Olhamos para a história não para vermos os tempos idos. Esses nunca esquecidos são os balizes e as respostas aos erros do futuro.
Nessa tal de história observamos em diversos momentos levantes do povo diante de um poder maior que parece representá-lo. Muitas são as variáveis que podem explicar tais insurgências. Para tais acontecimentos, poucas são as explicações capazes de compreender a totalidade dos fatos. O povo, enfim, pega em armas, ocupa os espaços públicos e avança enfrentando todo e qualquer poder por mudanças gerais na sociedade que tanto os oprime.
Os protestos que se iniciaram na
Tunísia, em dezembro do ano passado, alastraram-se pelo mundo. Países como Egito, Líbia, Síria, Grécia,
Espanha,
Portugal e, mais recentemente, Chile, Israel e
Inglaterra, vivem verdadeiros dias de insurgência civil. Esses levantes iniciam uma onda de protestos e denúncias de uma realidade que não mais dá conta de responder as angústias desses povos (ou mesmo desse mundo que se construiu em bases não muito sólidas).
Diversos foram as motivações que levaram milhões às ruas contras seus governos locais. Uma coisa em comum se observa: as manifestações abriram possibilidades de repensar os caminhos do mundo; trouxeram às mentes aquilo que se parecia perdido: a possibilidade de sonhar. Sonhar com um mundo diferente e vivenciar a possibilidade de construí-lo.
Exatamente nesta mesma data, há um ano, vários alunos (junto com movimentos sociais) de uma universidade pública do estado de São Paulo decidiram por bem
ocupar um espaço público que estava inutilizado - uma cantina desativada. Durante quase quinze dias ficaram ali "ocupados" com o espaço, realizando diversas atividades culturais, tentando criar um espaço autônomo de sociabilidade e convivência. O resultado fora o mesmo de muitas outras manifestações - demoliram a cantina ocupada; se utilizaram da força para reprimir o "movimento".
Outro exemplo, há quase quatro meses, no Chile, estudantes estão em greve,
ocupando universidades, colégios e escolas, tudo isso como protesto à mercatilização da educação no país. Essa situação é resultado de reformas feitas no governo do ditador Pinochet, e que até hoje não foram rediscutidas. Na última quinta-feira as manifestações se incendiaram, foram presas quase 800 pessoas. No último final de semana, até mesmo parentes desses estudantes em greve resolveram apoiar, todos saíram às ruas para denunciar os abusos policias.
Quase como resposta a reportagem de capa da última Carta Capital, e antecedendo ao editorial da Folha de São Paulo do último domingo, o MST
ocupou nesse sábado (06-08-2011) terras da União griladas pela Usina Ester em Americana, interior do estado de São Paulo. Para aqueles que diziam estar o movimento em marcha a ré ou quase morto, centenas de famílias estão mobilizadas e acampadas lutando pela oportunidade de trabalhar, se organizar e tirar seu sustento.
Enquanto vivemos numa ilusória realidade que nos querem fazer acreditar como verdadeira e tranqüila, o mundo retumba os corações dos milhões de aflitos, daqueles que se rebelam e se dão a possibilidade de sonhar.
Fecho com uma frase de Vladimir Safatle que saiu
hoje na Folha de São Paulo:
"Essas milhares de pessoas dizem algo muito mais irrepresentável, a saber, todas as respostas são de novo possíveis, nada tem a garantia de que ficará de pé, estamos dispostos a experimentar algo que ainda não tem nome."
Ilustração de Batata para a música inicial desse post - pode se ver no blog da Revista Miséria