VÍDEO: MURILO CAMPANHA CONTA ITATINGA

O psicanalista Murilo Campanha fala sobre Itatinga, um dos maiores bairros de prostituição da América Latina, onde ele tem seu consultório.

O nadador

Uma crônica de Hugo Ciavatta.

Ainda que as bolachas falassem

Crônica de Fábio Accardo sobre infância e imaginação

Ousemos tocar estrelas

Uma reflexão de Thiago Aoki.

Entre o amarelo e o vermelho

Uma crônica de Hugo Ciavatta

O homem cordial vinhedense

A classe média vai ao barbeiro. Uma crônica de Caio Moretto.

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segunda-feira, 4 de março de 2013

Django - A mão que segura a navalha

. . Por Thiago Aoki, com 2 comentários


Quando lançado, Django Livre foi considerado um filme polêmico por tocar em um ponto delicado do passado norte-americano, a escravidão. Ledo engano. Para mim, a força política do filme de Quentin Tarantino está justamente no fato de que seu roteiro questiona, na verdade, os dias atuais.

Quando, por exemplo, "imbecializa" a elite que compõe a Ku Klux Klan, impossível não nos lembrarmos das situações surreais de jovens com pouca idade e muito conservadorismo no coração, que em plena juventude têm propostas conservadoras tragicômicas como a refundação do Arena ou o protesto contra as cotas nas universidades públicas.

O filme inteiro dialoga com o presente, muitos seriam os exemplos, mas provavelmente o personagem de Samuel L Jackson seja o mais sintomático. Um escravo que faz o jogo da escravidão. Semelhante a Prudêncio, escravo presente na obra de Machado de Assis, que quando conquista a alforria vai logo comprar um escravo para si. Ou ao subalterno do mundo corporativo que apanha de quem está em cima e bate em quem está embaixo no organograma da empresa.



A situação de reprodução social é retomada em um dos melhores diálogos do filme. Com o crânio de uma caveira na mão, o escravista interpretado por Leonardo Di Caprio conta a história de Ben, um falecido escravo, antigo barbeiro da família. Ele vivia o horror da escravidão na pele e estava todo o dia com a navalha no pescoço do seu dono, então por que não cortava a sua jugular? Para explicar, ele se vale de um discurso cientificista, segundo o qual o cérebro do negro possuía o gene da subserviência. Talvez uma brincadeira com o peso que damos às “verdades científicas” e aos “esclarecidos” que se pousam como neutros, mas nada mais fazem que justificar nosso modo de vida desigual.

Assim como em Bastardos Inglórios, onde uma sobrevivente judia resolve vingar-se de Adolf Hitler, Django
Livre mostra mais uma vez a história de um indivíduo que, por motivos pessoais, vê-se obrigado a atuar contra o sistema social vigente. Sujeitos que enxergaram para além do paradigma, da bolha invisível que deixa as relações sociais nebulosas. Personagens que até então eram esmagados pela estrutura social e que resolvem fazer algo. O êxito da vingança é quase uma recompensa, impossível não se deliciar ao assistir à explosão da casa grande ou com o incêndio do cinema nazista, por mais imoral e violento que pareça.

Como disse no começo, tenho pra mim que Tarantino não fala sobre a época do nazismo ou da escravidão, mas sim dos dias de hoje, tanto que parece pouco se importar com a veracidade histórica das cenas. Ele se vinga do passado para questionar o presente. Há um século era normal que um negro não pudesse ter seu próprio cavalo ou entrar em um bar (embora muitos estabelecimentos e instituições ainda pensem como no século retrasado). E hoje, o que consideramos normal e que daqui a um século será considerado absurdo? Noutras palavras, o que de absurdo vivemos como normal? O sistema financeiro? A homofobia? A péssima distribuição de renda? Intolerância religiosa? A democracia representativa? 44 horas de trabalho?

Cada um elencará seus palpites. Mas Django Livre mostra que é preciso ir além da consciência do absurdo que se tornou normal no dia-a-dia. É preciso saber se, tendo a navalha conosco, teremos a coragem de cortar o pescoço ou apenas apertaremos a mão de nossos senhores, selando assim nossa própria inércia diante do mundo.


segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Quebrando Paredes: Medianeras

. . Por Thiago Aoki, com 1 commentário

Ao que tudo indica, o filme argentino "Medianeras", infelizmente, será pouco visto por aqui. Acabou perdendo espaço para superproduções (como Planeta dos Macacos e Árvore da Vida) e para filmes de diretores consagrados (como Melancholia e Super-8). Pode ser que, posteriormente, aconteça como seu fantástico compatriota “O Segredo dos seus olhos”, que acabou voltando à cena após a indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Mas semana passada, na seção de cinema do shopping, não somavam 10 espectadores, contando comigo e Rita, mi novia...

É uma pena, pois Medianeras é um daqueles filmes inclassificáveis, que consegue tocar em questões existenciais e sociais, sem certa “chatisse” que tal missão possa indicar. Neste sentido, leve sem ser superficial, lembra um pouco de “Pequena Miss Sunshine” ou, para pegar um exemplo mais recente, de "Juno", por mesclar o humor às situações trágicas do dia-a-dia.

Se em "Pequena Miss Sunshine" temos uma garotinha de família problemática que ingenuamente desafia os padrões da sociedade do espetáculo e em "Juno" a gravidez precoce de uma confusa adolescente, aqui, em "Medianeras", os desencontros de dois jovens fazem fundo a uma sagaz crônica da vida em uma metrópole.

O filme narra, paralelamente, as vidas de Martin (Javier Drolas), um webdesigner afetado por diversos transtornos de comportamento, e de Mariana (Pilar López), uma arquiteta frustrada e claustrofóbica que acaba de sair de um traumático relacionamento. Os dois são vizinhos que nunca se perceberam, jovens típicos da geração Y, com histórias semelhantes, imersos na solidão e que, mesmo sem saber, estão sempre em situações de quase encontro um com o outro. Com este jogo, o sagaz diretor Gustavo Taretto nos incita, espectadores, a torcer pelo encontro de ambos sem nos darmos conta de que também somos vítimas de nossas próprias solidões e prisões. O isolamento, neste caso, aparece como uma tentadora proposta do mundo urbano, cenário do qual somos parte. É comum que, durante o filme, associemos a Buenos Aires narrada com Campinas ou São Paulo.

Em determinados momentos do roteiro, Martin e Mariana fazem o papel de narradores-personagens, recitando textos pertinentes, em forma e conteúdo, e que, em diálogo com belas imagens da arquitetura urbana, compõem poéticas crônicas para o século XXI. Já com a característica de mistura de diferentes linguagens: o texto, fotografia, quadrinhos, áudio e visual.

Nas entrelinhas do roteiro, o questionamento e estranhamento de detalhes banais do cotidiano da cidade e que parecem já internalizados em nosso cinza espírito: os fios que enfeiam o céu, os prédios que escondem o Sol, a falsa promessa da “conexão” entre as pessoas, a publicidade nas medianeiras, o fracasso da caixa de e-mail vazia. É a angústia de uma classe média que, embora média, sente-se traída pelo esgotamento das promessas de uma vida urbana plena, revivendo, em outros moldes, o desencanto romântico pré-moderno do final do século XIX. A história se repete, tragédia e farsa.

Do cinema, saímos com a sensação curiosa de refletirmos sobre as trajetórias que poderiam ter sido e que não foram, sentindo, com certa graça e resignação, a impossibilidade de controle sobre o destino. No restaurante do shopping, no lanche-de-namorados-pós-seção-das-19h, olhávamos atentos para as pessoas sentadas às mesas e, assim como é comum fazermos no metrô, brincamos de descobrir que narrativa cada um traz consigo: para onde vão, de onde vieram, em qual estação saltarão. Ou, mais além, quantos encontros perdidos pelo caminho, quantos amores evitados pelo acaso. Impossível saber. Em alguns momentos, Mariana compara a vida na cidade ao livro “Onde Está Wally”, como se, sem rumo, esperássemos pelo encontro de algo que não sabemos o quê. O mundo, uma somatória de narrativas paralelas dispersas. Quando lemos os versos de Vinicius de Moraes, “a vida é a arte do encontro/ embora haja tanto desencontro pela vida”, pensamos em sua vida boêmia de amores deixados pra trás, mas Taretto vai além e faz da frase o mote da vida nos grandes centros. Para se ter relações humanas orgânicas entre os arranha-céus da urbe, é preciso desafiar a artificialidade do avatar de cada um, ultrapassar o limite imposto pelo espetáculo que faz da relação entre os homens uma relação mediatizada por imagens. Para lidar com a sombra dos prédios é preciso derrubar paredes, construir novas janelas, preparar o jardim, deixar o Sol entrar para que o acaso pouse e, enfim, o encontro possa acontecer.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

O dilema de Godard

. . Por Thiago Aoki, com 5 comentários




"Je vous salue Sarajevo" (acima), de 1993, estava na 29ª Bienal de Artes de São Paulo e tem como autor Jean-Luc Godard, que analisa uma única foto da guerra na Bósnia, ocorrida entre os anos de 1992 e 1995. Embora faça referência a uma guerra particular, o texto, além de belíssimo, tem como grande máxima uma definição universal que adoro:

“Pois há uma regra e uma exceção. Cultura é a regra. E arte a exceção. Todos falam a regra: cigarro, computador, camisetas, TV, turismo, guerra. Ninguém fala a exceção. (...) A regra quer a morte da exceção.

