Nove ossos e uma grande suposição feita de gesso. É assim que Mark Twain descreve Shakespeare ao compara-lo ao brontossauro que ajudou a construir no Museu de História Natural. Ele escreve: “não tivesse acabado o gesso, poderíamos colocar o Shakespeare de Stratford e o dinossauro lado a lado e ninguém, senão um especialista, poderia dizer qual é a maior mentira”.
Não importa o quanto a gente conheça uma pessoa, é impossível apreende-la em sua totalidade. Há uma parte do outro que permanece sempre desconhecida. Há inclusive um pedaço do outro que não está nele, uma parte que só existe quando ele se relaciona. Tem gente que quer se conhecer com um aperto de mãos, batendo as anteninhas como formigas e seguindo seu caminho. Sai dessa, tamanduá.
Claro que a impossibilidade de conhecer totalmente o outro é o que dá grande parte da graça aos relacionamentos. Porém, reconhecer essa condição não é aceitar essa distância. É exatamente o contrário. Ao entender que o outro será sempre um desconhecido, a única atitude aceitável é a busca constante pela comunicação e pelo entendimento. É preciso identificar o gesso para não deixa-lo secar em preconceitos.
Eu não conheci minha avó. Já escrevi isso aqui no Mistura Indigesta. Convivi com ela por mais de 20 anos, mas não a conheci. Nunca perguntei sobre seus medos, seus sonhos ou seus segredos. Não sei o que a fazia rir, nem o que a fazia se sentir viva. Não sei como ela era com suas amigas e não sei como ela se apaixonou pelo meu avô. Simplesmente porque nunca perguntei.
Em seu livro Caderno H, Mario Quintana descreve um diálogo que teve com uma professora. Faço desta a minha provocação para que a gente comece a se conhecer.
- Que devo ler para conhecer Shakespeare?
- Shakespeare.
