VÍDEO: MURILO CAMPANHA CONTA ITATINGA

O psicanalista Murilo Campanha fala sobre Itatinga, um dos maiores bairros de prostituição da América Latina, onde ele tem seu consultório.

O nadador

Uma crônica de Hugo Ciavatta.

Ainda que as bolachas falassem

Crônica de Fábio Accardo sobre infância e imaginação

Ousemos tocar estrelas

Uma reflexão de Thiago Aoki.

Entre o amarelo e o vermelho

Uma crônica de Hugo Ciavatta

O homem cordial vinhedense

A classe média vai ao barbeiro. Uma crônica de Caio Moretto.

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sexta-feira, 29 de abril de 2011

De onde vem a calma?

. . Por Thiago Aoki, com 6 comentários

Li críticas sobre o cinema de Sergio Bianchi, segundo as quais, em seus filmes, a obsessão do diretor pelo argumento atrapalha a trama. Depois do fantástico “Cronicamente Inviável” e do bom “Quanto vale ou é por quilo?”, tive a oportunidade de assistir, sem muitas expectativas, ao “Os Inquilinos”, que passou quietinho por 2010. Bianchi não é sociólogo, mas suas películas são aulas de sociologia, que precisam ser revistas algumas vezes para se notar tantas entrelinhas.

Não entrarei no mérito do filme, que tem passagens marcantes e outras nem tanto, mas trago-o aqui pois em uma de suas cenas, lá estava a linda poesia de Carlos Drummond de Andrade, “A morte do leiteiro” (confira na íntegra clicando aqui), interpretada por Cassia Kiss.



Drummond traz na poesia, sua visão sobre o falecimento de um leiteiro, morto por engano durante a madrugada.

Na Bienal de Artes 2010, um dos vídeos fazia menção a uma entrevista de Clarice Lispector, em que diz sobre os enigmas de seus escritos e menciona um texto escrito sobre o bandido Mineirinho, “morto por treze tiros, quando apenas um bastava”.



A crônica, escrita em 1978 (confira na íntegra clicando aqui), traz o seguinte trecho:

“(...)a primeira lei, a que protege corpo e vida insubstituíveis, é a de que não matarás. Ela é a minha maior garantia: assim não me matam, porque eu não quero morrer, e assim não me deixam matar, porque ter matado será a escuridão para mim. Mas há alguma coisa que, se me fez ouvir o primeiro tiro com um alívio de segurança, no terceiro me deixa alerta, no quarto desassossegada, o quinto e o sexto me cobrem de vergonha, o sétimo e o oitavo eu ouço com o coração batendo de horror, no nono e no décimo minha boca está trêmula, no décimo primeiro digo em espanto o nome de Deus, no décimo segundo chamo meu irmão. O décimo terceiro tiro me assassina - porquê eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro.”

Havia me lembrado deste vídeo quando aconteceu o massacre de Realengo, e me veio à tona novamente enquanto ouvia a triste saga do leiteiro.

“Primeiras Estórias”, de Guimarães Rosa, é um livro no qual praticamente todos os contos falam sobre uma solidariedade mágica que em momentos únicos compõem os laços humanos. Uma família levada ao hospício, um pai que foge pro meio do rio, o enterro de uma menina abençoada. No conto “Irmãos Dagobé”, outro exemplo interessantíssimo. Liojorge, cansado de ser humilhado por Damastor Dagobé, mata-o. O tempo inteiro a tensão da possível vingança dos três valentes irmãos de Damastor, que matariam do pior modo possível o assassino. Até que Liojorge faz o anúncio que participaria do enterro e que ajudaria a levar o caixão. Para a surpresa de todos no arraial, os irmãos aceitam a ajuda e nenhuma morte acontece.

Drummond mostra-se quase íntimo de um entregador de leite que sequer conhecia e Clarice diz que o horror com o bandido, fez dela própria uma vítima. Os irmãos Dagobé entendem a humilhação passada por Liojorge e este é perdoado, mesmo matando um dos irmãos. Tragédias, catástrofes, pena, culpa. O que tira, da escuridão do baú, a possibilidade de nos colocarmos no lugar do outro?

