VÍDEO: MURILO CAMPANHA CONTA ITATINGA

O psicanalista Murilo Campanha fala sobre Itatinga, um dos maiores bairros de prostituição da América Latina, onde ele tem seu consultório.

O nadador

Uma crônica de Hugo Ciavatta.

Ainda que as bolachas falassem

Crônica de Fábio Accardo sobre infância e imaginação

Ousemos tocar estrelas

Uma reflexão de Thiago Aoki.

Entre o amarelo e o vermelho

Uma crônica de Hugo Ciavatta

O homem cordial vinhedense

A classe média vai ao barbeiro. Uma crônica de Caio Moretto.

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quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Release

. . Por Unknown, com 0 comentários





Quando eu era mais novo, toda vez que chegava Release no toca-cd, no micro sistem, ou, depois, no diskman, no final de Ten, eu parava. Até no mp3, no carro, no random que fosse, entrava a vinheta da música e eu ia logo pra tecla > pulando. Tá lá no documentário do Cameron Crowe, Pearl Jam - Twenty, muita gente diz e o próprio Vedder reconhece, assim que escreve e as primeiras vezes em que interpreta a canção o transtornam. Dá pra ver nas primeiras gravações, nos primeiros shows, Release não aparece tanto, e quando aparece é um Eddie sombrio quem canta. Alguém vai dizer, mas também é um dramático que só o vocalista. É. Ainda assim, não tem muito eu-lírico, distanciamento, ou estranhamento no processo criativo, parece, tem é um grande mal resolvido, uma dor na letra. Faz pouco soube que o álbum é pensado a partir de Quadrophenia, do The Who, uma ópera rock toda esquisita. Os álbuns se parecem, é só reparar nas letras, intertextualidades, são sons diferentes, mas há sim um diálogo.

Não gosto muito do lance de “pai” nas coisas da vida. Tem aquela ideia vertical, do Uno, o Rei, que às vezes se transforma em “fundador”, “origem”, e quase sempre como símbolo de autoridade. Taí, como símbolo né, não apenas enquanto pessoa. Pode não ser pai, pode ser mãe, pode ser o irmão da mãe, pode ser só irmão, tio, tia, vizinho, amigo, namorada, companheiro, etc. “Pai” é um símbolo de autoridade. Deve ser por isso o meu contragosto: pelo que me lembro, quando meu próprio pai se investiu de autoridade em relação a mim, putz, não foi legal. Brigamos. Isso da adolescência pra cá, porque durante a infância, e a maior parte do tempo, até hoje, não vejo meu pai como uma figura de autoridade. Ele nunca me bateu, por exemplo, por mais que autoridade e violência não estejam diretamente conectadas ao físico. Às vezes a gente se esquece disso, infelizmente. Me lembro de ver meu pai uma única vez transtornado discutindo com um homem na portaria do zoológico de Ribeirão Preto, eu tinha uns cinco anos, ali ele parecia capaz de violência física. Era como se aquele não fosse meu pai, eu chorava e me levaram embora.

Meu pai é uma companhia gostosa, presente, carinhosa, atencioso. Mas num intervalo grande que está na minha memória, cujo início é aos 4-5 anos, quando começa o lance das cirurgias na orelha, há uma quebra em relação ao meu pai, uma transformação. Minhas primeiras lembranças de vida são em corredores de hospital, no HC da USP, em Ribeirão Preto, no HC da UNICAMP, e em uma clínica em São Paulo. A primeira cirurgia só foi acontecer aos 8 anos, em Campinas, e foram até os 12-13 anos. Meu pai muda radicalmente aí no meio. Depois de uma das cirurgias, eu não me recuperei, tive uma infecção, meu corpo rejeitou a cartilagem de uma das costelas que havia ido pra orelha. Foram três intervenções em vinte dias e um infeliz acaso, um mau encontro.

