VÍDEO: MURILO CAMPANHA CONTA ITATINGA

O psicanalista Murilo Campanha fala sobre Itatinga, um dos maiores bairros de prostituição da América Latina, onde ele tem seu consultório.

O nadador

Uma crônica de Hugo Ciavatta.

Ainda que as bolachas falassem

Crônica de Fábio Accardo sobre infância e imaginação

Ousemos tocar estrelas

Uma reflexão de Thiago Aoki.

Entre o amarelo e o vermelho

Uma crônica de Hugo Ciavatta

O homem cordial vinhedense

A classe média vai ao barbeiro. Uma crônica de Caio Moretto.

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domingo, 18 de março de 2012

O cinza de David Small

. . Por Unknown, com 3 comentários

"(...) cuando el enfermo se acostumbraba a su estado de vigilia,
empezaban a borrarse de su memoria los recuerdos de la infancia,
luego el nombre y la noción de las cosas,
y por último la identidad de las personas
y aun la conciencia del proprio ser,
hasta hundierse en una especie de idiotez sin passado."
(G.G. Márquez)

Nos últimos anos, muitas são as HQs (Histórias em Quadrinhos) autobiográficas. Uma rápida pesquisa pela internet traz nomes como “Fun Home”, de Alison Bechdel, “Mas ele diz que me ama”, de Rosalind Penfold, “Essa Bunch É um Amor”, de Aline Kominsky-Crumb, e “Persépolis”, de Marjane Satrapi. Essa última, inclusive, ficou bastante conhecida com a adaptação ao cinema. Mas inventariar essas publicações - curiosamente escritas por mulheres -, numa verdadeira obsessão "estatística" a procura de elementos recorrentes nesse cenário, não parece responder à razão do suposto crescimento de títulos desse gênero. Mesmo que um hipotético painel dessas publicações fornecesse uma visão das temáticas presentes nas histórias de cada desenhista, suas mais variadas origens pelo mundo, épocas e influências, traços e grafias igualmente diversificadas, haveria de haver aquela historia pra nos deixar desconcertados. Foi assim que passei dias, semanas com “Cicatrizes”, de David Small.


Não conhecia “Cicatrizes”, nunca tinha sequer ouvido falar do autor, mas a capa (à esquerda), o cinza, a opacidade, a fresta pela qual corre a luz do quarto depois da escada, tudo isso me assustou. Eu tampouco sabia que o livro era autobiográfico. Mas com ele em mãos, era apenas uma história que parecia envolver medo, suspense e, quem sabe, terror. A contra capa (à direita), no entanto, diz que o rosto de um jovem, de um homem, carrega o menino que outrora foi. Qualquer obviedade, porém, fica para trás com a leitura, que se torna apressada a cada página, tal é o envolvimento que provoca. Uma tarde, uma manhã ou uma noite, que seja, é o suficiente para não descansar enquanto não virar a última página do livro. É como se fôssemos engolidos pelo papel.

Engolido tal como o menino David nesta imagem (abaixo). A referência a Lewis Carroll e ao “Alice No País das Maravilhas” é explícita, já que Alice cai na toca de um coelho e vive uma aventura fantástica, imaginária, como que adentrando os meandros de seus sonhos. David Small, todavia, foge da mensagem de Carroll e mergulha no real, duro, pétreo. Os quadrinhos, os desenhos dele talvez fossem o recanto de seus sonhos, a forma de não ver tão de perto o mundo ao redor.


Porque o mundo de Small, então menino e adolescente, é mais de sombras que de lugares, é mais de esguelha, mais de fechaduras, mais de repreensões que de sorrisos. E isso se reflete em quase todos os personagens da trama, em seus familiares, especialmente. A câmera que os retrata tem a lente torta, quebrada, desajustada, esvazia-os, eles raramente têm olhos, muitas vezes, somente os óculos preenchidos de branco encontram o leitor. A vida de Small não é uma história de terror, é apenas real, demasiadamente.

A exceção é o analista com que o jovem David Small conversa. Novamente, a referência a Carroll é evidente, pois o analista aparece como um coelho, como aquele que guia ou inquieta Alice. É ele quem lhe diz o que é quase impossível para qualquer um, ainda mais para uma criança, aceitar: a mais absurda revelação, tão clara ao longo daqueles anos todos. Se nossas convenções não permitem imaginar, o traço de Small não, era apenas uma questão de tempo para nos assaltar, percebemos em seguida. Depois das palavras do coelho, o que Small descobre não tem nada demais, é absolutamente normal. O casamento insosso dos pais, a infelicidade de todos e a dificuldade por representar uma vida que eles não queriam. Após aquelas palavras do terapeuta, segue o silêncio de Small, o grito, o sufoco e, finalmente, o universo dele parece humanizado. Seus familiares, seu mundo, a Detroit em que viveu, todo o cinza, se não adquire cor depois disso, pelo menos o faz deixar o absurdo e encarar cruamente a tristeza.

