Esses dias, sem querer querendo, caiu no meu colo uma linda crônica de Tostão - fantástico futebolista e futebólogo. Dizia ele que é mentira a máxima segundo a qual a bola procura o craque. Pelo contrário, é ele que busca e encontra o lugar certo, na hora certa. "O grande craque, além da técnica e da habilidade, antevê o lance, inventa, improvisa e surpreende. Ele sabe antes dos outros. Como ele sabe? Sabendo. Existe um saber intuitivo que antecede o raciocínio lógico. Ele sabe, mas não sabe que sabe." ("O Corpo, a Alma e o Futebol" - Folha de São Paulo, 12/02/2006)
Para escrever essas linhas, Tostão deve ter pensado nos grandes mestres da bola, como Pelé, Cruyff, Romário. Ao lê-las, no entanto, me vêm à cabeça Drummond, Van Gogh, Cartier-Bresson. Que diabos havia na na cabeça do poeta mineiro no momento em que escrevia seus poemas? Ele aliás, tem uma célebre frase sobre Pelé: "O difícil, o extraordinário, não é fazer mil gols como Pelé. É fazer um gol como Pelé". O mesmo poderíamos dizer sobre sua poesia tão inovadora, e tão já sabidamente eterna. E Van Gogh, com sua pincelada única, que força estranha possuía suas mãos guiando seu pincel de modo que nenhum outro pudesse imitá-lo? Deve ser algo semelhante ao clique da câmera fotográfica de Cartier-Bresson, cujo instante, estático na foto, movimenta-se em nossos devaneios após contemplá-la.
Todos sabiam os conhecimentos específicos de sua área de atuação: literatura, pintura, fotografia. Mas não podemos considerar apenas uma técnica apurada. Algo ali os distinguiam da média. Algo não concreto, não didático, intuitivo, impossível de se quantificar ou coisificar, que nos permite e obriga a ficarmos encantados. Um saber para além da lógica, beirando o metafísico. Nosso próprio encantamento não depende do conhecimento estrito e racional. Não é preciso conhecer o movimento na harmonia musical ou a tonalidade em que se dá a progressão das notas para se encantar com "Jesus, alegria dos homens", obra imortal de Bach ou com o violão de Baden Powell. Acho que é isso: as obras desses artistas estão tão carregadas de inspiração e intuição, esse sexto sentido que Tostão descreveu, que não há como não nos entregarmos a elas.
E o que faz de uma obra medíocre seria o contrário. Podemos acertar o emprego de todas as crases e pontuação de um texto, mas odiarmos seu conteúdo ou forma. O texto de jornal, aquele que relata friamente uma notícia, diferencia-se de uma grande obra literária porque, por mais correto ortograficamente, não contem a subjetividade que a inspiração de seu autor poderia adicionar ao nosso cotidiano. Claro que cada um inspira-se de um modo e talvez seja apenas uma ideia minha pensar que Chico Buarque é melhor que Felipe Dylon. Como também há, quem sabe, quem prefira Felipe Melo ao Garrincha. Gosto é gosto e vice-versa.
Mas o que fazemos quando, apaixonados e esperando por Garrinchas, encontramos apenas Felipes Melos? Se ao nosso redor não encontramos praticamente nenhum resquício de nossas referências, de nossas inspirações, outrora completas? Se nada fosse suficiente para preencher qualquer tipo de esperança?
Chame do que quiser: vazio da modernidade, mal estar da pós-modernidade, fim das utopias. Mas eu simplesmente não aceito o menos pior, o básico. Aquele que, com muita sorte, tem apenas o conhecimento técnico da coisa. Que longe de inventar ou surpreender, padroniza, torna estático o que seria sublime. Aquele que é pragmático, utilitário e funcional - apenas.
Prefiro simplesmente me abster, esperar, enquanto busco noutros cantos outros encantos. Não quero levar comigo o desalento forçoso de achar magia onde não há. Como pode ser tão grande a distância entre o cheiro fétido que inalamos e o perfume suave e sedutor que deveríamos sentir? Nego-me a contentar com tão pouco, com o que não inspira... Nego-me a alimentar com comida podre para saciar a gula..