Meu pai e duas de suas irmãs desde então não se falam. Difícil lembrar onde eu estava semana passada, do que disse e se ainda concordo com meu próprio seminário sobre um livro dias atrás: quase vinte anos depois não me parece possível que alguém saiba o que aconteceu, quem disse o que pra quem, quem fez o quê, quem primeiro disse o que disse e porquê. Meu pai acreditou que estivesse perdendo o primogênito que durante onze anos esperou ter – em sua concepção ideal de família –, e assistiu à emergência de seus rancores, coisas mal resolvidas, conflitos, falas, decisões, relacionamentos afetivos, tudo isso ao longo dos então quase cinquenta anos de sua vida. A partir daí, oscilava, às vezes retirava-se das relações que tinha estabelecido até aquele momento, retirava-se do passado à luz do presente. Observador privilegiado de sua vida, como todos nós, contando-a então insistentemente, vestiu a coroa do Monarca, transformou seu passado num reino sob seu domínio. Sobre coisas ruins, tristes, era como se ele não tivesse feito escolhas, como se ele mesmo não tivesse agência em cada uma das relações que viveu: os outros, a corte era responsável, era como se ele apenas tivesse assistido, incrédulo. Às vezes, por outro lado, para coisas boas, raras, mas felizes, era como se somente ele tivesse feito, era ele, como bom Provedor, quem tomou as decisões. Principalmente, meu pai ao mesmo tempo vestiu a toga do Magistrado, transformou decisões erradas em julgamentos morais intransponíveis, bateu o martelo repetidas vezes, personalizou erros em pessoas, cristalizou todos, sentenciou-os, e também transferiu tudo isso a algumas outras pessoas próximas. E, sim, de alguma forma, ainda me sinto culpado por tudo isso.

Acho que foi aí que conheci o que era autoridade, e não exatamente a do meu pai. Naquele homem aparecia uma autoridade sombria, amarga, lateral, eventual ao longo das semanas, repetitiva em sua aparição, previsível em seu acontecimento. Daquele momento em diante, se hoje aparece faísca disso, sou capaz de apostar a relação que ele estabelecerá, a lembrança seguinte que contará. De certa forma, então, não consigo cantar Oh, Dear Dad, Release Me, porque ali ficou claro que autoridade, em casa, sobretudo, era minha mãe. Além disso, naqueles anos, eu também tive que forjar alguma autoridade em relação a tudo isso. Mesmo antes, meu pai nunca foi alguém que falasse com autoridade, é uma piada nossa até hoje: tudo que ele precisa, quando necessita investir-se de autoridade, seja pra dar bronca nos filhos, seja pra contar alguma coisa da qual ele vai se gabar, é batata, meu pai chama minha mãe. É hilário. Quem se dá bem com isso, tinha que ser, claro, é minha irmã, ela samba na cara do bobo do meu pai. Mas, ali, naqueles anos dessa confusão, também aprendi com minha mãe o que é segurar a onda: ela, muito mais do que eu.

Só tem uma onda que minha mãe não segura até hoje. Já conversamos algumas vezes, mas ela dá de ombros. É comigo. Quando eu nasci, veio uma concha no lugar da orelha esquerda, e o que no ultra som era a mão no rosto, no parto, percebeu-se que eu protegia o lado esquerdo. Eu chorava, a boca virava: má formação crânio-facial. Exames após exames, consultas após consultas, e o interrogatório era sobre minha mãe: que medicamentos a senhora tomou?; a senhora usa alguma tipo de droga?; a senhora tem alguma doença sexual? Não importa se criança, jovem ou idoso, quem parar ao meu lado distraído reparando que uma orelha não é como a outra, ah, se minha mãe estiver por perto esse alguém vai ouvir, “algum problema, que que foi, nunca viu?!”. O que pro meu pai é senso de proteção, em relação aos filhos, pra minha mãe se confunde com belicismo.

Já interrompi minha mãe algumas vezes nessas situações em que sou observado por curiosidade, já conversei em outros momentos sobre isso, porém, não resolveu. Entendi que é ela o eu-lírico de Blood. Minha mãe está dizendo, faz quase trinta anos, Spin me round, roll me over, fuckin' circus, Stab it down, one way needle, pulled so slowly, Drains and spills, soaks the pages, fills their sponges, It's my blood. "It's my blood", minha mãe repete. Não é exatamente como se ela se sentisse culpada, porque os versos em que Vedder ironiza, paint Ed big, turn Ed into, one of my enemies, pra mim, são minha mãe dizendo, paint Hugo big, turn Hugo into, one of my enemies.

