VÍDEO: MURILO CAMPANHA CONTA ITATINGA

O psicanalista Murilo Campanha fala sobre Itatinga, um dos maiores bairros de prostituição da América Latina, onde ele tem seu consultório.

O nadador

Uma crônica de Hugo Ciavatta.

Ainda que as bolachas falassem

Crônica de Fábio Accardo sobre infância e imaginação

Ousemos tocar estrelas

Uma reflexão de Thiago Aoki.

Entre o amarelo e o vermelho

Uma crônica de Hugo Ciavatta

O homem cordial vinhedense

A classe média vai ao barbeiro. Uma crônica de Caio Moretto.

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segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Meneghetti. Um texto em fuga.

. . Por Caio Moretto, com 1 commentário

Fuga é um estilo de composição musical em que um simples tema é imitado em várias vozes se sobrepondo, se complementado, se procurando e se evitando. Fugare, perseguir. Fugere, fugir.

Este post é sobre um texto em fuga.

Meneghetti é um daqueles personagens entre a ficção e o real. Conhecido como o Gato dos Telhados, assim como a personagem fictícia de Augusto Boal em Contos de Nuestra América, o chamado “bom ladrão” Gino Meneghetti disputava o ódio e a admiração secreta de quem acompanhava seus golpes e aventuras.

“Jamais roubei um pobre. Só me interessa tirar dos ricos, e tirar jóias, que são bens supérfulos que só servem para alimentar a vaidade”. (Frase de Gino que explica bem sua fama de bom ladrão)

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Carreira incrivelmente longa para a profissão, foi preso pela última vez aos 92 anos tentando arrombar uma casa. A versão de Meneghetti é outra. Teria sido reconhecido por um policial que identificando o maior ladrão de São Paulo quis fazer nome as suas custas.

Verdade ou não, foi lá que o prenderam e foi lá que Mouzar Benedito fez questão de lançar seu novo livro Meneghetti: o gato dos telhados, pela coleção Paulicéia.

Eu talvez fosse o único na ocasião que não conhecesse pessoalmente o autor. Esta primeira impressão que tive foi logo colocada em cheque quando, com a mesma espontaneidade e o mesmo sorriso que confraternizava com os amigos, me incluiu na conversa como se sempre tivesse pertencido ao grupo.

A primeira pergunta não foi minha, mas anotei como se fosse.

Ta dando para viver de livros?

Mouzar IIMouzar revelou alguns números, fez umas contas em voz alta e, em tom alegre, mas sem perder a oportunidade, concluíu.

Se eu estivesse dependendo disso para viver já teria morrido de fome uns 10 anos atrás.

Sabia que a entrevista continuaria enquanto ele estivesse assinando contracapas e, para a minha sorte, de uma sacola, a senhora que puxava conversa tirou logo três exemplares.

Todo mundo gosta do Meneghetti. Eu saí até na Folha.(Risos) Eles não escreviam sobre nada que eu fazia há uns 10 anos.

Compartilhei os risos e me senti no direito de fazer uma pergunta.

O senhor conheceu o Meneghetti?

Não.

Demorou um segundo em pensamento. A frase seguinte só poderia começar com um “mas”.

Mas sabe que depois que estava escrevendo o livro descobri alguns amigos que estiveram presos junto com ele. (risos)

Naquele momento a resposta me pareceu natural. Porém com os livros em mãos a leitura flui de tal forma que cheguamos a duvidar: será que Meneghetti não é uma personagem do Mouzar? Talvez um anti-herói criado por Luis Gê que tenha saltado dos quadrinhos para a realidade.

A história de Meneghetti prende a atenção mesmo nos textos jornalísticos da Folha publicados em 1926 e 1976, fato que cria, assim como esse post, uma grande expectativa sobre o livro.

A relação entre escritor e ladrão beira uma cumplicidade ideológica. As interrupções dos comentários em primeira pessoa ao mesmo tempo que desligam o leitor da narrativa, lembram que a história é real e contextualizam os sentimentos paradoxais da sociedade paulista.

O livro ainda republica a HQ de Luis Gê, criada em 1976 para o jornal Versus.

É um resumo em polifonia. Um texto curto, que não perde o ritmo, exatamente porque varia e que busca a história de Meneghetti em várias vozes que se perseguem e se evitam.

Um texto inteiro em fuga: autor, personagem e estilo.

