Quando lançado, Django Livre foi considerado um filme polêmico por tocar em um ponto delicado do passado norte-americano, a escravidão. Ledo engano. Para mim, a força política do filme de Quentin Tarantino está justamente no fato de que seu roteiro questiona, na verdade, os dias atuais.
Quando, por exemplo, "imbecializa" a elite que compõe a Ku Klux Klan, impossível não nos lembrarmos das situações surreais de jovens com pouca idade e muito conservadorismo no coração, que em plena juventude têm propostas conservadoras tragicômicas como a refundação do Arena ou o protesto contra as cotas nas universidades públicas.
O filme inteiro dialoga com o presente, muitos seriam os exemplos, mas provavelmente o personagem de Samuel L Jackson seja o mais sintomático. Um escravo que faz o jogo da escravidão. Semelhante a Prudêncio, escravo presente na obra de Machado de Assis, que quando conquista a alforria vai logo comprar um escravo para si. Ou ao subalterno do mundo corporativo que apanha de quem está em cima e bate em quem está embaixo no organograma da empresa.
A situação de reprodução social é retomada em um dos melhores diálogos do filme. Com o crânio de uma caveira na mão, o escravista interpretado por Leonardo Di Caprio conta a história de Ben, um falecido escravo, antigo barbeiro da família. Ele vivia o horror da escravidão na pele e estava todo o dia com a navalha no pescoço do seu dono, então por que não cortava a sua jugular? Para explicar, ele se vale de um discurso cientificista, segundo o qual o cérebro do negro possuía o gene da subserviência. Talvez uma brincadeira com o peso que damos às “verdades científicas” e aos “esclarecidos” que se pousam como neutros, mas nada mais fazem que justificar nosso modo de vida desigual.
Assim como em Bastardos Inglórios, onde uma sobrevivente judia resolve vingar-se de Adolf Hitler, Django
Livre mostra mais uma vez a história de um indivíduo que, por motivos pessoais, vê-se obrigado a atuar contra o sistema social vigente. Sujeitos que enxergaram para além do paradigma, da bolha invisível que deixa as relações sociais nebulosas. Personagens que até então eram esmagados pela estrutura social e que resolvem fazer algo. O êxito da vingança é quase uma recompensa, impossível não se deliciar ao assistir à explosão da casa grande ou com o incêndio do cinema nazista, por mais imoral e violento que pareça.
Como disse no começo, tenho pra mim que Tarantino não fala sobre a época do nazismo ou da escravidão, mas sim dos dias de hoje, tanto que parece pouco se importar com a veracidade histórica das cenas. Ele se vinga do passado para questionar o presente. Há um século era normal que um negro não pudesse ter seu próprio cavalo ou entrar em um bar (embora muitos estabelecimentos e instituições ainda pensem como no século retrasado). E hoje, o que consideramos normal e que daqui a um século será considerado absurdo? Noutras palavras, o que de absurdo vivemos como normal? O sistema financeiro? A homofobia? A péssima distribuição de renda? Intolerância religiosa? A democracia representativa? 44 horas de trabalho?
Cada um elencará seus palpites. Mas Django Livre mostra que é preciso ir além da consciência do absurdo que se tornou normal no dia-a-dia. É preciso saber se, tendo a navalha conosco, teremos a coragem de cortar o pescoço ou apenas apertaremos a mão de nossos senhores, selando assim nossa própria inércia diante do mundo.