É a dúvida que incomoda a professora do filme. “De repente, por causa de um barulho, tudo acontece. Depois acalma de novo. Nasce o dia, mas aí já é diferente...”

Eu complementaria: estamos mansos, individualmente mansos, novamente.

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Mistura Relacionada - Esperança Equilibrista

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

O dilema de Godard

. . Por Thiago Aoki, com 5 comentários




"Je vous salue Sarajevo" (acima), de 1993, estava na 29ª Bienal de Artes de São Paulo e tem como autor Jean-Luc Godard, que analisa uma única foto da guerra na Bósnia, ocorrida entre os anos de 1992 e 1995. Embora faça referência a uma guerra particular, o texto, além de belíssimo, tem como grande máxima uma definição universal que adoro:

“Pois há uma regra e uma exceção. Cultura é a regra. E arte a exceção. Todos falam a regra: cigarro, computador, camisetas, TV, turismo, guerra. Ninguém fala a exceção. (...) A regra quer a morte da exceção.

Mais ainda, se repararmos os cortes e closes de imagem que Godard usa durante o curta, a regra é mostrada com um fuzil na mão, apontando para corpos que insistem em subverter - “artistas da vida” tão grandiosos quanto Dostoievski, Cézanne ou Antonioni.

Ao espectador atento, a agressiva metáfora, impactante por se tratar de um momento claro de repressão, continua viva. Levando a cabo as definições, sempre que houve arte, houve regra e exceção. Se hoje há arte, deve, necessariamente, existir também uma regra que quer a “morte da exceção”. Essa regra, talvez não seja representada apenas diretamente com fuzis, mas, em tempos de relativa paz, transveste-se em imagens, padrões de comportamento, moralismos, mercadorias, e outros cerceamentos cotidianos que, com ou sem intenção, enclausura qualquer forma libertária que não esteja de acordo com as normas.

Lembro-me que, durante as revoltas de Maio de 1968 na França, uma das frases mais pichadas nos muros dizia: “A arte está morta. Nem Godard poderá impedir”. O cineasta, nesse vídeo de 1993, exatos 25 anos depois, parece tentar responder à provocação. Para ele, a “arte de viver ainda floresce” e isso não é um otimismo. O “ainda” tem o sentido de reticências, indicando a possibilidade de futura suspensão da arte de viver - de subverter e fugir das regras impostas. Teríamos então uma sociedade apática e normativa, controlada pelo medo, sem contrapontos, sem arte.

Há filmes que duram dois minutos, mas permanecem latentes por tempo inestimável. Passados quase quinze anos do “Je vous salue Sarajevo”, as perguntas ficam e atormentam todos os dias: quanto de nós é regra ? E quanto ainda nos resta de exceção?




O vídeo é uma apresentação intitulada "Este lado para cima", do grupo teatral Brava Companhia, apresentado no Mirada, Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas de Santos, em 2010.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Ordem e Regresso.

. . Por Thiago Aoki, com 4 comentários

Começou nesta terça-feira (21/o9) a aguardada Bienal Internacional de Arte de São Paulo 2010. Com o orçamento muito maior do que o de 2008, a ideia é que o "vazio" da edição anterior seja preenchido. Para isso, uma variedade de estilos e performances que abordarão a conturbada relação entre Arte e Política. Ironicamente, o episódio que agita as preliminares do início das exposições parece justamente exemplificar os emaranhados que envolvem o fazer arte/política em nosso país. O fato é que a OAB-SP ameaça lançar veto ao trabalho do artista plástico pernambucano Gil Vicente, que fez um autorretrato (abaixo) pra lá de provocativo, no qual o próprio artista está em posição de assassinar os dois últimos presidentes da república: FHC e Lula. Segundo a entidade, a imagem faz "apologia à violência".


