VÍDEO: MURILO CAMPANHA CONTA ITATINGA

O psicanalista Murilo Campanha fala sobre Itatinga, um dos maiores bairros de prostituição da América Latina, onde ele tem seu consultório.

O nadador

Uma crônica de Hugo Ciavatta.

Ainda que as bolachas falassem

Crônica de Fábio Accardo sobre infância e imaginação

Ousemos tocar estrelas

Uma reflexão de Thiago Aoki.

Entre o amarelo e o vermelho

Uma crônica de Hugo Ciavatta

O homem cordial vinhedense

A classe média vai ao barbeiro. Uma crônica de Caio Moretto.

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domingo, 15 de janeiro de 2012

A cidade dos (quase) invisíveis

. . Por Unknown, com 2 comentários

“O mundo era tão recente que

muitas coisas careciam de nome

e para mencioná-las se precisava

apontar com o dedo”

(Gabriel García Márquez)



Segundo dados do Programa de Assentamentos Humanos das Nações Unidas, publicado em 2003, o século XXI ruma para a generalização das favelas no mundo urbano. The Challenge of Slums [O desafio das favelas] diz ainda que a pobreza urbana se tornaria “o problema mais importante e politicamente explosivo do século”.

Na cidade de São Paulo, em 1973, 1,2% da população do município vivia em favelas. Já em 1993, esse número havia subido para 19,8%, e na mesma década o crescimento dessa população era estimado em 16,4% ao ano.


A história de Los Angeles mostra a ligação entre arquitetura, urbanismo e a conformação do Estado no país, nos anos de Ronald Reagan e George Bush. O exemplo do investimento estatal em segurança e o consequente esvaziamento e destruição dos espaços públicos aparece no termo “pessoa de rua”: “Para reduzir o contato com os intocáveis, a reincorporação urbana converteu ruas de pedestres, antes vitais, em canais de tráfego e transformou parques públicos em receptáculos temporários para os sem-teto e miseráveis” (escreveu Mike Davis). A cidade também promoveu a “contenção” – termo oficial – dos sem-teto num submundo ao longo da rua 50 a leste da Broadway, transformando sistematicamente o bairro numa favela a céu aberto. A região tornou-se possivelmente uma das mais perigosas do mundo, habitada por “maníacos de canivete” e “perseguidores noturnos”: emergia o consumo de crack, nos anos 80, elevando a taxa de homicídio na cidade.

O exemplo da cidade de Los Angeles é ainda mais emblemático. O aumento vertiginoso das favelas periféricas na cidade de São Paulo se deu no início da década de 80, portanto, na mesma época. Antes disso, no centro da cidade paulista, de antigos casarões de famílias ricas originaram-se cortiços onde pessoas mais pobres viviam em quartos alugados. Entretanto, já no final dos anos 80, a capital paulista assistia ao surgimento, tal como na Califórnia, da “era do crack”. Isso só não aconteceu como na cidade estadunidense: não foram nas periferias pobres que os usuários de crack se instalaram, ou foram confinados. Foi o mesmo centro da cidade brasileira quem viu a formação da região que até os dias de hoje é conhecida como “Cracolândia”, onde circulam pessoas de muitas regiões, de muitas classes sociais. Mas 77% dos frequentadores da cracolândia moram nas ruas e 20% estão nesta situação há mais de dez anos e, talvez, a maior parte desta população seja composta por usuários de droga, como a cola e o crack.

Em entrevista para uma revista de São Francisco, na década de 80, Harry Edwards afirmava a transformação pela qual L.A. passou, social e politicamente. Edwards, que fora organizador de protestos do Poder Negro durante os jogos olímpicos de 1968, que também havia sido ministro da propaganda do Partido dos Pantera Negras, era então professor de Sociologia da Universidade da Califórnia, quando, enfim, duvidava de outra atitude que não fosse a remoção daquela juventude, de meninos e meninas das ruas da cidade. À pergunta sobre como “recuperar” um menino que vende crack nas ruas, ele diz não existir possibilidade. Evidentemente, Edwards não era um terapeuta, ou mesmo um assistente social, para responder a questão, no entanto, não deixa de ser significativa a afirmação que questiona a própria condição de humanidade de usuários de crack, também “pessoas de rua” muitas vezes, ainda que nem sempre. De qualquer maneira, como “recuperar”, ou "reinserir" socialmente essas pessoas?

