visita marcada, e longe, claro. Nada lá é próximo, nada, ninguém, tudo é distante.

Ah, “a mulher chegou”:
- Vamos ali no bar, porque como cêis vê, não tem lugar aqui pra gente conversar, só os bag de prástico e papelão que nesse mês nóis num conseguiu vendê tão ocupando tudo, daqui a pouco temô que botar as coisa até na calçada, vai ver.
- Ah, sem problemas. Tomamos uma água, inclusive. Que calor é esse, né?
- Pro cêis vê, daqui a pouco cai aquela chuva de novo …


- Foi uma felicidade pra nóis trabalha na corrida, ah, nem fale, ganhamo cento e vinte reais em três dia. Eles vinha busca nóis lá na central de triagem, cedinho, depois voltamos a noite, deu quase uns quatro reais a hora de trabalho, né?! Era tanto material, tanta latinha, tanto papel, e o material, os resíduo ficou tudo pra gente vender pra recicrage, foi ótimo. Nunca trabalhamo tanto, ficamo atrás dos cesto, embaixo, era muito rápido, as pessoa ia passando, jogando as coisa, e já enchia tudo, trocávamo rapidinho e levávamo pros container, quando chegamo de volta já tava cheio os cesto de novo, e eram grandes, viu, pro cêis vê! Nhá, foi bom demais!
(Quase quatro reais a hora, três dias, cento e vinte reais? Matemática avançada, então foram mais dez horas de trabalho por dia. Se você está dizendo, com os mesmos olhos arregalados, com essa boca de poucos dentes apodrecidos, com esses braços sujos, com esse rosto marcado da sujeira que revira diariamente, e com essa felicidade humilhante pra qualquer ser humano, que trabalhou bastante naqueles dias, então realmente deve ter trabalhado feito um rato, escondido, sem ninguém ver, e mesmo que visível por poucos instantes, sem ninguém perceber. Agora que porra de remédio cê toma pra uma alegria assim?!)
- Expectativa?! Ah, ter um espaço maior pra trabalhar, né?! Cêis estão vendo, né?!
- Sim, sim, tá certo. Muito obrigado, viu, Dona. Vamos indo, então, estamos atrasados já. Tchau tchau.
- Obrigado por terem vindo, viu, corre porque si a chuva que vier pega ocêis, só bem tarde vão chegar no centro. E vão com Deus.
(… não, não, não, Dona, cê não tá entendendo, meu. cê não tá ligada. cê não pode dizer isso, tá ligado, não cola no enredo, saca? cê tem é que ficar com ódio, ódio, ódio, entende? cê tem é que ajudar a botar fogo em tudo isso, porra. que merda! e não achar que tá tudo indo, que vai dar tudo certo, só falta dizer que tudo vai dar "super certo", porque não vai, não tá, não tá, NÃO TÁ …)

Os olhos arregalados bem que podiam entrar numa daquelas categorias antiquadas, ultrapassadas, como se fossem traços, aspectos culturais, atravessando classes sociais, gênero, cor de pele. Afinal, se uma bandeira, se uma cor, se uma religião não define muita coisa, por que cargas d'água o rosto vai definir alguém … ? Assim, grotescamente, a explicação para os olhos arregalados, dos quais nem os orientais ali presentes escapam, seria fruto do volume de informação, da exigência de atenção que a cidade obrigaria, mergulhada em caótica pouco comparável, em confusão fascinante, num entorpecimento estúpido do qual muitos dizem saber a idiotice que é viver ali, mas da qual não saem pelo encanto paradoxal que tudo aquilo propicia, e por medo de perder o que reclamar, isto é, a própria condição. E se existem formas distintas de arregalar os olhos, infelizmente esta não é a de uma menina bonita com cara de sonsa. Naquela cidade imensa o movimento de arregalar os olhos não advém de susto, brincadeira ou diversão espontânea, imagina-se, apenas do cansaço, do medo, do receio, da preocupação, daquilo que alguns nativos chamam de estresse. Se fosse de qualquer alegria banal, o arregalar não traria pelos cantos brancos dos olhos aquelas marquinhas amareladas, pequeninos traços de esforço, de exaustão. Antes, em lugares distantes dali, e ali mesmo, ouvia-se a expressão “introspecção”, ou “ensimesmamento”. Arcaismo, sem dúvida, porque lá, na terra dos olhos arregalados, o ensimesmamento parece comum, é um peso diante dos olhos, como se os forçasse a saltar. A aparente introspecção já não se identifica mais, justamente por ter se tornado natural, tão normal pelas ruas.
Absurdos.

