VÍDEO: MURILO CAMPANHA CONTA ITATINGA

O psicanalista Murilo Campanha fala sobre Itatinga, um dos maiores bairros de prostituição da América Latina, onde ele tem seu consultório.

O nadador

Uma crônica de Hugo Ciavatta.

Ainda que as bolachas falassem

Crônica de Fábio Accardo sobre infância e imaginação

Ousemos tocar estrelas

Uma reflexão de Thiago Aoki.

Entre o amarelo e o vermelho

Uma crônica de Hugo Ciavatta

O homem cordial vinhedense

A classe média vai ao barbeiro. Uma crônica de Caio Moretto.

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segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Melô do Bom Contribuinte

. . Por Thiago Aoki, com 1 commentário



- Eu pago meus impostos. Sim, eu pago meus impostos. E o que ganho com isso? Nada, apenas deixo de ser punido pelo Estado caso fosse um sonegador. Agora eu pergunto, pra onde vai esse dinheiro? O que se faz com esse dinheiro? Parece óbvio que o Estado brasileiro não tem condições de gerenciar tanto imposto, trilhões. Olha como é retrógrada a coisa: a agenda do país tem como um dos principais compromissos analisar se fulano torturou sicrano há cinquenta e tantos anos atrás. Deixa isso pra lá, já foi, já morreu todo mundo, era outra época, vamos ocupar nossa política com coisas relevantes, olhar pra frente, projetos que nos torne uma potência. Enquanto isso, quem paga os impostos necessários pro Planalto funcionar? Claro, nós, os contribuintes. É um perfeito exemplo de descaso com o dinheiro público. Há sim o imposto que funciona. Pedágios, por exemplo. Menos morte no trânsito, pistas duplas, segurança, conforto pra quem dirige. Tudo bem, você paga uma quantia lá, mas quando você compra seu carro zero quilômetro, você sorri porque sabe que poderá usufruir de toda sua potência para trafegar com segurança pelas estradas. E parando pra pensar, nem parar no pedágio precisa mais. A tecnologia a serviço do homem.  O imposto que funciona. Fico me perguntando quantas pessoas teriam acesso a telefones se o gestor da telefonia fosse o próprio governo brasileiro. E olha quantos ignorantes não enchiam o saco dia após dia, “vender o país”, como se o país fosse capaz de se administrar. O resultado tá aí, indiscutível. Melhor deixar na mão de quem tem entendimento, know-how, feeling, de quem sabe administrar, afinal, se o dinheiro fosse seu, quem você escolheria para cuidar? Investidores, managers renomados ou o braço estatal? Você pode tentar se enganar, mas no fundo não deixaria ali seu dinheiro. Você trabalhou pra isso, não vai deixar na mão de alguém que não sabe gerenciar nada. Você trabalhou. Não se conformou diante das dificuldades, não aceitou esmola do governo parado, não quis se acomodar no bolsa-miséria como muita gente.  Fez tudo pra vencer. Sabe, tem um filho de uma empregada minha que é assim. Luta, batalha, trabalha de dia, estuda de noite, está quase saindo do curso técnico. Quer ser alguém na vida. Já o irmão dele é um vagabundo. Daqueles que constitui uma família, instituição que já foi sagrada, só para receber o bolsa miséria do governo. Resultado, o rapaz fica encostado dia após dia, faz um bico ou outro, e coincidentemente sempre recebe os “benefícios”, entre aspas, do governo. “Benefícios” que saem da onde? Do dinheiro mal gerido do contribuinte. Onde estão os aeroportos para escoar a produção, a malha ferroviária, a infraestrutura necessária para produção? Viraram cinquenta reais, ou algo assim, no bolso de uma pessoa acomodada, que além de não procurar emprego, sabe-se lá onde vai gastar esse dinheiro. Dá-se o peixe, mas não se ensina a pescar. Mas o governo brasileiro é bom em acomodar as pessoas, estimular o jeitinho. O mais novo jeitinho do século XXI são as cotas. “O mundo tá injusto, vamos nivelar por baixo, vamos colocar pessoas menos capacitadas para pegar as vagas de quem se esforçou mais”. Tenha santa paciência, então vamos lá, pegue a nota do seu filho, que ele se esforçou