VÍDEO: MURILO CAMPANHA CONTA ITATINGA

O psicanalista Murilo Campanha fala sobre Itatinga, um dos maiores bairros de prostituição da América Latina, onde ele tem seu consultório.

O nadador

Uma crônica de Hugo Ciavatta.

Ainda que as bolachas falassem

Crônica de Fábio Accardo sobre infância e imaginação

Ousemos tocar estrelas

Uma reflexão de Thiago Aoki.

Entre o amarelo e o vermelho

Uma crônica de Hugo Ciavatta

O homem cordial vinhedense

A classe média vai ao barbeiro. Uma crônica de Caio Moretto.

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terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Selo Pinochet de Direitos Humanos 2011

. . Por Caio Moretto, com 5 comentários

selo_pinochet3 Trabalhei algum tempo como redator publicitário. Durante a crise de consciência que começou a me afastar deste ofício, um amigo, na tentativa de me convencer a continuar na área, acabou me dando o empurrão final que eu precisava para sair. Na época estávamos fazendo a propaganda de um selo ambiental para uma companhia de papel, que carinhosamente apelidei de Selo Pinochet de Direitos Humanos. Tentando aliviar minha consciência ele me disse: “Armas não matam pessoas, pessoas matam pessoas.”
procusto Existe uma figura da mitologia grega que se repete em algumas outras mitologias. Não sei a explicação. Trata-se do sádico Procrusto. Gentil, ele recebia os estrangeiros em sua casa. Se o hóspede fosse menor do que a cama oferecida, ele o esticava até ocupar todo o espaço. Caso fosse maior do que o leito, toda parte do corpo que ficasse para fora era amputada. Reza a lenda (e a wikipedia) que alguns habitantes de Sodoma e Gomorra utilizavam esse método de tortura com forasteiros. Novamente, não sei o que é verdade. A parte mais cruel, porém, é que Procusto tinha duas camas, de tamanhos diferentes.
Nós não somos muito diferentes. Quando convém, subordinamos o problema moral e individual ao coletivo ou ao próximo e nos acomodamos no fatalismo de suas determinações: “sou assim porque não tive educação”, “meus pais não me deixavam fazer nada/ não impuseram limites”, “é o sistema” ou ainda outra que costuma passar desapercebida “se eu não fizer este trabalho outro fará em meu lugar”. Porém, quando não convém, ignoramos toda forma de determinação e culpamos os erros individuais: “o problema não é a forma de governo, é o governante corrupto”, “não é a polícia, é o policial que abusa do poder” ou “só pessoas matam pessoas”. E assim vamos fazendo nossa sociologia desregrada, alternando culpados para não mudar nada e continuar com nossa consciência tranquila ou  para arranjar bodes expiatórios, executá-los secretamente num porão, no deserto ou no oceano e seguirmos com nossas vidas.
Não há, porém, nenhum determinismo no mundo que anule uma intenção. Marketing é maquiagem: você pode usar para esconder os defeitos ou para realçar as qualidades. Mas neutro não pode ser. Marketing toma partido por princípio. Tem sempre uma intenção. Essa é a própria ideia do marketing. As empresas que mais poluem são as que mais investem em programas (e em publicidade) de responsabilidade ambiental. Isso para não falar em responsabilidade social e escravidão moderna.
Por isso fiquei em alerta quando vi a seguinte notícia: Estigmatizada, PM paulista quer investir em Direitos Humanos. Nos dias seguintes vi uma imagem, duas notícias e um pm_spray_criancarelato chocante sobre a polícias paulista, carioca e americanas. A imagem é esta ao lado. As medidas já foram tomadas e o capitão da PM Bruno Schorcht, que disparou o spray na criança foi promovido! Nos EUA circula um vídeo semelhante, do policial John Pike esvaziando seu spray de pimenta em manifestantes sentados e pacíficos no campus da UC Davis, na Califórnia. O relato é o espancamento do antropólogo Danilo Paiva Ramos por um PM na Avenida Paulista. E as notícias foram, primeiro, a doação de US$ 4,6 milhões feitas pelo banco JP Morgan Chase à polícia de Nova York, a maior já feita à fundação em sua história. A nota foi publicada no site do banco sem grandes preocupações. Nos dias seguinte mais de 700 manifestantes do movimento Occupy Wall Street foram presos nas cercanias do banco. Por fim, li com desgosto a nomeação do tenente-coronel Salvador Modesto Madia, co-executor do massacre do Carandirú, ao comando da Rota.
Portanto, é com muita insatisfação que entrego este Selo Pinochet de Direitos Humanos à Policia Militar, seus representantes Bruno Schorcht, Salvador Modesto Madia e John Pike, aos bancos e instituições que desinteressadamente investem na militarização da polícia e do exército e à todos nós que continuamos acreditando que o preço da liberdade é a eterna e militarizada vigilância.
A minha alma tá armada e apontada para cara do sossego
Paz sem voz, não é paz, é medo
As vezes eu falo com a vida, as vezes é ela quem diz:
"Qual a paz que eu não quero conservar, prá tentar ser feliz?"