Por fim, me lembrei de François Dosse, em “O desafio biográfico”. O filósofo francês, ao recuperar diversos pensadores desse gênero tão controverso, diz que textos (auto)biográficos quase que desidratam o passado para consumo, como se retirassem dele a intensidade do trágico, ao mesmo tempo em que o deixariam doce, singelo, agradável para o hoje. Assim, nessas escritas de si, o passado passaria a ser visto de maneira encantada. Para Dosse, ainda, poderíamos imaginar encontrar nesse gênero a conhecida reafirmação do Eu, dos escritores, do autores desses textos, ou da busca por modelos de vida para os leitores. Dosse, porém, talvez não dissesse isso se tivesse diante dele a história e os desenhos de David Small.

(para Fábio Accardo de Freitas, que faz anos hoje)

terça-feira, 19 de abril de 2011

Vinho: "Ovinho"

. . Por Fábio Accardo, com 3 comentários

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Da Felicidade

. . Por Fábio Accardo, com 1 commentário

quarta-feira, 16 de março de 2011

Miséria S/A

. . Por Fábio Accardo, com 3 comentários

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Meus devaneios pelos quadrinhos

. . Por Fábio Accardo, com 4 comentários

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Divulgando - Rica Miséria

. . Por Thiago Aoki, com 3 comentários


Paralelamente ao glamour espetacularizante da bienal do livro, um grande lançamento de pequeno alcance: a Revista Miséria número 4. Devorei-a em coisa de 15 minutos, mas até agora não consegui digerí-la. Isso porque pensar na miséria dói, seja por culpa reprimida ou por saber-se miserável, ainda que não em um aspecto não monetário. A crueldade dos quadrinhos miseráveis nada misericordiosos enclausura-nos num canto do cômodo, põe a faca em nosso pescoço e pergunta até quando ser conivente. Com desenhos que trafegam dos traços sutis ao "cru-que-incomoda", coloca-nos a pensar, em forma e conteúdo, em arte e mundo, em necessidades e ostentações. Certo dia alguém me pegou de surpresa: é preciso resistir, mas resistir a quê? Para os cartunistas, a resposta, me parece clara: à (ir)racionalidade do mundo do trabalho.


As contradições, feridas que incomodam, expõem-se em seguidos choques. Ricardo Flóqui, Batata e João da Silva, os três incansáveis quadrinistas, parecem ter uma sinergia intensa. Todas as páginas fluem e todos os quadrinhos se convesam, fazendo da miséria - a revista e a categoria - algo sólido e contagiante. Parece-me que ler a Miséria é também passear inconscientemente por nomes que exaltam a crítica social - como Edgar Vasques, Quino e Glauco - ou que destacam o politicamente incorreto - como Allan Sieber, André Dahmer, Fábio Moon e Gabriel Bá. Também é um pouco tarantinesca, por que não? Cabe ressaltar que esta quarta edição tem um salto editorial gigantesco para as demais. Primeiro por intercalar-se com textos, poesias e trabalhos externos, todos de alta qualidade (como o de nossa última "Coluna do Leitor"). Segundo pela qualidade da impressão que, cada vez mais, ruma à possibilidade de um mercado que faça os criadores da revista, finalmente, realizarem o principal sonho de suas vidas: viver de quadrinhos.

Além do trabalho editorial, os incansáveis e insaciáveis miseráveis, cujo dia parece ter mais de 24 horas, participam de movimentos sociais, fazem oficinas de quadrinhos, ocupam espaços públicos e ainda arrumam tempo pra cantinar.

A Revista Miséria pode ser adquirida por míseros e injustos R$3,00 na Banca Central (Barão Geraldo - Campinas), no HQ QG (em frente ao Restaurante Universitário da USP), no site oficial do Miséria HQ, no Sebo Galpão (Barão Geraldo), no Pagode do Souza (todas as segundas à noite no IFCH - Unicamp), na Banca Túnel do Tempo (Taubaté), entre outros locais obscuros.


