VÍDEO: MURILO CAMPANHA CONTA ITATINGA

O psicanalista Murilo Campanha fala sobre Itatinga, um dos maiores bairros de prostituição da América Latina, onde ele tem seu consultório.

O nadador

Uma crônica de Hugo Ciavatta.

Ainda que as bolachas falassem

Crônica de Fábio Accardo sobre infância e imaginação

Ousemos tocar estrelas

Uma reflexão de Thiago Aoki.

Entre o amarelo e o vermelho

Uma crônica de Hugo Ciavatta

O homem cordial vinhedense

A classe média vai ao barbeiro. Uma crônica de Caio Moretto.

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segunda-feira, 19 de abril de 2010

Intelectuais e a miséria

. . Por Thiago Aoki, com 7 comentários



"A gente quis, desde o começo, dessacralizar a literatura. Não sei quem disse que a gente odeia ler e que literatura é chato. E a gente quis fazer justamente o contrário, associar ao aplauso, ao barulho à festa, a literatura. Talvez seja por isso que alguns intelectuais e a academia não perdoem a gente, porque não tão gostando de ver palavra bonita na boca de gente feia, né. E isso assusta um pouco as pessoas."

"o que me revolta muito é ir em alguns bairros bons e falar: por que que a gente não tem isso, por que que a gente não tem teatro, por que que a gente não tem livraria?"

"se você analisar, nós [da periferia] estamos vivendo a nossa tropicália, a nossa primavera de Praga. Nós estamos vivendo a nossa bossa-nova."

"hoje você olha na periferia, as pessoas estão procurando pobres, laçando pro edital. Uma coisa meio Glauber Rocha, um pobre na mão e um edital na cabeça"

"esses dias foi uma jornalista muito generosa lá, assistiu o Sarau, me chamou e disse 'Vem cá, eu vou ajudar você a melhorar isso aqui'. Aí, diante de tanta generosidade eu falei: 'Ó, se você não vier mais já começa a ajudar!'"

- - - - -

Prezado Poeta Sérgio Vaz,

Acabo de me formar na Unicamp, no curso de Ciências Sociais (sociologia). Assisti atrasado, porém atentamente à sua entrevista ao escritor Ferréz, no programa Interferência. Permita-me a reflexão de alguns pontos.

Minha experiência na Academia resumiu-se às pessoas falarem sobre os pobres, sobre os trabalhadores. A grande maioria deles sem nunca ter sido pobre, sem nunca ter trabalhado, dentre os quais me incluo, sem constrangimento... na verdade com um pouco. Mas esse constrangimento se dá porque durante os quatro (se você tiver uma graninha extende até uns cinco ou seis) anos de faculdade aprendemos a idealizar a pobreza. Chico Buarque, guru da intelectualidade artística, junto com Vinícius de Moraes já diziam "Igual a como quando eu passo no subúrbio / eu muito bem, vindo de trem de algum lugar / e aí me dá uma inveja dessa gente / que vai em frente sem nem ter com quem contar". Na Unicamp, o desafio colocado pelos alunos e pesquisadores (boa parte deles) da Sociologia, por definição aquela ciência que estuda a sociedade, é o de "como iluminar o caminho dessa gente", "como ultrapassar a ideologia capitalista que está impregnada na cabeça dos desavisados" para chegar à Revolução. Dizemo-nos contra o assistencialismo e inimigos da elite nacional, sem perceber que nossas teorias, em geral isentas de trabalhos práticos e belas no papel, não fazem mais que reproduzir a apropriação do conhecimento por nossa pequena classe. Somos uma minoria que se vangloria por ler os livros das livrarias que não chegam aos bairros de vocês, de conhecer as peças que não chegam ao palco de vocês. Precisamos disso, de sermos exclusivos, de sermos anti-democráticos, ainda que brandemos, por voiciferação, a democracia ou o socialismo. Afinal, qual a graça de discutir a Folha Mais se todos entenderem o que ali está escrito? Revoltem-se e nós teorizaremos.