Algumas pessoas já chamaram atenção pro fato de eu falar bastante sobre meu pai. Às vezes eu sorrio. Meu pai gosta de dizer que eu sou um velho rabugento, chato e reclamão feito um dos avôs de minha mãe. É que meu pai ainda não conviveu com o Adriano. Mas quando o assunto é definição de pessoa pelas linhagens familiares, é ponto passivo que tenho a ironia, a pentelhação, a sem noçãozice, o espírito circense e quase irresponsável, enfim, o humor de minha mãe. De algum modo, então, não só quando estou aqui falando do meu pai, no entanto, quase sempre por aí afora, as hastes que sustentam as lentes dos meus óculos são minha mãe. Como da infância até a adolescência eu passei por algumas cirurgias, às vezes três num ano, entre uma recuperação e outra cirurgia o tempo era curto. Fiquei muito tempo em casa, com minha mãe, com minha irmã, com minha tia também, com minha avó. Muito antes de ver um filme do Almodóvar eu já tinha conhecido um pouco desse universo. Ainda hoje, não me sinto exatamente bem em ambientes considerados masculinos.

Foi só com minha mãe também que aprendi o que é alguma autonomia. Ela nunca comprou a encrenca do meu pai com o passado dele. Não tomou a relação de meu pai com as irmãs dele pela relação dela mesma com as cunhadas. Foi aos casamentos dos sobrinhos, nesses anos todos, convidada, foi aos aniversários da sogra: meu pai, não. Se meu pai entrava em monólogo sobre seu passado e pedia interlocução, reconhecimento, ela negava, e negava que nós, minha irmã e eu, assumíssemos as relações e associações que ele estabelecia. Quem os vê por aí, sempre de mãos dadas, feito os velhinhos de Up – Altas Aventuras, ou mesmo o casal de Amor, o filme de Haneke, quem assiste a minha mãe contando piada, meu pai não entendendo mas rindo, ou meu pai contando uma história longa e cheia de detalhes que só minha mãe presta atenção, não, quem os vê não se dá conta de que há desentendimentos e diferenças que fortalecem alianças.

Já saindo do período das cirurgias, quando meu pai me ensinou a jogar tênis, um pouco pra que ele também voltasse a jogar, me lembro de como ambos, minha mãe e meu pai, encaravam uma partida de maneiras diferentes. Comigo, meu pai não competia, ele não levantava a bola, ou simplesmente a passava pro outro lado da quadra. Não era assim. Se ele batia firme, era pra que o jogo continuasse. Meu pai dava ritmo, gostava de um jogo de trocas de bola. Minha mãe, tsc, não. Hoje, me lembrando disso, e com algum exagero, evidentemente, era como se estivesse Serena Williams do outro lado da rede distribuindo pancadas enquanto habitava o centro da quadra. A cada estalido da bola na raquete de minha mãe, agora, era como se ela estivesse dizendo Still I Rise. Tantos anos depois, já está mais claro, talvez a única coisa que herdei foi mesmo o humor, careço dessa força.

Ao mesmo tempo, quando o assunto é “a cara de quem”, é meio óbvio que puxei minha mãe. Outro dia, porém, eu olhava meu pai sentado, grisalho, assistindo à TV na casa deles e, mais de trinta anos mais velho, eu me vi fisicamente naquele homem. Ele foi falar alguma coisa, foi se auto-elogiar, minha mãe logo cortou sarcasticamente, tei, pah, todos rimos. Tendo saído dali cerca de 12 anos atrás, morado em cidades diferentes e com dezenas de pessoas, poucas vezes encontro, como naquele momento, a sensação de me sentir em casa.

Meu pai, naquelas semanas, naqueles meses, anos atrás, e mesmo ao longo desses muitos anos, às vezes, me parece Tadeo Isidoro. Aquele que, por longa e complicada que seja uma jornada, pode compreender, pode descobrir, de uma vez por todas, quem é, pode saber a realidade de si próprio, sua natureza, pode conhecer seu destino e o de outras pessoas a partir de momentos únicos, através apenas de alguns instantes. Minha mãe, não, ao longo desses anos parece dizer que seu reflexo côncavo no vidro da lanchonete talvez seja dela uma imagem mais fiel que a lembrança que lhe guardam colegas do colégio, mais exata que a imagem que ela mesma figura de si própria (rf. O Brinco, Ana Martins Marques). E falando assim parece fácil: quero ver ser filho deles, né Helena.