Em tempo: nós do Mistura Indigesta fizemos, cerca de 5 meses atrás, uma extensa entrevista de boteco, regada à água de coco e suco de laranja, com os cartunistas do Miséria, porém ela ficou muito extensa e com necessidade de censura e edição (hehehe), coisa que foi impossível ocorrer, por isso nossa dívida com o grupo, que pagaremos em algum botequim campineiro.
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Se você possui ou conhece algum projeto que mereça ser divulgado, contate-nos pelo misturaindigesta@gmail.com e divulgaremos gratuitamente.

domingo, 30 de maio de 2010

Mal Humorado

. . Por Thiago Aoki, com 2 comentários

Acho que as pessoas me consideram extrovertido, alguns, menos criteriosos, até me acham engraçado. Outros, amigos mais antigos, reclamam da repetição das piadas sem graças após sofríveis anos de convivência. Mas, de fato, o humor - do pastelão ao sarcasmo fino - sempre me perseguiu.

Hoje, fiquei um bocado receoso com a interessante entrevista do cartunista Quino para a Ilustrada da Folha de São Paulo. O tom que a edição da reportagem apresentou demonstra um Quino tanto quanto ranzinza, niilista, descrente. Que se sente idiota em posar para fotos jornalísticas e observa nos humoristas uma "raça em extinção". Se Mafalda, sua principal e mais notável personagem, acreditava em um mundo melhor, estava enganada. "Repare que de Adão e Eva saiu um filho assassino. Logo, de quatro pessoas que havia no mundo, 25% era um delinquente. Então não mudou nada. Somos assim". Para Quino, explicar o fato de a Mafalda continuar sendo atual, mesmo tendo acabado em 1973 é tão simples como identificar as loucuras que aconteciam no castelo de Hamlet com a atual Casa Branca: a sociedade nada mudou e "o ser humano segue tão mal como sempre".

A primeira dificuldade é ouvir isso de alguém que lutou contra um dos mais crueis regimes ditatoriais. A segunda é olhar para a televisão, para a rádio, para o teatro e notar que o "humor" é fórmula do sucesso midiático e cultural. Como se dizer que o mundo está tão ruim como outrora e que os humoristas estão em extinção?

"Nós humoristas éramos um pouco as pessoas que denunciavam situações que nem todo mundo se dava conta. E, agora, o que se vai denunciar? Há vários livros denunciando de tudo na política e não acontece nada. Antigamente você desenhava algo e ia preso. Agora, nada importa."

Parece um pouco aquilo de que Caetano Veloso em alguma de suas entrevista disse sobre o fato de que a ditadura militar, de certa forma, levou a uma época de rara criatividade na cultura nacional. Mas o que não me encaixa na cachola, tanto na fala de Quino como de Caetano, é entender por que a democracia, essa liberdade pela qual ambos lutaram, levaria ao ostracismo, à inércia cultural ou humorística. Hoje, a febre no humor é o stand up comedy, que inclusive um de nossos Indigestos já se engraçou de fazer. O fato das denúncias do cotidiano apresentadas pelos comediantes não serem reprimidas como um quadrinho de Quino durante a ditadura Argentina não indica necessariamente a perda da importância ou dimensão do humor nas sociedades. Nos quadrinhos brasileiros, por exemplo, temos uma safra magnífica de quadrinistas assim como os grandes d'O Pasquim, citados por Quino como exemplo. Só para citar alguns contemporâneos: Laerte, Adão Iturrusgarai, Allan Sieber, André Dhammer, entre outros.

Todos que me leem e conhecem sabem que não sou fã, nem entusiasta da democracia de mentirinha que vivemos e da sociedade de e para o consumo da qual fazemos parte, muito pelo contrário. O que quero dizer, e defender, é que, para além de questionar a qualidade do que surge em nossa época ainda temos que aprender a lidar com democracia, tecnologia e liberdade. Quesitos que nunca tivemos com tanta abundância e ênfase, mas cujos resultados ainda são altamente questionáveis. E talvez seja essa dificuldade que perpasse a entrevista do cartunista argentino. Somos livres? Somos democráticos? Para que(m) serve a tecnologia? É isso que está em disputa e em questão para todos os segmentos, inclusive o cultural. E a resposta que construiremos é que nos ajudará a propor um novo mundo. Sem nos esquecermos, entretanto, que essa resposta só pode existir COM os três elementos - democracia, tecnologia e liberdade - ou alguém acha que pode viver sem algum deles? Então, é melhor que lutemos, como diz aquele profético samba do Paulinho da Viola, "sem preconceito, nem mania de passado / sem querer ficar do lado / de quem não quer navegar". É isso que esse Blog tenta fazer.

quinta-feira, 18 de março de 2010

O dia em que Jesus matou o criador (a Glauco)

. . Por Thiago Aoki, com 1 commentário

Relutei, mas foi inútil, seria impossível não falar de Glauco.