Meninos e meninas também em situação de rua em São Paulo, muitas vezes, circulam em locais diversificados, por instituições prisionais e de assistência social, entre idas e vindas de sua residência de origem e para a rua novamente. Adquirir, manipular, articular recursos de sobrevivência, como praticar pequenos furtos, é uma forma de se comunicar e se posicionar frente à cidade e aos personagens desta, como a Polícia Militar, órgãos governamentais, fundações de assistência e demais cidadãos (como escreveu Maria Filomena Gregori). Assim tem vivido homens, mulheres, jovens e crianças que, às vezes, também são usuários de crack. Ao circular constante e diariamente, ainda, eles não estabelecem relações permanentes, tampouco se fixam em algum sítio durante muito tempo. Falamos de uma forma de estabelecer relação com as pessoas muito diferente da qual nós estamos habituados.

Desde o início deste mês, contudo, os governos municipal e estadual, em ação conjunta mal planejada - conforme o Ministério Público Paulista -, e executada precipitadamente pela Polícia Militar, colocam em prática a "Ação Integrada Centro Legal", especificamente na "Cracolândia". Pelas declarações públicas, o primeiro intuito da Ação é "dispersar" usuários e combater o tráfico. Depois desta primeira fase da operação concluída, entrariam agentes de saúde, assistentes sociais e agentes comunitários para procurar os usuários da região e levá-los a um centro de tratamento, bem como a outras unidades de saúde já existentes, onde seriam internados. Por fim, nesta última etapa, começaria a recuperação destes usuários.

(Foto: Nilton Fukuda, Agência Estado)


Difícil acreditar nesta ação governamental, justamente porque se a lógica que marca a relação daquelas pessoas no centro, na Cracolândia, é da circulação contínua, algo que os faz "dispersar" parece apenas reforçar a condição em que eles se encontram. Assistentes sociais, terapeutas, profissionais de saúde pública tem repetido que o trabalho de recuperação daqueles sujeitos, nas ruas, dependentes químicos, leva anos. E muitos trabalham naquela região há mais de dez anos, acompanham as trajetórias de muitos ali, sabem o nome, se tem família e quais os motivos que os levaram para aquela situação. Esses profissionais tem relações pessoais, tentam criar algum tipo de vínculo afetivo com aquelas pessoas. Agora, a Polícia Militar chegou com a primeira etapa da Ação para "dispersar" todos. Utilizando balas de borracha, bombas de efeito moral, o trabalho de anos pode ter se perdido.

A “Cracolândia” é uma favela que não está na periferia. Sem barracos, muitos ali se abrigam em edifícios abandonados, ou ficam pelas calçadas. E aqueles que ali se encontram não são tratados como cidadãos. Todos pareciam não existir, ou somente ganharam existência na medida em que não devem estar ali. Homens e mulheres que trabalham fazendo "bicos", que estão desempregados, grávidas, senhoras a procura de filhos e netos perdidos, crianças sem famílias, ex-presidiários, pequenos traficantes, vítimas de violência familiar, dependentes químicos, enfim, são muitos problemas sociais condensados num único espaço. Aquelas pessoas estão expostas, diariamente, há mais de vinte anos, e não vimos, não quisemos, preferimos não ver.

Ao lado disso, temos ignorado outro problema crescente. Todas as vezes em que se tentou discutir publicamente os inúmeros imóveis abandonados e vazios do centro da cidade de São Paulo, a mesma dificuldade que se enfrenta ao pronunciar a expressão "Reforma Agrária" assola ouvidos. Os movimentos sociais por moradia continuam sendo tratados como invasores e delinquentes. Assim como sua irmã do campo, a "Reforma Urbana" passa longe do imaginário da política brasileira.

Pobreza e dependência química tem andado junto no centro de São Paulo, e não é possível ignorar que aquela região da "Cracolândia" está inserida num processo de "revitalização" urbana cujo sentido aponta, em especial, para a retirada das pessoas miseráveis da região. Dispersar, retirar, expulsar, os verbos não mudam a situação, enquanto aquelas pessoas não tiverem possibilidade de deixar a realidade que enfrentam, voltarão, continuarão incomodando, circulando, e elas são milhares.


Ver
Mike Davis. Cidade de Quartzo. São Paulo: Editora Página, 1993.
_________. Planeta Favela. São Paulo: Boitempo, 2006.