Quando saímos da faculdade e vamos para a realidade, mesmo que seja para laçar pobres em editais, percebemos que vivemos, nesses anos universitários que nos fazem ser mais "capacitados" que os demais, um mundinho de mentira. De disputa de ego, teses e conceitos que, fora do mundo das ideias, em nenhum lugar pode ser encontrado. Bora mundo afora, pregar a revolução e recebermos, em contraponto, pedidos de empregos. Bora mundo afora, não entender a linguagem de nossos "objetos" de estudo. Bora mundo afora, perceber que talvez não tenha sido exatamente aquilo que Guimarães Rosa quis dizer com "pão ou pães é questão de opiniães". Nos damos conta, então, que somos privilegiados, mas não era nossa função combatê-los? Pensar que os pobres não reconhecem o quanto são explorados tem sido a melhor saída e a mais ilusória. Precisamos, nosso ego exige, pensar que vocês precisam de nós para se salvarem da barbárie da qual estamos alheios, sem perceber que somos nós os bárbaros. Todos nós, da elite intelectual das humanidades, temos um pouco da "generosa" jornalista descrita em sua entrevista com o companheiro Ferréz. É por isso que não podemos ver vocês fazerem poesia, música, artes plásticas. Palavra feia na boca de gente bonita, é o que tentamos ao manter termos prolixos e padrões de beleza.

Entre a Bossa-Nova e a Tropicália, acho que vocês estão mais para Tropicália, pois era dela a principal característica de recriar, inventar, criar uma nova linguagem, questionar o velho, o dominante. Neste sentido a contestação estética é bem maior do que a da bossa-nova, ainda que Tom Zé talvez seja o único tropicalista, mas essa é outra discussão. Porém o fato que interessa é que a estética que surge da periferia e que nós, agora à reboque, temos acesso apenas depois que vocês inventaram e difundiram na comunidade, mostra-se uma revolução jamais vista nas artes brasileiras. E não precisou o Chico Buarque dizer que o Rap era a nova MPB para nos darmos contas. Não precisou que Sérgio Buarque dissesse que somos "desterrados em nossa própria terra". Vocês cruelmente fizeram e fazem sem nós e sem nosso aval politicamente correto, sem nosso tapinha nas costas, sem nossas monções de apoio votadas em assembleia, sem nossa doação. Até na bienal vai ter pichadores! Quanta audácia! Dessacralizar a literatura? Que profano, para nós, puristas teóricos! Por isso entramos com a represália de ignorarmos o que vocês fazem, de apenas citarmos as expressões artísticas ou linguísticas que vêm da marginalidade se for para ridicularizarmos vossos costumes, vossos cabelos enrolados vossos mal-educados-ruídos que interferem na fala do poeta, bem como a linguagem suja e ritmada que utilizam, mesmo que, durante toda a faculdade, neguemo-nos a ir ao McDonalds para ir ao Bar do Garcia, ouvindo samba desconhecidos, pensando que assim estaríamos sendo revolucionários. Nossa revolução é linda, mas quando o PCC aparece, melhor nos enclausurarmos em nossas KitNet's.

Mas que porra você quer dizer com isso tudo? - você deve estar pensando.

É apenas um pedido: ilumine nossa gente. Nós, intelectuais, precisamos enxergar para além da ideologia dominante.

Atenciosamente,

(o escritor não quis se identificar com medo de possíveis retaliações como perder o orientador, a bolsa de pesquisa ou até mesmo seu garantido lugar em uma revista alternativa cult, meio intelectual, meio-de-esquerda, porém, ressalta sua linha de pesquisa, seu doutorado na França, ter conhecido o Louvre, sua extensa biblioteca particular e que fala seis línguas...opa, esqueceu-se do português...sete línguas)


sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Os (des)caminhos da Arte de Rua Paulistana

. . Por Thiago Aoki, com 2 comentários

Nego drama,
Entre o sucesso e a lama,
Dinheiro, problemas,
Inveja, luxo, fama.
(...)
Entrei pelo seu rádio,
Tomei,
Cê nem viu,
Nóis é isso ou aquilo,
O quê?,
Cê não dizia,
Seu filho quer ser preto,
Rhá,
Que ironia

Trecho de Nego Drama, Racionais MC's


O Movimento Hip Hop, iniciado no final da década de 70, nos Estados Unidos deixou frutos para o Brasil. A periferia de nosso país, antropofagicamente, apropriou-se e ressignificou cada um dos elementos do movimento (rap, grafite, break), criando algo diametricamente distinto das origens estadunidense.

A explosão do Rap nas periferias tupiniquins foi fenomenal. O grupo Racionais MC's, por exemplo, recusando-se a aparecer em qualquer canal da grande mídia (seja do rádio, jornal, ou da televisão), vendeu mais de 500.000 cópias do disco Sobrevivendo no Inferno, pelo selo independente Cosa Nostra (criado pelo próprio grupo). A primeira aparição de Mano Brown na grande mídia fora durante a premiação do Video Music Brasil (ver vídeo abaixo), e em seu discurso foi provocativo ao agradecer à mãe que “lavou muita roupa pra playboy pra eu tá aqui”, causando mal-estar nos bastidores da MTV.



