VÍDEO: MURILO CAMPANHA CONTA ITATINGA

O psicanalista Murilo Campanha fala sobre Itatinga, um dos maiores bairros de prostituição da América Latina, onde ele tem seu consultório.

O nadador

Uma crônica de Hugo Ciavatta.

Ainda que as bolachas falassem

Crônica de Fábio Accardo sobre infância e imaginação

Ousemos tocar estrelas

Uma reflexão de Thiago Aoki.

Entre o amarelo e o vermelho

Uma crônica de Hugo Ciavatta

O homem cordial vinhedense

A classe média vai ao barbeiro. Uma crônica de Caio Moretto.

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segunda-feira, 13 de maio de 2013

Coluna do Leitor - Ainda sobre cadeias e ladrões

. . Por Mistura Indigesta, com 1 commentário

Acabei de tomar boldo isprimido na água. Cê pega o boldo, amaça ele com uma colher de pau em três dedos d'água. Depois deixa uma hora na geladeira. Daí toma. Remedião bom contra essa ressaca.
*          *          *

vida

nasce
estuda
estuda
estuda
estuda
trabalha
trabalha
trabalha
trabalha
trabalha
trabalha
trabalha
aposenta
e morre

Fiz esse “poema” há uns dois meses atrás. Declama-se bem devagar. Na primeira declamação que fiz minha amiga gargalhou. Na segunda, uma outra amiga não gostou muito não. “Nossa! Que visão triste das coisas...” Não. É só um jeito de enxergar um troço que eu tratei como deus durante muito tempo: o trabalho.

Minha família sempre ensinou que trabalhar era bonito. Comecei aos treze como panfletista. Entregar papel na rua, manja? E ófice bói. Eu gostava. Eu tinha a vida pela frente. Eu tinha muitos trabalhos ainda pra fazer. Muitos trabalhos bonitos. Tinha muito a crescer.

Tinha que crescer. Minha mãe era professora de educação infantil, tinha sido bancária. Eu ia ser algo assim. Fui criado pra isso. Esse seria o fim. O sonho. Imagina passar num concurso? Estabilidade. Salarinho todo mês. Nossa! Ia ser muito bom.

Da mesma forma que um filho de médico vai ser médico ou engenheiro ou juíz, um filho de gari pode ser gari ou ajudante de pedreiro ou mesmo pedreiro - ou até professor ou enfermeiro quem sabe? -, o filho de grande empresário vai continuar os negócios do pai assim como o filho do dono da mercearia pode cuidar também da budega, eu ia me encaixar dentro de alguma regra dessas aí. Não ia ser ajudante de pedreiro. Nem médico. Nem empresário. Nem dono de budega. Essas profissões estavam fora do meu universo. Ia ser burocrata, bancário, professor. E foi o que fui.



*          *          *

O boldo é um remédio impressionante. Você planta ele em qualquer vaso ou tanque com terra. Se gostas de álcool e sentes ressaca tenha um pé de boldo em casa. É praga, dá em qualquer lugar. 
Não compre o boldo de fazer chá não, esse industrializado. É uma merda. Boa é a receita que dei no início do texto. O boldo é um santo remédio. Meu novo deus chama boldo.


*          *          *

Passei no concurso pra bancário com vinte e um anos. Fiquei muito feliz. Era a realização do meu sonho pessoal. Lembro bem das pessoas me parabenizando. Foi porque cancelaram algumas questões de conhecimentos de informática – queu não tinha nenhum – que passei. Banco público. Concursado. Estável.

Setenta dias depois pedi demissão.

Setenta dias depois eu estava deprimido.

Setenta dias depois minha vida passou diante dos meus olhos.

Atribuí primeiramente minha depressão – e o fato deu me sentir um merda por não conseguir me manter no trabalho dos sonhos – ao fato do trabalho dos sonhos ser num banco. Um lugar que dá muito dinheiro pra quem tem muito dinheiro e muitas dívidas pra quem tem muitas dívidas. O sistema. A representação do mal do capitalismo. E meu gerente-chefe era um gradessíssimo filho da puta. Dá vontade até de dizer o nome dele aqui, mas não vou fazer. Só pra você ter uma noção fiquei sabendo que ele sofreu um acidente de carro um ano depois deu ter saído e a única coisa que eu conseguir dizer foi: “ele morreu? ele morreu?” e o fato de ter sobrevivido me decepcionou muito.

Então bora pular essa parte que tá ficando chato o texto. Parece que to fazendo terapia aqui cocês. E por que raios o título é ainda sobre cadeias e ladrões?? Já chego lá. Uma nova pausa aí embaixo. Agora sem boldo.


*          *          *

É possível você fazer o que quiser na hora que quiser do jeito que quiser? Claro, sem ferir o corpo de ninguém, apenas o seu próprio, se quiser. É possível? Tem gente que vive sem estar enquadrado ou tudo é sistema, tudo é capitalismo, tudo é submissão ao relógio?? Ando bebendo de manhã. Assim como nos melhores carnavais da minha vida. Liberdade era abrir uma lata de cerveja pela manhã. Ando abrindo.


*          *          *

O banco não rolou. Bora prestar outro concurso. E passei. Agora burocrata fazedor de crachá para trabalhadores terceirizados numa universidade pública. E já no terceiro dia senti uma vontade doida de quebrar tudo. Mas eu tinha que resistir. Não se pode matar um deus de repente. Resisti por quase dois anos. Faltava muito no serviço. Sempre tinha que ir de tarde no postinho dizer queu tava com caganeira ou outra indisposição qualquer. Pra ter o atestado.

Saí, mas ainda precisava desse deus. Então segui entrando e saindo de trabalhos. E toda vez me sentia triste por não conseguir continuar. E toda vez me desapontava comigo mesmo. Me sentia um merda. Segue nova pausa, acho que a penúltima.


*          *          *

Eu tinha um monte de quadrinhos guardados numa gaveta. Sempre li muitos quadrinhos. Na revista do Geraldão tinha um cartunista, irmão do Glauco, chamado Pelicano, que fez um quadrinho chamado Operário Pedrão. É na revista Geraldão número 3, quando o pai do Geraldão volta pra casa. Quando vi aquele traço do Pelicano percebi que podia ser cartunista. Mas esses sonhos a gente mata bem cedo. Com 15 anos, panfletista, futuro burocrata, já nem pensava mais nisso.

*          *          *

Depressão pós pedir demissão pela enésima vez. Dirijo pra relaxar. Ideias. Desenho. Objetivo: matar o Deus Trabalho. O Espremedor de Culhões do Bukowsky, o melhor conto dele, entrando na mente. Amigos desenhistas, vários. E dois que resolveram fazer uma empreitada humilde que acabou virando trabalho também. Só que com possibilidade de se fazer na hora que quiser. Ou de não fazer, se quiser. Ou de fazer chapado, alcoolizado, “livre”.