pra poder receber a mesada, e divida com os amiguinhos. Ou então faça com que na seleção basileira seja obrigado a ter um jogador com mais de 120 quilos, para equilibrar. Até brinquei com minha filha, sugeri que ela intensificasse o bronzeamento artificial que ela faz duas vezes por semana pra ela falar que é afrodescendente, porque nesse país negros merecem mais, onde já se viu. Não sei como eles aceitam. Se eu fosse negro, numa boa, numa boa mesmo, não aceitaria esse atestado de incapacidade. Aí o cara vai lá, entra sem preparo, chega na universidade, atrasa o ritmo da turma, depois querem reclamar da qualidade da educação. Olha, eu mesmo acredito que educação é fundamental, sem mão de obra qualificada jamais chegaremos a algum lugar. Mas veja a bagunça. Não sei quantos dias de greve, daqui a pouco tá no calendário acadêmico dos caras: vestibular para os desqualificados, trote, matrícula, aulas, greve, greve, quebra-pau, aumento, aulas de novo. Meu filho mais velho poderia ingressar em qualquer faculdade, garoto inteligente, esforçado, não é um vagabundo qualquer. Mas eu preferi que ele não passasse por isso. Já pensou, não conseguir entrar por ausência de melanina na pele, ou ter que ficar à toa em casa por greve de baderneiros. Tudo errado... Outro dia um amigo mandou um vídeo no youtube, chamado “Baderneiors em greve”, pode pesquisar. Os caras numa boa fumando um baseado numa rodinha. Agora entendo porque não querem a polícia por lá... Aí a câmera dá uma rodada, tem dois caras se beijando. Isso mesmo, dois caras. Afinal, é uma greve ou pretexto pra não estudar e fazer pederastia? Não que eu seja contra dois caras... sei lá... se beijarem. Mas precisa fazer isso no meio de todo mundo, todo mundo tem que ver isso? Desnecessário. Se fosse só por gostar um do outro não iam querer ficar se exibindo.  Enfim, Deus que me livre. Coloquei logo o moleque em uma instituição privada, e quero que ele faça os dois últimos anos nos EUA, um convênio com um centro de pesquisa ótimo, “Massachusetts Institute of Technology”, referência mundial, não um antro de baderneiros que acham que o fim da universidade – paga com o dinheiro, adivinhem só, do contribuinte – é um baseadinho a mais.  É o tipo de gente que vai se formar e dar trabalho no emprego e quem vai pagar o pato mais uma vez? O empresário que contribuiu todo esse tempo e ainda tem que aturar uma mão-de-obra dessa categoria.  Ciclo vicioso. Quem sabe ele mesmo, meu filho, não seja alguém que mude tudo isso. Que volte ao Brasil com a experiência dos países sérios, chegue às instâncias de poder e mude esse sistema canalha e invertido que temos. Quem sabe ele não faça o justo, possibilite que o esforçado filho de minha empregada seja alguém na vida, talvez um supervisor de obras, um exemplo pro irmão vagabundo, que hoje deve rir por ganhar sem fazer nada. Vai ver que é por isso tanta gente pedindo dinheiro na rua, como se a unidade monetária fosse migalha de pão que se distribua aos pombos... Quem sabe meu filho não cresça e mostre que ninguém tem culpa de ter mais dinheiro, de ter mais terra, de ter um carro de luxo. Que, pelo contrário, ter mais é merecimento, que acúmulo é mérito. Quem sabe ele não inverta a lógica do jeitinho brasileiro e seja um exemplo de integridade. Quem sabe o filho acomodado da empregada não sinta orgulho de ver pela tevê uma figura de sucesso como meu filho, que eleva o nome do país, ou melhor, quem sabe ele não se sinta envergonhado de ter por tanto tempo mamado nas tetas do Estado, se acomodando em ser negro e pobre, com a sorte do destino de viver em uma terra onde a escória tem privilégios. Quem sabe ele não se envergonhe por isso, por não fazer sua parte para o país. A democracia precisa de pessoas dispostas à seguir as regras da liberdade, o capitalismo precisa de pessoas proativas. E o que estamos oferecendo ao mundo? O contrário.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