Mais ainda, se repararmos os cortes e closes de imagem que Godard usa durante o curta, a regra é mostrada com um fuzil na mão, apontando para corpos que insistem em subverter - “artistas da vida” tão grandiosos quanto Dostoievski, Cézanne ou Antonioni.

Ao espectador atento, a agressiva metáfora, impactante por se tratar de um momento claro de repressão, continua viva. Levando a cabo as definições, sempre que houve arte, houve regra e exceção. Se hoje há arte, deve, necessariamente, existir também uma regra que quer a “morte da exceção”. Essa regra, talvez não seja representada apenas diretamente com fuzis, mas, em tempos de relativa paz, transveste-se em imagens, padrões de comportamento, moralismos, mercadorias, e outros cerceamentos cotidianos que, com ou sem intenção, enclausura qualquer forma libertária que não esteja de acordo com as normas.

Lembro-me que, durante as revoltas de Maio de 1968 na França, uma das frases mais pichadas nos muros dizia: “A arte está morta. Nem Godard poderá impedir”. O cineasta, nesse vídeo de 1993, exatos 25 anos depois, parece tentar responder à provocação. Para ele, a “arte de viver ainda floresce” e isso não é um otimismo. O “ainda” tem o sentido de reticências, indicando a possibilidade de futura suspensão da arte de viver - de subverter e fugir das regras impostas. Teríamos então uma sociedade apática e normativa, controlada pelo medo, sem contrapontos, sem arte.

Há filmes que duram dois minutos, mas permanecem latentes por tempo inestimável. Passados quase quinze anos do “Je vous salue Sarajevo”, as perguntas ficam e atormentam todos os dias: quanto de nós é regra ? E quanto ainda nos resta de exceção?




O vídeo é uma apresentação intitulada "Este lado para cima", do grupo teatral Brava Companhia, apresentado no Mirada, Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas de Santos, em 2010.

sábado, 27 de novembro de 2010

De Kafka a Liza Gilbert

. . Por Unknown, com 11 comentários

"I left my home in Georgia
Headed for the Frisco Bay
I've got nothin' to live for
Looks like nothing's gonna come my way, yeah...
Sittin' on the dock of the bay
Watchin' the tide roll away
Sittin' on the dock of the bay
Wastin' time..."
(Otis Redding)




Poucas obras talvez tenham um início tão emblemático como A Metamorfose, de Franz Kafka, ou melhor, talvez poucas obras sejam tão emblemáticas como este livro do escritor nascido em Praga: "Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso." Gregor é um funcionário público com uma vida padronizada, pautada pelas obrigações tanto em relação à sua família como em relação à sociedade, na qual as relações entre as pessoas eram norteadas por um interesse material, mercantil, somente. Kafka, com o poder que só "o papel e a caneta" poderiam lhe dar, transforma-o em uma barata. Então, com o absurdo que não só a literatura permite, Gregor adquire humanidade. Enquanto homem, Gregor era um inseto desprezível e nojento, imagina-se, como uma barata. Ao longo da novela, todavia, como uma barata do tamanho de um homem adulto, Gregor é de fato um Ser Humano, preso dentro de um quarto. E, ao mesmo tempo, pela mesma transformação, também, passam seus familiares, que adotam uma postura mais sensível entre si e em relação a Gregor.

Quando assisti ao Comer Rezar Amar (Eat Pray Love), adaptação do livro de Liza Gilbert, do qual ela é também personagem, mais uma vez me lembrei de Kakfa, porque a primeira vez que a recordação me ocorrera foi vendo Na Natureza Selvagem (Into the Wild), que conta a história de Christopher McCandless.

Nos diz Liza:
- Preciso mudar.
(...)
- Eu nunca dei um tempo de duas semanas só pra mim.
(...)
- Toda a minha enorme sede de vida desapareceu.
- Quero ir a algum lugar e me maravilhar.
(para se sentir livre)

Liza vai à Itália, à Índia e à Bali. Já Chris McCandless deixa pra trás tudo, família, amigos, dinheiro, ateia fogo no carro e em seus documentos, e desaparece no interior dos EUA.



A postura de Chris parece muito mais crítica, afinal, está contestando A Sociedade. Ele abre mão de tudo para viver em meio às aventuras que a natureza pode lhe proporcionar, distante da falsidade, das mentiras que os homens vivem uns com os/pelos outros. Chris deseja encontrar-se consigo, longe de tudo que apresenta e representa a sociedade na qual todos vivemos. Submete-se a um processo que ele mesmo nomeia de "revolução espiritual". Assim, Chris encontra Liza, e ambos, a seus modos, dialogam com Kafka.

Se a atitude de Chris pode parecer crítica, no entanto, nada tem de inovadora. Por exemplo, Edgar Allan Poe já descrevia o flâneur, trabalhado também por Walter Benjamin. Este, por sua vez, pensava o poeta Charles Baudelaire da Paris de meados do século XIX, transformada pela revolução industrial. O flâneur é uma figura sobretudo urbana e que ressaltava a perversidade das relações humanas, das quais, não por acaso, Chris também se queixava. A diferença é que, ao invés de partir para o isolamento da Natureza, o flâneur se esquece em meio à multidão presente nas ruas.

Enquanto Kafka transforma seu personagem logo de início em uma barata para torná-lo humano, Chris rejeita tudo e todos à sua volta, mostrando o quão barata, asqueroso e repulsivo, tudo ao seu redor é. Já Liza, talvez, se apresente como uma espécie de Gregor, sentido-se uma barata e em busca de uma transformação que a realize. Destituída de "crítica social", Liza viaja o mundo em busca de si própria, consome o mundo e a diversidade dele para si.

Chris e Liza estão à frente de suas decisões, de suas próprias histórias, numa postura que se confunde em meio a vários elementos, à coragem, à autoafirmação, à vaidade, ao egocentrismo, e até mesmo à indiferença, em algumas situações. Ao longo de suas trajetórias, quem se sobressai, quem está a frente, no começo, no meio e no final, no caso de Chris trágica e resignadamente, são eles, Liza e Chris. Voltados a questões distintas, Chris inconformado com a sociedade na qual vive, querendo se afastar para se transformar, e Liza incomodada consigo mesma, precisando mudar, ambos parecem seguir com rigor os valores aos quais estão ligados. São EUs enormes desfilando, que poucas concessões estabelecem ao mundo e às pessoas ao seu redor. Sujeitos bem informados, que muito bem falam, mas que têm dificuldade para ouvir. E, ironicamente, nada de novo descobrem quanto a si próprios, apenas se redescobrem. Com Chris a situação é ainda mais irônica, porque ele se depara com a obra de Boris Pasternak, que esteve com ele o tempo todo desde que partira, e da qual ele gostava muito, Doutor Jivago.

Por isso Kakfa, em A Metamorfose, triunfa, na posição de escritor genial, nos comunica nossa miséria, de barata que todos somos, em perspectiva.

♫ ♫ "Sittin' on the dock of the bay/ Watchin' the tide roll away/ Sittin' on the dock of the bay/ Wastin' time..." ♫ ♫

"A verdadeira viagem de descobrimento não consiste em buscar novas paisagens,
senão em ter novos olhos" (Marcel Proust)

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Forasteiros

. . Por Thiago Aoki, com 3 comentários


Iñarritú, Bardem, Biutiful


Entre os destaques do lançamento do Festival de Cannes deste ano, estava o longa "Biutiful", do diretor Alejandro Gonzalez Iñarritú. Foi o primeiro filme que Iñarritu dirigiu depois de sua ótima parceria com o escritor Guillermo Arriaga que levou à trilogia "Amores Brutos", "21 Gramas" e "Babel". "Biutiful", título que remete à palavra inglesa beautiful, emocionou boa parte dos cinéfilos ao falar sobre uma Barcelona pobre e cerceada pela exploração à imigrantes.

Javier Bardem, muito elogiado pela crítica, faz o protagonista Uxbal, que jamais conheceu o pai, tem uma esposa problemática e cuida sozinho dos filhos. Para isso, "agencia" imigrantes ilegais - africanos e chineses.

