VÍDEO: MURILO CAMPANHA CONTA ITATINGA

O psicanalista Murilo Campanha fala sobre Itatinga, um dos maiores bairros de prostituição da América Latina, onde ele tem seu consultório.

O nadador

Uma crônica de Hugo Ciavatta.

Ainda que as bolachas falassem

Crônica de Fábio Accardo sobre infância e imaginação

Ousemos tocar estrelas

Uma reflexão de Thiago Aoki.

Entre o amarelo e o vermelho

Uma crônica de Hugo Ciavatta

O homem cordial vinhedense

A classe média vai ao barbeiro. Uma crônica de Caio Moretto.

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terça-feira, 19 de outubro de 2010

Elite Responsável?

. . Por Thiago Aoki, com 11 comentários


"É reconhecidamente um dos pontos de comércio mais elegantes da cidade. A rua, de acordo com a Mystery Shopping International, foi eleita uma das oito ruas mais luxuosas do mundo, e é o mais pujante símbolo dos Jardins, região de São Paulo que concentra grande parte do comércio de rua de luxo do país. Uma ampla reforma foi realizada durante 2006 ao custo de 8,5 milhões de reais, com enterramento de fios e padronização do mobiliário urbano. Cerca de metade do valor das obras é de origem de verbas municipais. No convite acerca da inauguração distribuído à imprensa, lia-se em um trecho: 'Poeira, marteladas e barulho acabaram. No lugar dos operários, homens e mulheres bem vestidos e com a aparência favorecida em todos os aspectos voltam a circular pelas calçadas da rua Oscar Freire'." (trechos retirados do Wikipedia sobre a rua Oscar Freire, São Paulo)

Lá, na rua Oscar Freire, nas paredes de uma loja especializada em óculos de sol, acaba de ser inaugurada uma exposição com fotos clicadas por moradores de rua. Antes, os mesmos passaram por 5 meses de curso em fotografia digital. A ideia é fruto de parceria entre o Instituto Brasis e a loja Op Art, dos quais Marcos Amaro é presidente e dono, respectivamente. A exposição, na sequência, deve passar pela Daslu, loja de artigos de luxo localizada no bairro do Morumbi cercada por imensa favela.

Luz de Velas. Foto de Marli Pereira Dias, moradora de rua.
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Há algum tempo, a mesma Daslu, cuja dona é Eliane Tranchesi, cedeu, polemicamente, espaço para o lançamento do excelente livro do rapper brasileiro MV Bill, intitulado "Falcão, meninos do tráfico", que relata situações de violência vividas por crianças das favelas brasileiras ligadas ao tráfico de drogas. À época, Lúcia Mineiro, socióloga - tinha que ser! - chamada para dar uma palestra durante o evento, causou alvoroço:

- "Estamos aqui na Daslu, no templo do consumismo! Isso aqui também é responsável pela violência."

Imediatamente, a líder comunitária da favela pegou o microfone, defendeu a - segundo ela - "amiga pessoal" e dona da botique, emocionando os clientes presentes.

- "O que essa mulher [Lúcia] falou não tem nada a ver! Misturou consumismo com violência! Estamos aqui num evento tão bonito..."

Por fim, foi a vez da própria Eliane, que nove meses antes havia sido presa por sonegação fiscal, advogar-se a si mesma.

- "Ela tem que entender que o consumo é bom! Nós, empresários, geramos empregos, pagamos impostos, gente!"

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As imagens expostas na Op Art por moradores de rua impressionam pela qualidade das imagens e densidade autobiográfica que contêm em si, escapando de estereótipos ou dramatizações autopiedosas. Assim como o livro de MV Bill, além de muito bem escrito, mostrou um Brasil errante, até então pouco conhecido em tamanha riqueza de detalhes.

O que está em questão, no entanto, não é a qualidade dos trabalhos, mas a estratégia do "choque" provocado ao levar para a elite realidades tão contrastantes através da arte. Há tempos ouvimos sobre a "perversidade de nossa elite". Alguns pensadores reformistas defendem uma modificação cultural e humanista nas classes dominantes como condição para que haja o bem estar social - ou, nas palavras de Marcos "o capital é uma ferramenta quase sempre usada para gerar mais capital. Eu estou tentando entender como usar ele para criar cidadania”. Mas para mim, o argumento de diminuir o hiato entre as classes é inconsistente. Porque simplesmente não há um hiato, hiato algum, entre o consumidor da alta moda e o morador de rua ou traficante da favela. Há, sim, uma relação de interdependêcia e de dominação. Porque, em última instância, a socióloga está certa, todos queremos aquele tênis, aquele vestido, aquele sanduíche - seja qual for a classe. A "arte social", neste caso, posta à contemplação nas paredes ou limpando nome de marcas, não basta. É preciso algo maior que isso e menor que um assalto. Se quer tocar e modificar de verdade a elite, a arte à ela levada deve conter o tom de denúncia, mostrar sua responsabilidade como topo da pirâmide. Talvez a fala da socióloga pode ter sido uma boa tentativa, mas além de constrangimento e subsídio para essa postagem, pouco efeito surtiu. Isso porque dizer aos templos do consumo qual seu papel nesse circo de horrores ultrapassa os limites da vinculação da marca às questões sociais, "pega mal". Aí que está: Por mais que seja tudo bem intencionado, há um hiato, aí sim, entre o que transforma de verdade uma atitude e o que apenas serve como desencargo de consciência ou valorização da marca.

Esse é o ponto de meu ceticismo.

Espero estar errado.

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