ZOOM IN - ZOOM OUT

. . Por Fábio Accardo, com 0 comentários

REC. Como todo jantar que se preze, a refeição estava atrasada. Muitos eram os motivos. Melhores eram os vinhos. Acompanhavam diversas palavras. Não muito mais que pequenas frases. Diálogos que se findavam mui rapidamente. Costume desses tipos de encontros, onde velhos casais de amigos se visitam para uma comida e creem que a amizade e o papo levam a mesma dinamicidade de 30 anos atrás. Ainda que insistam, quando não se tem muito mais o que assuntar, comentam o passado, num rasgo de saudosismo de tempos compartilhados.

A luminária pendia do teto até próxima à mesa de jantar - de madeira maciça, talhada a mão -, iluminando os traços frutados de vinhos chilenos. Do balcão, que ligava a cozinha à sala de jantar, sugere o anfitrião que as moças escolham um dos discos da coleção de vinis. Das caixas inicia o som estéreo do ao vivo de Elis, Transversal do Tempo, compondo a trilha sonora daquela conversa, embevecidos pelo aroma delicioso do forno.

Entre queijos, azeites, vinhos e memórias, o paladar finalmente foi agradado, ao apreço de Fascinação. Nada muito elaborado. Entre Saudosa Maloca e Boto, a anfitriã, guiada por traços de ameixas, se levanta, caminha até o marido da amiga, tremula os braços em movimento circular, dobra o corpo, abaixa a cabeça, estica a mão e convida-o a uma bela valsa ao som de Cão sem Dono. Momento sublime e de constrangimento para o casal que ainda se encontrava na mesa. Olhares trocados. Convite feito.

Os dois casais a deslizarem pelos tacos da sala. Risadas ao ar. Noite calma. Ritmo temporariamente quebrado pelo som das diversas fitas, CDs e DVDs que no chão caem. Esbarrão dos primeiros dançarinos na pilha de vídeos. Cópias de diversos trabalhos do cinegrafista grisalho anfitrião. Nada que esmoreça o alvorecer dos instintos taninos daquela balada memorialista de tempos pesados.

...entretem-se na troca de casais e embarcam no sambinha de Querellas do Brasil. Sentimento nacionalista exacerbado. Algumas lágrimas controladas. Símbolo da memória corporal dos dias de liberdade arrancada. Como canção de anunciação, Cartomante surge.
Nos dias de hoje é bom que se proteja
Ofereça a face pra quem quer que seja
Nos dias de hoje esteja tranqüilo
Haja o que houver pense nos seus filhos
Filhos bem cuidados. Já moços. Alguns casados, outros na faculdade. Tranquilidade......nos dias de hoje.
Não ande nos bares, esqueça os amigos
Não pare nas praças, não corra perigo
Não fale do medo que temos da vida
Não ponha o dedo na nossa ferida
Analepse. Como se lhe trocassem o filme no projetor. Sai rolo realidade. Uma imagem recente lhe vem a cabeça. Mãos para cima, com dedo médio em riste. De cima do palco a visão era nítida. O público fazia igual e cantava em coro - foda-se vocês; foda-se suas leis (...). A batida sampleada comandando o ritmo. Rap. Sente o peso da câmera no ombro com a vibração do palco. Uma prisão ao final do espetáculo.




Chacoalhar de cabeça. Aperto no peito. Angústia. Sente-se logo aliviado. Nos passos embalados por Elis, dança. Sorrisos. Antes que pudesse esquecer a imagem anterior, dor. Sente a pisada. Aquela unha encravada. Câmera na mão, olhar vidrado naquele que falava. Prédio. Gente. Centro. Mais de cinco anos que ali vivem. Grava.