O sucesso era estrondoso, e abriu porta para ampla gama de rappers, como Sabotagem, MVBill, Gog, Rapin' Hood, De Menos Crime, entre outros. Entretanto, a tensão durante a desenfrada expansão do Rap, na periferia e nos meios de comunicação, teve um ponto ápice em 2005, segundo apura reportagem da Caros Amigos intitulada “Enquanto isso, na sala de justiça”.

Segundo a reportagem, em um dos shows do Racionais MC´s, em Bauru, interior de SP, um corpo assassinado é jogado sobre o palco, e o público vibra calorosamente. Brown fica sério e pede a todos uma oração pela pessoa morta e para o show. Brown convoca, então, uma reunião secreta, em 23 de janeiro, com boa parte dos grandes rappers brasileiros. Brown, visivelmente abalado, queria discutir a forma como os manos assimilavam as letras. Deixou claro, portanto a necessidade de separar a ideia de crime e de RAP. Entretanto, apesar da necessidade dessa separação ser consensual, houve, durante a reunião, uma divisão entre dois grupos. Alguns, como MVBill, Rapin’ Hood , por exemplo, defenderam que o RAP deveria entrar de vez à grande mídia e à casa dos ricos para conseguir explicar melhor para aqueles que estão ouvindo, a mensagem que quer ser passada, bem como expandir ainda mais o Rap no país -não é à toa que Rappin´ Hood apresenta programa na TV Cultura e MV Bill lançou seu livro, pasmem, na Daslu. Já outros, como os Racionais MC´s ou Facção Central defendem a manutenção da postura antimidiática e a o foco no público da periferia. De qualquer modo, evidenciou-se que a Indústria da Música percebera o fenômeno de massa que é o Rap, e que o modo como se dará sua expansão será crucial para os rumos do movimento.

Depois da apropriação de boa parte dos rappers e grupos de rap nacional - que fez com que o ícone de vendas e aceitação da classe média Chico Buarque afirmasse que o Rap é a nova e verdadeira MPB - a bola da vez para a famigerada indústria cultural nacional é o grafite. O debate feito internamente aos grafiteiros é, de certo modo, semelhante ao tensionamento ocorrido no interior do Rap.



Hoje é quase consensual, seja na grande mídia, como nas conversas informais, a colocação do grafite como uma oposição aos "vândalos da pichação". Porém, a origem do grafite tem a ver com toda essa cultura da qual deriva também a pichação. Muitos dos grafiteiros, acreditam que longe de ser uma oposição, é apenas uma das formas de pichação. Já outros, como Otávio e Gustavo Pandolfo, exitam.

Diferentemente da origem periférica, Os Gêmeos, como são conhecidos, são formados em desenho e comunicação pela Escola Técnica Estadual Carlos da Campos, iniciando seus grafites por volta de 1987, no bairro do Cambuci, São Paulo. Em recente entrevista ao Roda Viva, os irmãos disseram que preferem ser chamados de “artista plásticos”, ao invés de grafiteiros, mas não negam a influência do Hip Hop e da crítica social em suas obras, que hoje encontram-se em países como EUA, Alemanha, Inglaterra, Cuba, Grécia, China, Chile, Argentina, Portugal - sendo sucesso de críticas e público, chegando inclusive a pintar a fachada da famosa Tate Modern, em Londres, ou um castelo escocês do século XIII, por exemplo.

Osgêmeos, como se escreve a marca que criaram, foram muito criticados pela comunidade grafiteira por participar do filme da fornecedora de materias esportivas Nike, chamado Ginga - A alma do futebol brasileiro. Neste sentido, não puderam expôr no MASP, em plena cidade natal de ambos, porque, segundo o curador e crítico Miguel Chaia, a obra de ambos é baseada "na sobrecarga mercantilista e na linguagem muito imediata".



Seja como alternativa social para comunidades ou como um modo de apropriação do espaço urbano, o grafite, também conhecido como street art, ganhou também os museus e salões dos quatro cantos do mundo e hoje tem o desafio, assim como o Rap, de não fugir de seu início cujo conteúdo crítico e contestador contrapunha-se ao movimento de modernização que impunha à periferia um lugar deplorável dentro do processo de urbanização e modernidade (na verdade, a origem do grafite remete ao Império Romano, porém popularizou-se co manifestações durante o maio de 1968, na França, no Bronx negro dos Estados Unidos e nas periferias dos países subdesenvolvidos).

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