Maria Filomena Gregori. Viração: experiências de meninos nas ruas. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

sábado, 26 de novembro de 2011

Na esquina de uma cidade

. . Por Thiago Aoki, com 2 comentários

Na esquina de uma cidade, o encontro entre ruas distintas. Beirando a quina, pessoas trocam olhares, informações, decifram-se sem palavra alguma. Por que aquela velhinha não atravessa na faixa de pedestre? Meu Deus, onde está a mãe daquele garoto? Pra onde vai aquele japonês? Será que ela estava olhando pra mim?

Na esquina de uma cidade, as mesas pra fora do bar indicam fim do expediente do cliente, início do expediente do garçom. O primeiro gole do chope, experiência única do dia, libertação, finalmente se vive! É hora de discutir futebol, olhar as pernas das moças, falar mal do chefe, fazer amizade com o garçom na utopia de uma saideira gratuita. É hora de sentir o por-do-sol, que não queima ardido, mas é suficiente para não deixar a alma congelar.

Na esquina de uma cidade, são tantas buzinas, tanta pressa pro fim, que o melhor a fazer é incorporá-las à paisagem. Buzina de sinal abriu, buzina de vai logo, buzina de seu lerdo, buzina de oi - esta cada vez mais rara. Têm aqueles que quando dirigem, ligam o som bem alto, acho que para ausentar seus ouvidos da buzina alheia, ou, quem sabe, para reagir ao trânsito parado da única maneira possível: movimentando o corpo a dançar de dentro do carro.

Na esquina de uma cidade, a praça fica em frente ao bar e nela, em pé sobre bancos, missionários disputam atenção, cada qual com seu Deus, que dizem ser de todos. Há também aqueles deitam nos bancos e cujo único Deus é a cachaça, esses já não sabem o dia, a hora e o local. Têm dificuldade em articular sujeito-verbo-predicado e, deitados, sentem o sol acariciar a futura ressaca.

Na esquina de uma cidade, guardas observam a tudo e todos: japonês perdido, velha imprudente, garoto sem mãe, o gole de cada chope, motoristas dançantes, missionários, bêbados, buzinas. Difícil saber o que pensam, mas é fácil reparar que todos que passam olham para as suas cinturas, admirando as suas armas, ainda que sob temor.

Na esquina de uma cidade há um prédio, e dentro desse prédio, vivo sozinho num andar mais ou menos alto. Daqui, gosto de observar toda a gente a viver no por do sol, agentes de minha paisagem. E é nesse horário, todas às sextas feiras, que vejo uma loira, atrás de uma árvore da praça beijando - um longo beijo - a boca de um jovem rapaz. Tímida, olhando pros lados, vez em quando olha pro meu prédio, pro meu andar, até criar coragem para se despedir do moço.

Na esquina de uma cidade, choro um pranto resignado, mas é tarde, sempre foi tarde. Ela não sabe que tenho binóculos, nem que os coloco por entre a persiana na sexta-feira, nem como me machuca carícias tão ternas ao por do sol. Mas já é hora de abrir as persianas, guardar lágrimas e binóculos. A qualquer momento a porta há de se abrir e ela - loira, sorridente e dissimulada - entrará em nossa casa perguntando como foi meu dia, beijando-me os lábios.

Na esquina de uma cidade, minha vida é aguardar o dia em que, tomado por uma coragem que inexiste em mim, responderei com sinceridade absoluta à essa pergunta.

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Esquinas, Caixas e Luzes

domingo, 12 de dezembro de 2010

Esquina, caixas e luzes

. . Por Unknown, com 2 comentários

Dos dois lados, muitos se empoleiram momento a momento, inúmeras vezes durante o dia enquanto esperam, esperam o instante em que, depois de poucos segundos, não menos vividos com expectativa, ansiosamente, poderão enfim seguir, ir em frente. Parece uma verdadeira guerra, as trincheiras estão a postos, marcadas pelos primeiros corpos em linha, perfilados. Atrás dos primeiros, homens e mulheres, linhas e linhas de outros corpos estão aglutinados caoticamente, quase já amontoados, eles também aguardam. São duas multidões, artilharias opostas, frente a frente, e que transpiram ávidas pelo sinal que lhes permitirá partir de encontro uma a outra. Porém, o vermelho que, de um lado, poderia anunciar o sangue de uma guerra de fato, não, somente pede para aqueles que se encontram protegidos dentro de suas armaduras parem com seus veículos potentemente motorizados. O vermelho também traz o verde que os corpos perfilados tanto desejavam, e esta mesma cor ainda os libera para seguir, simplesmente.