Realidade. De supetão.
Cai o rei de Espadas
Cai o rei de Ouros
Cai o rei de Paus
Cai não fica nada
Suor. Tensão. Caído. Percebe, do chão, as três cabeças em sua direção. Preocupados o ajudam a levantar. A dor não é na unha. Dói o estômago. Registros. Muitas filmagens. Difícil digestão de uma vida atrás da câmera.

Em tempos de comissões, as verdades aparecem. Sua incapacidade de se envolver mais do que o registro. Trabalho. Era isso. Só isso. Agora, cantar e dançar. Trilha de uma época que abraçou causas. Tempos de fronte à mira. No foco da câmera. Crimes. Censura.
É só um pensamento, bote no orçamento
Nosso sofrimento, mortes e lamentos,
Forte esquecimento de gente em nosso tempo
Visto como lixo, soterrado nos desabamento
Em favela, disse marighella. elo
Contra porcos em castelo
O povo tem que cobrar com os parabelo
Porque a justiça deles, só vai em cima de quem usa chinelo
E é vítima, agressão de farda é legítima.
Barracos no chão, enquanto chove.
Meus heróis também morreram de overdose,
De violência, sob coturnos de quem dita decência.
Homens de farda são maus, era do caos,
Frios como halls, engatilha e plau!
Carniceiros ganham prêmios,
Na terra onde bebês, respiram gás lacrimogênio.

...seus dois mais recentes trabalhos. Filmar. Gravar. Vinhos chilenos. STOP.



_desafio sugerido por Thiago Aoki, indigesto chinês.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

A caçada de Schrödinger

. . Por Caio Moretto, com 4 comentários

para Thiago Aoki
A realidade não precisa de explicação. Ela é. Mark Twain escreveu que a única diferença entre a realidade e a ficção, é que a ficção precisa ser crível. Não se deixe iludir, se essa história parece absurda é porque não foi necessário inventar seus nexos: ela simplesmente aconteceu. Assim como a simetria costuma denunciar a ficção, a falta de sentido deste causo é a maior prova de sua realidade.
Estávamos no sítio do meu avô. Não sei onde ficava. Chamava apenas de “sítio” e me bastava. Eu tinha doze anos, meu avô pouco mais. Os números, principalmente das idades, não faziam muito diferença naquela época. Pensar no futuro era imaginar como eu seria no ano 2000, não como um adulto que projeta seus passos, mas como uma criança que inventa sua própria personagem. A morte, da mesma forma, era uma imaginação distante, que não provocava mais angústia do que a lição de matemática. Nesse dia, porém, eu senti medo.
Vô Bauer se irritou com minha mãe por causa do meu minigame. Como eu já havia fechado os dois jogos que tínhamos não me importei muito quando o meu avô jogou o aparelho no chão, mas fiquei um pouco apreensivo quando ele me pegou pelo braço e me levou para a floresta. “Filho,” – mesmo aos netos, ele sempre chamava assim – “hoje você vai aprender a caçar”.
Vovô me deu um revólver. Hoje sei que era um 38 e tenho minhas dúvidas se servia para caçar, mas na hora eu não pensei nada disso. Como ele pegou uma espingarda, imaginei apenas que minha arma era para crianças e a dele, maior, era dos adultos. Ele já estava bem mais calmo e me ensinou a atirar com bastante paciência. Segurou meus braços para que eu não me machucasse com o recuo da arma e me disse como deveria mirar e esperar a hora certa para atirar. Matamos duas codornas.
Sem balas, meu vô falou para voltarmos. Assim que fizemos meia volta vimos uma pantera. Estava abaixada e nos encarava. “Erwin, estatua e vaca amarela, agora. Quantas balas você tem?”. Eu tinha uma. Achei que vovô ia me pedir a arma, mas não foi isso que ele fez. “Você está vendo as duas?”. Só então reparei na mãe do bicho, em um galho acima de nossas cabeças, com o dobro do tamanho da outra que já me assustava. Lentamente ele tirou uma faca de sua bota e me disse: “eu vou atacar a mãe com a faca, você atira na filha e corre para casa”. “Não, vô, me dá a faca”, respondi. Eu não sei porque meu vô obedeceu, mas acho que na próxima frase você também já não se importará com esse detalhe. Com a mão esquerda, segurei a faca em frente à arma, com o corte virado para mim. Usando-a como mira, apontei entre as duas feras e apertei o gatilho. A bala atingiu a faca e se dividiu em duas: metade acertou o pescoço da mãe, metade o peito da filha. Nós corremos para casa e nunca soubemos se elas sobreviveram ou não. Na correria perdi a faca, mas nunca esqueci essa história.
O leitor pode pensar que se trata de causo de pescador. Não se deixe enganar. Como num poema de Manuel de Barros, asseguro que apenas dez por cento é mentira. E todas as mentiras contadas aqui são cem por cento reais. Só que a história não é minha. Erwin Schrödinger foi um físico austríaco, que viveu até 1961 e nunca teve um gameboy. Essa história é a adaptação de uma de suas memórias, que nunca foi escrita por falta de alguém que a inventasse. Você pode não acreditar, mas eu sou o melhor ghost writer do mundo. “Digo e garanto. Só não assino embaixo.” É meu slogan. Olhe meu cartão de visitas contra a luz qualquer dia. O Budapeste do Chico Buarque, por exemplo, pode ser meu. Ele só não desmente a falsa autoria por que tem senso de humor. Quando o homem atinge o auge da fama, o humor é tudo que lhe resta. Depois do reconhecimento consensual em sua área de atuação, só o senso de humor pode transformar o homem em lenda. Uma carta daqui a 50 anos revelará se o livro é meu ou do Chico e pelo menos um de nós vai dar muita risada. Até lá, o texto é meu e não é.
Erwin_sig2
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sábado, 1 de outubro de 2011

