VÍDEO: MURILO CAMPANHA CONTA ITATINGA

O psicanalista Murilo Campanha fala sobre Itatinga, um dos maiores bairros de prostituição da América Latina, onde ele tem seu consultório.

O nadador

Uma crônica de Hugo Ciavatta.

Ainda que as bolachas falassem

Crônica de Fábio Accardo sobre infância e imaginação

Ousemos tocar estrelas

Uma reflexão de Thiago Aoki.

Entre o amarelo e o vermelho

Uma crônica de Hugo Ciavatta

O homem cordial vinhedense

A classe média vai ao barbeiro. Uma crônica de Caio Moretto.

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domingo, 29 de janeiro de 2012

Opinião Pública e Democracia Privada

. . Por Thiago Aoki, com 7 comentários

Fico pensando como seremos conhecidos daqui a 100 anos. Com a proliferação de dispositivos - tablets, redes sociais, gadgets, aplicativos - que se disseminam feito praga, a era da informação está em xeque. Digo isso pois havia um mito quase iluminista, profetizado nas escolas e na mídia, de que estaríamos em uma época onde quem tivesse acesso à informação estaria fadado a uma vida de sucesso. Hoje, com essa complexa rede de informações que se forma, e que inclusive tem ajudado a formar uma relação mais crítica com a própria mídia “oficial”, é possível perceber que divergências sobre fatos são mais do que aceitáveis e que as informações são construídas socialmente. Talvez o que vivemos seja a era da opinião.

Infelizmente, ao contrário do que um ingênuo web-entusiasta pode argumentar, isso não significa que caminhamos para um mundo de tolerância às culturas e saberes. Ou que estejamos a criar fontes saudáveis de debates e redenções intelectuais. Ou muito menos que caminhamos para uma mídia alternativa, desligada do poderio econômico. O que se vê são indivíduos ávidos por formarem opiniões sobre algum tema polêmico (ou falsamente polêmico) e fazer delas um espetáculo particular – ou, como prefere o facebook, compartilhá-las. Contemplar e ser contemplado.

Por um lado, mesmo que haja um questionamento sobre a relevância temática dos “trending topics”, é positivo que todos estejam em busca de formar sua opinião sobre os “temas do momento”, inclusive sendo obrigado a ler opiniões contrárias em seu “timeline” ou “feed de notícias”. Mas por outro temos aqui um poderoso mecanismo de manutenção da democracia meramente representativa.

Ao cravarmos nossa opinião sobre a polícia na USP, sobre a moça que matou o cachorro, sobre o estupro no big brother, sobre o massacre de Pinheirinho, sobre as fraudes do ENEM, sobre a construção de belo monte, criamos uma falsa ideia de que neste momento fazemos um papel de cidadão ou até de ativismo, quando na verdade, apenas expomos opiniões para nossos amigos, torcendo por compartilhamentos, comentários e cliques no botão curtir. É a reprodução de uma passividade vista nas sociedades que se dizem democráticas, mas onde o limite de nossa ação política é a possibilidade de nos posicionarmos sobre um tema sem sermos presos. É a possibilidade de fazermos parte de uma parte, vitoriosa ou não, da opinião pública – como se essa fosse capaz de, por si só, transformar algo.

E lá estamos, a apoiar “causes” e mais “causes”. É justamente quando me pergunto o que de fato fizeram por Pinheirinho os 3.528 que curtiram o “Somos todos Pinheirinho”. Ou em qual movimento de defesa dos animais militam todos os que colocaram a hashtag #CamilaDeMouraPresa.

Assim, consolida-se uma visão cada vez mais hegemônica segundo a qual participar de um movimento ou partido político é um descrédito. E ganha cada vez mais corpo aquele intelectual cujo único propósito coletivo é participar de um grupo de estudos, e escrever artigos influentes. Ou aquele que sabe tudo sobre tudo, mas virtualmente, sem relações orgânicas ou lutas por um ideal.

E aí, nós que criticamos as crianças de hoje por trocar a rua pelos video-games reproduzimos a mesma relação, em uma rede contemplativa onde sobram opiniões e faltam experiências.

Claro, algo já brotou daí pro mundo: um churrascão, um Sakamoto, um Malvados, um Wikileaks, um Anonymous e, há quem diga, até uma primavera árabe. E claro, também, que este Blog e sua disseminação inserem-se nessa rede. Mas cabe perguntar o que, em nossa vida a cada dia mais virtual, reflete-se em nossas práticas e em nossas lutas do dia a dia. O que, afinal, não se dissolve na roda viva onde a contemplação e o espetáculo são vias de mão dupla de uma mesma rua, a inércia.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

O céu não tem região...