Se uma dor, porque Vedder ainda aparece grave cantando Release, meio blue, desde o lançamento do álbum Ten, em 1991, até os anos 2010 ... vinte e cinco anos depois, quando vi essa apresentação de agosto de 2016 bateu certo alívio, algum otimismo. Logo no início, I see the birds in the rain – ê breguice –, Eddie aparece sorrindo. Lá no meio de um ôôÔôôôÔ novamente, sorrindo. Termina a canção e ele segue sorrindo. É só mais uma canção, que dia bonito, como tem gente, que legal, é o que ele parece dizer. Há, naquele senhor grisalho, sentado, assistindo à TV, ainda aquele homem carinhoso desde minha infância, há também um ar desanuviado, leve, quase adolescente, que eu mesmo não sei se reconheço: talvez tenha desaparecido aquele sombrio e rancoroso – oh, dear dad, feliz aniversário.









terça-feira, 10 de novembro de 2015

Novembro

. . Por Unknown, com 0 comentários





Passei os últimos dias aflito com o telefone, qualquer tilintar pela casa eu já corria os olhos atrás do meu celular. A campainha do vizinho tocava e eu me via ao lado da televisão, onde também está o telefone fixo, acreditando receber uma ligação. Deixei de ignorar as três vezes semanais, ou quase que diárias, em que a operadora de telefonia me liga para oferecer um plano super especial de bônus, mensal, semestral, anual, intersecção com internet, SMS - sim, ainda existe -, conta bancária e crédito pessoal - não entendo como é possível -, mais chamadas de larga distância gratuitas e canais de esporte underground. Atendi todas as ligações crente de que era algo importante, imprescindível, sem ter um motivo, sem ao menos ter uma razão. Tudo o que tinha era apenas um sentimento, um impulso, um reflexo. Mas descobri o porquê hoje pela manhã, estou aliviado. Estamos próximos do fim do ano, em breve vem o Natal: tenho esperado Papai Noel me ligar.

Véinho meu pai é uma pessoa que gosta muito das pessoas, mesmo que não saia por aí demonstrando afeto, sorrindo, cumprimentando e fazendo coraçãozinho com a mão. Ainda que a vida distancie as pessoas, é notável como meu pai gosta de algumas dessas pessoas pela forma com que se interessa por elas, querendo saber delas. É velho fofoqueiro. Pra sacar isso vai um tempo, talvez anos, ele jamais vai admitir, e começo a achar que seja uma virtude - se é que existe isso -, a de não deixar que todos saibam o que quer que seja sobre você. Sendo bem objetivo, ele ultimamente andou perguntando do Rafael, seu sobrinho e meu vizinho. Eles não se veem faz anos. Outra coisa que véinho meu pai lembra bastante é que, uma vez, ficou bravo com Ricardo, também seu sobrinho, mas isso me envolve, e envolve, inclusive, Papai Noel. Ah, como eu gosto do Ricardinho e da Gi, ele diz, puxando o saco, mas aquela vez - meu pai é um escorpiano típico, quando ele diz aquela vez, hmmm, tremei-vos -, aquela vez eu fiquei muito bravo com o Ricardinho.

Não sei quantos anos eu tinha, eu não me lembro, provavelmente eu era muito pequeno, véinho meu pai diz que fez Ricardo me desdizer que Papai Noel não existia. Como qualquer criança que se preze, enquanto se aproximava o Natal, eu não estava nem um pouco preocupado com o nascimento do comunistinha do Jesus de Nazaré. Aniversariante de dezembro, seguramente eu calculava em voz alta o que pediria ao Papai Noel e o que deixaria a cargo dos meus pais no início da constelação de sagitário. Ricardo, alguns anos mais velho, deve ter sacado e, por esporte, mandou logo o clássico, "Papai Noel não existe, prestenção". Inquirido, meu pai, em vez de responder à materialidade das coisas, quis as fontes: sobrou pro Ricardo a bronca.