Coluna do Leitor - As aventuras de Gardenal, o último homem livre - Parte II

. . Por Mistura Indigesta, com 2 comentários

Papai e mamãe que me desmintam, mas poucas vezes na vida alguém tem tanto poder como quando escolhe o nome de uma criança.
Tem basicamente dois jeitos de dar nome: o primeiro é ver com que se parece o pequeno ser: coisa meiga, nome meigo; coisa bruta, nome maiúsculo: por isso é difícil conhecer uma pitibul chamada Lilica, por exemplo. Mas – cá entre nós – ainda bem! Imagine agora se essa prática fosse usada em humanos, a quantidade de “inhos” que pululariam dessa coisa chamada apelido por diminutivo! Céus, quantos “fofinhos” e coisas do tipo não apareceriam?? Cê sabe daquele tipo que teima em atribuir apelido às pessoas, naquelas do “ora, não é que parece mesmo??”, imagina então se se faz isso com o nome?? Fora que poucas coisas são mais absurdas que dizer que um recém-nascido “parece com” ou “tem mesmo uma cara de”... Ainda que não sejam todos iguais, vai, mas pra daí dizer que “já” se parecem com??
O segundo jeito também não é muito melhor, embora – é verdade – seja muito antigo. É quando você deseja que seu pimpolho atraia pelo nome determinada característica da qual você gosta. Aí então vai abrir aquele livro da saudosa Tia Cotinha, “Os Significados dos nomes”, procurando alguma luz, alguma força oculta que possa impregnar aquela frágil criancinha. Assim – o que é uma pena – você acaba chamando seu filho de qualquer nome da moda, sem se dar conta de que as características desejadas são socialmente desejadas, no fim das contas, justamente porque todo o mundo quer. Você não é o único que gostaria de ter um filho iluminado ou guerreiro.
Por exemplo, não se tem registro das qualidades futebolísticas do camarada nascido no México em plena Copa de 70, e que recebeu de seu esperançoso papai a alcunha de Felix Carlos Piazza Everaldo Gerson Clodoaldo Pelé Rivelino Jair Tostão. Não, você não entendeu errado: a equipe do técnico Zagallo, então bicampeã mundial, deu nome a um sujeito. [Pelo menos é o que reza a lenda, e se for mentira... tanto melhor!] Exato, estes onze nomes, um depois do outro, compuseram a ópera de batismo do pobre menino. Mas – convenhamos – tudo leva a crer que o pimpolho não fez jus às expectativas do progenitor. Pelo menos não que eu saiba. Ainda bem, de novo! Se com um nome conseguíssemos atribuir características desejadas aos pequerruchos, onde a gente iria enfiar toda a grana que se injeta em programas de cientistas que querem criar brédpitis e giselebinchens?? E para colocá-los num catálogo, a preço tabelado – santa maria madalena! –, pra serem escolhidos pelos papais e mamães que não querem herdeiros feios??? Imagina a baita crise que não ia ser...