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Elite Responsável?

. . Por Thiago Aoki, com 11 comentários


"É reconhecidamente um dos pontos de comércio mais elegantes da cidade. A rua, de acordo com a Mystery Shopping International, foi eleita uma das oito ruas mais luxuosas do mundo, e é o mais pujante símbolo dos Jardins, região de São Paulo que concentra grande parte do comércio de rua de luxo do país. Uma ampla reforma foi realizada durante 2006 ao custo de 8,5 milhões de reais, com enterramento de fios e padronização do mobiliário urbano. Cerca de metade do valor das obras é de origem de verbas municipais. No convite acerca da inauguração distribuído à imprensa, lia-se em um trecho: 'Poeira, marteladas e barulho acabaram. No lugar dos operários, homens e mulheres bem vestidos e com a aparência favorecida em todos os aspectos voltam a circular pelas calçadas da rua Oscar Freire'." (trechos retirados do Wikipedia sobre a rua Oscar Freire, São Paulo)

Lá, na rua Oscar Freire, nas paredes de uma loja especializada em óculos de sol, acaba de ser inaugurada uma exposição com fotos clicadas por moradores de rua. Antes, os mesmos passaram por 5 meses de curso em fotografia digital. A ideia é fruto de parceria entre o Instituto Brasis e a loja Op Art, dos quais Marcos Amaro é presidente e dono, respectivamente. A exposição, na sequência, deve passar pela Daslu, loja de artigos de luxo localizada no bairro do Morumbi cercada por imensa favela.

Luz de Velas. Foto de Marli Pereira Dias, moradora de rua.
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Há algum tempo, a mesma Daslu, cuja dona é Eliane Tranchesi, cedeu, polemicamente, espaço para o lançamento do excelente livro do rapper brasileiro MV Bill, intitulado "Falcão, meninos do tráfico", que relata situações de violência vividas por crianças das favelas brasileiras ligadas ao tráfico de drogas. À época, Lúcia Mineiro, socióloga - tinha que ser! - chamada para dar uma palestra durante o evento, causou alvoroço:

- "Estamos aqui na Daslu, no templo do consumismo! Isso aqui também é responsável pela violência."

Imediatamente, a líder comunitária da favela pegou o microfone, defendeu a - segundo ela - "amiga pessoal" e dona da botique, emocionando os clientes presentes.

- "O que essa mulher [Lúcia] falou não tem nada a ver! Misturou consumismo com violência! Estamos aqui num evento tão bonito..."

Por fim, foi a vez da própria Eliane, que nove meses antes havia sido presa por sonegação fiscal, advogar-se a si mesma.

- "Ela tem que entender que o consumo é bom! Nós, empresários, geramos empregos, pagamos impostos, gente!"

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As imagens expostas na Op Art por moradores de rua impressionam pela qualidade das imagens e densidade autobiográfica que contêm em si, escapando de estereótipos ou dramatizações autopiedosas. Assim como o livro de MV Bill, além de muito bem escrito, mostrou um Brasil errante, até então pouco conhecido em tamanha riqueza de detalhes.

O que está em questão, no entanto, não é a qualidade dos trabalhos, mas a estratégia do "choque" provocado ao levar para a elite realidades tão contrastantes através da arte. Há tempos ouvimos sobre a "perversidade de nossa elite". Alguns pensadores reformistas defendem uma modificação cultural e humanista nas classes dominantes como condição para que haja o bem estar social - ou, nas palavras de Marcos "o capital é uma ferramenta quase sempre usada para gerar mais capital. Eu estou tentando entender como usar ele para criar cidadania”. Mas para mim, o argumento de diminuir o hiato entre as classes é inconsistente. Porque simplesmente não há um hiato, hiato algum, entre o consumidor da alta moda e o morador de rua ou traficante da favela. Há, sim, uma relação de interdependêcia e de dominação. Porque, em última instância, a socióloga está certa, todos queremos aquele tênis, aquele vestido, aquele sanduíche - seja qual for a classe. A "arte social", neste caso, posta à contemplação nas paredes ou limpando nome de marcas, não basta. É preciso algo maior que isso e menor que um assalto. Se quer tocar e modificar de verdade a elite, a arte à ela levada deve conter o tom de denúncia, mostrar sua responsabilidade como topo da pirâmide. Talvez a fala da socióloga pode ter sido uma boa tentativa, mas além de constrangimento e subsídio para essa postagem, pouco efeito surtiu. Isso porque dizer aos templos do consumo qual seu papel nesse circo de horrores ultrapassa os limites da vinculação da marca às questões sociais, "pega mal". Aí que está: Por mais que seja tudo bem intencionado, há um hiato, aí sim, entre o que transforma de verdade uma atitude e o que apenas serve como desencargo de consciência ou valorização da marca.