Claro que, como a maioria dos brasileiros, ainda não tive a oportunidade de assistir ao longa, mas gostei de uma entrevista que li com o ator principal. Em uma das falas, o entrevistador pergunta algo como se não era estranho o artista ter participado como protagonista de dois filmes que mostram Barcelonas tão diferentes, referindo-se à pobreza de "Biutiful" e o glamour de "Vicky, Cristina e Barcelona", dirigido por Woody Allen. A ótima resposta do ator é a seguinte: "A Barcelona de Alejandro é a da corrupção e da exploração de imigrantes ilegais, sem a qual a Barcelona de Woody Allen não existiria. As duas realidades são interdependentes, dois lados de uma mesma moeda." Infelizmente o repórter, ou a edição da reportagem, mudou de assunto.

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Banksy e os Simpsons

No último domingo, foi ao ar, nos EUA, uma polêmica abertura dos Simpsons, dirigida e produzida pelo polêmico grafiteiro Banksy, a pedido dos prdutores da série. O casamento dessa espécie rara de anti-herói marginal com a Fox, gigante da produção cinematográfica, só poderia mesmo ser, no mínimo, problemática. A animação é desde o início interessante com alguns toques notáveis do artista, e radicaliza-se no final, quando a câmera se afasta da fotografia tradicional da família sentada ao sofá, que encerraria a abertura. Uma nova fúnebre trilha sonora se inicia e a imagem escurece. Chega-se a um lugar insalubre, com diversos trabalhadores semelhantes, imigrantes ilegais caracturais e tristonhos, em uma linha de montagem para a confecção de produtos da minissérie. Além disso, evidencia a matança e maus tratos de animais que, tristes, cedem à lógica do lugar feito escravos. Após a forte e torturante cena, a câmera afasta-se mais um pouco e percebe-se que aquilo tudo está ocorrendo dentro do alicerce do emblema da Fox, que por sua vez está dentro de uma televisão - no caso, da televisão de quem está assistindo ao programa. Dá a entender, assim, que o espectador, acostumado a rir com as peripécias de Hommer e companhia, assite também a uma empresa cujo interior é composto pelo submundo da exploração do trabalho imigrante e de mazelas sociais. Diz-se por aí que as notícias sobre terceirização de trabalhadores coreanos por parte da megaempresa teriam "inspirado" o artista.

Eu não esperava menos de Banksy e de sua arte diversas vezes posta à prova pela Indústria Cultural. Por outro lado, devo reconhecer que fui supreendido pela exibição sem cortes do polêmico trecho. Seria mesmo contraditório a série que tem como cerne o exagero dos costumes e problemas americanos censurar uma brincadeira consigo própria. Ainda que toda brincadeira tenha um fundinho de...Bom, vocês sabem...



(Fiquei imaginando a abertura de uma novela ou "reality show" brasileiro qualquer. A câmera se afastando da imensidão tecnológica dos estúdios e chegando às vilas existentes na periferia de SP, com trabalhadores coreanos, bolivianos e peruanos - superexplorados pela indústria têxtil. No escuro da fábrica, a confecção em massa de vestidos e figurinos para a emissora. Claro que nunca houve essa ligação, é só realismo fantástico de minha parte...)

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Tendo como ponto principal a questão da exploração de imigrantes, ferida aberta em boa parte dos países de "primeiro mundo", os casos de "Biutiful" e da abertura dos Simpsons demostram que é possível uma arte relativamente autônoma e contestadora desenvolver-se no seio da Indústria Cultural. Superando possíveis embates institucionais, tanto Biutiful fora ovacionado em Cannes, e deve concorrer a algumas estatuetas do Oscar, como a abertura dos Simpsons fora transmitida integralmente e é hoje um dos vídeos mais assistidos na web. Se é a fórmula mais eficiente e conceitualmente válida não sei, mas é uma boa maneira de equilibrar visibilidade, recursos e inovação - equação tão cara aos artistas de hoje. Não é preciso ser da periferia para ser marginal. Agindo nas brechas da corrente que tudo engloba, é possível fazer arte sem ser óbvio, simplista ou passivo.

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Misturas Relacionadas:
Nous Sommes Tous Des Immigrés - Por Caio Moretto
Quem é Banksy? - Por mim mesmo

domingo, 10 de outubro de 2010

Minha Casa, Sem Endereço

. . Por Unknown, com 2 comentários

"Veja o mundo passar
Como passa
Uma escola de samba
Que atravessa
Pergunto onde estão
Teus tamborins?
Pergunto onde estão
Teus tamborins?
Sentado na porta
De minha casa
A mesma e única casa
A casa onde eu sempre morei..."

(Zeca Baleiro - Minha Casa)

Ouvia o trecho desta canção acima com estranheza, imaginando ser muito acomodada a posição do eu-lírico. Oras, que diabos é um sujeito pra dar uma sugestão como essa, uma espécie de Deus sentado numa nuvenzinha celestial?!

Depois de conhecer o trabalho do Centro Social Nossa Senhora do Bom Parto, no Tatuapé, em São Paulo, outra perspectiva ganhou o mesmo trecho. No início daquele dia, quando conheci algumas unidades e projetos do Centro Social, passava por mim aquele filme de Sérgio Bianchi, Quanto Vale ou é Por Quilo?. No filme, o diretor explora a relação do discurso da responsabilidade social e da solidariedade que encabeça muitas atividades do terceiro setor, iniciativas atreladas à lógica do lucro, como se fossem empresas de marketing da miséria. Mas o Centro Social me pareceu muito distante do universo retratado pelo filme. De trabalhos com crinças com HIV, sem família, à atividades de reinserção social de população de rua, nenhuma delas se aproximava do objeto da desmedida crítica de Bianchi.

O trabalho que mais me chamou a atenção no Centro Social foi o 'Agente nas Ruas', em que hoje ex-moradores de rua ajudam pessoas em situações de rua. Um agente nos contava a dificuldade das pessoas de reconhecerem a própria situação delas, de procurarem ajuda nos postos de saúde, por exemplo, diante de qualquer problema cotidiano. Muitos não têm documentos de identidade, e não conseguem assumir, também, que não têm residência. Fomos conhecer uma região onde vivem muitas pessoas, abaixo de um viaduto movimentado e ao lado de linhas de metrô.

E então o trecho de Zeca Baleiro me pareceu assustador. Saímos da calçada da avenida abaixo da ponte e caminhamos, subimos e subimos até bem próximo do concreto do viaduto. Por fim, avistamos um porção de madeiras e lajes dispostas verticalmente, ao redor de onde começava um trecho da ponte. O agente se aproximou e bateu nas portas, pediu licença para entrarmos e, assim, passamos adentro.

Um rapaz, muito contente com a presença de três estudantes, nos apresentou cada um dos cômodos da residência. Ao entrar, passamos por uma varanda onde brincavam algumas crianças, em seguida, estava a sala com três sofás dispostos circularmente, uma mesa no centro e uma televisão na lateral de um dos assentos. Logo depois, bem atrás, reconhecia-se a cozinha com a mesa maior no centro, um vaso de flores e as cadeiras ao redor. Guiados pelo rapaz que nos recebeu, passamos aos quartos: duas caçambas, e algumas barracas de lençóis. Pareciam viver ali, mais ou menos, cinco famílias. Não havia paredes, claro, mas as marcas de cada espaço eram evidentes. O teto era a ponte, o som ambiente vinha do trânsito, da chuva e do metrô, e o cheiro de álcool perpassava os cantos, também.

Momento cômico: quem nunca brincou de Tartarugas Ninja? Santa Tartaruga! (risos) O espaço de higiene, como o truta nos dizia antes de nos levar até a boca de acesso à rede de água, que passava no alto e ao fundo, já fora da proteção da ponte, não parecia esgoto, tampouco a rede de abastecimento propriamente. Pelo que ele dizia, enquanto baratas e animaizinhos diferentes corriam de um lado ao outro, ali corria a água de alguns condomínios da região, com um desvio feito por eles, que usavam aquela água para o banho, mas brincavam ser o espaço das "Tartarugas Ninja". Constrangedor.

Se fosse (d)escrever o dia, os espaços visitados, as conversas, enfim, leitor preguiçoso, você teria um filho colorido. Conto ao meu terapeuta pequeno burguês, como eu, depois, e te poupo de arrastar a barra lateral.

Porém, pensei naquele rapaz pedindo pra que eu cantasse o trecho inicial, aqui, da canção de Zeca Baleiro. Os meus tamboris certamente eu não encontro. E, talvez, pudéssemos pensar então em "casa" como uma grande metáfora, para sair da imeeensa desigualdade social que nos acompanha, porque aí a discussão se alongaria muito.

Criar a própria casa independente de paredes e localização espacial pode ajudar quando tratores e ladrões, dos mais variados tipos, te levam o abrigo e a paz.



domingo, 19 de setembro de 2010

Divulgando - Pensando/Fazendo Junto

. . Por Thiago Aoki, com 0 comentários

(Clique no E-Flyer para ampliá-lo)

Peço licença para uma divulgação que é quase um jabá pelo fato de eu estar nos bastidores. Mas, se um dos objetivos de nosso blog é tirar as artes e as humanidades de seus respectivos quadrados e misturá-las indigestamente, não poderia deixar de propagandear o evento que ocorrerá no SESC Campinas a partir de terça-feira (21/09).