Mas o Patrique – se você não lembra quem é o Patrique, não tem problema, porque ele não é importante pra nossa história, mas se você for curioso mesmo, releia a parte I das “Aventuras de Gardenal – o último homem livre” –, que não tem nada com isso, estava lá tentando escolher o nome da criatura em seu quintal. Primeiro alguém – acho que foi a Rô – sugeriu o nome Tobias, que era simples e na moda, afinal, tinha um bonitão de novela que se chamava Tobias. Aí veio a rapaziada – provavelmente o Babá – com a idéia de botar o nome "Bola de Fogo" (♫ ♫ piririm piririm piririmsou eu Bola de Fogo, e o calor tá de matar...” ♫ ♫ lembra? o da “Atoladinha”?). Foi vetado pela ala radical do feminismo, a tradicionalista, claro, a mesma ala que acha que o fanque carioca é a mercantilização do corpo da mulher (a palavra é meio complicada mesmo, mas sabe como é essa gente intelectual). Só que aí a ala feminista prafrentex disse que o fanque, na verdade, é uma arma da libertação sexual da mulher que dá o corpo pra quem ela mesma quiser e portanto é uma tentativa de afirmação da mulher enquanto sujeita na sociedade opressora e blábláblá e bláblábli numa interminável (todas são) assembléia de gente chata.
Por fim, ufa!, alguém – tanto faz quem – se deu conta de olhar praquela criaturinha ali e descobriu, com algum espanto, que, indiferente a qualquer tentativa de lhe botarem um rótulo, ele já tinha um nome. Não como um pedigrí, que vira-lata não é dado à frescura, mas, assim, como que seu. E talvez não seja fortuito o peculiar gosto por filmes de ação daquele aprendiz do Bruce Lí, o tal do Txãqui Nóris. Rola assim, como que uma identificação... um reconhecimento... sei lá, entende?
O nome dele é Gardenal. E ninguém que o conheceu jamais duvidou que este nome lhe cai como uma luva. Há quem diga que foi a escolha do nome que fez com que ele ficasse assim, como dizer, desajustado. Francamente, acho que é prepotência demais. Para mim, Gardenal – que nasceu homem livre – escolheu seu próprio nome. O nome de um desajustado. O nome de alguém que não cabe exatamente no esquema. Alguém “esquisito” e que, portanto, bagunça a cabeça alheia. Alguém que não hesita em viver o que as outras pessoas acham loucura.
Agora, quem duvidar, quem achar que foi o nome que deixou ele meio lelé: que o prove! Mas sem muito blábláblá, pois eu também não tenho muito saco pra isso, né?!
Em tempo, vi que um leitor disse, na primeira parte dessas aventuras, que Gardenal, além de homem livre, é nietzscheniano... Pois então, meu caro, isso eu já não sei dizer, não. Inclusive já mo disseram que ele seria kantiano, hobbesiano, muçulmano e até marciano, veja só! Mas como para filosofia eu não tenho inclinação, e como também não é do meu feitio cometer exagero algum em qualquer prosa que seja, só posso afirmar que o camarada que pensa que é dono do Gardenal tem um gosto, assim, como eu poderia dizer... excêntrico – talvez ele mereça um série de textículos a serem publicados aqui, mas isso, definitivamente, não vem ao caso agora... – e embora tenha mesmo esses troço de filosofia germânica lá na biblioteca dele, eu nunca vi o Gardenal tentando lê-la, não! Nem o jornal que o pobre botava pro Gardenal se aliviar em cima este quis... Ele sempre foi mais chegado mesmo é num matinho, viu... Assim, mais natural, sabe... mais simples... Coisa de gente livre.