*          *          *

O melhor termo é vagabundo. Vagabundo mesmo. É isso que sou. E somos vários. E estamos em todos os lugares. Em todas as ruas. E já assumimos isso. E uns já nem ligamos pra opinião de quem acredita no deus trabalho. E vamo se virando como podemos. E tamo vivo. 


*          *          *

A nova profissão eu chamava de vendedor de gibi. Ou vendedor de zine. Tem gente que chama de mangueio, pra diferenciar de trabalho. Pode ser também. Tem gente que gosta de chamar de trabalho mesmo. E tem gente que faz malabares no semáforo, e vende artesanato, poesia, quadro, caricatura, ou vende o alimento que faz e por aí vai... Tem muita gente não obedecendo nem relógio e nem patrões. A merda é que todos necessitamos duns papéizinhos picados com assinatura da presidenta pra trocarmos pelas coisas básicas à sobrevivência.

Tem o filho de gari, que mora na periferia da capital, e faz malabares no semáforo.
Tem o meu caso. Que tive acesso a livros, a quadrinhos do Geraldão, Henfil, Laerte, Angeli, desde criança, e vendo minhas brisa sobre esse mundo doido.
Tem o caso do filho do megaempresário que vive com dinheiro do pai sem trabalhar.
Tem o caso do filho do médico, que largou medicina no terceiro ano e foi viajar pra europa.

Tem o caso do filho do dono da budega, que virou professor de violão.
Mas tem também o caso do Miltinho, filho da costureira Maria, mãe-solteira de 5, que conviveu com o padrasto alcoólatra que vendia cocaína(1) pra sobreviver, e que – ao contrário dos 4 irmãos que tem carteira assinada – sobrevive praticando furtos.
E aí a gente vai prender o Miltinho?
E se vamo, vamo prender o Miltinho por quê?
Porque ele nasceu onde nasceu e “Ó! Roubou meu celular!!! Ó! Furtou minha bicicleta!! Ó! Levou meu carro!! Pega!! Prende!! Vagabundo!!”
Você nasceu onde nasceu. Eu nasci onde nasci. O Miltinho nasceu onde nasceu. Acaso. Não temos culpa. E não devemos ser encarcerados porque somos o que somos.

Não há culpado nem inocente. Cada pessoa ou coisa é diferente. Então baseado em que você pune quem não é você? Raul Seixas disse isso em 1975 no Novo Aeon.

Como disse o Capinam, ninguém deve pagar nem pela vida mais vadia. Eu despedi o meu patrão.

Assim como muita gente anda despedindo. Muito amigo meu. Assim como o Miltinho.

Eu ia terminar com alguma frase retumbante igual no primeiro texto mas encerro aqui. Acho que me fiz entender.


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(1). Mais um entorpecente desse mundão. Tem gente que bebe álcool. Tem gente que fuma maconha. Tem gente que toma lexotan. Tem gente que cheira pó.
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João da Silva é um vagabundo sem vergonha (http://quadrinhosecharges.blogspot.com.br/)

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Asterios Polyp: Arte (d)e Narrativa

. . Por Fernando Mekaru, com 0 comentários



PREMISSA PARA ROTEIRO. Após evento fortuito e inesperado, homem que parece ter tudo na vida perde tudo e, face aos horrores que lhe restaram após a recém-acontecida tragédia, vai para longe, até onde seu dinheiro lhe permite, para viver uma vida que nunca cogitaria viver antes. Ao mesmo tempo em que tenta deixar o passado para trás, homem busca nesse processo de reinvenção o sentido de sua própria vida, em uma mal-disfarçada tentativa de encontrar a si próprio em meio a anseios de redimir-se por erros de outrora que parecem inescapáveis. Homem, após ter de encarar de frente suas angústias, sofrimentos e, princpalmente, o seu próprio orgulho, descobre na mudança da personalidade a solução não de todos, mas de vários de seus problemas.

Vamos convir: essa não é uma premissa das mais originais para se escrever uma história.

Isso não impede, porém, que obras magistrais possam ser desenvolvidas a partir desta proposta, reinventando-a e mostrando que os limites da arte se dão verdadeiramente nas execuções infinitas de uma mesma ideia, bastando apenas uma execução suficientemente criativa dela.

Asterios Polyp (David Mazzucchelli, Cia. Das Letras, 2009, primeira reedição em 2012), um volumoso calhamaço de quase 400 páginas coloridas de quadrinhos, não faz parte do panteão de obras que se propõe a pegar essa proposta de narrativa e reinventá-la. Muito pelo contrário, a fórmula é seguida à risca, com muito pouco espaço para o desenrolar de um certo tipo de história que, com certeza, já vimos antes.

Por que, então, esta é considerada a magnum opus de David Mazzucchelli, mais até do que trabalhos mais conhecidos do mesmo autor como Batman: Ano Um e Demolidor: Renascido, nos quais personagens clássicos tem as suas carreiras reinventadas e suas histórias recomeçadas de um ponto de partida original, que rompe com outras leituras do mesmo? Por que uma das premissas mais recontadas da história, sem nenhum tratamento digno de nota, é reconhecido por diversos veículos como um dos quadrinhos mais inovadores dos últimos anos?


O estatuto concedido a esta obra se dá, principalmente, porque Mazzucchelli arrisca fazer algo que, no passado, muitos artistas falharam tentando: o foco dele é na forma de fazer quadrinhos, e não no conteúdo narrativo contido nos mesmos. Ao contrário do que normalmente acontece, isso não significa que isso desmereça a obra, pelo contrário: ao invés de se colocar somente como um deleite aos olhos e nada mais, a arte de Asterios Polyp é, antes de tudo, um convite a se afundar mais e mais no roteiro, colocando na obra todos os não-ditos, pressupostos, reflexões e demais elementos responsáveis por tornar os personagens profundos e a história, cativante.


A arte opera dessa maneira incrível de várias maneiras: a que mais se sobressai é a estilização de cada um dos personagens, que em primeiro lugar tem todas as suas falas e pensamentos escritos em fontes distintas uma das outras - essa mudança estilística, irrelevante à primeira vista, é um primeiro sinal ao leitor para que a individualidade de cada personagem, por menor que seja, seja estabelecida tanto na narrativa quanto na sua mente. Esta mesma postura de desenvolvimento dos personagens a partir da arte acontece de maneira mais impactante quando a história entra no plano de análise subjetiva de cada um deles: são todos (todos!) desenhados de maneiras distintas, de maneira a ressaltar características psicológicas e personalísticas que, se o único meio utilizado fossem as palavras, não seriam colocadas de maneira tão contundente e chamativa. A arte, nesse sentido, coloca tudo que o texto não coloca sobre a personalidade de cada uma das pessoas com as quais Asterios cruza durante sua jornada de auto-conhecimento: a partir dessa base, a mente do leitor se encarrega de fazer o resto do processo de construção dos personagens.