André Dahmer. Malvados

quarta-feira, 24 de março de 2010

É a Virtualidade Virtuosa?

. . Por Thiago Aoki, com 2 comentários

Pode parecer imbecil, mas foi a melhor metáfora que encontrei. Imagine que há um século atrás não existiam, chutando baixo, 99% dos enlatados e fast-foods que nos entopem. Por outro lado, não havia vegetarianos que pregavam peace-animals-and-love, ou nutricionistas especializados em ensinar as pessoas a se alimentarem melhor. Entretanto, nunca deixou de existir a comida. Houve, isso sim, uma re-significação em sua forma, conteúdo, qualidade, quantidade e consumo.

Com a arte - pasmem e xinguem-me pela metáfora xula - é a mesma coisa! Já explico (ou tento!). Antes, coisa de milhares de anos atrás, era só desenhinho de caverna, depois brincadeiras com o barro, barulhos com pedras, armações com corpos de animais e, não mais que de repente... zapt! Sabe-se lá quando e sem que a humanidade percebesse, estava dado provavelmente o mais complexo modo de interação entre a subjetividade individual e a objetividade social: a arte!

Aí vocês já sabem. Gêneros literários, ritmos musicais, escolas de cinema, companhias de teatro, enfim, toda essa camada infinita de sub-itens que a categoria "Arte" pode abranger. Pois bem, era tão legal de fazer que logo os avanços das técnicas permitiu que novas forma de expressão surgissem. O que, basicamente, era música, escultura e pintura ganhou companhia. Logo tínhamos dança, teatro, fotografia, cinema, histórias em quadrinhos. Entramos na era, dita, tecnológica e os campos artísticos se arreganharam. Tudo é arte, nada é arte, que diabos é arte num mundo maluco como esse? Já não se consegue definir com precisão.

Isso porque, mais uma vez, a tecnologia evoluiu. Temos hoje uma gama enorme de novas expressões artísticas, que sequer podem ser catalogadas em algum dos rótulos que criamos. Sim, estou falando de uma arte virtual, ainda não tão definida, mas que dia após dia consolida sua formação! Exemplos? Vamos lá.


Que tal o famoso Guernica, de Picasso, em 3D ? Ou a antropofagia tecnolóigica dos Clip-Poemas de Augusto de Campos ? E os milhares video-blogs postados por usuários do youtube, seriam crônicas faladas? E as imagens de tirar o fôlego, com muita maestria feitas pelos designers, através dos recusros de manipulação digital? E as arquiteturas dos websites, isso é arte, como a arquitetura dos prédios? E a moda dos robôs, terão estilistas?

Coisas novas estão acontecendo, e muito rápido, o que me deixa zonzo. Não tenho a teoria pronta, mas deixo as fezes no ventilador para que pensemos nas novas formas de arte e novíssimas formas de apreciação, que deixam o tropicalismo a ver navios (ou seriam foguetes?). Questionamentos básicos para qualquer um que se ponha a falar sobre cultura.

(Acima, tirinha dos Malvados - altamente recomendados)

O avanço técnico está posto, se seremos fast food enlatado, carne nobre ou vegetal de alta nutrição, ainda está em disputa.


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