Nego-me a escolher entre o sórdido e o inconcebível.
Qual a confissão? Anularei meu voto no segundo turno das eleições de 2010 para presidência do Brasil. Por enquanto...
Para escrever essas linhas, Tostão deve ter pensado nos grandes mestres da bola, como Pelé, Cruyff, Romário. Ao lê-las, no entanto, me vêm à cabeça Drummond, Van Gogh, Cartier-Bresson. Que diabos havia na na cabeça do poeta mineiro no momento em que escrevia seus poemas? Ele aliás, tem uma célebre frase sobre Pelé: "O difícil, o extraordinário, não é fazer mil gols como Pelé. É fazer um gol como Pelé". O mesmo poderíamos dizer sobre sua poesia tão inovadora, e tão já sabidamente eterna. E Van Gogh, com sua pincelada única, que força estranha possuía suas mãos guiando seu pincel de modo que nenhum outro pudesse imitá-lo? Deve ser algo semelhante ao clique da câmera fotográfica de Cartier-Bresson, cujo instante, estático na foto, movimenta-se em nossos devaneios após contemplá-la.
Todos sabiam os conhecimentos específicos de sua área de atuação: literatura, pintura, fotografia. Mas não podemos considerar apenas uma técnica apurada. Algo ali os distinguiam da média. Algo não concreto, não didático, intuitivo, impossível de se quantificar ou coisificar, que nos permite e obriga a ficarmos encantados. Um saber para além da lógica, beirando o metafísico. Nosso próprio encantamento não depende do conhecimento estrito e racional. Não é preciso conhecer o movimento na harmonia musical ou a tonalidade em que se dá a progressão das notas para se encantar com "Jesus, alegria dos homens", obra imortal de Bach ou com o violão de Baden Powell. Acho que é isso: as obras desses artistas estão tão carregadas de inspiração e intuição, esse sexto sentido que Tostão descreveu, que não há como não nos entregarmos a elas.
E o que faz de uma obra medíocre seria o contrário. Podemos acertar o emprego de todas as crases e pontuação de um texto, mas odiarmos seu conteúdo ou forma. O texto de jornal, aquele que relata friamente uma notícia, diferencia-se de uma grande obra literária porque, por mais correto ortograficamente, não contem a subjetividade que a inspiração de seu autor poderia adicionar ao nosso cotidiano. Claro que cada um inspira-se de um modo e talvez seja apenas uma ideia minha pensar que Chico Buarque é melhor que Felipe Dylon. Como também há, quem sabe, quem prefira Felipe Melo ao Garrincha. Gosto é gosto e vice-versa.
Mas o que fazemos quando, apaixonados e esperando por Garrinchas, encontramos apenas Felipes Melos? Se ao nosso redor não encontramos praticamente nenhum resquício de nossas referências, de nossas inspirações, outrora completas? Se nada fosse suficiente para preencher qualquer tipo de esperança?
Chame do que quiser: vazio da modernidade, mal estar da pós-modernidade, fim das utopias. Mas eu simplesmente não aceito o menos pior, o básico. Aquele que, com muita sorte, tem apenas o conhecimento técnico da coisa. Que longe de inventar ou surpreender, padroniza, torna estático o que seria sublime. Aquele que é pragmático, utilitário e funcional - apenas.
Prefiro simplesmente me abster, esperar, enquanto busco noutros cantos outros encantos. Não quero levar comigo o desalento forçoso de achar magia onde não há. Como pode ser tão grande a distância entre o cheiro fétido que inalamos e o perfume suave e sedutor que deveríamos sentir? Nego-me a contentar com tão pouco, com o que não inspira... Nego-me a alimentar com comida podre para saciar a gula..
Nego-me a escolher entre o sórdido e o inconcebível.
Qual a confissão? Anularei meu voto no segundo turno das eleições de 2010 para presidência do Brasil. Por enquanto...