Mais do que colocar em evidência o pequeno universo artístico que cada personagem carrega em si, Mazzucchelli se utiliza da arte também para colocar uma questão que, com menos sensibilidade, é tratada de maneira simplista e muito pobre: o choque entre visões de mundo de duas pessoas muito diferentes entre si. O contraste visual entre estilos de arte gritantemente diferentes, junto à simplicidade dos balões de fala/pensamento, geram uma maneira de comunicar, durante a narrativa, os momentos de tensão e conflito entre as partes envolvidas, deixando o conflito implícito ou explícito conforme os elementos narrativos de cada página se coordenam entre si para desenhar cada elemento do roteiro.

       

Além de servir como instrumento narrativo, o contraste entre estilos de arte muito diferentes entre si coloca, em diversos momentos, uma questão que gera muitos debates: quando cada um de nós é inescapavelmente único e singular em seu âmago, é possível que essa unicidade/singularidade seja compartilhada, ou até mesmo compreendida, pelos outros seres únicos e singulares que nos cercam? Asterios Polyp dá uma possibilidade de solução para esta pergunta, e também dá pistas para que o leitor chegue às suas próprias conclusões, sem que para isso precise que a graphic novel leve-o pela mão até elas.

                                       

Obviamente, além de questões levantadas pela arte, a graphic novel não se resume ao roteiro-modelo colocado no início desse texto: a história possui alguns outros pontos levantados, a maior parte deles referente à construção da personalidade de Asterios, o personagem principal, mas não é possível falar dos mesmos sem que isso revele detalhes importantes da história. Se a descrição inicial da história sugere falta de profundidade, não se engane: ainda que não seja extremamente complexa e envolva diversos planos de narração, esta história em quadrinhos apresenta uma história sólida e envolvente, que vale muito a pena ser lida.

Em suma, Asterios Polyp reconta uma história que você já ouviu antes, mas dentro dos limites dela, faz coisas incríveis, singelas e bonitas, com alta carga emocional e que invariavelmente se comunicam com histórias que já ouvimos (e passamos) antes. Por conta de sua arte incrível, cada leitura permite novas reconstruções de cada um de seus personagens e eventos, bastando para isso apenas um novo olhar e análise para cada cena que o delicado jogo entre palavras e imagens coloca em cada folha de papel. Na opinião deste que vos escreve, é simplesmente uma história de quadrinhas imperdível, que reafirma o estatuto de arte concedido às histórias sequenciais e escapa de praticamente todas as soluções fáceis que esta forma artística normalmente propõe e não se deixa escapar.

domingo, 18 de março de 2012

O cinza de David Small

. . Por Unknown, com 3 comentários

"(...) cuando el enfermo se acostumbraba a su estado de vigilia,
empezaban a borrarse de su memoria los recuerdos de la infancia,
luego el nombre y la noción de las cosas,
y por último la identidad de las personas
y aun la conciencia del proprio ser,
hasta hundierse en una especie de idiotez sin passado."
(G.G. Márquez)

Nos últimos anos, muitas são as HQs (Histórias em Quadrinhos) autobiográficas. Uma rápida pesquisa pela internet traz nomes como “Fun Home”, de Alison Bechdel, “Mas ele diz que me ama”, de Rosalind Penfold, “Essa Bunch É um Amor”, de Aline Kominsky-Crumb, e “Persépolis”, de Marjane Satrapi. Essa última, inclusive, ficou bastante conhecida com a adaptação ao cinema. Mas inventariar essas publicações - curiosamente escritas por mulheres -, numa verdadeira obsessão "estatística" a procura de elementos recorrentes nesse cenário, não parece responder à razão do suposto crescimento de títulos desse gênero. Mesmo que um hipotético painel dessas publicações fornecesse uma visão das temáticas presentes nas histórias de cada desenhista, suas mais variadas origens pelo mundo, épocas e influências, traços e grafias igualmente diversificadas, haveria de haver aquela historia pra nos deixar desconcertados. Foi assim que passei dias, semanas com “Cicatrizes”, de David Small.


Não conhecia “Cicatrizes”, nunca tinha sequer ouvido falar do autor, mas a capa (à esquerda), o cinza, a opacidade, a fresta pela qual corre a luz do quarto depois da escada, tudo isso me assustou. Eu tampouco sabia que o livro era autobiográfico. Mas com ele em mãos, era apenas uma história que parecia envolver medo, suspense e, quem sabe, terror. A contra capa (à direita), no entanto, diz que o rosto de um jovem, de um homem, carrega o menino que outrora foi. Qualquer obviedade, porém, fica para trás com a leitura, que se torna apressada a cada página, tal é o envolvimento que provoca. Uma tarde, uma manhã ou uma noite, que seja, é o suficiente para não descansar enquanto não virar a última página do livro. É como se fôssemos engolidos pelo papel.

Engolido tal como o menino David nesta imagem (abaixo). A referência a Lewis Carroll e ao “Alice No País das Maravilhas” é explícita, já que Alice cai na toca de um coelho e vive uma aventura fantástica, imaginária, como que adentrando os meandros de seus sonhos. David Small, todavia, foge da mensagem de Carroll e mergulha no real, duro, pétreo. Os quadrinhos, os desenhos dele talvez fossem o recanto de seus sonhos, a forma de não ver tão de perto o mundo ao redor.


Porque o mundo de Small, então menino e adolescente, é mais de sombras que de lugares, é mais de esguelha, mais de fechaduras, mais de repreensões que de sorrisos. E isso se reflete em quase todos os personagens da trama, em seus familiares, especialmente. A câmera que os retrata tem a lente torta, quebrada, desajustada, esvazia-os, eles raramente têm olhos, muitas vezes, somente os óculos preenchidos de branco encontram o leitor. A vida de Small não é uma história de terror, é apenas real, demasiadamente.

A exceção é o analista com que o jovem David Small conversa. Novamente, a referência a Carroll é evidente, pois o analista aparece como um coelho, como aquele que guia ou inquieta Alice. É ele quem lhe diz o que é quase impossível para qualquer um, ainda mais para uma criança, aceitar: a mais absurda revelação, tão clara ao longo daqueles anos todos. Se nossas convenções não permitem imaginar, o traço de Small não, era apenas uma questão de tempo para nos assaltar, percebemos em seguida. Depois das palavras do coelho, o que Small descobre não tem nada demais, é absolutamente normal. O casamento insosso dos pais, a infelicidade de todos e a dificuldade por representar uma vida que eles não queriam. Após aquelas palavras do terapeuta, segue o silêncio de Small, o grito, o sufoco e, finalmente, o universo dele parece humanizado. Seus familiares, seu mundo, a Detroit em que viveu, todo o cinza, se não adquire cor depois disso, pelo menos o faz deixar o absurdo e encarar cruamente a tristeza.