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Thiago Fernandes Franco é o Peixe, compete na ala dos leitores mais encrencas que se tem notícia.

Hugo Ciavatta, sim, contribuiu aqui e ali neste texto.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Seção 11/09

. . Por Thiago Aoki, com 2 comentários

(Na seção 11/09 do purgatório, onde as almas falam a mesma língua)

-Além de tudo, jogaram meu corpo no mar.

-Me chamou?

-Não, disse “além de”, e não “Allende”. Dizia que além de tudo, jogaram meu corpo no mar. Até hoje não me conformo.

-Mas também, o que você esperava depois de matar 2996 civis.

-Não fui eu, foram mártires de Alá.

-Mas você comandou.

-Quem comandou foi a vontade de Alá. Feliz aquele que foi escolhido por Alá para ser um mártir.

-Olha, estou aqui no purgatório há 37 anos, e seus "mártires" há 10. Acho que se você e eles tivessem seguido tão bem as ordens Dele, não estariam aqui ainda.

-Malditos americanos.

-Veja, em primeiro lugar, prefiro que diga estadunidenses, pois também somos americanos. E mesmo assim, o povo estadunidense nada tem com isso. Você colocou-se no direito de ser Deus e matar pessoas por causa de disputas políticas religiosas econômicas, em suma, em nome do poder.

-Olha só quem está falando... Seu jeitinho paz e amor que deu certo né? Já pensou que pela sua incompetência e falta de pulso é que o seu país passou 17 anos em uma das piores ditaduras das Américas? Não se sente culpado? E toda essa sua benevolência te deixa aqui, no purgatório, como eu..

-Culpado? Por seguir minhas convicções? Claro que não, morri por elas e morreria de novo. Mesmo que, depois de minha morte, um amigo escritor colombiano tenha dito, com sabedoria, que meu erro foi a “amêndoa legalista que havia dentro de mim”.

-Viu só? Por isso joguei aviões em prédios he he he...

-Você é doente, fanático, o que é diferente...

-Vocês ocidentais, sempre legando ao irracional as atitudes que diferem da de vocês... É essa prepotência de julgamento que gera o ódio, meu combustível. Aliás, você esquerdista, e adorador de poesias, devia conhecer aquela frase de seu amiguinho comunista “O que é o assalto a um banco comparado à fundação de um banco?” É isso que penso! Qual o pecado moral de matar pessoas sujas? Quantas pessoas os americanos mataram depois da gente?

-Não posso estar escutando isso, Bin Laden citando Brecht! Não desvirtue e descontextualize Brecht, pelo amor de meus ouvidos... A frase que você deveria reproduzir era outra: “Pela Razão ou Pela Força”.

-Como?

-É o lema autoritário gravado em nossa moeda chilena. Brincava com amigos que deveríamos mudar para “Pela Razão, NÃO pela força”.

-Besteira, prefiro a frase da moeda...

-É, se “Alá” fez alguma coisa correta foi não te colocar no poder... Ainda bem que o oriente se livrou dessa... Coitados...

-Não precisamos de sua piedade... Nem de dizer o que é melhor para nós... E nem que diga o nome de Alá em vão...

-Pare com isso... Deixe de orgulho, estamos mortos e veja só... Os Estados Unidos financiaram o golpe que me matou e a ditadura sangrenta de Pinochet. O mesmo Estados Unidos que te armou, matou e está criando guerra atrás de guerra para exportar fast foods e importar petróleo no Oriente Médio. E derrotados, cá estamos no purgatório, um lugar sem território, sem nação, sem blocos econômicos, sem dinheiro, à espera do seu Alá.