Como eu não me lembro dessa história, também não me recordo o que ganhei naquele Natal. De todo modo, presentes que me marcaram foram dois. De criança, um autorama enorme, desses que não cabe na sala, não cabe no quarto, que dá trabalho enorme pra montar e faz a gente passar dias com os olhos presos ao chão seguindo aqueles carrinhos velozes. Já adolescente, foi uma bicicleta, que me acompanhou durante mais de dez anos, desaparecendo roubada já no fim da faculdade. O autorama eu tenho até hoje, precisando ser montado dia desses pra desenferrujar. A bicicleta, arma ideológica dos comunistinhas de São Paulo, me faz muita falta. E não, não foi Papai Noel quem me deu esses presentes, eu já sabia naqueles anos, mas ainda não podia afirmar em casa. Papai Noel ligava todos anos em novembro pra saber como estávamos minha irmã e eu. Aval eu não tinha pra desacreditar aquela voz rouca e engraçadinha do outro lado da linha enquanto Helena era criança devota de Papai Noel, mesmo que a adolescência já tivesse me feito pedante. Lá estávamos em novembro, o telefone tocava, meu pai atendia, nos chamava e dizia, cheio de cuidados, é o Papai Noel, ele quer conversar com vocês. Só sendo muito sacana pra levar uma história dessa tantos anos e assistir aos filhos ali, delirando no telefone, sem dar bandeira, em silêncio, ao seu lado no sofá.

Levei muito tempo pra entender uma coisa besta, meu pai curtiu muito a infância e a adolescência minha e da minha irmã. Sessões de teatro, sessões de circo, uma atrás da outra, sessões de teatro, sessões de circo. Vamos andar de bicicleta, vamos nadar. Sessões de teatro, sessões de circo. E, evidentemente, telefonemas do Papai Noel. Se deixar, não duvido que véinho meu pai vá até hoje no fim da madrugada buscar a caçulinha numa festa do outro lado da cidade. Ainda volta falante, contando uma história qualquer de gafieira nos anos 1960. Vai ver que o registro em cartório que deram ao véinho meu pai, de seu nascimento, somente no dia 20 de novembro, explique o seu proceder de leitor de jornais velhos, já que nasceu no dia 10. Até pra completar anos ele leva uns dias pra ser reconhecido oficialmente. Leva tão a sério a coisa de viver demoradamente, quase que duas vezes as coisas todas da vida, que viveu até mesmo a vida dos filhos.

Feliz aniversário, pai, seu mimado, chorão. Obrigado, claro, pelo autorama e pela bicicleta, mas também por ter me feito atormentado pelos telefonemas do Papai Noel. Te amo, do seu filho, piolhento.


sábado, 23 de novembro de 2013

Ainda que as bolachas falassem

. . Por Fábio Accardo, com 0 comentários

Ontem Joaquim me disse:

"As bolachas não falam!"

Eu não estava convencido. Indaguei a ele o porquê. Como se fosse claro me respondeu, de pronto:

"Porque ela não tem boca!"

Ainda em dúvida perguntei a ele se tudo que tem boca fala. Contratacou-me dizendo que os passarinhos também não falam. Não deixei nem mais um minuto para a resposta e disse que os passarinhos falavam, mas em outra língua (até me arrisquei fazendo alguns assobios tentando imitar uma conversa de passarinho). Os olhos de Joaquim se perderam. Por alguns instantes. Depois continuamos a brincar. Papo encerrado. Dentro em pouco chegou sua mãe para levar Joaquim embora - viagem longa para casa durante uma tarde ensolarada e quente. Ao se despedir a única coisa que me disse fora:

"mas as bolachas não tem boca!"

De certa maneira uma nova brecha de sonhos e imaginações se abriu ali. Ainda hemos que fazer a bolacha falar. Uma coisa temos em comum acordo - os passáros falam!

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Quebrando Paredes: Medianeras

. . Por Thiago Aoki, com 1 commentário

Ao que tudo indica, o filme argentino "Medianeras", infelizmente, será pouco visto por aqui. Acabou perdendo espaço para superproduções (como Planeta dos Macacos e Árvore da Vida) e para filmes de diretores consagrados (como Melancholia e Super-8). Pode ser que, posteriormente, aconteça como seu fantástico compatriota “O Segredo dos seus olhos”, que acabou voltando à cena após a indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Mas semana passada, na seção de cinema do shopping, não somavam 10 espectadores, contando comigo e Rita, mi novia...