Por fim, me lembrei de François Dosse, em “O desafio biográfico”. O filósofo francês, ao recuperar diversos pensadores desse gênero tão controverso, diz que textos (auto)biográficos quase que desidratam o passado para consumo, como se retirassem dele a intensidade do trágico, ao mesmo tempo em que o deixariam doce, singelo, agradável para o hoje. Assim, nessas escritas de si, o passado passaria a ser visto de maneira encantada. Para Dosse, ainda, poderíamos imaginar encontrar nesse gênero a conhecida reafirmação do Eu, dos escritores, do autores desses textos, ou da busca por modelos de vida para os leitores. Dosse, porém, talvez não dissesse isso se tivesse diante dele a história e os desenhos de David Small.

(para Fábio Accardo de Freitas, que faz anos hoje)

quarta-feira, 14 de março de 2012

Como fazer perguntas?

. . Por Fábio Accardo, com 3 comentários

Desde agosto do ano passado que não escrevo um post. Tenho me perguntado por que. O mesmo tempo em que tenho feito de muitas indagações sobre a vida, muitas perguntas, muitos por ques. Acho que estou fazendo as perguntas erradas. Algumas delas não me levam a nada. Outras ao imobilismo. Talvez por isso não tenha conseguido produzir nada.

Nesse tempo, li Diálogo e Conflito. O livro é um diálogo franco entre três educadores populares: Sérgio Guimarães, Moacir Gadotti e Paulo Freire. De leitura clara e dinâmica, o livro aborda o tema do diálogo. Conta um pouco da trajetória dos três “personagens” e se propõem a responder as perguntas de pessoas que passaram pelas diversas palestras, aulas e oficinas em que estiveram presentes Gadotti e Freire. Sérgio é o entrevistador, mas também está na conversa, ou melhor, no diálogo. Num momento do livro, Paulo se diz inferiorizado, frustado, pois Gadotti disse a ele uma vez que havia guardado todas as perguntas que fizeram para ele até hoje. Paulo disse que as deixava em cima da mesa. Se sentiu envergonhado e desrespeitoso. Resolveram então fazer a conversa, e o livro, para tentar trabalhar com essas perguntas guardadas por Gadotti. O livro parte dessas perguntas, mas não se colocam a respondê-las. Dizem que "no fundo, a própria maneira de fazer a pergunta já continha uma resposta." Como assim?

Essa afirmação ficou na minha cabeça e a todo momento tenho me dado conta disso. As perguntas que todos fazemos já trazem consigo a resposta prévia. Será? Creio que, principalmente nós, homens e mulheres da academia, da Universidade, não fomos educados para fazer perguntas. Aprendemos durante 4 anos (ou mais) a questionar, criticar, a desconstruir, se colocar, a constrager. Nunca aprendemos a verdadeiramente dialogar. O ponto não está na pergunta. Não é a mensagem mas quem a faz. As pessoas parecem que não sabem, e não querem, dialogar. Os questionamentos aparentam, em sua maioria, veleidades de poder. As criticas são o argumento da punição. Você está errado, ponto. Não se desconstrói para ir a outro lugar. É simplesmente desmoronar o cabra. A mensagem, aqui a pergunta, é ferramente de poder. Não faz dialogar, só mostra o caminho do qual se parte para te oprimir.

Isso porque penso que uma pergunta só é diálogo quando constrói. Quando leva tanto o emissor quanto ao receptor, por intermédio da mensagem (aula básica de comunicação – não passei disso!), a um diálogo que supera o momento anterior. Um pouco do que Paulo dizia, da denúncia e anúncio, da educação popular. Talvez em Marx, da tese, antítese e sintese. Não sei. Sei que a pergunta não deve ser estática, não deve imobilizar, não é para criticar, para desconstruir. Se pergunta para ir além, para saber, para superar as barreiras que emissor e receptor tem.

Talvez as perguntas nos levem a verdade. A verdade que cada um busca, que estamos buscando. As nossas verdades. Logicomix, outro livro que acabei de ler, conta um pouco da história de Bertrand Russel em busca da verdade. Russel foi um grande pensador que, por meio da matemática e filosofia, queria cegar aos limites da possibilidade da razão para, a partir da lógica, chegar a verdade. O livro é uma história em quadrinhos divertida. História e ficção se reúnem para nos contar o caminho tortuoso do nosso (anti-)herói em “busca da verdade”. Um pouco de história da matemática, dos seus fundamentos. Mas também um pouco da história das perguntas. E nos perguntamos, ele então conseguiu chegar na “verdade”? O que acham?

Sei que tudo isso tem me levado a concordar com meu amigo que escreveu um texto neste mesmo blog, a um tempo atrás: no fundo, as únicas perguntas realmente importantes são aquelas que podem ser formuladas por uma criança.

Vou alá! (do português voilá!)

Ps: agora me pergunto – quanto tempo mais vou levar para escrever um novo post? (nessa pergunta já estão incluídas as informações que fazia tempo que não escrevia, que há uma necessidade e uma cobrança em escrever um post, que vou necessariamente levar um tempo, etc, etc, blá-blá-blá....talvez essa não seja a pergunta certa. Essa me leva a um imobilismo. Alguém pode me ajudar?)

terça-feira, 19 de abril de 2011

Vinho: "Ovinho"

. . Por Fábio Accardo, com 3 comentários

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Da Felicidade

. . Por Fábio Accardo, com 1 commentário

quarta-feira, 16 de março de 2011

Miséria S/A

. . Por Fábio Accardo, com 3 comentários

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Meus devaneios pelos quadrinhos

. . Por Fábio Accardo, com 4 comentários

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Divulgando - Rica Miséria

. . Por Thiago Aoki, com 3 comentários


Paralelamente ao glamour espetacularizante da bienal do livro, um grande lançamento de pequeno alcance: a Revista Miséria número 4. Devorei-a em coisa de 15 minutos, mas até agora não consegui digerí-la. Isso porque pensar na miséria dói, seja por culpa reprimida ou por saber-se miserável, ainda que não em um aspecto não monetário. A crueldade dos quadrinhos miseráveis nada misericordiosos enclausura-nos num canto do cômodo, põe a faca em nosso pescoço e pergunta até quando ser conivente. Com desenhos que trafegam dos traços sutis ao "cru-que-incomoda", coloca-nos a pensar, em forma e conteúdo, em arte e mundo, em necessidades e ostentações. Certo dia alguém me pegou de surpresa: é preciso resistir, mas resistir a quê? Para os cartunistas, a resposta, me parece clara: à (ir)racionalidade do mundo do trabalho.