. . Por Thiago Aoki, com 2 comentários

-Que presepada aquilo lá embaixo, não?

-Aquilo o quê seu Luiz?

-Brasileiro falando de brasileiro, mas como se não fosse brasileiro.

-Qual é seu Luiz?

- Vi na revista hoje, todo mundo culpando o nordeste.

-Culpando do quê, seu Luiz?

-Não sei direito, acho que das coisas tarem como tão. Desse fuá que o mundo tá.

-Mas eles estão certos, seu Luiz.

-Como assim certos?

-Você tem que entender que o Brasil passou por uma “Afrociberdelia” aguda.

-Cuma?

-Bom, deixa eu falar de outro jeito. É o seguinte, como meu amigo Fred disse há algum tempo atrás, precisávamos deslobotomizar e carregar as baterias da cidade nordestinas...Injetar energia na lama, Gonzaga, é disso que estou falando!

-Carregar as baterias da cidade, é?

-Sim, mas isso pensamos em fazer faz é tempo, uns bons vinte anos atrás.

-E fizeram, é?

-Claro, e lá sou eu cabra só de falar, seu Luiz?

-E como fizeram isso?

-Misturando muita coisa, coisas que pareciam distantes uma das outras. Tudo quanto é ritmo e movimento, queria ordenar aquele caos todo e criar um novo caos muito melhor, um caos que funciona, que integra e cria algo novo, algo que vibra, que dá luz! Sair pro mundo seu Luiz!

- Mas revista falou de...

- Sei que você tá desconfiado seu Luiz, mas foi uma pegada louca, não tem nada no mundo que não pode ser juntado, agregado, reaproveitado, nada que não possa ser usado pra fazer um barulho novo! No começo, teve muita gente que torceu o bico, mas até uma revista gringa disse bem de nós! O Nordeste tava mostrando que dava pra regionalizar o universal e devolver o trem refeito pro mundo!

- Calma menino, que você tá fazendo presepada! A revista disse que tem um monte de tabacudo que não é daqui, dizendo que nordestino não gosta de trabalhar, vota nas pessoas erradas, que só tem analfabeto. Tem gente até querendo matar a gente do nordeste. Tirar do país. Todo mundo com ódio de nós.

-Que loucura seu Luiz! Dá gastura só de ouvir. Acho que a molecada não entendeu nada do Brasil. Foi só eu sair do país e o negócio ficou assim é? Sobrou ninguém lá não? Quem que falou essa besteraiada toda? Não era só nos caranguejos que faltavam cérebros?

- Um pessoal, desses fuleiros que ficam atrás do computador, sabe?

- Num era desse caos que eu tava propondo. Eu queria juntar, não separar.

- Eu sei menino, não fique cabreiro. Apesar de falar umas coisas abiloladas, Você parece um menino bom, diferente desses doidos que passeiam as mãos tão ligeiras nas teclas pra escrever tanta besteira, tanto fuzuê. Vale menos que corrida de ganso.

- Hehehehe... Logo você, seu Luiz, reclamando da habilidade com as teclas?

- Mas a tecla que minha mão toca só sai coisa boa, cabra!

-Verdade Seu Luiz... Verdade...

-Como é teu nome mesmo menino? Lembro de você, mas não do teu nome.

- Francisco de Assis, mas já que não sou santo, pode me chamar de Chico. Ou Chico Science, como me chamavam lá embaixo.

- Chico, o quê?

-Science!

-Tá, vou te chamar só de Chico, pode ser?

-Claro que pode. Mas chega de prosa, vamos descer da nuvem, vai ter um show de um camarada lá embaixo, chama Otto, cabra bom de música que só vendo, vamos lá comigo seu Luiz, você vai ver a mistureba gostosa que ele faz!

-Bora lá então. Chega de leriado que você me deixou curioso como esse negócio de Afrociber-seiláoquê. Quando subi pra cá ainda não tinha muito disso não.

-Vamos lá que você vai entender o que digo. Mas vai tocando seu acordeon que é pra embelezar a viagem! Depois acho que podíamos pensar em misturar seu baião com um manguebeat, ia ficar um fuá pra lá de bom!

-Deixa eu tocar meu acordeon mesmo, antes que você fale mais coisa esquisita:


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