É uma pena, pois Medianeras é um daqueles filmes inclassificáveis, que consegue tocar em questões existenciais e sociais, sem certa “chatisse” que tal missão possa indicar. Neste sentido, leve sem ser superficial, lembra um pouco de “Pequena Miss Sunshine” ou, para pegar um exemplo mais recente, de "Juno", por mesclar o humor às situações trágicas do dia-a-dia.

Se em "Pequena Miss Sunshine" temos uma garotinha de família problemática que ingenuamente desafia os padrões da sociedade do espetáculo e em "Juno" a gravidez precoce de uma confusa adolescente, aqui, em "Medianeras", os desencontros de dois jovens fazem fundo a uma sagaz crônica da vida em uma metrópole.

O filme narra, paralelamente, as vidas de Martin (Javier Drolas), um webdesigner afetado por diversos transtornos de comportamento, e de Mariana (Pilar López), uma arquiteta frustrada e claustrofóbica que acaba de sair de um traumático relacionamento. Os dois são vizinhos que nunca se perceberam, jovens típicos da geração Y, com histórias semelhantes, imersos na solidão e que, mesmo sem saber, estão sempre em situações de quase encontro um com o outro. Com este jogo, o sagaz diretor Gustavo Taretto nos incita, espectadores, a torcer pelo encontro de ambos sem nos darmos conta de que também somos vítimas de nossas próprias solidões e prisões. O isolamento, neste caso, aparece como uma tentadora proposta do mundo urbano, cenário do qual somos parte. É comum que, durante o filme, associemos a Buenos Aires narrada com Campinas ou São Paulo.

Em determinados momentos do roteiro, Martin e Mariana fazem o papel de narradores-personagens, recitando textos pertinentes, em forma e conteúdo, e que, em diálogo com belas imagens da arquitetura urbana, compõem poéticas crônicas para o século XXI. Já com a característica de mistura de diferentes linguagens: o texto, fotografia, quadrinhos, áudio e visual.

Nas entrelinhas do roteiro, o questionamento e estranhamento de detalhes banais do cotidiano da cidade e que parecem já internalizados em nosso cinza espírito: os fios que enfeiam o céu, os prédios que escondem o Sol, a falsa promessa da “conexão” entre as pessoas, a publicidade nas medianeiras, o fracasso da caixa de e-mail vazia. É a angústia de uma classe média que, embora média, sente-se traída pelo esgotamento das promessas de uma vida urbana plena, revivendo, em outros moldes, o desencanto romântico pré-moderno do final do século XIX. A história se repete, tragédia e farsa.

Do cinema, saímos com a sensação curiosa de refletirmos sobre as trajetórias que poderiam ter sido e que não foram, sentindo, com certa graça e resignação, a impossibilidade de controle sobre o destino. No restaurante do shopping, no lanche-de-namorados-pós-seção-das-19h, olhávamos atentos para as pessoas sentadas às mesas e, assim como é comum fazermos no metrô, brincamos de descobrir que narrativa cada um traz consigo: para onde vão, de onde vieram, em qual estação saltarão. Ou, mais além, quantos encontros perdidos pelo caminho, quantos amores evitados pelo acaso. Impossível saber. Em alguns momentos, Mariana compara a vida na cidade ao livro “Onde Está Wally”, como se, sem rumo, esperássemos pelo encontro de algo que não sabemos o quê. O mundo, uma somatória de narrativas paralelas dispersas. Quando lemos os versos de Vinicius de Moraes, “a vida é a arte do encontro/ embora haja tanto desencontro pela vida”, pensamos em sua vida boêmia de amores deixados pra trás, mas Taretto vai além e faz da frase o mote da vida nos grandes centros. Para se ter relações humanas orgânicas entre os arranha-céus da urbe, é preciso desafiar a artificialidade do avatar de cada um, ultrapassar o limite imposto pelo espetáculo que faz da relação entre os homens uma relação mediatizada por imagens. Para lidar com a sombra dos prédios é preciso derrubar paredes, construir novas janelas, preparar o jardim, deixar o Sol entrar para que o acaso pouse e, enfim, o encontro possa acontecer.

terça-feira, 12 de julho de 2011

O Meta-Intelectual

. . Por Thiago Aoki, com 17 comentários

Livremente inspirado, mas sem tanta grandeza, na brilhante crônica “Meio Intelectual, Meio de Esquerda”, de Antonio Prata, um dos preferidos pelos responsáveis deste irresponsável blog.