As contradições, feridas que incomodam, expõem-se em seguidos choques. Ricardo Flóqui, Batata e João da Silva, os três incansáveis quadrinistas, parecem ter uma sinergia intensa. Todas as páginas fluem e todos os quadrinhos se convesam, fazendo da miséria - a revista e a categoria - algo sólido e contagiante. Parece-me que ler a Miséria é também passear inconscientemente por nomes que exaltam a crítica social - como Edgar Vasques, Quino e Glauco - ou que destacam o politicamente incorreto - como Allan Sieber, André Dahmer, Fábio Moon e Gabriel Bá. Também é um pouco tarantinesca, por que não? Cabe ressaltar que esta quarta edição tem um salto editorial gigantesco para as demais. Primeiro por intercalar-se com textos, poesias e trabalhos externos, todos de alta qualidade (como o de nossa última "Coluna do Leitor"). Segundo pela qualidade da impressão que, cada vez mais, ruma à possibilidade de um mercado que faça os criadores da revista, finalmente, realizarem o principal sonho de suas vidas: viver de quadrinhos.

Além do trabalho editorial, os incansáveis e insaciáveis miseráveis, cujo dia parece ter mais de 24 horas, participam de movimentos sociais, fazem oficinas de quadrinhos, ocupam espaços públicos e ainda arrumam tempo pra cantinar.

A Revista Miséria pode ser adquirida por míseros e injustos R$3,00 na Banca Central (Barão Geraldo - Campinas), no HQ QG (em frente ao Restaurante Universitário da USP), no site oficial do Miséria HQ, no Sebo Galpão (Barão Geraldo), no Pagode do Souza (todas as segundas à noite no IFCH - Unicamp), na Banca Túnel do Tempo (Taubaté), entre outros locais obscuros.


Em tempo: nós do Mistura Indigesta fizemos, cerca de 5 meses atrás, uma extensa entrevista de boteco, regada à água de coco e suco de laranja, com os cartunistas do Miséria, porém ela ficou muito extensa e com necessidade de censura e edição (hehehe), coisa que foi impossível ocorrer, por isso nossa dívida com o grupo, que pagaremos em algum botequim campineiro.
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Se você possui ou conhece algum projeto que mereça ser divulgado, contate-nos pelo misturaindigesta@gmail.com e divulgaremos gratuitamente.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

João Montanaro - Promessa e Bagunça

. . Por Thiago Aoki, com 2 comentários


Quantos anos você acha que tem o cartunista da charge acima? Pouco entendo, tecnicamente, de quadrinhos, mas acredito que qualquer um que não conheça João Montanaro, provavelmente não arriscaria poucos 14 anos. Quando um amigo me contou sobre tal quadrinista potencial, não acreditei. Isso mesmo, nascido em 1996, João já trabalha para a Revista Mad, Le Monde Diplomatique (de onde a charge foi retirada) e para a Folha de São Paulo.

Ainda com 12 anos, em entrevista para a revista "O Grito", o autor afirmou ter como leitura predileta "Assassinos da Rua Morgue", de Edgar Allan Poe e estar acabando de ler "Leite Derramado", de Chico Buarque. E ainda se divertia em contar que teve que assistir escondido do pai - o editor de livros Mario Montanaro - ao famoso Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick.

O autor, considerado por diversos cartunistas como um fenômeno em seus traços e humor, lançou, neste dia 7 de agosto, seu primeiro livro, "Cócegas no Raciocínio", pela editora Garimpo. O título vem de uma frase do pouco conhecido Leon Eliachar, humorista egípcio, crescido no Rio de Janeiro, que certo dia afirmara: "humorismo é a arte de fazer cócegas no raciocínio dos outros"

A fama de "garoto prodígio", longe de deslumbrar, atrapalha, mas não intimida o autor. "Isso me incomoda um pouco, o 'menino prodígio' é alguém que aparece e logo some", diz. "Apesar de ser óbvio, não gosto que falem tanto na minha idade porque tira o foco do trabalho. Mas vou ter de lidar com isso por um tempo ainda, né?". Entre os afazeres com blog, twitter e publicações, João gosta de assistir Bob Esponja, ler jornais, tocar guitarra e organizar seus LP's.

Nos quadrinhos, teve como principais influências os ótimos Angeli, Laerte, Adão, e os tradicionais herois da Marvel.

Que rumo tomará João, não se sabe, mas experimente conhecer seu blog e verá que é mais do que mero produto da indústria cultural e da sociedade do espetáculo. Claro que ainda tem muito o que caminhar, em forma e conteúdo, há inclusive quem diga que não deveria trabalhar com essa idade. Ainda assim, João é fruto de borbulhas de fervor nos quadrinhos nacionais e deve chegar para compor uma nova geração que promete. Mesmo que, com essa idade, espera-se de um garoto menos promessa e mais bagunça.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Quão abstrato pode ser um conceito?

. . Por Fábio Accardo, com 4 comentários

Olhem para a figura ao lado - que me dizem? Um desenho qualquer? Arte? Arte abstrata? Quadrinhos? Arte abstrata em quadrinhos? Tive a mesma reação assim que uma amiga me mandou o link do blog abstractcomics. Somente me enchi de dúvidas acerca do que se tratava. Desde sempre as histórias em quadrinhos (HQs), os comics, tiveram uma linguagem mais ou menos delineada para o meu entendimento. Eram páginas que misturavam vários tipos de linguagens como a escrita, o desenho, a arte gráfica, com um objetivo de contar um história, numa arte seqüencial lógica, com cronologia que levaria ao fim da história ali proposta. Seria eu (ou uma gama de fanáticos por quadrinhos) tão ultrapassados assim para não compreender algo que se diz comics?
Fiquei vários dias com isso na cabeça (e várias noites atordoando essa amiga com minha inquietações). Quando não se tem uma base teórica ou empírica para esse tipo de abstração, não se chega a nenhum conclusão acerca desse tipo de assunto. No entanto, nos esforçamos. Deixamos que a fruição estética nos desse algumas pistas sobre o que analisar em alguns desses exemplares do blog. Juntamos à essa fruição o pouco que sabemos, lemos e vivenciamos do mundo dos quadrinhos e da vida. E que conclusão chegamos?

As férias chegaram e me joguei na leitura de alguns quadrinhos como Will Eisner, Art Spiegelman, Alan Sieber, Liniers, Malvados. Estava dentro do que se pode chamar quadrinhos "normais" até quando me deparei com o abstractcomics. Impossível não tentar enxergar a mesma lógica dos quadrinhos nessas obras. Logo a primeira pergunta: mas isso é quadrinhos? O que me levou ao questionamento seguinte sobre o que definiria, então, quadrinhos. Das definições a escolhida foi de W. Eisner, que configura quadrinhos dentro do que se chama arte sequencial e define como "o arranjo de fotos ou imagens e palavras para narrar uma história ou dramatizar uma idéia". Claro que é uma escolha pessoal por uma definição, mas me parece a que pode melhor abranger as diversidades do que se pode dizer quadrinhos.