O subtítulo - "A contemporaneidade dos povos tradicionais" - é quase um paradoxo, mas prefiro dizer que é uma equação de difícil resolução. Pensar que povos tradicionais possuem sua contemporaneidade e que podem apropriar-se de novas tecnologias sem perder sua especificidade e identidade pode parecer heresia. Mas essa heresia logo vai abaixo quando tentamos observar a questão de modo mais horizontal. Ou seja, não como o encontro do índio coitado com a nova tecnologia avassaladora, mas como o encontro entre tecnologias igualmente relevantes. Claro que a possibilidade de um encontro totalmente horizontal é uma utopia, porém, buscá-la deve ser o norte de qualquer discussão que aborde o contato, a diversidade, tão falada diversidade. Por isso, teremos o formato de uma roda, no Espaço Arena do SESC Campinas, durante os bate-papos, com microfone aberto aos espectadores.

Tudo bem, mesmo que você seja cético quanto ao formato, a atividade será envolvente tanto para os amantes das humanidades como da sétima arte, o cinema. Isso porque a programação contará com exibição de filmes do Cinema Xavante (22/09), colocando na tela seu grande expoente, o premiado cineasta Caimi Waiassé. Também será exibido Panchamana (23/09) de Eryk Rocha, isso mesmo, filho de Glauber (impossível não citá-lo, desculpe). O longa aborda a civilização inca na Amazônia peruana.

Ocorrerá também bate-papo com ambos diretores, discutindo "Imagens e Sentido" (24/09) e, para quem se interessar, uma Vivência de Vídeo (25/09) com Caimi Waiassé, no sábado.

Dizer que outros grandes nomes como Stella Senra, Augusto Postigo, Marina Herrero e Laymert Garcia estarão presentes, também conta. Mas prefiro a divulgação a partir do título do encontro. É preciso mais gente para pensar e, para além, fazer.

Junto.

Vale lembrar: é tudo grátis.

Links com informações sobre o evento:
CTeMe
Facebook
Sesc

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Sessão Divulgando - Se você quer divulgar algum projeto ou evento, basta enviar um e-mail com maior número de informações possíveis para misturaindigesta@gmail.com

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Vergonha Nacional

. . Por Thiago Aoki, com 4 comentários



Acabo de voltar do cinema...Com raiva...Hoje em dia, em épocas de avançado estágio de acumulação capitalista, é quase um pecado perder hora e meia de tempo por filmes que não valem os R$3,50 da promoção de segunda! Tem também um amigo que me dizia que assistir filme ruim no cinema é como brochar. Como não sei o que significa o segundo termo, apenas digo que a estadia no cinema hoje foi muito, muito, muito ruim pra mim. Por não querer pagar alguns cruzeiros a mais pelo tridimensional "Alice no país...", acabei caindo na cilada de assistir ao longa brasileiro "Segurança Nacional", estrelado pelo Thiago Lacerda (eu sei: não deveria me surpreender com a ruindade do filme!). Nem o ótimo Milton Gonçalves, que faz o papel de um presidente popular e negro de nosso país salva a fraquíssima trama. A história, mirabolante, consegue pegar as piores características hollywoodiana, e ampliá-las ao extremo. Não é preciso ser cinéfilo para achar ruim a arte do filme, pra saber que a trilha sonora estava mal encaixada, que os diálogos eram toscos, que a atuação dos atores foi terrível e o roteiro pra lá de incoerente. Prova disso é que, ao acabar o cinema, as pessoas riam de indignação ou, impotentes diante da situação, suspiravam de sofreguidão por ter aguentado aqueles 90 minutos. Enfim, não tinha nada de mais passando, o que é normal, pois as estreias param durante o período da copa, só queria mesmo é aproveitar a ida ao shopping e a promoção do cinema.


De qualquer modo, o que mais me assusta é saber que o filme já havia rodado em 2006 e só agora chegou as telonas, bem em ano eleitoral. Num enredo pra lá de duvidoso, com um presidente da república sensato e sensível, um serviço de inteligência que deixaria a CIA no chão e um exército de poderio que amedrontaria qualquer superpotência. O centro de discussão do filme é o SIVAM (Sistema de Vigilância da Amazônia), defendido por governistas e criticado por opositores - que no final também estão envolvidos com o tráfico. Thiago Lacerda interpreta, pessimamente, um Jack Bouer brasileiro, como bem definiu a crítica do Omelete. E ele, em conjunto com a eficiência do serviço secreto e a coerência do presidente, consegue evitar um desastre atômico por traficantes colombianos que, sabe-se lá como, conseguiram uma bomba nuclear. Além disso, a tônica ufanista predomina, com várias cenas em que o conteúdo é estreitamente a bandeira tremulante. O presidente é ovacionado por criancinhas, enquanto o hino nacional é cantado, e não pela Vanusa. Todas as cenas em que a FAB entra em ação, o nome dos caças e das armas são exibidos, louvando nossa potência armística. Em uma das tomadas, operários da Petrobrás trabalham contente e felizes com seus uniformes-propagandas. Enfim, por que a volta do filme às telonas? Sem sucesso, sem público, sem críticas? Um filme patrocinado por Ancine e Petrobrás, com parceria com dezenas de empresas.


Quando saiu o filme "Lula, o filho do Brasil", fui um dos poucos que defendi sua exibição, pois a biografia do presidente, ao meu ver, é talvez a mais interessante do país, por sua trajetória e amplitude. E mais, cinematograficamente daria um bom roteiro. Ainda não tive coragem de assistí-lo, pois, ao que tudo indica, a linguagem idealista e mercadológica também vai de encontro ao que se faz em "Segurança Nacional", ou seja, instrumentaliza-se o cinema para chegar sabe-se lá aonde.


Infelizmente, por vezes, em diversos momentos da história mundial, a autonomia que deveria existir na cultura é comprometida pela necessidade de se adequar o projeto à linha de financiamento das agências governamentais. Se bem que esse filme mais atrapalha do que melhora a imagem do governo, pois é impossível não se questionar do porquê de algum dinheiro ser destinado a tal produção.



Mas, calma, Lula não é um mentiroso, safado, analfabeto, blá blá blá. Na política nacional não existem santos ou demônios. Até acho que a cultura é hoje um dos pontos fortes do governo. Conseguiu uma ampla mudança desde que o PT chegou ao poder, retomando os investimentos do Estado e ampliando as linhas de fomentos, tudo isso com um importante aumento na auto-estima nacional. Aliás, tinha engatilhada para hoje uma postagem sobre as mudanças nas políticas culturais do governo Lula para FHC, já com vistas às eleições desse ano, na qual, mais uma vez, todos falarão sobre a cultura e educação. Afinal, dizer que apoia a cultura é tão fácil como dizer-se contra a pedofilia. De qualquer modo, essa postagem ficará para outra hora, ou para outro Indigesto, porque esse filme me deu uma paralisia racional, e as únicas palavras que me vêm à mente são para desfazê-lo.


segunda-feira, 19 de abril de 2010

Não Estou!

. . Por Unknown, com 1 commentário

Saia do metrô quando um sujeito, no mínimo diferente, no infinito corredor antes da escada, arranhava na guitarra uma música bem conhecida, que eu, péssimo pra acertar, não me arrisco a dizer qual era. Me prende muito a atenção quando ouço uma música “no meio do caminho”. É como se houvesse uma trilha sonora pelas ruas pra mim. A canção invade o dia, preenche o lugar, atribui sentido a qualquer possível banalidade. E, naquele dia, quando na rua já, caminhava com uma leveza que há muito não tinha, distante, distante de tudo, ainda que bastante presente, atento, mas tranqüilo, sem pressa, fazendo esquecer ansiedades, dúvidas, incertezas, não estava vazio, muito pelo contrário, apenas sereno. Talvez por causa da música. Ainda na rua: "Nossa, que cartaz... não é daquele filme?...” Bom, seguimos daqui pra lá, de lá pra cá, e passou-se o dia.
No dia seguinte, a mesma dúvida: “curioso mesmo, bem que parece aquele filme, como é mesmo o nome daquela atriz?... Ela fez um baita filme, foi um show particular dela, brilhante... ?...” E lá se foi mais um dia, e a dúvida nem era mais dúvida, era só uma brincadeira visual, procurava a imagem pela rua só pra distrair os pensamentos, que não precisavam e nem queriam concentração. Mas era muito simples resolver a tal dúvida, ora, somente ler o cartaz e pronto. Só que era divertido daquele jeito, em cada canto pelas ruas lá estava uma imagem diferente do filme. Enfim, chegou um momento que não pude mais brincar, já que, por acaso, me deparei com as letras do cartaz antes da imagem, fiquei chocado: “Não Estou Lá” (I’m Not There).
Como assim, eu vi este filme dois anos atrás, não? E foi em casa ainda, fui na locadora e peguei ele em DVD. Como pode estrear nos cinemas de novo? Impossível, não pode ser uma regravação em tão pouco tempo, que absurdo! Em que ano estou? 2010? Não é 2010?! 2010, é 2010!! Me perdi no tempo.
- Este filme já não estreou, você já viu?
- Já, já vi sim. É, eu não tinha entendido também, faz tempo, estranho mesmo...
Ufa, estamos em 2010 mesmo, e eu vi este filme há dois anos. Ponto.
Curioso é que o sujeito já é, digamos, peculiar, o título do filme já é emblemático, e ainda acontece isso. Piada, né? “Não estou lá!” Onde e quando, há dois anos? Só agora é que está?! Ai ai.
Já tentei falar do Fernando Pessoa, em outro momento, mas não precisava ter ido “tão” longe temporalmente: será Bob Dylan o Fernando Pessoa da atualidade?
Um amigo, que teve o privilégio de vê-lo (o Bob Dylan, claro, por favor!) numa apresentação, dizia com certo desdém: “Ah, um véinho ranzinza lá no palco com uma viola, uma voizinha chata que só, nhénhénhé, é isso... e um pouco caro ainda”.
Bom, caro deve ser mesmo... Eu nunca vi, ao vivo, o Bob Dylan, e muito, muito provavelmente não vou ver, a não ser que ele apareça na porta de casa amanhã, cantando:




É... pouco provável também que ele, do nada, venha trocar uma idéia comigo, de boa, como numa conversa de bar, convenhamos. Mas, é o Bob Dylan, né, quem sabe?! Aparecendo por outra pessoa, como na saída do metro aquele dia, já está valendo. E se é difícil falar de uma canção assim, tem gente que escreve até um livro somente pra ela: "Like a Rolling Stone - Bob Dylan na Encruzilhada", de Greil Marcus, resenhado semana passada pelo jornal Folha de São Paulo.
Não sei exatamente quantos foram os atores que participaram da gravação, acho que seis dentre os famosos, mas são muitos, claramente. Cate Blanchett é a principal entre todos eles, e ela está irreconhecível. No filme, cada um dos atores, desde uma criança atrevida, até Richard Gere, com os cabelos sempre grisalhos, interpreta a mesma personagem: Bob Dylan. Conclusão: esse cara é louco. Também acho. Se o Fernando Pessoa brincava de heterônimos, serão as facetas, os “alteregos” de Bob Dylan, heterônimos também? Ele aparece, no início de sua carreira, com músicas de protesto, dizem, depois se cansa, dizem, e queria falar sobre outras coisas. Muitos se queixaram. Outros seguiram o adorando. Mas ele não ficava quieto, logo já estava “de outro jeito”, escrevendo e cantando sobre outras coisas, de novas maneiras. São muitas dúvidas sobre ele, que definitivamente, merece o bordão, é “uma lenda viva”. De folk, rock e música gospel, “lá está” Bob Dylan, mas qual? Acho que o próprio título do filme diz qual seria a resposta para algumas das pergunta sobre ele, sobre a arte que ele produz também: “Não estou lá!”

sexta-feira, 19 de março de 2010

Com um olho fechado

. . Por Unknown, com 5 comentários

Tentava falar outrora do recente filme de Spike Jonze, "Onde Vivem Os Monstros", porque, fundamentalmente, o que mais me encanta nesse filme é o mundo fantástico, a imaginação do garoto Max. Na história do filme, o menino, como qualquer criança um tanto mimada, briga com a mãe e a irmã por atenção. Ele foge, se esconde, e assim vive uma aventura com os “monstros” de sua imaginação. Cada uma das criaturas que habita a cabeça dele tem traços bem marcados, de tipos comportamentais, muitas vezes, estereotipados. Tudo bem, muitos diretores tentam brincar com caricaturas humanas, com humor e ironia, como Wood Allen, para falar de determinados assuntos, entretanto, pra mim, a beleza de “Onde Vivem...” é comunicar que ninguém “é assim”. Max é todos aqueles “monstros” ao mesmo tempo: não tem um único perfil, tem vários.



Parece ainda que, ultimamente, muitos filmes exploram a temática do imaginário humano. Quem sabe, o mais esperado deles seja a leitura de Tim Burton de “Alice no País das Maravilhas”, acompanhado de “O Imaginário do Dr. Parnassus”, dirigido por Terry Gilliam. A gravação de “O Imaginário...” foi alterada devido a morte de Heath Ledger, contando a partir de então com a participação de outros atores famosos, como Johnny Depp, Jude Law e Colin Farrell. Esse último filme, tenho cá pra mim, deve ser uma leitura do “inconsciente coletivo”, a lá Jung, pois, ao passar pelo espelho do Dr. Parnassus, a personagem de Ledger, por exemplo, junto com outros personagens, entra em contato com os absurdos (ou não) que habitam nossos pensamentos. Só que a maneira com que cada um vê as diversas coisas com as quais foram educados, criados, enfim, até mesmo a forma como vêem a si próprios, tudo depende dos caminhos que seguem, ou escolhem, dos sentidos que atribuem às coisas e, ainda, de alguma forma, dos olhares que marcam a trajetória de cada um. Por uma infeliz casualidade, a morte de Ledger deixa tudo isso mais claro, já que nas vezes em que a personagem dele passa pelo espelho, aparece ali dentro de diferentes formas, sendo interpretado ora por Depp, ora por Law, ou por Farrell. São as diferentes faces de um mesmo ser.



"Coraline e o Mundo Secreto" é uma animação do ano passado que deveria estar no time dos mais falados pela leveza e graça que nos traz, mais, também pelos elementos de um suspense infantil doce que nos carrega consigo. A menininha é recém mudada numa enorme casa e aos poucos vai descobrindo a vizinhança, um menino enigmático e o esguio gato dele, e outros vizinhos bem incomuns. Ela conhece, também, os espaços de sua própria casa, enquanto os pais dela vão seguindo a rotina. Coraline então encontra uma passagem secreta num dos quartos, pretexto que surge para que ela viva a fantasia do mundo que desejava, e aos poucos a história ganha todo um mistério. No filme, desse modo, constrói-se um jogo entre a realidade e o sonho, a poesia, o mistério e o medo.



Quando éramos crianças, ou até hoje, muitos de nós assistíamos a "Mundo da Lua", série da TV Cultura que contava com a genialidade e a simplicidade de Gianfrancesco Guarnieri. Lucas era o nome do garoto que adorava ligar um aparelhinho, uma espécie de rádio com o qual fazia contato com a Terra, enquanto estava no quarto e deitado na cama, ali vivia, vivia imaginando.
Em dias recheados de... não sei como dizer... de versões, de opiniões, de respostas, de um clima de horror, de desconfiança (como os que envolvem a morte, pelas mãos de uma maluco, do cartunista Glauco, por exemplo, e o julgamento do casal Nardoni, pra ajudar), algumas palavras na nossa linguagem ganham destaque. Está na moda, por exemplo, ser “bipolar”, até quem nem sequer sabe diferenciar os estados de cada um dos “pólos” já sai dizendo que fulano “só pode ser bipolar”. O "mal" está sempre "lá”, é a “loucura” do mundo por aí, a espreita. Começam a aparecer, ou melhor, se aclaram as formas de controle social, fundantes das relações humanas. No entanto, o que me assusta são as "receitas" de controle, de domínio, de reconhecimento, de identificação do perigo, das manifestações do que se vê como "loucura", "mal". Lembro, com o perdão pela infâmia, o dragão mulato com luvas de pelica que viveu no Rio de Janeiro na transição do Império à República. Em “O Alienista”, Machado de Assis faz com que o “doutor” da cidadezinha interne uma por uma das manifestações de insanidade, até que, no final, o próprio médico se isole, enlouquecido. E um filme que merece destaque, neste ponto, é "Minority Report", cuja ficção possibilita antecipar, prever crimes, punindo executores antes que praticassem assassinatos. Mais uma bela dramatização do conflito entre o Destino e as escolhas, atravessados pelos contextos que vivemos. Ainda que o filme não trate de questões a respeito da loucura, da insanidade, de patologias das quais podemos sofrer. É sempre delicada a margem que separa o biológico da psique, um distúrbio orgânico da confusão dos pensamentos.
Não dá simplesmente pra fechar os olhos, em momentos assim, tapar os ouvidos e correr, se escondendo debaixo das cobertas, tal é a minha vontade, como se as mantas forjassem a nossa transformação e do mundo ao nosso redor... Talvez fechar apenas um dos olhos seja uma saída, assim abrimos as portas à imaginação, sem que sejamos dominados pela loucura que pode habitar a completa escuridão, ou o excesso de luz, e, ao mesmo tempo, tentamos manter algum grau equilíbrio, de razão...

quarta-feira, 3 de março de 2010

And the Oscar goes to...