O meta-intelectual trocou o bar meio ruim por um refinado e exótico restaurante com comida tailandesa, árabe ou de algum local longe daqui, onde, no menu ou na ambientação de alguma conceituada artista plástica, pode-se conhecer todos os detalhes daquela deliciosa culinária e cultura. Mas claro que ele dá uma passadinha no Wikipédia antes da experiência gastronômica para voiciferar algumas informações que – ele torce – ninguém da mesa saberia antes daquele encontro.

Não tem mais como exemplo Betão, garçom oprimido que hoje está desempregado, mas o culto “consultor de mesa”, preparado para lidar com o meta-intelectual – sim, o mercado está difícil. Este neogarçom aproveita deixas para sugestões pertinentes e encanta ao falar em um estrangeiro perfeito o nome da comida, contando um pouco de como surgiu aquele prato através de uma imaginativa lenda daquela cultura.

O meta-intelectual assim se chama pois adora ser intelectual. E deste modo começa o bate-papo quando conta sobre um dia em que passou suas férias numa tribo... quer dizer, numa comunidade - tribo é um termo preconceituoso e o meta-intelectual adora se prender a termos - indígena e quanto aprendeu com aquele povoado, com aquela cultura diferente, com outros valores e práticas sociais. Afinal, o meta-intelectual respeita muito a diversidade! Claro, não suporta pessoas fúteis que usam roupas padronizadas e escutam sertanejo no posto de gasolina enquanto bebem uma cerveja qualquer. Mas adora discutir detalhes da Arte Naifi, tão popular e enraizada; ou do Mestre Molina, um homem do povo com tanta qualidade estética em sua obra; ou mesmo declamar versos decorados do Patativa do Assaré, poeta do sertão, enquanto toma uma cerveja alemã artesanal de trigo. Ah, esqueci-me de dizer, é preciso entender o processo de formação de uma cerveja ou de qualquer bebida alcoólica para se tomá-la. E ai de quem diz que, depois da segunda garrafa, Baden Baden é mesma coisa que Itaipava. Isto é inconcebível para nosso personagem, afinal, o meta-intelectual não bebe, mas sim degusta, faz parte da experiência gastronômica.

Durante o papo, percebe-se também que o meta-intelectual tem um leve gozo no olhar quando solta propositadamente expressões como: “faço ioga”, “sou vegetariano”, “sou sincretista”. Não, você não perguntou pra ele, mas ele sempre dá uma contornada no assunto para chegar nestas expressões. Você diz “Nossa, estou com dor nas costas” e ele responde “pois é, lá na ioga, que faço às quartas-feiras...”. Você diz “Estou morrendo de fome” e ele responde “Eu também, espero que tenha opções vegetarianas aqui, pois eu sou vegetariano”. Você diz “Meu Deus do Céu” e ele responde “Falando em Deus, sou sincretista, acho que Deus se manifesta de diferentes maneiras. Adoro o caminho do meio e os rituais do candomblé e da cultura afro (claro, menos o pagode). Aliás quando visitei os quilombolas...” O ateísmo está caindo de moda entre os meta-intelectuais, sincretismo é mais, digamos, contemporâneo.

O meta intelectual odeia que um médico seja chamado de “doutor” sem nunca ter feito um doutorado, mas adora se intitular como “curador”, mesmo que seja de uma sessão de filmes - Lado B, é claro - para os amigos meta-intelectuais. É um bom programa para o pós-janta e quando você menos espera ele tece o seguinte comentário: “a fotografia desse filme é maravilhosa”. Esta é uma típica frase meta-intelectual. “Adoro o cinema iraniano” é outra.

Para o meta-intelectual, o sexo não pode ser tabu e é um bom programa pós janta, mas com algumas regras. Beijar alguém do mesmo sexo é libertação, mas ir a um baile funk de mini-saia é opressão masculina. A não ser que essa condição esteja pautada em preceitos feministas da década de 60, onde transar com várias pessoas era libertador. Do modo contrário é ceder a um padrão machista de comportamento. Também vale a “nudez artística” ou o “kama-sutra”, que são expressões muito positivas para o meta-intelectual.