“…o próprio Meneghetti , em certas ocasiões, dizia ser tolice reconhecer um roubo, embora em outras anunciasse que era mesmo o ladrão”. (p.21)

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Dedicatória de Mouzar para o Mistuta Indigesta:

“Para os amigos desta Mistura Indigesta, a história resumida de um personagem que também era indigesto para a elite paulista. Um abração de Mouzar. SP. 28/1/10”

*Imagens e trechos retirados de outros sites e blogs têm link direto com a fonte original.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Crônica Retrospectiva - Casoy, Boal e Neguinho falam pelo Brasil

. . Por Thiago Aoki, com 4 comentários

Pouco assisti das famosas retrospectivas de final de ano, que inundam a TV brasileira todo dezembro. Eu inclusive tentei, mas me irrita a linha seguida pelos mesmos, iniciando com tragédias e escândalos dos mais variados (enchentes, mortes de celebridade,s corrupção na política), transitando até orgulhos de nossa pátria e situações positivas de exceção (Brasil sede da copa e olimpíada, alguém que se curou de alguma doença, entre outros). Essa linha tragédia-redenção, com maniqueísmo de dar inveja a roteirista de comédia romântica hollywoodiana, parece propagar uma esperança ilusória e conformista, numa espécie de "hipocrisia de fim de ano" tão bem desmascarada pela crueldade de Boris Casoy.

Mas se fizesse a retrospectiva do que não foi retrospectado culturalmente, citaria dois brasileiros cuja morte, em 2009, fora praticamente ignorada por toda grande mídia. Falo aqui do carioca Augusto Boal e do baiano Mestre Neguinho do samba.

O primeiro, até foi um pouco mais celebrado, talvez por sua influência dentro do campo artístico brasileiro. O tão endeusado Chico Buarque, por exemplo, compôs o hit Meu Caro Amigo, cuja letra é uma carta destinada a Boal, seu caro amigo. Mas, mais do que personagem central da canção, Boal fora talvez o maior dramaturgo brasileiro, fundador do teatro do oprimido, que mesclava a ação de intervenção social ao teatro, tornando-se referência de importância internacional para a comunidade teatral. Pesquisem os prêmios recebidos, peças dirigidas e hão de se surpreender com o currículo dele. O jornal inglês The Guardian chegou a dizer que "Augusto Boal reinventou o teatro político e é uma figura internacional tão importante quanto Brecht ou Stanislawski". Sua militância no teatro levou o diretor inclusive a ser um dos indicados ao Prêmio Nobel da Paz, em 2008, e a ser nomeado pela Unesco, em Março de 2009, dois meses antes de sua morte, embaixador mundial do teatro.

Já o caso de Mestre Neguinho, que nem na wikipedia está, é mais complicado. Talvez por ser negro, nordestino, ou simplesmente não ser amigo de Chico. Entretanto, a romper com a mídia bairrista de São Paulo, o cortejo de Mestre Neguinho fora levado de corpo de bombeiros pelas ruas soteropolitanas e acompanhado pelas batucadas de Didá, Olodum, Muzenza, Ilê Ayiê, Filhos de Gandhy, entre outros. Todos esses grupos musicais beberam do ritmo inventado por Mestre Neguinho, o Samba Reggae. Ainda assim, o ápice de seu reconhecimento se deu quando o Rei do Pop Michael Jackson, ironicamente também morto em 2009, viera ao Brasil gravar o clipe do hit "They Don´t Care About us", acompanhado pelo Olodum, em plena Bahia. A mistura entre o pop rock e o samba reggae fora ritmada e "orquestrada" por Neguinho.

Não se trata aqui de exigir que a morte de Neguinho e Boal fossem tão lembrados como a de figurões - Michael Jackson, Clodovil, Levi-Strauss etc. Tampouco a ideia igualmente reacionária e simplista de que tudo o que é pop e midiático não presta. Porém, falamos aqui de dois brasileiros que, não só tiveram seus respectivos talentos, mas criaram e inovaram. Um teatro nosso, um ritmo nosso. Nacionalismo? Também não, prefiro a antropofagia. Seria mais uma repulsa por sermos ainda, como disse o historiador Sérgio Buarque de Holanda - também conhecido como "pai do Chico" - "desterrados em nossa própria terra". Por hora, entretanto, limito-me a constatar que, do alto de nossas vassouras, nossa memória curta não é referente apenas às questões políticas.

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