. . Por Thiago Aoki, com 4 comentários

Domingo é dia de Oscar. Para um mísero blogueiro terceiromundista como eu, movido pelo "auto-baixo-financiamento", fica praticamente impossível assistir a todos os indicados. Porém, leal a minha cinefilia, fiz o básico, peguei as críticas, os favoritos e, auxiliado por minha fiel (espero!) namorada, saímos na empreitada de assistir aos principais concorrentes.

Pois bem, vamos em frente. Muita gente questiona o Oscar, seu glamour e ostentação. O favoritismo de "Avatar", de James Cameron, condiz com as críticas. Roteiro ruim, atuação fraca dos atores, montagem comum, mas com altíssimo grau tecnológico e um investimento estimado de básicos U$500 milhões, dinheiro com o qual, este que vos escreve, muito melhor aproveitando, construiria o estádio do Corinthians. Não comentarei aqui este filme, para isso já basta as milhares de reportagens que se embalaram na corrente do sucesso do longa. Apenas adianto que é perpassado por discussões superficiais e maniqueísta do malvado homem branco humano e sua relação mecânica/exploratória com a natureza, diferentemente da espécie de índio bonzinho que habita o outro planeta numa relação orgânica e religiosa de cooperação natural. Curiosamente, quando a coisa aperta o heroi branco norteamericano que resolve com tudo, abrindo mão de sua vida anterior pela causa dos explorados e indefesos índios, que obedecem a tudo que o novo brother ordena. Prefiro aqui, mostrar três filmes que, por qualquer amante das ciências humanas e suas intersecções com as telonas, devem ser assistidos, independente dos vencedores das estatuetas douradas.

Dos concorrentes à categoria, melhor filme é, sem dúvida, "Bastardos Inglórios", do diretor-pop entre os neocults Quentin Tarantino. É o que melhor faz aquilo que torna o cinema mágico: recria, inventa, questiona, inverte, leva a cabo as palavras de Federico Fellini, segundo o qual, "o cinema é o modo mais direto de entrar em competição com Deus". A fotografia, figurinos, diálogos, trilha sonora e montagem impecáveis. A primeira cena do filme no diálogo de um caça-judeus nazista, interpretado com maestria pelo poliglota Christoph Waltz, com um camponês já mereceria, por si, entrar para história do cinema. Mas, entre todas, três categorias deveriam obrigatoriamente ser levadas pelo Inglorious: "melhor diretor", "melhor roteiro original" e "melhor ator coadjuvante" - alguém por favor me explica o que foi essa atuação de Waltz? Há entre os conspiracionistas de plantão quem tenha dito que Tarantino estimula o revanchismo judeu que norteia a política externa contemporânea do eixo EUA-Israel. Balela. Pelo contrário, finalmente os judeus não são coitados, mas sim pessoas com sangue nas veias, que matam, torturam, contra-atacam, exercendo, de fato, sua função em uma guerra. Noutras palavras, é criado um mundo onde a moral tradicional torna-se segundo plano e o espectador é levado a torcer pelo massacre da milícia judaica, comandado pelo tentente Aldo Raine (mais uma ótima interpretação de Brad Pitt) sobre os nazis. Personagens fortes que criam entre si elos tênues e tensos e que, se existido tivessem - e quem garante que não? - mudariam a história do mundo. Insere-se, junto com "Pulp Fiction", na lista das melhores obras do diretor.



Se Tarantino abusa da imaginação, o filme de Lee Daniels, "Preciosa - uma história de esperança", vale-se da ultra-realidade para contar seu roteiro. A história se passa no Harlem, bairro negro americano, em 1987, e tem como protagonista Claireece Precious (daí o irônico "preciosa") Jones, a atriz Gabourey Sidibe - negra, gorda e feia. Além disso, espera seu segundo filho, com 16 anos, ambos resultados de estupro incestuoso por parte do pai. Sua mãe, com atuação impecável de Mo'Nique, à maltrata verbal e fisicamente, fazendo-a de escrava, e exigindo que o Estado lhe dê a pensão pelas netas, já que a "preciosa" ainda não chegou à maioridade. Eis que uma professora lésbica de humanidade incrível, a bela Paula Patton, chama Jones para uma escola alternativa, com outras jovens socialmente excluídas. Soma-se a ela uma assistente social (Mariah Carey), provavelmente inexistente no mundo tamanho acerto em suas atitudes, e as coisas começam a mudar. O filme escapa de duas possíveis armadilhas. A primeira seria o maniqueísmo sensacionalisa, que não ocorre, visto atitudes violentas da própria Preciosa, bem como alguns sentimentos humanos reproduzidos pela mãe. A segunda poderia ser o excesso de personagens densos, mas cada um é bem incorporado ao roteiro. Enfim, é um filme que emociona, e que mostra com muita propriedade a segregação racial nos EUA, em pleno início da década de 1990. Mereceria "Melhor Atriz" e "Melhor Atriz Coadjuvante", embora a maior parte da crítica considera o longa apenas favorito no segundo quesito, já que Meryl Streep ainda é a queridinha dos estadunidenses. Mas, independente disso, será estranho ver uma negra, gorda, que fez o papel que fez, sendo premiada pela fábrica de rostos padronizados de Hollywood. Em uma das cenas do filme, Preciosa olha para o espelho e vê refletida uma loira, branca de cabelos lisos, como ela gostaria de ser, de certa forma uma crítica a todo esse espetáculo. Tudo bem, eu também acho o indiano "Quem quer ser um milionário" contraditório com os padrões do Oscar devido ao roteiro também crítico à seletiva espetacularização social decorrente da premiação. Vai entender, mas será, sem dúvida um momento interessante de se acompanhar, espero que o discurso da atriz, Mo'Nique ou Gabourey Sidibe, ao menos ele, seja contundente como o filme.



Com menos holofotes, o falsamente despretencioso "Amor sem escalas" - de Jason Reitman, famoso por "Juno" - também trata de um tema caro à sociedade contemporânea, a frieza do mundo corporativo. George Clooney intepreta um executivo de uma empresa que terceiriza demissões, tendo, portanto, como função correr os EUA para demitir pessoas, o que faz com êxito e sem demonstrações de remorsos. Rian Binghan, personagem de Clooney, sequer tem residência física, e trata com extrema indiferença sua família, e seu sonho é completar 10 milhões de milhas viajadas. A trama se inicia quando Binghan conhece a igualmente workaholic Alex, interpretada Vera Farmiga, que pode ser considerada sua versão feminina e inicia um romance executivo, pautado pelos seus encontros durante a vida de trabalho. Entra também na vida de Binghan, a jovem Natalie, uma espécie de trainee do executivo, que tenta fazer pose de durona mas não consegue suportar a crueldade requerida pela função de seu chefe. Enfim, é uma comédia romântica na qual o romance torna-se segundo plano, visto que os questionamentos de Natalie sobre a desumanização do mundo corporativo, bem como os diálogos com os trabalhadores que são mandados embora, roubam a cena. Embora não preencha nenhum quesito da premiação de domingo como favorito absoluto - talvez Clooney corra por fora como melhor ator -, é um filme que vale a pena ser visto. Repete a difícil tarefa, normalemente executada por Woody Allen, de tocar em questões delicadas e tensas de maneira cômica e leve, sem ser, entretanto, superficial ou simplista. Assim, a melhor classificação, como afirmei anteriormente, seria de "falsamente despretencioso".



Faço uma ressalva para "Guerra ao Terror", que vem sendo aclamado pela crítica e deve levar algumas estatuetas. Assisti há algum tempo, antes de chegar aos cines, e não gostei, mas o sentimento foi tão distinto da análise corrente, que prefiro, humildemente, aguardar para assistí-lo novamente, para ter uma opinião melhor formada, embora tenha certeza que, no quesito guerra, nem se compare ao "No vale das sombras", de 2007, que nada levou, tanto da crítica como do certame de Hollywood. O que o Oscar nos mostra? Características da indústria cinematográfica e padronizações estadunidense, bem como os discursos aceito pela hegemônica indústria de entretenimento, é claro. Mas também filmes que merecem ser levados adiante, para além do ilusório galmour hollywoodiano. Bom Oscar a todos!

segunda-feira, 1 de março de 2010

Nous Sommes Tous des Immigrés

. . Por Caio Moretto, com 10 comentários

Logo_600_800_24clEscrevo este post no calor morno do acontecimento. O dia acabou, mas os desdobramentos ainda não vieram. A imprensa ainda mal teve tempo ou vontade política de comentar. Mas hoje, dia 1 de março de 2010, aconteceu na França O Dia Sem Imigrantes (“La journée sans immigrés”).

A idéia é simples e arriscada: fazer-se notar pela ausência.

Todos os imigrantes aderentes à causa pararam de trabalhar e de consumir por 24 horas. Qual foi a força do movimento? Qual será a repercussão? Ainda é difícil medir.

Em 2004 foi lançado o filme A Day Without A Mexican, uma ficção um tanto esquisita cuja trama é o desaparecimento de repentino de todos os mexicanos dos Estados Unidos.

