VÍDEO: MURILO CAMPANHA CONTA ITATINGA

O psicanalista Murilo Campanha fala sobre Itatinga, um dos maiores bairros de prostituição da América Latina, onde ele tem seu consultório.

O nadador

Uma crônica de Hugo Ciavatta.

Ainda que as bolachas falassem

Crônica de Fábio Accardo sobre infância e imaginação

Ousemos tocar estrelas

Uma reflexão de Thiago Aoki.

Entre o amarelo e o vermelho

Uma crônica de Hugo Ciavatta

O homem cordial vinhedense

A classe média vai ao barbeiro. Uma crônica de Caio Moretto.

Mostrando postagens com marcador A.A.. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador A.A.. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Não me dê conselhos

. . Por Caio Moretto, com 5 comentários

- Oi, meu nome é Caio e estou a 12 dias sem beber.

- Pô, de novo? Você não consegue engatar um mês sem recair? Pensa na Mari pelo menos!

- Falou o senhor-bom-moço! O que você está fazendo aqui, então, mané?

Existe uma regra nos grupos Alcoólicos Anônimos que é bastante simples: ninguém comenta o problema do outro. Você vai, fala dos seus problemas e, se tudo der certo, dos seus progressos. Ouve o depoimento dos outros e pensa a respeito do que foi falado. Ninguém dá conselhos.

O conselho tem um poder perverso. Tira o foco de nós. É simples. Quando o outro fala você pode pensar no que ele está fazendo errado ou o que você está fazendo errado. E ver o problema do outro é muito mais fácil.

É engraçado isso. A gente só enxerga a nossa fraqueza no outro, quando não pode apontá-la nele.

---

olhar_para_si_(ESCHER)Li esses dias o projeto de mestrado do Hugo, Esmeralda – Por que não dancei: autobiografia como exercício etnográfico e um pensamento ficou me perseguindo, me desconcentrando e me desconcertando a cada linha:

- Se toda crítica é autobiográfica. Por que não o contrário?

---

Levei o texto do Hugo e essa pergunta para caminhar comigo por outras leituras e acabamos nos encontrando com esse texto do Luís Fernando Veríssimo sobre Fellini.

“Sendo o mais narcisista, Fellini é o mais italiano dos diretores italianos. E o mais divertido. O narcisismo italiano não implica introspecção ou exagerada auto-analise. Nem um fascínio exclusivo com o próprio umbigo. Ao contrário, é tão expansivo e abrangente que requer um espelho do tamanho da Itália.”

Um espelho do tamanho da Itália é uma autobiografia, uma crítica ou um exercício etnográfico?

---

Querido Hugo, sua companhia em meus pensamentos ligou vários pontos. Acreditei ter entendido provisoriamente tudo sobre o mundo e sobre mim.

Essa separação entre crítica e autobiografia que me tirou o sono e me encurtou as unhas é absurda. É impossível falar de si sem falar do mundo e ingênuo achar que fala do mundo sem falar de si. Mas que bobagem, não?

“Parece-me um paradoxo crucial. Para existir plenamente como indivíduos, temos de nos inscrever numa narrativa mais ampla que a nossa.” (Jonathan Nossiter, Gosto e Poder)

Claro que hoje eu acordei com mais perguntas. Mas eram outras.

Obrigado,

Caio

P.S.: Peço apenas um favor. Só por hoje, não me dê conselhos, que eu estou em construção.

---

“Isso de querer ser exatamente o que agente é, ainda vai nos levar além” (Paulo Leminski)

    • + Lidos
    • Cardápio
    • Antigos