Se faltam armas de fogo, sobram pisões, encontrões e empurrões, quando não, beliscões e um carinho discreto entre os mais íntimos, todos que vão de uma calçada a outra. Privilegiados, os motoristas assistem àquele verdadeiro desfile frenético, quase relâmpago, que os passantes realizam nos poucos segundos de intervalo para um novo arranque dos automóveis.

Enquanto isso, a luzinha verde, que possibilita aquele intenso movimento de pedestres, vem de um homenzinho de dentro de uma caixinha. É o semáforo, ou farol, como quiser. Sem sair do lugar, o homenzinho caminha dentro da caixinha quando se pode atravessar a rua. Acima dele, correm os segundos para que também os carros possam ter permissão de seguir caminho novamente. O clímax de tudo isso surge quando faltam somente três segundos para se acabar o tempo de travessia dos andantes, então a velocidade do homenzinho verde aumenta bastante e ele aperta o passo dentro da caixinha do semáforo. Ele corre.

No desespero, será que ao invés de fugir dos carros que vão começar a passar rapidamente, vruumm, vruumm, vruumm, o homenzinho não pode acabar atropelando a si próprio?

É o que se pergunta de dentro de outra caixa um pouco maior, um pouco mais acima de todo o suceder, o Coleirinha. Ao lado dele, um velho senhor têm os olhos também naquela direção, do cruzamento, na pressa de todos em aproveitar os segundos que restam antes de um novo interrompimento da passagem. Porém, mesmo que repousando os olhos ali, o pensamento do velho parece encerrado em qualquer outro canto, talvez dentro de si, ou da sacada em que está. Possivelmente, ainda, tenta responder a si próprio o que o teria trazido até ali, sem ao menos conseguir ouvir os tantos Trica-Ferros, Pintassilgos e Curiós das gaiolas ao redor.

Cansado, sem ouvir seu próprio piar, o Pintassilgo tenta inventar uma biografia para o senhorzinho, pensando em quando o velho ainda tinha forças para estar ali embaixo, entre aqueles tantos de um lado para o outro. Sem conseguir imaginar muito o enredo, ou a trama, o desfecho da história dele já estava pronto, de uma ironia tristemente realista. O velhinho passou a vida toda admirando o canto dos pássaros e hoje é ele quem está preso, tal como os pássaros, atrás das grades da sacada de seu apartamento, em silêncio, com os olhos que não mais reparam, apenas se distraem no fluxo a que pode assistir.

Mas o sinal fecha para os pedestres, novamente, e tudo se reinicia. O som dos carros é maior que o de pessoas, e outro movimento começa na sinfonia nada harmônica da esquina.

sábado, 14 de agosto de 2010

Onde Moram As Cidades

. . Por Unknown, com 2 comentários

Todos têm seus podres, portanto, como mais uma pessoa comum, lá estava eu ouvindo Fágner no carro... Fágner, isso, aquele mesmo... E um trecho da canção dizia assim: "Bela é uma cidade velha...". Opa, então quer dizer que, segundo Fágner(!), a nossa capital, Brasília, que neste ano completou cinquenta anos, não deve ser considerada uma bela cidade?! Puxa, mas cinquenta anos não é bastante coisa para uma pessoa - sem querer ofender, muito pelo contrário, isso inspira todo respeito -, meio século? Sim, mas para uma cidade é bem pouco. Se o tempo tem valor diferente para os animais e para as coisas, o que dizer de uma coisa como uma cidade: Brasília é um bebê.

E não foi uma criança inesperada, pelo contrário, nossa capital foi planejada, concebida pelas mãos e imaginação dos arquitetos e urbanistas Lúcio Costa e Oscar Niemeyer. Inspirados por aspectos de uma arquitetura modernista, cujos traços denotam clareza, objetividade, simplicidade e o atendimento a determinadas funções, por exemplo, Brasília privilegiaria em sua concepção o fluxo de automóveis. Contudo, Niemeyer gosta de enfatizar, sem perder as curvas que a paisagem natural inspirava, exemplo de alguns dos prédios ali presentes, e, talvez, da imagem formada pela cidade vista do alto: um pássaro.

Tem história que não precisava ser história, só estória, narrativa inventada. Não? Sim. Sabe aquelas crianças que não param quietas, que ficam fazendo perguntas, perguntas, aporrinhando, e que quando deixam de falar passam a mexer as pernas, depois, se colocadas sentadas é a vez das mãos, dos dedos não pararem? É como se a agitação migrasse de um canto pro outro do corpo a cada instante. E então o que geralmente se faz é ocupá-las. Pois bem, tenho pra mim que um dia (não qualquer, mas O Belo dia) decidiram dar um monte de papel, caneta, sorvete, lápis de cor, doces, pirulitos, chocolates, muitos chocolates, a uma criança dessas, pedindo pra que ela rabiscasse ali, na esperança dela dar sossego. Só que de tão atentado, o pivete fez régua, compasso e esquadro dos palipos de sorvete e pirulitos.