Em 2006 a vida imita a arte e ocorre nos Estados Unidos da América, no dia 1 de maio, o Great American Boycott ou El Gran Paro Americano, o primeiro Day Without An Immigrant (dia sem um imigrante).

A manifestação de hoje teve um grande azar estratégico. Marcada há alguns meses para a data, ela terá que dividir a atenção da imprensa e da população francesa com uma catástrofe climática. Ontem uma tempesatade arrasou o oeste francês e, sem distinguir imigrantes de não imigrantes, deixou um trágico rastro. Contra um inimigo maior todos se unem?

Enfim…

Separei um vídeo de Chevallier et Laspalles, dois dos melhores comediantes que eu já vi, fazendo uma grande sátira ao racismo e à xenofobia.

Como você pode reparar, o vídeo está em francês. Caso você não tenha achado a menor graça por falta de tradução, vou contar apenas o final:

- É como o direito de voto aos estrangeiros. Eu não sou contra, desde que eles votem como eu.

- E você vota em quem?

- Naqueles que não dão direito de voto aos estrangeiros.

Em maio de 1968, gritavam “Nous sommes tous Juifs allemands” (Somos todos judeus alemães). O Post termina como uma introdução à discussão que acompanharemos nos próximos dias com o novo slogan da solidariedade: “Nous sommes tous des immigrés”.

Somos todos imigrantes.

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terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Pandora, Coruja Branca e Paulistão

. . Por Thiago Aoki, com 6 comentários

Primeiramente, gostaria de agradecer ao milhares de e-mail de nossos assíduos leitores dizendo que sentiam falta de minhas postagens. As férias de uma semana que tirei da internet me fizeram bem. Em contrapartida aos quilos a mais, o namoro nos impulsiona culturalmente, pelo menos no que diz respeito ao cinema. Fazia tempo que não enfrentava as telonas, mas resolvi seguir o conselho de um de nossos Indigestos e voltar à ativa. De quebra, foram três filmes. Pela ordem: "Contatos de quarto grau" (Olatunde Osunsanimi), "Abraços Partidos" (Pedro Almodóvar) e "Avatar"(James Cameron). Deixarei o filme do espanhol de lado, acho que está um pouco desconexo em minha cabeça, talvez por não ter encontrado o Almodóvar da freneticidade de seus trabalhos anteriores, mas um filme mais sensível, lento e silencioso. Ficará para uma próxima.Vamos aos que sobraram. Neste post, falarei sobre os filmes de Osunsanimi e Cameron, pois acredito que possam nos dizer muito sobre as limitações e tendências tomadas pelo cinema contemporâneo.

Cameron, cria, através de sofisticados efeitos de computação gráfica e o investimento de U$500mi, Pandora, uma lua do planeta Polifemo, habitada pela também criada civilização Navi. Poderia aqui discorrer acerca das incongruências do filme: sobre o sempre heroi estadunidense, cujo maniqueísmo é extremo ao ser um tetraplégico que enfrenta um insensível capitalista que apenas que explorar Pandora e o chefe do exército que é tão mal que ao bombardear os "inocentes" Navis pede ao piloto do avião: "Vamos logo com isso que eu quero voltar para janta". Enfim, o roteiro é fraco, com discussões superficiais ancorada na "onda ambientalista" que assume o mundo, personagens ridículos e diálogos banais . Mas me recuso a dar ibope para essa discussão, até porque minha cisma contra o politicamente correto já me levara ao cinema preconceituado quanto a isso. Quem quiser ler mais sobre o conteúdo em si, leia a polêmica coluna escrita por Luiz Felipe Pondé na Folha de SP. O que me ficou à mente, entretanto, é a potencialidade dos efeitos visuais. É praticamente impossível não se sentir atraído pelo universo criado, pela riqueza de cada detalhe de Pandora e dos Navis. Se deixa a desejar no conteúdo, sobra em seus recursos técnicos. Um enredo completamente fantasmagórico, mas que, no cinema 3D, assume ares de realidade. Impressiona como nos satisfaz o sentimento de participar do cinema tridimensional como estar participando de uma quase-realidade, de tão otimizada a qualidade da imagem. O próprio título "Avatar" remete a uma representação do real, através de um mundo paralelo, virtual. Não duvido que, em breve, tenhamos outras formas sensoriais como o olfato ou o paladar, dentro da sala cinematográfica. O paradoxo de presenciar um filme, na minha opinião, ruim, mas, ao mesmo tempo, sair do cinema com a estranha sensação de que não teria graça mais assistir qualquer filme que não fosse 3D, me aporrinha as paredes da caxola.

"Contatos de quarto grau" também se apropria de nossa relação com a realidade para causar impactos no espectador. Este já é um filme mais bem feito, entreteu durante todo o tempo, eletrizante, sabe criar um ambiente de suspense assustador sem ser vulgar, valeu o ingresso. Trata-se de uma psicóloga, Abigail Tyler, que, após morte misteriosa do seu marido, também psicólogo, resolve dar sequência aos estudos do mesmo. Para isso, se manda para o Alaska, onde, para seu espanto, diversas pessoas, que sequer se conhecem, têm crises de insônia após sonhar com uma coruja branca, todas entre 2h e 3h da marugada. Então, a mulher recorre à hipnose para entender melhor o que se passa com os pacientes durante as noites de sono interrompido, e por aí vai. Mas o que inova mesmo é a utilização de áudio e vídeos reais gravados pela psicóloga durante as seções. Veja o Trailler abaixo para ter uma ideia.




Eu mesmo sou cético quanto a ET´s, OVNIs ou coisa que o valha, é um assunto que não me desperta tanto interesse, porém o filme me deu calafrios. Esses documentos são colocados em momentos estratégicos, nas situações mais apavoantes, mesclando com a atuação dos atores, e consegue cutucar o ceticismo racional com vara curta. Aquela coisa de "uma imagem vale mais que mil palavras" não vale só pro corno que pega no flagra. Se, quando sabemos que o filme é baseado em fatos reais já temos um elemento a mais na emoção do suspense, no "Contatos", além desse recurso, temos o vídeo e áudio do registro da pesquisa, o que amplifica ainda mais o medo.

Nessa instrumentalização do real para conquistar o espectador, apresentada de forma distinta por ambos filmes, temos o alicerce daqueles que ganham, ano a ano, peso no mercado da produção cinematográfica. A fantasiosidade performática do Avatar, ou do Crepúsculo, com vampiros que fazem cosquinhas em Anne Rice, por um lado. E a espetacularização do real (achavam que era só o Datena?) em filmes como "Contatos" ou o "Exorcismo de Emily Rose", por outro.

Ainda com medo de sonhar com corujas brancas e com raiva de ter pertido dez minutos do Corinthians e Palmeiras - o que me custou o gol do Jorge Henrique, melhor jogador do Brasil, na atualidade - para ver a guerrinha entre Navis e Colonizadores, saí das múltiplas seções do cinema com uma ideia fixa concluinte: vamos ao cinema para reencontrar nossa relação com o mundo, desafiando cada filme, para que ele supere ou corrobore aquilo que, de fato, acreditamos. Quando não acontece nem um nem outro, bem melhor o campeonato paulista, ainda mais se o Corinthians vencer...

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Cinema, Passatempo e Confusão