Segundo o autor da polêmica, a ideia era "descarregar o inconsciente" e afirma ainda que sua lista possui outros nomes como o papa Bento 16, George W. Bush, a rainha Elizabeth e Ahmadinejad, presidente iraniano. Todos personagens que representam intimamente o poder. A organização da Bienal, acertadamente, fez questão de manter a exposição em lugar de destaque e espera que a OAB recue a violação contra a autonomia do artista.

O caso e o trabalho do artista nordestino me remeteu à fotógrafa inglesa Alison Jackson, autora do livro de fotografias "Confidential" (imagens abaixo, clique para ampliar). Seu trabalho, muito interessante, consiste em fotografias com contornos de voyeurismo, na qual personalidades famosas são retratadas, como se fossem "flagras" dos paparazzos. Obviamente que os modelos fotográficos são apenas sósias muito bem maquiados, porém a brincadeira com o escândalo e com a sociedade do espetáculo, na qual as celebridades, ou melhor, suas imagens detêm poder desproporcional, é divertidíssimo.



A sensação que temos ao observar essas fotos, é um choque de realidade. Como se a relação tão íntima e distante que temos com a imagem de cada celebridade ruísse e, agora, temos não mais um ícone idealizado, mas um imoral qualquer, de carne e osso, que participa de orgias, faz cocôs, maltrata crianças. Como se a imagem fosse um valor de troca, um componente do status quo.



Seja pela inglesa ou pelo pernambucano, ambos, de certo modo, vingando-se dos centros de status e poder, fica claro que, para a arte que contesta ou subverte a normalidade, independente do mérito de sua ação, é necessária relativa liberdade. Deve ser permitido que no imaginário, nosso e do artista, matemos presidentes, estraguemos celebridades ou pintemos paredes antes limpas. Como cada um recebe as balas - ora subjetivas, ora cruas - disparadas pela arte é outra história.

Independente de ser descrente ou entusiasta da arte de Gil Vicente como ação política (se é que há uma ação política), espero que o artista pernambucano vença a queda de braço institucional e, assim como Alison Jackson, possa expressar suas angústias com o exagero que lhe parecer necessário. Do contrário, caminharemos no sentido oposto, no caminho da arte adestrada, da arte boa-conduta, e, pior, da obviedade.

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Posts anteriores sobre a Bienal 2010:
Um Spray na mão e uma Bienal na cabeça.
Bienal 2010 - Política, Rua e Rebolation

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Bienal 2010 - Política, Rua e Rebolation

. . Por Thiago Aoki, com 1 commentário

Saiu, ontem, a lista de convocados para o evento que movimenta milhões e o Grafite está na lista. Poderia ser a seleção do Dunga, mas estou me referindo à Bienal 2010. Além da lista dos 148 artistas, os organizadores da Bienal afirmaram, em entrevista coletiva, que buscarão, neste ano eleitoral, uma exposição que possua olhar amplo para a política.

Prova disso é a confirmação da presença de pichadores, muitos deles idealizadores da fatídica intervenção no ano de 2008 - fato já analisado amplamente em postagem anterior. Como afirma o curador Agnelo Farias, "não tenho certeza se é arte ou não, mas certamente o trabalho deles é político". A organização também deixa claro que a presença dos pichadores se dará através de apresentações de seus trabalhos, por vídeos, fotografias, slideshows, afinal "não faria sentido convidá-los para pichar nem eles queriam ser cooptados pela instituição". Para este blogueiro, decisão mais que acertada, não só por da voz a novos atores culturais, como também por não fazer de gabinete uma expressão artística cujo cerne é o questionamento veementemente do "status quo" cultural.

