VÍDEO: MURILO CAMPANHA CONTA ITATINGA

O psicanalista Murilo Campanha fala sobre Itatinga, um dos maiores bairros de prostituição da América Latina, onde ele tem seu consultório.

O nadador

Uma crônica de Hugo Ciavatta.

Ainda que as bolachas falassem

Crônica de Fábio Accardo sobre infância e imaginação

Ousemos tocar estrelas

Uma reflexão de Thiago Aoki.

Entre o amarelo e o vermelho

Uma crônica de Hugo Ciavatta

O homem cordial vinhedense

A classe média vai ao barbeiro. Uma crônica de Caio Moretto.

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domingo, 1 de agosto de 2010

Pequenas Frases

. . Por Unknown, com 4 comentários

Entrei num bar, meses atrás, na Espanha, tentando ser simpático. Às vezes, pelo menos tentar ser agradável, imagino, deve ser bom. Sabe, não me convencem muito aquelas histórias de que há um "tipo" de brasileiro, outro de português, argentino, e assim por diante. Isso parece muito mais uma generalização forçada de algumas características, um exagero, uma caricaturização de uma região ou outra. É engraçado, de qualquer forma, encontrar pela rua um "tipo" desses, numa reação estereotipada, num momento específico, como naquela noite na Espanha, em que cheguei no balcão dizendo:
- ¡Hola! Por favor, ¿hay cerveza?
- ¡Hombre! ¡¿Entras en una farmacia y preguntas si hay pastillas para dolor de cabeza?! ¡Claro que hay cerveza!
Depois de rir meio assustado, pedi minhas duas cervejas e voltei pra mesa e contei a cena, claro. Ouvi que a minha infeliz tentativa de ser simpático acabava sendo completamente imbecíl, idiota. É.

Meses depois, encontrei um texto de Ignácio de Loyola Brandão, Vamos seguir o horários oficial de Brasília. Nele, o escritor fala sobre os benefícios que teríamos se adotássemos, de fato, os horários seguidos pelos parlamentares de Brasília. Haveria uma mudança significativa em nosso dia a dia. A semana de trabalho seria menor, por exemplo, e ainda trabalharíamos menos durante o dia. A primeira reviravolta seria o fim da segunda-feira, dia mais terrível não há para todos nós, menos para os nossos representantes no legislativo federal.
No entanto, uma das personagens da crônica de Loyola Brandão é obcecado pelo significado das palavras, pergunta-se pelo motivo, cada vez mais recorrente, de muitas pessoas, depois de ouvirem um agradecimento, responderem com um "Imagina...". Ora, você diz "Obrigado" a alguém e ouve um "Imagina...". Peraí, imaginar o quê? É uma pergunta inútil:

"Imaginar o quê? Por quê? Em função do quê? Ele perdeu o sono muitas noites, fazendo mil hipóteses e não consegue chegar a nenhuma. Onde teria nascido isso? Como? Talvez exista algum costume ancestral, remoto que possa dar um sentido a essa resposta. Ou será de propósito? Algo como uma pegadinha? É para a pessoa ficar imaginando, supondo, querendo desvendar o mistério? O que há para imaginar? É uma tentativa de obrigar o outro a pensar, a raciocinar, a pôr a cabeça e as ideias em ação, algo para sacudir a inércia?".

O escritor finaliza com outras duas respostas bastante comuns. No restaurante, o cliente chega e pergunta ao garçom: e a comida, está boa? Ou numa feira, em meios as frutas, você se dirige ao rapaz que vende mangas e solta: é doce?
É verdade, se alguém lhe responder que não, que o prato está ruim e a fruta nada doce, desconfie, pode ser um garçom andaluz!

Outra dessas situações aparece quando nos despedimos de alguém, geralmente numa ocasião de um formalismo desnecessário, e querendo ser educado. Por algum motivo misterioso, dizemos e ouvimos "desculpe qualquer coisa"... qualquer coisa? Mesmo? Olha, sou gênio em dar foras, cometer gafes, em perder grandiosíssimas oportunidades de ficar calado, mas, se pensarmos bem, o termo qualquer é muito angustiante... qualquer coisa... qualquercoisinha... sabe-se lá o quê! Por isso, dá próxima vez que alguém me vier com um "desculpe qualquer coisa" vou revidar a incerteza com "claro, compreendo o insólito acaso de você ter nascido!".
Semelhante é o "me desculpe por tudo"... Ahnnn, mas tudo? Além do possível "fato de existir" vindo pelo impreciso qualquer, o tudo causa uma agonia próxima à indiferença... já que é tudo: nada importa para aquele que ouve, imagino, pensa quem diz tudo. Quando alguém desculpa tudo, permite qualquer coisa
Tcharan, deve ser isso, num tempo muito, muito distante, quem um dia desculpava tudo fez com que outros pedissem desculpas por qualquer coisa, uma vez que não havia importância. Mas o inverso não é válido, quem desculpa qualquer coisa, pode não esquecer algum ponto em meio a tudo. Confusão.

Melhor diálogo então seria, Loyola Brandão:
- Tchau, a gente se fala!
- Ah, tchau, até mais! Hum, desculpe qualquer coisa, viu...
- Imagina... !
















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Agradecendo ao amigo Rodrigo Bulamah pela ótima história sobre qualquer coisa!

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