Atendo-se mais um pouco à definição: arranjo de imagens e palavras para narrar uma história. O que vemos é que alguns elementos parecem necessários estar presentes para que se configure como uma HQ. Por outro lado, os tais quadrinhos abstratos parecem brincar com esses elementos. Por exemplo aquele primeiro exemplo no início desse post: chama Mosaic-Pretzel, ou seja, é um Pretzel (daqueles de comer!) formado por mosaicos (uma técnica artística). Nele temos a presença da divisão em quadrinhos, de desenho, de cores, de movimento, mas que lhe falta uma narrativa, uma lógica seqüencial. Deixando-se levar pela percepção estética, podemos viajar um pouco nas cores, nos tamanhos, nas formas, no entanto, a estrutura dos quadrinhos parece se perder sem uma objetividade.

Nesse outro exemplar vemos uma seqüencia lógica de preenchimento. Começa com poucas letras e vai completando os espaços com mais letras, algo com movimento e tempo. Não há desenhos, apesar de aparecerem algumas formas na conjunção das letras, mas nada que configure como algo compreensível. Mesmo as letras parecem não dizer nada, ou seja, não estão num arranjo de palavras, não configuram algo semântico (não tive saco de ficar procurando palavras, tipo um jogo de caça palavras - se encontrarem me avisem!). Num esforço gigantesco podemos interpretar algo (ponto pra Lais): parece as letrinhas da Matrix e elas vão se preenchendo, como se estivesse aumentando as informações, algo que no filme é visto como uma compreensão mais apurada da realidade. No fim tudo parece se misturar, perde a nitidez, as informações se embaralham, assim como a internet, com muita informação mais que pode confundir mais que informar. Loucura? Identificamos esse com menos cara de quadrinhos mas parece dizer mais coisas.


Há muitos outros exemplares que podemos ficar brincando de interpretar (ou seria de apreciar a arte?), mas afinal o que realmente significa isso? Ou em outras palavras: que porra é essa? Descobrimos que no ano passado foi lançado no Brasil uma antologia chamada Abstract Comics que conta a história do que vem a ser esses quadrinhos abstratos e reúne inúmeros de desenhos desse tipo.
O marco inicial, segundo a antologia, parece se dar com uma dos nomes de peso das HQs, Robert Crumb, mas que ainda flerta muito com os quadrinhos, sendo mais uma abstração, uma criação psicodélica. Ao que parece essa corrente de artista gostam de brincar com os limites das definições, querem embananar o meio de campo tentando desintegrar os conceitos do que faz ser quadrinhos, mesmo ainda trazendo os elementos que o compõem. No flickr da editora fantagraphics do livroum trecho que nos explica melhor: "cartunistas e outros artistas jogaram com a possibilidade de quadrinhos cujos painéis contêm pouca ou nenhuma representação de imagens, e que não contam histórias que não sejam as que resultam da transformação e interação de formas em todo o layout de uma página de quadrinhos. Reduzido aos elementos mais básicos dos quadrinhos - a grade do painel, pinceladas e, por vezes cores -, os quadrinhos abstratos destacam os mecanismos formais que sustentam todas as histórias em quadrinhos, como o dinamismo gráfico que leva o olho (e a mente) de painel a painel, destacando também uma interação esteticamente rica entre a seqüencialidade e layout de página" (tradução própria - googleolizada).

Afinal, a que conclusão chegamos? Nenhuma. Ok, podemos conviver com os quadrinhos abstratos, mesmo que isso às vezes pareça não fazer sentindo. Até podemos gastar um tempo olhando e tentando entender alguma coisa, viajando, abstraindo coisas. Tentem. É divertido. Mas ainda assim prefiro os quadrinhos....os normais!


















Aliás, to precisando terminar um deles para emprestar pra Lais - maus...


domingo, 30 de maio de 2010

Mal Humorado

. . Por Thiago Aoki, com 2 comentários

Acho que as pessoas me consideram extrovertido, alguns, menos criteriosos, até me acham engraçado. Outros, amigos mais antigos, reclamam da repetição das piadas sem graças após sofríveis anos de convivência. Mas, de fato, o humor - do pastelão ao sarcasmo fino - sempre me perseguiu.

Hoje, fiquei um bocado receoso com a interessante entrevista do cartunista Quino para a Ilustrada da Folha de São Paulo. O tom que a edição da reportagem apresentou demonstra um Quino tanto quanto ranzinza, niilista, descrente. Que se sente idiota em posar para fotos jornalísticas e observa nos humoristas uma "raça em extinção". Se Mafalda, sua principal e mais notável personagem, acreditava em um mundo melhor, estava enganada. "Repare que de Adão e Eva saiu um filho assassino. Logo, de quatro pessoas que havia no mundo, 25% era um delinquente. Então não mudou nada. Somos assim". Para Quino, explicar o fato de a Mafalda continuar sendo atual, mesmo tendo acabado em 1973 é tão simples como identificar as loucuras que aconteciam no castelo de Hamlet com a atual Casa Branca: a sociedade nada mudou e "o ser humano segue tão mal como sempre".

A primeira dificuldade é ouvir isso de alguém que lutou contra um dos mais crueis regimes ditatoriais. A segunda é olhar para a televisão, para a rádio, para o teatro e notar que o "humor" é fórmula do sucesso midiático e cultural. Como se dizer que o mundo está tão ruim como outrora e que os humoristas estão em extinção?

"Nós humoristas éramos um pouco as pessoas que denunciavam situações que nem todo mundo se dava conta. E, agora, o que se vai denunciar? Há vários livros denunciando de tudo na política e não acontece nada. Antigamente você desenhava algo e ia preso. Agora, nada importa."

Parece um pouco aquilo de que Caetano Veloso em alguma de suas entrevista disse sobre o fato de que a ditadura militar, de certa forma, levou a uma época de rara criatividade na cultura nacional. Mas o que não me encaixa na cachola, tanto na fala de Quino como de Caetano, é entender por que a democracia, essa liberdade pela qual ambos lutaram, levaria ao ostracismo, à inércia cultural ou humorística. Hoje, a febre no humor é o stand up comedy, que inclusive um de nossos Indigestos já se engraçou de fazer. O fato das denúncias do cotidiano apresentadas pelos comediantes não serem reprimidas como um quadrinho de Quino durante a ditadura Argentina não indica necessariamente a perda da importância ou dimensão do humor nas sociedades. Nos quadrinhos brasileiros, por exemplo, temos uma safra magnífica de quadrinistas assim como os grandes d'O Pasquim, citados por Quino como exemplo. Só para citar alguns contemporâneos: Laerte, Adão Iturrusgarai, Allan Sieber, André Dhammer, entre outros.