Esse é o ponto de meu ceticismo.

Espero estar errado.

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Filme: "Um sonho possível"

quarta-feira, 19 de maio de 2010

A Copa vem aí...

. . Por Thiago Aoki, com 2 comentários

Que o futebol é parte integrante da Cultura Nacional, isso é um fato. E fica ainda mais evidente a cada Copa do Mundo como ele se constitui como parte da identidade nacional. Ainda mais se pensamos que nossa identidade é construída não apenas por nós mesmos, mas principalmente pelo modo como as outras pessoas nos enxergam. Tanto que alguns rebeldes em 1970 negavam-se, sob protesto, a torcer pela seleção brasileira, considerando o esporte como manipulação e alienação política. A seleção encantou e ganhou. Talvez hoje esses rebeldes sintam-se um tanto quanto arrependidos de tal proposicionamento ou ainda torçam o nariz ao ver tamanha espetacularização econômica que domina o esporte. Ou ambos. O número de marcas que apoiam a seleção nunca foi tão grande e a verba de contratos e patrocínios praticamente quadruplicou de 2006 para 2010. Dizer-se apoiador da seleção brasileira significa, na propaganda, dizer que sua empresa é responsável pela alegria proporcionada a cada brasileiro. E mesmo que não ganhemos a Copa, a culpa não será de quem investiu no time. Se intelectuais não gostam de tanto iêiêiê, quem trabalha certamente prefere perder 90 minutos da árdua escala para ver a amarelinha brilhar. Folguinha para ver os jogos da seleção é quase artigo da CLT. Em meio a essa euforia e super-produção futebolística que vivemos, lembro-me aqui, através de leitura do ótimo Blog da Redação do UOL, de uma das mais fantásticas jogadas de marketing que já existiram, realizada no final de 2009, na Itália, pela cerveja Heineken, patrocinadora oficial da Champions League.



O projeto ficou denominado como "Heineken Case Study" (Estudo de caso da Heineken) e tinha como alvo a grande partida da primeira fase da Champions League: Real Madrid x Milan, clássico que praticamente parou a Europa na época de seu acontecimento. A ideia era complexa. A Heineken combinou com pouco mais de 200 italianos entre professores, chefes executivos e namoradas para convencerem seus pares (alunos, empregados e namorados), todos fanáticos pelos times em questão, a assistirem a um concerto de música erudita que ocorreria no mesmo dia e horário do jogo, sem contar a estes que seriam vítimas da ação publicitária. Pois bem, a partir de argumentos esdrúxulos, torcedores fanáticos submeteram-se a assistir ao concerto e, durante a execução, um telão transmitia poesias diversas. Era claro no rosto de cada "espectador" a angústia e desespero por não estar acompanhando à partida. Após 15 minutos de tortura, aparece, no telão, algo como "É difícil dizer um não para sua namorada ?" "E para seu chefe?" "E para a partida?" "Como vocês iriam perder essa partida?". E logo a música característica da Champions League começa a ser ouvida e a reação da plateia é mostrada ao vivo para mais de 1,5 milhões de espectadores que aguardavam a transmissão da partida. "Nesse momento, Milan e Real Madrid estão subindo ao campo". E, então, a partida começa a ser transmitida ao vivo no telão, para alívio, aplauso e euforia das cobaia da "pegadinha" da Heineken.

Além da genial publicidade, que conquistou a web e noticiários durante aquele período, o que fica claro é o poderio que o futebol tem para com o mundo. A copa vai chegando e cada vez mais é difícil e constrangedor dizer-se não acompanhante do mundo futebolístico. Pior ainda é preferir concerto e poesia às quatro linhas. Por outro lado, seria argumento cult e elitista pensar que aqueles que preferem o clássico europeu à música clássica são atrasados culturalmente. Inclusive, acho que boa parte dos que se consideram "eruditos", preferem que apenas uma minoria tenha condição de ser. O fato é que se trata de dois eventos culturais distintos, cada qual com seu público-alvo e popularidade. Eu mesmo, confesso, preferiria ir ao estádio num jogo do Corinthians do campeonato paulista do que a um camarote do show do Chico Buarque no Citibank Hall, e creio que o próprio Chico entenderia minha escolha. Porque tanto é verdade a máxima de Guimarães Rosa já citada em outro post de que "pão ou pães é questão de opiniães", como aquela anônima que diz: "gosto é igual braço, tem gente que tem, tem gente que não tem".

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