Quem disse que criança só tem menos de doze anos? Que nada! Pegaram os desenhinhos da criança grande e fizeram casas, parques, começaram até a fazer igreja: Antônio Gaudí. A Casa Batló parece ter saído do fundo do mar da imaginação... Há nela uma riqueza de ornamentos, de detalhes em cada pequenino espaço, tudo nos deixa abobalhados... devia ser massa brincar de esconde-esconde por aqueles corredores e andares.

Mas se parece que estou falando de coisas distintas, porque uma casa é um espaço sobretudo privado, fechado, restrito a poucas pessoas – e no caso das casas feitas por Gaudí, também destinadas a estratos sociais muito, muito ricos –, ao invés do planejamento de uma cidade, a riqueza fantástica do universo de Gaudí ainda está presente num parque público, como o Güell. Este, por exemplo, parece ser, antes de mais nada, um ponto de encontro, ou de realização da sociabilidade.

Mais, tenho pra mim que Gaudí tinha um irmão perdido, Ildefonso Cerdá. Foi ele o responsável pelo Plano de urbanização da cidade de Barcelona, no século XIX, cuja principal característica é o quadriculado formado pelo Ensanche. Ademais do cruzamento das largas avenidas e das ruas que, em tese, não diferenciariam transeuntes, o desenho da cidade apontaria, fundamentalmente, para o interior dos pátios criados pela disposição das casas. Pensando num equilíbrio entre privado e público, e também entre os aspectos do rural e do urbano, que privilegiava a ventilação e a construção de jardins, Cerdá viu seu plano sofrer várias críticas pela suposta pequena área construída, e que ainda desvalorizariam as mesmas áreas. Porém, se hoje o Ensache não tem a realidade imaginada por seu idealizador, a história da arquitetura, do urbanismo, ganhou um modelo de cidade bastante difundido e voltado para o que depois seria chamado de espaço público. Espaços nos quais, ao menos, estariam pressupostos o uso coletivo, enquanto a tal realidade, não só espacialmente, continua funcional e segregada.

Não tenho pretensão alguma aqui de estabelecer uma comparação que hierarquize ou sobrevalorize uma cidade em relação à outra, entre Barcelona e Brasília, por aquilo que elas têm enquanto tempo de vida, pelo contrário, quero pensar a experiência de passar, de atravessar, de encontrar, de viver numa cidade. Procurei apenas destacar minhas dúvidas quanto à concepção de uma cidade. Claro, nisto, construí algumas oposições gerais e não escondo minha preferência pela cidade catalã. E Brasília, sim, tem suas belezas, ao contrário do que o verso de Fágner poderia nos fazer pensar, e belezas que podem, inclusive, ficar para outra postagem.

Porque, também, acho que uma cidade deve ser como uma pessoa dormindo, digo, como quando assistimos ao sono de alguém. Uma cidade não está apenas no Planalto Central, ou às margens do Mediterrâneo. Enquanto alguém dorme, imaginamos quem é que habita aquele corpo, um amontoado de matéria. Roubando ainda a idéia de um verso, "
A cidade não mora mais em mim", diria que uma cidade é feita das imagens da memória daqueles que ali vivem, mesmo que de passagem, brincando de amarrar a imaginação, o pensamento e o espaço.

"Tudo isso para que Marco Polo pudesse explicar ou imaginar explicar ou ser imaginado explicando ou finalmente conseguir explicar a si mesmo que aquilo que ele procurava estava diante de si, e, mesmo que se tratasse do passado, era um passado que mudava à medida que ele prosseguia sua viagem, porque o passado do viajante muda de acordo com o itinerário realizado, não o passado recente ao qual cada dia que passa acrescenta um dia, mas um passado mais remoto. Ao chegar a uma nova cidade, o viajante reencontra um passado que não lembrava exisitir: a surpresa daquilo que você deixou de ser ou deixou de possuir revela-se nos lugares estranhos, não nos conhecidos.
Marco entra numa cidade; vê alguém numa praça que vive uma vida ou um instante que poderiam ser seus; ele podia estar no lugar daquele homem se tivesse parado no tempo tanto tempo atrás, ou então se tanto tempo atrás numa encruzilhada tivesse tomado uma estrada em vez de outra e depois de uma longa viagem se encontrasse no lugar daquele homem e naquela praça. Agora, desse passado real ou hipotético ele está excluído; não pode parar; deve prosseguir até uma outra cidade em que outro passado aguarda por ele, ou algo que talvez fosse um possível futuro e que agora é o presente de outra pessoa. Os futuros não realizados são apenas ramos do passado: ramos secos."
(Ítalo Calvino,
As Cidades Invisíveis, p.30)

