Começou nesta terça-feira (21/o9) a aguardada Bienal Internacional de Arte de São Paulo 2010. Com o orçamento muito maior do que o de 2008, a ideia é que o "vazio" da edição anterior seja preenchido. Para isso, uma variedade de estilos e performances que abordarão a conturbada relação entre Arte e Política. Ironicamente, o episódio que agita as preliminares do início das exposições parece justamente exemplificar os emaranhados que envolvem o fazer arte/política em nosso país. O fato é que a OAB-SP ameaça lançar veto ao trabalho do artista plástico pernambucano Gil Vicente, que fez um autorretrato (abaixo) pra lá de provocativo, no qual o próprio artista está em posição de assassinar os dois últimos presidentes da república: FHC e Lula. Segundo a entidade, a imagem faz "apologia à violência".
Segundo o autor da polêmica, a ideia era "descarregar o inconsciente" e afirma ainda que sua lista possui outros nomes como o papa Bento 16, George W. Bush, a rainha Elizabeth e Ahmadinejad, presidente iraniano. Todos personagens que representam intimamente o poder. A organização da Bienal, acertadamente, fez questão de manter a exposição em lugar de destaque e espera que a OAB recue a violação contra a autonomia do artista.
O caso e o trabalho do artista nordestino me remeteu à fotógrafa inglesa Alison Jackson, autora do livro de fotografias "Confidential" (imagens abaixo, clique para ampliar). Seu trabalho, muito interessante, consiste em fotografias com contornos de voyeurismo, na qual personalidades famosas são retratadas, como se fossem "flagras" dos paparazzos. Obviamente que os modelos fotográficos são apenas sósias muito bem maquiados, porém a brincadeira com o escândalo e com a sociedade do espetáculo, na qual as celebridades, ou melhor, suas imagens detêm poder desproporcional, é divertidíssimo.





A sensação que temos ao observar essas fotos, é um choque de realidade. Como se a relação tão íntima e distante que temos com a imagem de cada celebridade ruísse e, agora, temos não mais um ícone idealizado, mas um imoral qualquer, de carne e osso, que participa de orgias, faz cocôs, maltrata crianças. Como se a imagem fosse um valor de troca, um componente do status quo.
Seja pela inglesa ou pelo pernambucano, ambos, de certo modo, vingando-se dos centros de status e poder, fica claro que, para a arte que contesta ou subverte a normalidade, independente do mérito de sua ação, é necessária relativa liberdade. Deve ser permitido que no imaginário, nosso e do artista, matemos presidentes, estraguemos celebridades ou pintemos paredes antes limpas. Como cada um recebe as balas - ora subjetivas, ora cruas - disparadas pela arte é outra história.
Independente de ser descrente ou entusiasta da arte de Gil Vicente como ação política (se é que há uma ação política), espero que o artista pernambucano vença a queda de braço institucional e, assim como Alison Jackson, possa expressar suas angústias com o exagero que lhe parecer necessário. Do contrário, caminharemos no sentido oposto, no caminho da arte adestrada, da arte boa-conduta, e, pior, da obviedade.
Independente de ser descrente ou entusiasta da arte de Gil Vicente como ação política (se é que há uma ação política), espero que o artista pernambucano vença a queda de braço institucional e, assim como Alison Jackson, possa expressar suas angústias com o exagero que lhe parecer necessário. Do contrário, caminharemos no sentido oposto, no caminho da arte adestrada, da arte boa-conduta, e, pior, da obviedade.
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Posts anteriores sobre a Bienal 2010:
Um Spray na mão e uma Bienal na cabeça.
Bienal 2010 - Política, Rua e Rebolation