O meta-intelectual não é meio-de-esquerda. A revolução para ele não é um propósito coletivo e a política está um pouco démodé, embora se considere sempre politizado e bem informado. A revolução é interior. Mas calma, isso não é auto-ajuda, o meta-intelectual tem repulsa à auto-ajuda e ao senso comum. A revolução é individual e se dá através das artes contemporâneas, ou de autores que quando se lê logo se pensa: agora sou diferente da maioria, li este autor. Trocou Marx Por Nietzsche. Trocou Cuba pela França. Trocou consciência de classe por diversidade cultural. Trocou igualdade por liberdade. Trocou comunismo por niilismo.

Certo dia, quando perguntado se era comunista, Lula respondeu: “Não, sou trabalhador”. Se a mesma pergunta fosse feita, o meta-intelectual, no almoço do dia seguinte, ouvindo um bom jazz da saudosa New Orleans do início do século XX, acabaria de degustar sua salada vegetariana tailandesa, tomaria um gole do vinho francês e diria: “Não, sou culto”.

- “Gerard, o que você sugere para a sobremesa?”

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Quem tem medo do Wikileaks?

. . Por Thiago Aoki, com 1 commentário

Julian Assange, australiano fundador do Wikileaks, é a bola da vez e ninguém consegue defini-lo.

Na grande mídia, revistas e jornais se contorcem ao tentar julgá-lo. Ora santo, por gerar furos que todos gostariam de ter dentro do que se entende por jornalismo; ora demônio porque, no fundo, a contestação e liberdade de expressão de Assange vai em sentido contrário ao conservadorismo político dos donos dos jornais.

A esquerda, que não encontrou em nenhum grande autor termo para alcunhá-lo, acaba por incorporar parte das ideias de Assange, ainda tímida e forçando esdrúxulas ligações com Marx, Trotsky, com o movimento comunista transnacional, ou que quer que seja. A direita está dividida. Enquanto alguns deleitam-se por gafes da política externa brasileira e latinoamericana serem trazidas a público, parte dela se revolta com a irresponsabilidade moral do jovem.

O incômodo é tanto que parte dos republicanos estadunidense não aceitam tamanha humilhação e defende a condenação à morte para o "ciberterrorista", "ciberativista", ou simplesmente vagabundo. Até a Interpol já criou fatos e manteve preso o rapaz sob a acusação de (pasmem!) transar sem camisinha. Seguindo a lógica, deveria então indiciar boa parte dos cânones da igeja católica. Aliás, não duvido que, se o Wikileaks anunciasse ter documentos do Vaticano, até o Papa viria a público condená-lo por não usar preservativos.



Assange, com as decorrentes contradições dos discursos dos mais distintos atores sociais diante dos furos do Wikileaks, conseguiu, mais que Nelson Rodrigues, mostrar que, no topo da pirâmide de poder do mundo, todos os faraós têm teto de vidro. O jovem não é um louco ingênuo. Prova disso foi a inteligência que teve em revelar documentos de Dilma após as eleições. Assange, que já possuía os documentos, poderia ter caído na tentação da fama e ser protagonista em uma virada histórica de José Serra, mas teve sabedoria política para não o fazer. Outro exemplo de noção política é o de sempre, em seus discursos, esquivar-se do personalismo e colocar o Wikileaks como uma organização maior que ele, com mais pessoas que lutam pelo ideal de um mundo verdadeiramente livre. Força esta demonstrada por Hackers que se unem em ações pró-wikileaks.

Um impulso corre os dedos que teclam essas letras para nominá-lo como fundador de um novo movimento, independente, organizado e de cunho anárquico. Não o farei. Apenas posso afirmar que sua imponência é uma lição a todos os que se consideram portadores de ideais revolucionários, e deixam de lado o novo, colocando tudo o que surge como modismo e alienação. Assange domina e subverte a onda de tecnologias, redes sociais e indústria cultural com um ambicioso projeto, de difícil contenção.

Que o poder, seu e dos demais, não sucumba estes que esculacham os poderosos..




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Em tempo:

1) Com os diversos ataques hacker aos quais a wikileaks.org vem sofrendo, quem organiza e distribui as notícias do site referentes ao Brasil para a mídia brasileira é Natália Viana, jornalista independente. Ótimas mãos.

2) Veja a resposta, mais uma vez lúcida, de Assange ao pronunciamento de Lula.

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