(À amiga aniversariante Natália Helou Fazzioni)

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Avesso do Avesso

. . Por Thiago Aoki, com 5 comentários

Não é de hoje que se criticam as metrópoles. Baudelaire já o fazia com muita propriedade em Paris muito tempo atrás. Foi ele, inclusive, que cunhou o termo "flâneur", que em francês significa algo como "passeador", aquele que vaguei pela cidade a contemplá-la, sem rumo. E transformando a historia num disco riscado que insiste em reptir seus trechos é sempre ela, a cidade, o objeto de reflexões e disputas.

Não há sorrisos em São Paulo. Por trens e ônibus, os olhares fatigados, impotentes, quando não fechados em sono, poucas vezes deixam escapar um sorriso. A impessoalidade reina - cada um com seu sofrimento, no seu espaço. O bom-dia com sorriso entusiasta, que ando fazendo como provocação, assusta os funcionários acostumados a seguir rígidos protocolos gerenciais que não incluem tal expressão. E uma cidade sem bom-dias é uma cidade triste.

Mais jovem, quando passeava em São Paulo, gostava de tentar adivinhar onde as pessoas desceriam no metô. "Aquele japonês vai descer na Liberdade..Deve trabalhar em algum restaurante.." Mas trabalhando aqui, vejo que pouca graça tem a brincadeira. É muito fácil, pois no horário do rush, todos vão para o mesmo lugar: o próximo ônibus, o próximo trem, a próxima espera. Em uma palestra com um grande arquiteto, ele nos disse sobre o desafio de se fazer um arquitetura provocativa em uma cidade como São Paulo, onde a média de tempo que as pessoas levam para chegar ao trabalho é de 3h. Seguindo a risca o racicínio, são 6h diárias de transporte. Ou seja, correto mesmo seria a jornada de 2h diárias de trabalho para completar 40h semanais. Mas acho que essa lei não passaria na câmara.

Nos novos metrôs, não é mais o operador que narra as estações, colocaram a gravação de uma mulher de voz bonita que finge não estar cansada. Fico pensando no tédio do maquinista cujo tajeto são idas e vindas de linhas retas, como a esteira dos Tempos Modernos de Chaplin. Acelera... Breca... Acelera... Breca... Acelera... Opa, mais um corpo se jogou contra o trem... Breca... Acelera...

Antes de estar em São Paulo, adorava aquela máxima: quanto mais conheço os homens, mais gosto dos meus cachorros. Achava pessimista e provocativa. Mas quando vejo, por estatísticas, que a metrópole possui mais pet shops do que padaria, começo a me preocupar. É preciso ser humanista em São Paulo

Aliás, matuto cá dentro que diabos seria a política em São Paulo. No sentido original da palavra, política (politeia) significa a "prática da cidade(polis)". Agora entendo porque quando alguém fala algo que não entendemos, dizemos que está "falando grego". O termo está longe de ser viável. Seja para empresários enforcados em suas gravatas ou por Zumbis que vagueiam nos vagões feito zumbis, a cidade está longe de oferecer oportunidades. Os versos nas paredes do metrô parecem tentar resistir, provocar: pare, leiam... O mesmo o faz a pichação vândala e necessária no prédio do banco: "São Paulo, pare pra pensar". Em vão, aqui, parar é ser atropelado.

Sim, São Paulo tem diversidade cultural, riqueza gastronômicas, tecnologia, agito, salários elevados, museus, shoppings, grandes empreendimentos, mas por vezes a imagem que me vem, e não sai, à cabeça são de homens e mulheres. Talvez não tenhamos, ainda, conseguido interpretar muito bem o que Vinícius de Moraes quis dizer com "túmulo do samba".

De qualque forma, asssim como um peixe busca a água para respirar, é preciso encontrar, ou criar, em São Paulo - na ponta de cada spray, no buraco de cada muro, no poema em cada parede, no sorriso em cada bom-dia, na dor de cada passo - a resistência.

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