. . Por Unknown, com 4 comentários

Já vai alto o verão, muitos em férias do trabalho, ou da faculdade, ou simplesmente desempregados, outros... nem tanto. Azar destes últimos, ora, podem também procurar alguma coisa interessante pra fazer nas horas vagas, pois elas sempre existem, e como. E se só conseguem pensar “no que fazer?”, podem também seguir pensando enquanto lêem um livro, fazem a caminhadinha diária, sentam em frente ao computador pra “não fazer nada e tentar parar de pensar”, ou não. Um filme é sempre uma boa opção e ir ao cinema, por exemplo, é algo que tende a ficar mais raro, dizem as projeções, afinal, os famosos modos de compartilhamento de arquivos pela internet, a pirataria, ou qualquer outra maneira de ter acesso aos filmes, podem diminuir cada vez mais o trânsito nos salões de pipoca. Pode-se ir a uma vídeo-locadora, também (sim, elas ainda existem, incrível, não?). Qualquer uma das opções pode resultar em horas que passam rápido, pois prendendo os olhos à tela é possível simplesmente esquecer o mundo. Provável que numa sala de cinema isso ocorra mais facilmente, já que as circunstâncias, a temperatura estável, o som, a imagem que invade o campo visual, enfim, tudo contribui para que aquelas horas possam trazer diversão, ou alívio, mais intensos.
Atualmente, nas prateleiras do cinema, o atrativo são os filmes 3D, justamente, dizem, pra que o “ir ao cinema” não se perca, outra vez, devido ao amplo acesso aos filmes. Se você for ao cinema, no caso de estar sozinho, o leque de escolhas deve ser mais restrito. Veja, um filme de terror, ou suspense, é mais divertido se visto ao lado de alguém, quem quer que seja, só pra comentar depois “nossa, que susto levei naquela cena, você não?”, do contrário são grandes as chances de sair somente com o sentimento de medo transbordando por você. Um documentário... só se estiver atento, porque pode cochilar feio ali, e caso esteja acompanhado, que seja de alguém com “simancól”, ora, comentários elaborados, cheios de firulas teóricas ao sair da sala... não dá! Uma aventura, ou um policial podem ser uma boa tanto em grupo como só, não têm muita contra-indicação. Se o humor permitir, um infantil, um desenho animado será ótimo, ou melhor, talvez sempre sejam, em qualquer situação, mas no caso de um mau-humor daqueles, você tem chances de se irritar com aquele menininho que quer fazer xixi e não pára de se mexer e empurrar com o pé a sua, bem a sua poltrona. E, se for o caso, uma comédia, no entanto, a solidão, novamente, às vezes, faz chorar em coisas que, em tese, são de rir, vá acompanhado também. Dramas existências, somente se quiser impressionar a companhia, com intenções que não se confessa, ainda que possa ser infrutífero. Porém, se for com "aquela pessoa especial", ah, esqueça, entra em qualquer sala, não faz diferença, não é mesmo?
Uma passada rápida de olhos pelas ofertas recentes mostra o incansável, nos elogios técnicos e pesadas críticas de roteiro e história, Avatar, é um 3D longo. O ator mais lucrativo e trabalhador da indústria hollywoodiana também aparece, Morgan Freeman, como Nelson Mandela. Tem ainda aquele doido de cabelo bagunçado e, às vezes, de cenas escurecidas, Tim Burton, produzindo algo. Além de uma comédia romântica, ou qualquer outro gênero que complete a estante. Contudo, voltou à cena um sujeito que andava sumido desde aquilo que foi classificado até como “humor-negro” em “Quero ser John Malkovich”: o diretor Spike Jonze, que depois também dirigiu “Adaptação”. O primeiro filme explorava a descoberta de uma porta que permite a qualquer um estar em outra pessoa, ver e sentir o mundo através de outro ser humano que não você, e no caso, através do ator John Malkovich interpretando um John Malkovich. Além de algumas cenas entre a comédia e o drama, a temática é de fundo existencial, claramente, sobre a constituição do EU, daquilo que nos constitui em nossas relações, como nos vemos e somos vistos, desejos, ansiedades, vícios, traumas, enfim, da loucura que é serhumano. Charlie Kaufman é o roteirista de ambos e, no segundo, é também a personagem principal. De novo, a mesma temática reaparece, agora com uma dose ainda maior de metalinguagem, já que a história envolve transpor um livro para os cinemas em meio às crises existenciais da personagem, ele mesmo, Charlie, ainda que a história tenha pouco de autobiográfico. Parece confuso e, de fato, é, assim como com “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças”, cujo próprio título já complica a história, também escrito por Kaufman.
Também me perdi agora. Voltando. Spike Jonze é quem deu as caras novamente e o recente filme dele, “Onde Vivem os Monstros”, é uma adaptação de um conto infantil do escritor Maurice Sendak. Diga-se de passagem, outro sujeito nada convencional, o escritor é bastante polêmico, inclusive, tendo um texto censurado nos EUA por desenhar o Mickey com pênis, e que só foi publicado depois que o rato mais famoso do mundo ganhou uma fraldinha. O novo filme é dito “infantil”, ainda que possa não ser somente para crianças. Jonze mais do que adapta o conto, que tem pouquíssimas frases, cria um belo filme a respeito do universo infantil e de conflitos pelos quais passamos todos, em qualquer idade. Menos confuso, como os outros filmes, o diretor utiliza recursos para dar movimento às cenas e aos personagens da maneira que um moleque gostaria. Sensível, lírico sem pieguices, reflexivo e divertido, o filme ainda apresenta ótima trilha sonora, assinada por Karen O, vocalista dos Yeah Yeah Yeahs. Não, não são só elogios, pois seguramente muitos terão sono em alguns momentos do filme, que oscila entre as tensões vividas pelo menino-protagonista e pelos monstros, que, por sua vez, são criações do próprio menino, e entre os monstros e o menino. Ai, sujeito confuso esse Spike Jonze. Pelo menos, ele mostra o quão desajeitado é encerrar um filme nas tradicionais classificações, nos epítetos que mais atrapalham que ajudam para sentir o cinema.
É bom ler o horóscopo antes de entrar na sala pra ver “Onde Vivem os Monstros”, porque dependendo se sua condição astral, e se acompanhado ou não, as combinações entres os diferentes fatores podem levar você a sair dali alegre feito um menino correndo numa brincadeira, ou melancólico feito qualquer miserável. Cinema deveria ser mais do que uma mera arte, perfumaria estética, ou erudição barata, poderia ser uma ciência médica, ou farmacológica.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Conversa de doidos - Chema Madoz e Luis Buñuel

. . Por Thiago Aoki, com 3 comentários

Se José María Rodriguez Madoz fosse brasileiro, provavelmente seria conhecido como Zé Maria ou simplesmente Zé. Mas é espanhol, nascido em Madri, 1958, e por lá ficou conhecido como Chema Madoz, azar o nosso que sequer conseguimos pronunciar seu nome. Por que José Maria tornou-se Chema? Não sei, mas essa mania de mudar o sentido lógico das coisas pode dizer muito sobre esse fotógrafo, pois é exatamente isso que ele faz em seu trabalho.
Com sua Hasselblad, Madoz pega os objetos comuns do cotidiano e alterna sua funcionalidade e sentido. Não é nonsense, tampouco ingênuo. Não apenas o contraste do preto e branco muito bem utilizados destaca o fotógrafo, mas especialmente o conteúdo de sua obra. Suas fotografias possuem um ar de ironia e provocação. Ao nos depararmos com as mesmas, é impossível não questionarmo-nos sobre a normalidade, ou melhor, sobre sua imposição. Quanto do que fazemos e dizemos acontecem apenas pelo hábito de fazermos do mesmo modo? Ainda mais em uma sociedade onde as possibilidades de mudanças tornam-se cada vez mais escassas, um mundo mergulhado na apatia política-social. Pode ser que essa impressão que tenho de Madoz seja viagem de minha imaginação, mas acho que é justamente nisso que o fotógrafo baseia-se: na interpretação que cada espectador terá daquela, digamos, "disfuncionalidade" dos objetos. É brincar com a própria imaginação, levá-la para além da razão estrita e ativar outras percepções, como aconteceu comigo. Luis Buñuel, o grande surrealista do cinema, amigo pessoal de Dalí, afirmara que "a imaginação é o nosso primeiro privilégio, tão inexplicável como o caso que a provoca". Engraçado que foi justamente Buñuel que me veio a cabeça quando vi pela primeira vez as imagens de Madoz. Aliás, mais especificamente uma cena do filme "O fantasma da liberdade"(1974), um dos últimos de sua filmografia. Esta cena abaixo, para mim é uma das mais magníficas do cinema.



Inclusive, se você começou a ler esse mísero post por aqui - pra ver do que se trata o vídeo e se valia a pena ler esta coluna desde o início - faço-lhe um apelo para que assista, pelo menos os cinco primeiros minutos desta cena. Nela, duas famílias burguesas típicas da época do filme combinam um encontro. Quando Buñuel mostra a mesa, a surpresa é que invés de cadeiras, temos privadas e invés de refeição revistas. Durante a conversa, um dos homens divaga sobre o problema da superpopulação, como todas aquelas pessoas terão condição para "evacuar"- leia-se cagar. A conversa é interrompida pela garotinha, filha do casal, que diz "Mãe, estou com fome" e a mãe, constrangida, logo corrige a menina, dizendo para não usar palavras impróprias na mesa. Logo depois, um dos homens pede licença e pergunta baixinho à empregada "onde fica a sala de jantar", então, segue para um cômodo parecido com um banheiro, mas que invés de privada tem uma cadeira e invés de revista, comida e vinho. Ele senta e faz sua refeição. E por aí vai, não me estenderei (isso mesmo, estender é com "s" e extensão é com "x", obrigado pela correção Rita) porque só essa cena valeria um post inteiro. No filme, cujo título, segundo o próprio autor, é uma alusão à primeira frase do Manifesto do Partido Comunista, de Karl Marx ("Um fantasma ronda a Europa, o fantasma do comunismo"), Buñuel critica veementemente o modo de vida burguês e a liberdade prometida pela sociedade de consumo, através justamente do trajeto normalidade-absurdo, mais ou menos o mesmo trajeto percorrido por Madoz.

E em ambos, guardados seus distintos contextos, saímos com a sensação de que o absurdo não é tão absurdo assim, ou, talvez, que a realidade, o cotidiano, o normal sejam também um grande devaneio. E é com este argumento que, antes que me questionem, fujo da rotulação de Madoz a alguma escola artística, mais fácil escolher um hospício.

Veja mais imagens de Chema Madoz em seu site oficial.

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