Outro ponto alto da exposição deverá ser a homenagem ao aniversário de 30 anos da morte de Hélio Oiticica. Nada mais justo para uma Bienal que se proponha a falar sobre arte e política, intesecção tão bem feita pelo artista brasileiro, de referência internacional. Oiticica, que se considerava um anarquista, fazia questão de mostrar que a arte deveria extrapolar as paredes e chegar ao povo e às ruas. Neste sentido, levava consigo os famosos dizeres: "Seja Marginal, Seja Heroi". Com esse espírito, por exemplo, foi expulso do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, em 1965, por levar integrantes da Mangueira vestidos com "Parangolés" - isso mesmo, pasmem, o mesmo nome da banda que lançou o hit Rebolation. "Parangolé" fora uma invenção do artista plástico que consistia, nas palavras do Wikipedia, em "uma espécie de capa (bandeira, estandarte ou tenda) que só mostra plenamente seus tons, cores, formas, texturas, grafismos e os materiais com que é executado (tecido, borracha, tinta, papel, vidro, cola, plástico, corda, palha) a partir dos movimentos de alguém que o vista. Por isso, é considerado uma escultura móvel". Vale lembrar também que a ideia dos parangolés foi inspirada em panos usados por mendigos do Rio de Janeiro. Sim, Rebolation, além de bom bom bom, também é cultura.


Documentário de Ivan Cardoso, 1979

Fora os "Parangolés", outra figura marcante da obra de Oiticica são os "Penetráveis", labirintos nos quais o espectador, ao entrar, interage de modo sensorial, através de olfato, paladar, visão e audição. Mostrando que para além da relação unilateral de contemplação, o público deve ser ativo e interferir no desenrolar da obra cujo funcionamento depende da atitude do próprio público. Deste modo, Oiticica brinca com a inércia e conformismo das pessoas, que simplesmente aceita o que lhes é imposto.

Oiticica foi um dos inspiradores e integrantes do Movimento Neoconcreto e Tropicalista, o qual considerava a "primeiríssima tentativa consciente de impor uma imagem 'brasileira' ao contexto da vanguarda". Infelizmente, no final de 2009, um incêndio destruiu mais de duas mil obras do artista, cerca de 90% de seu acervo que se encontrava na casa de seu irmão.

Sobre o desafio de abordar a obra de Oiticica em uma exposição como a Bienal, Moacir dos Anjos, outro curador, afirma que “serão dois conjuntos. Um deles terá o pensamento de Hélio sobre o que é ser herói, o que é ser marginal e seus ecos na arte de hoje. O outro recorte trará os projetos de utopia e distopia do artista, que serão vistos lado a lado de projetos do mesmo teor de agrupamentos como o Archigram [grupo de arquitetos britânicos utópicos, formado nos anos 60] e o Superstudio [grupo de arquitetos italianos utópicos, formado nos anos 60]”.

De qualquer modo, embora não saibamos o resultado de tudo isso, a Bienal 2010 -, que conseguiu multiplicar seus recursos de R$8 milhões (2008) para R$30 milhões (2010) devido à "adesão da sociedade" (leia-se: dinheiro dos empresários) - indica, nas suas preliminares, que certamente não será conhecida como Bienal do vazio. Melhor ainda, não só incorpora ao seu enredo novos "conceitos", mas principalmente novas práticas artísticas. Práticas essas que inclusive, metalinguisticamente, questionam a própria tradição da exposição. Junto com os pichadores, Oiticica invade a Bienal e picha em suas paredes, com letras garrafais e indefinidas, outra de suas frases favoritas, título de um de seus manifestos sobre o lugar da arte: "O Museu É o Mundo".

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Um spray na mão e uma Bienal na cabeça

. . Por Thiago Aoki, com 2 comentários

Em um dos meus primeiros posts por aqui, ainda tímido, tentei mostrar o movimento da Indústria Cultural sobre o Rap e Grafite, artes, em geral, vinculadas à contestação social. Durante essa semana, Monica Bergamo, em sua coluna da Folha de São Paulo, anunciou novo episódio dentro dessa cena artística cuja estética associa-se à periferia brasileira. O informe dado pela colunista é de que dois dos pichadores que realizaram intervenção na Bienal de 2008 foram convidados a participar, desta vez como artistas, da Bienal 2010.