Todos que me leem e conhecem sabem que não sou fã, nem entusiasta da democracia de mentirinha que vivemos e da sociedade de e para o consumo da qual fazemos parte, muito pelo contrário. O que quero dizer, e defender, é que, para além de questionar a qualidade do que surge em nossa época ainda temos que aprender a lidar com democracia, tecnologia e liberdade. Quesitos que nunca tivemos com tanta abundância e ênfase, mas cujos resultados ainda são altamente questionáveis. E talvez seja essa dificuldade que perpasse a entrevista do cartunista argentino. Somos livres? Somos democráticos? Para que(m) serve a tecnologia? É isso que está em disputa e em questão para todos os segmentos, inclusive o cultural. E a resposta que construiremos é que nos ajudará a propor um novo mundo. Sem nos esquecermos, entretanto, que essa resposta só pode existir COM os três elementos - democracia, tecnologia e liberdade - ou alguém acha que pode viver sem algum deles? Então, é melhor que lutemos, como diz aquele profético samba do Paulinho da Viola, "sem preconceito, nem mania de passado / sem querer ficar do lado / de quem não quer navegar". É isso que esse Blog tenta fazer.

quinta-feira, 18 de março de 2010

O dia em que Jesus matou o criador (a Glauco)

. . Por Thiago Aoki, com 1 commentário

Relutei, mas foi inútil, seria impossível não falar de Glauco.

É que senti uma raiva imensa de não ter falado dele ainda vivo, como por vezes havia planejado. Com certeza, seria alvo de alguma matéria envolvendo a tríade que compunha com Laerte e Angeli. Mas a raiva é porque agora, estapafurdiamente, matérias a mil vem sendo publicadas na grande mídia, em geral recheadas de hipocrisia e oportunismo. Parece que mais importante do que a biografia e órfãos personagens deixados pelo cartunista, tem sido o assassinato em si. Já houve quem diga que o caso ressucita a velha falácia da pena de morte. Mais ainda, a culpa seria do Santo Daime e seu teor alucinógeno. Por outro lado, alguns colunistas políticos que sequer algum dia dissera algo sobre o cartunista ou história em quadrinhos, hoje o colocam como o grande mártir opositor de Lula - esquecendo-se da oposição veemente que o próprio Glauco fizera a todos os governos anteriores. Show de horror e sensacionalismo instrumental dos velhos abutres que fazem com que a perda irreparável em nossa cultura se transforme em mero episódio das páginas policiais.

De todas mesmo, a melhor e mais digna foi a cobertura da Folha de São Paulo, que num primeiro momento deixou todos os espaços para charges e quadrinhos em branco, com a assinatura do falecido, e depois lançou dois cadernos com homenagens ao artista. Gostei também do jornal ter comparado a importância de Glauco, pai de Geraldão, para o Brasil, como a de Charles Schulz, pai de Snoopy para os EUA ou de Quino, pai da Mafalda, para a Argentina. Foi, inclusive na própria Folha, na seção infantil (Folinha), que conheci Geraldinho, que logo virou Geraldão, que me apresentou pra Dona Marta, que me mostrou o Casal Neuras, que apontou Doy Jorge, que jurava que já havia sido abduzido pelos Ozetês, que mais pareciam Los 3 amigos, disfarçados, fugindo de Nojinsk, que na verdade apenas procurava por Faquinha. De fato, os quadrinhos de Glauco e companhia deixavam mais forte o café matinal e mais fácil de ignorar a sujeira do banheiro de minha república durante a sua utilização.

O humor ácido e ligeiro do quadrinista - muito bem descrito em uma crônica de Marcelo Coelho em 1987 - traz consigo uma falsa ingenuidade das mais interessantes. Vale-se de exageros do cotidiano para criticar costumes, políticas e conservadorismos dos mais prejudiciais. Infelizmente, pouco se fala hoje sobre a possibilidade de integração dos quadrinhos com a educação, numa didática multidisciplinar que acrescentariam muito às aulas formais. Tampouco se diz sobre o descaso e preconceito com o qual o quadrinho de costumes vem sendo tratado, muitas vezes não como arte, mas simples ilustrador das notícias, feito o pianista que toca na praça de alimentação do shopping, para ninguém ouvir, apenas adornando o refeitório. Discussões estas que seriam muito mais bem-vinda do que aquilo que ando lendo por aí sobre sua morte.

Por fim, o mais bonito mesmo ficou por conta da homenagem de todos os cartunistas, reconhecendo o grandioso trabalho de Glauco. O blog Universo HQ fez uma, digamos, arrecadação de todas essas homenagens e colocou em seu site. Vale a pena apreciar uma por uma, mas deixo aqui, duas das que mais gostei, talvez por terem sido desenhadas por amigos próximos ao cartunista. A primeira, feita a quatro mãos por Laerte/Angeli, mostra uma árvore, em meio à cidade cinza, em cujo tronco surge um dos semblantes dos desenhos de Glauco. A segunda, de Caco Galhardo, que se auto-identifica como discípulo do quadrinista, mostra, sobre uma pilha de diversos livros teóricos, típicos de uma formação intelectual requintada, uma "Love Story" do Geraldão.

Esse post, na verdade, menos do que celebrar o sétimo dia da morte de Glauco, foi simplesmente um pretexto para a mea-culpa feita no início do texto e também para exibir esses dois quadrinhos, que, para mim, são os que mais sintetizam o vazio deixado por Glauco, irreparável por estas enúmeras postagens que surgem, ou pela pífia e infame prisão de alguém que, ironicamente, se identifica como Jesus, o redentor.

"Quando eu saí deste mundo
Eu deixei minha porta aberta
Eu deixei minha porta fina
Para ver quem me acerta "
(trecho de um dos hinos composto por Glauco, para sua igreja)

sexta-feira, 12 de março de 2010

Luto por Glauco

. . Por Thiago Aoki, com 1 commentário






Foi com muito pesar que recebemos a notícia da morte do cartunista Glauco e de seu filho, ambos de forma violenta e misteriosa em sua casa, durante essa madrugada. Confira aqui quem foi Glauco.

Que ele esteja em um mundo melhor, onde as pessoas precisem menos de seus cartoons críticos, pois por aqui, fará falta. Os jornais amanhecem um bocado mais tristes e nossa cultura um pouco mais vazia.

Confiram os quadrinhos feitos em homenagem a Glauco por diversos quadrinistas.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Meneghetti. Um texto em fuga.

. . Por Caio Moretto, com 1 commentário

Fuga é um estilo de composição musical em que um simples tema é imitado em várias vozes se sobrepondo, se complementado, se procurando e se evitando. Fugare, perseguir. Fugere, fugir.

Este post é sobre um texto em fuga.