É que senti uma raiva imensa de não ter falado dele ainda vivo, como por vezes havia planejado. Com certeza, seria alvo de alguma matéria envolvendo a tríade que compunha com Laerte e Angeli. Mas a raiva é porque agora, estapafurdiamente, matérias a mil vem sendo publicadas na grande mídia, em geral recheadas de hipocrisia e oportunismo. Parece que mais importante do que a biografia e órfãos personagens deixados pelo cartunista, tem sido o assassinato em si. Já houve quem diga que o caso ressucita a velha falácia da pena de morte. Mais ainda, a culpa seria do Santo Daime e seu teor alucinógeno. Por outro lado, alguns colunistas políticos que sequer algum dia dissera algo sobre o cartunista ou história em quadrinhos, hoje o colocam como o grande mártir opositor de Lula - esquecendo-se da oposição veemente que o próprio Glauco fizera a todos os governos anteriores. Show de horror e sensacionalismo instrumental dos velhos abutres que fazem com que a perda irreparável em nossa cultura se transforme em mero episódio das páginas policiais.

De todas mesmo, a melhor e mais digna foi a cobertura da Folha de São Paulo, que num primeiro momento deixou todos os espaços para charges e quadrinhos em branco, com a assinatura do falecido, e depois lançou dois cadernos com homenagens ao artista. Gostei também do jornal ter comparado a importância de Glauco, pai de Geraldão, para o Brasil, como a de Charles Schulz, pai de Snoopy para os EUA ou de Quino, pai da Mafalda, para a Argentina. Foi, inclusive na própria Folha, na seção infantil (Folinha), que conheci Geraldinho, que logo virou Geraldão, que me apresentou pra Dona Marta, que me mostrou o Casal Neuras, que apontou Doy Jorge, que jurava que já havia sido abduzido pelos Ozetês, que mais pareciam Los 3 amigos, disfarçados, fugindo de Nojinsk, que na verdade apenas procurava por Faquinha. De fato, os quadrinhos de Glauco e companhia deixavam mais forte o café matinal e mais fácil de ignorar a sujeira do banheiro de minha república durante a sua utilização.

O humor ácido e ligeiro do quadrinista - muito bem descrito em uma crônica de Marcelo Coelho em 1987 - traz consigo uma falsa ingenuidade das mais interessantes. Vale-se de exageros do cotidiano para criticar costumes, políticas e conservadorismos dos mais prejudiciais. Infelizmente, pouco se fala hoje sobre a possibilidade de integração dos quadrinhos com a educação, numa didática multidisciplinar que acrescentariam muito às aulas formais. Tampouco se diz sobre o descaso e preconceito com o qual o quadrinho de costumes vem sendo tratado, muitas vezes não como arte, mas simples ilustrador das notícias, feito o pianista que toca na praça de alimentação do shopping, para ninguém ouvir, apenas adornando o refeitório. Discussões estas que seriam muito mais bem-vinda do que aquilo que ando lendo por aí sobre sua morte.

Por fim, o mais bonito mesmo ficou por conta da homenagem de todos os cartunistas, reconhecendo o grandioso trabalho de Glauco. O blog Universo HQ fez uma, digamos, arrecadação de todas essas homenagens e colocou em seu site. Vale a pena apreciar uma por uma, mas deixo aqui, duas das que mais gostei, talvez por terem sido desenhadas por amigos próximos ao cartunista. A primeira, feita a quatro mãos por Laerte/Angeli, mostra uma árvore, em meio à cidade cinza, em cujo tronco surge um dos semblantes dos desenhos de Glauco. A segunda, de Caco Galhardo, que se auto-identifica como discípulo do quadrinista, mostra, sobre uma pilha de diversos livros teóricos, típicos de uma formação intelectual requintada, uma "Love Story" do Geraldão.

Esse post, na verdade, menos do que celebrar o sétimo dia da morte de Glauco, foi simplesmente um pretexto para a mea-culpa feita no início do texto e também para exibir esses dois quadrinhos, que, para mim, são os que mais sintetizam o vazio deixado por Glauco, irreparável por estas enúmeras postagens que surgem, ou pela pífia e infame prisão de alguém que, ironicamente, se identifica como Jesus, o redentor.

"Quando eu saí deste mundo
Eu deixei minha porta aberta
Eu deixei minha porta fina
Para ver quem me acerta "
(trecho de um dos hinos composto por Glauco, para sua igreja)

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