Para quem não se lembra, um dos andares da Bienal de 2008 ficou sem exposição alguma. O espaço - intitulado pela organização como "Em Vivo Contato", mas que ficou conhecido como "Bienal do Vazio" - tinha como proposta, segundo os próprios organizadores, a reflexão acerca das formas de arte. Pois bem, a provocação deu resultado. Primeiro, ainda antes da inauguração, o grupoArac fez a primeira intervenção não-autorizada com "stickers" dos mais diversos, mostrando o passo-a-passo da ação no blog Bien-Mal 2008. Por fim, dias depois aconteceu a ocupação do prédio por pichadores das mais diversas correntes e logo se puseram a expressar no mais vivo contato, através de muita tinta e correria. À época, o posicionamento da Bienal não fora tão amistoso como o desta semana. Pichadores e seguranças entraram em conflito e uma das pichadoras, a gaúcha Caroline Pivetta da Mota, acabou presa e condenada, o que causou revolta até mesmo entre alguns artistas convidados.



Voltando aos dias de hoje, o anúncio de Bergamo é de que o pichador considerado líder da intervenção de 2008, Rafael Guedes Augustaitiz e Djan, outro pichador, serão atrações oficiais da edição 2010. Além daquele episódio, Rafael ficou conhecido por apresentar, como TCC, um ataque de pichação à própria Faculdade Belas Artes e também por liderar pichações à Galeria Choque Cultural, em São Paulo. É também atribuido ao seu grupo, a pichação de um famoso grafite d'Osgemeos, ícones reconhecidos internacionalmente, com os seguintes dizeres: "Cidade em Calamidade - R$200.000,00", em referência ao valor pago pela prefeitura paulistana aos artistas por aquele grafite.

Seria fácil, de trás do computador criticar os pichadores convidados ou pensar que seria mero oportunismo por parte dos organizadores. No entanto, posso me demonstrar satisfeito pelo fato de que um dos líderes dos pichadores participar do evento significa passar por cima do comunicado - esse sim, completamente retrógrado - que a organização soltou em 2008, após remover as pichações e reforçar a segurança. O documento concluia-se com os seguintes dizeres: "O vandalismo causado pela atitude autoritária e agressiva desses jovens representa uma ameaça à constituição de um espaço público coletivo, que respeite a integridade de cada cidadão e o patrimônio material e simbólico de nossa cultura".

Pensar no espaço público como composto por sujeitos passivos e contemplativos contraria inclusive a própria ideia do espaço vazio, ou da mostra intitulada como "Em vivo contato". Naquele ano, questionou-se se a intervenção realizada poderia ser considerada uma expressão artística ou apenas um ato de vandalismo. Em longa entrevista, Carol Pivetta, ainda presa, disse que "tanto grafite quanto picho são underground, coisa do fundão. A parada que eu faço é na rua, pro povo olhar e não gostar. Uma agressão visual". Fugindo do maniqueísmo datenístico de buscar herois ou vilões, os hieroglifos quase intraduzíveis pichados pelas paredes do andar nulo do prédio arquitetado por Oscar Niemeyer trouxe consigo outros incômodos questionamentos: "quem diz o que pode ser considerado arte?"/"existe espaço propício para arte?"/"a arte deve ser contemplativa?". Se a ideia era preparar o espaço para se discutir a arte, a ação dos pichadores deveria ter sido considerada argumentos que colocam o dedo na ferida dos campos artísticos hegemônicos. Entretanto aquele comunicado, bem como a imediata restauração do prédio, fez com os mandachuvas da Bienal perdessem a oportunidade de avançar a discussão extremamente relevante sobre Arte e, num sentido contrário, ainda utilizaram de um legalismo purista para desqualificar, com acusações pessoais de caráter moral, as ações organizadas coletivamente pelos grupos de pichadores.

A Bienal 2010 pode estar tentando corrigir esse caminho, voltando a pensar as novas formas artísticas, por vezes marginalizadas, mas isso dependerá de quão autônoma será a intervenção dos, finalmente reconhecidos, artistas-pichadores. A incorporação dos pichadores ao evento, para além de uma tentativa de trégua após algumas ameaças de novas intervenções, indica um reconhecimento dos pichadores como sujeitos de uma cena artística, ainda que marginalizada. Entretanto, tal fato também abre brechas para um movimento de apropriação da Indústria Cultural sobre a crua contestação.

É pagar pra ver.

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