Meneghetti é um daqueles personagens entre a ficção e o real. Conhecido como o Gato dos Telhados, assim como a personagem fictícia de Augusto Boal em Contos de Nuestra América, o chamado “bom ladrão” Gino Meneghetti disputava o ódio e a admiração secreta de quem acompanhava seus golpes e aventuras.

“Jamais roubei um pobre. Só me interessa tirar dos ricos, e tirar jóias, que são bens supérfulos que só servem para alimentar a vaidade”. (Frase de Gino que explica bem sua fama de bom ladrão)

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Carreira incrivelmente longa para a profissão, foi preso pela última vez aos 92 anos tentando arrombar uma casa. A versão de Meneghetti é outra. Teria sido reconhecido por um policial que identificando o maior ladrão de São Paulo quis fazer nome as suas custas.

Verdade ou não, foi lá que o prenderam e foi lá que Mouzar Benedito fez questão de lançar seu novo livro Meneghetti: o gato dos telhados, pela coleção Paulicéia.

Eu talvez fosse o único na ocasião que não conhecesse pessoalmente o autor. Esta primeira impressão que tive foi logo colocada em cheque quando, com a mesma espontaneidade e o mesmo sorriso que confraternizava com os amigos, me incluiu na conversa como se sempre tivesse pertencido ao grupo.

A primeira pergunta não foi minha, mas anotei como se fosse.

Ta dando para viver de livros?

Mouzar IIMouzar revelou alguns números, fez umas contas em voz alta e, em tom alegre, mas sem perder a oportunidade, concluíu.

Se eu estivesse dependendo disso para viver já teria morrido de fome uns 10 anos atrás.

Sabia que a entrevista continuaria enquanto ele estivesse assinando contracapas e, para a minha sorte, de uma sacola, a senhora que puxava conversa tirou logo três exemplares.

Todo mundo gosta do Meneghetti. Eu saí até na Folha.(Risos) Eles não escreviam sobre nada que eu fazia há uns 10 anos.

Compartilhei os risos e me senti no direito de fazer uma pergunta.

O senhor conheceu o Meneghetti?

Não.

Demorou um segundo em pensamento. A frase seguinte só poderia começar com um “mas”.

Mas sabe que depois que estava escrevendo o livro descobri alguns amigos que estiveram presos junto com ele. (risos)

Naquele momento a resposta me pareceu natural. Porém com os livros em mãos a leitura flui de tal forma que cheguamos a duvidar: será que Meneghetti não é uma personagem do Mouzar? Talvez um anti-herói criado por Luis Gê que tenha saltado dos quadrinhos para a realidade.

A história de Meneghetti prende a atenção mesmo nos textos jornalísticos da Folha publicados em 1926 e 1976, fato que cria, assim como esse post, uma grande expectativa sobre o livro.

A relação entre escritor e ladrão beira uma cumplicidade ideológica. As interrupções dos comentários em primeira pessoa ao mesmo tempo que desligam o leitor da narrativa, lembram que a história é real e contextualizam os sentimentos paradoxais da sociedade paulista.

O livro ainda republica a HQ de Luis Gê, criada em 1976 para o jornal Versus.

É um resumo em polifonia. Um texto curto, que não perde o ritmo, exatamente porque varia e que busca a história de Meneghetti em várias vozes que se perseguem e se evitam.

Um texto inteiro em fuga: autor, personagem e estilo.

“…o próprio Meneghetti , em certas ocasiões, dizia ser tolice reconhecer um roubo, embora em outras anunciasse que era mesmo o ladrão”. (p.21)

DedicatoriaMouzar

Dedicatória de Mouzar para o Mistuta Indigesta:

“Para os amigos desta Mistura Indigesta, a história resumida de um personagem que também era indigesto para a elite paulista. Um abração de Mouzar. SP. 28/1/10”

*Imagens e trechos retirados de outros sites e blogs têm link direto com a fonte original.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Turma da Mônica Gay

. . Por Thiago Aoki, com 2 comentários

Uma cena (ver abiaxo) de um quadrinho da Turma da Mônica, mais especificamente da Revista da Tina, edição número 6, na página 20, vem causando alvoroço na internet e nos bastidores dos quadrinhos. Isso tudo porque nossa querida Tina (figura que permeou no imaginário pré adolescente da geração anos 90) ao ser questionada se estaria traindo o namorado, nega: “O Caio pra mim é como um irmão”. Por sua vez, Caio, o acusado de “furar os olhos” do namorado de Tina diverte-se com a situação “Não precisa se preocupar. Eu sou comprometido”, “Não é? Fala aí pra eles”. A polêmica toda seria por conta de que Maurício de Sousa ter criado seu primeiro personagem gay.

Em nota à imprensa, numa posição ambígua, o próprio Maurício de Sousa afirma:

“A revista Tina é uma nova publicação dirigida a um público adulto jovem. Não tem nada a ver com a Turma da Mônica ou o público infantil ou infanto-juvenil (Turma da Mônica Jovem). E a história que está provocando celeuma deve ser lida e interpretada pelo leitor. Lida a história, feita a interpretação, daí sim, comentários e criticas poderiam ajudar para falarmos a língua de uma sociedade esclarecida. Lembrando que publicações dirigidas a faixas de idade diferenciadas podem e devem tratar qualquer assunto de maneira adequada ao seu leitor. Na TV, no cinema, nas revistas das bancas, há a separação por faixa de idade. Por que não haveria na nossa vasta galeria de publicações? Mas uma coisa vai se manter em TODAS as nossas produções: o respeito pelo ser humano. Pela pessoa. E a elegância no trato de qualquer tema”
Vale lembrar que Maurício não mais escreve ou desenha as histórias, mas é supervisor de todas elas. Entretanto, muito me estranha sua nota ter como cerne a justificativa da divisão etária. Como se a homossexualidade fosse imoral aos olhos dos mais novos.

Os "ilustrados" da sociedade brasileira, em episódios como este, ou como a da estudante expulsa por utilizar um vestido curto mostra uma crise de falso moralismo não visto há tempos. Como um amigo me disse, Nelson Rodrigues deve estar se contorcendo em gargalhadas dentro do caixão. Já quesitos muito mais cruciais para um avanço mínimo como a idoneidade na política ou a violação dos direitos trabalhistas e humanos são praticamente deixadas às favas por atender aos interesses dos mesmos “pilares morais” que criticam um vestido ou uma personagem de quadrinhos.

Por curiosidade, tivemos o primeiro beijo gay dos quadrinhos neste ano, no exempl ar 45 da revista da Marvel Comics. No quadrinho abaixo Rictor, ao salvar Shatterstar, acalma o amigo “Sim, sou eu cara. Está tudo bem. Não interessa o que aconteceu. Vai ficar tudo bem”.

Entretanto, vale lembrar, o primeiro personagem gay assumido foi Estrela Polar (imagem abaixo), da equipe mutante Tropa Alfa, já na década de 90.



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