-Se a mim faltou razão, a você faltou força.

-Acho que você não entendeu nada... A força que quero, não vem dessa militarização ridícula, que reproduz toda a lógica de dominação estadunidense. Quero a força das ruas, do espírito de revolta potencializado de cada chileno... Cheguei a dizer em entrevistas, que, em minha época, o povo tinha o governo, mas não tinha o poder! Jamais sairia matando inocentes por aí...

-Que cuti-cuti Allende! Por que não abre uma ONG? Abraça uma árvore? Quanta ingenuidade... Olhe pra mim... Meu poder vem da minha força! Da minha capacidade de destruir em nome de meus ideais, assim é o mundo, admita. Se chegasse ao poder, como você chegou, criaria a mais poderosa e disciplinada nação. Colocaria cada inimigo de Alá, no mármore do inferno!

-Em tempo de primavera árabe e revoltas estudantis chilenas, espero que, diferente de você, os homens tenham aprendido com a história.

-Aprenderam nada, continuam a ouvir ocidentais... Matam as pessoas erradas...

-Sinceramente, não dá pra conversar com você, é um fascista tal qual Bush, mas ainda mais decadente.

(Silêncio... Bin Laden abre a bolsa e começa a ler o Alcorão, quando é interrompido por Allende)

-Aliás, agora que está morto, por favor, me diga... Você tinha, digamos... Ligações com Bush antes do atentado? Digo, ele já sabia de tudo? Foi uma farsa minuciosamente armada?

-Olha... V-V-Veja bem... É uma questão delicada... Hum... Vamos fazer o seguinte, antes me responda... Você se suicidou mesmo ou foi assassinado pelos militares?

-Não é tão simples assim, o que aconteceu foi que...

(Nesse momento, uma luz amarela radiante paira sobre a cabeça de Allende, cegando-o. Também não consegue nada enxergar Bin Laden, que protege os olhos, ardem muito. Quando, enfim recupera a visão, está sozinho na seção 11/09 do purgatório. Já não há ninguém ao seu lado. Abre o Alcorão e recomeça a leitura.)


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thiago@misturaindigesta.com.br

segunda-feira, 18 de julho de 2011

São João

. . Por Fábio Accardo, com 0 comentários

Não sabia onde se agarrar. Sentia que não havia onde apoiar os pés e que cada vez o puxavam mais forte. Começara a enegrecer o olhar. As últimas forças pareciam estar nas pontas dos dedos, os quais estavam ali fixos na borda daquele órgão tão primordial. Imagens vieram a sua mente. Lembrou-se então de certa noite. Junho, noite de São João, festa. Recordou-se dos passos leves e despretensiosos de certa saia. Parou o caminhar. Imaginou aquelas batidas rápidas dentro do peito e a confusão de palavras que vinham a sua mente, mas que não conseguira pronunciar naquele momento. Dissera qualquer coisa. Os passos continuaram. Cerrou-se em seu mundo, desiludido, mas esperando que uma vez mais pudera sentir nas maçãs do rosto aquele ardor que ruborizava, mas que se acalmava com a delicadeza dos passos que faziam o ar do entorno se agitar, produzindo uma brisa leve e cativante. Foi de repente. A brisa chegou antes. Assim que se virara tornou a ruborizar a face, os olhos fixos, peito trepidante... sentira, então, um leve umedecer nos lábios, um toque repentino nas suas mãos e algum som sussurrado ao ouvido. Como que entorpecido sentiu seus pés caminharem. Fora levado de encontro a saia. Fora tomado pelos braços, conduzido pela noite e roubado de sua cena. Não resistira. Não havia motivos nem forças para isso. Deixou-se levar pelo encanto. Recordava-se agora de longas palavras trocadas, gestos jogados ao ar, sorrisos iluminando um lugar escuro, calores que esquentavam os corpos naquela noite fria. A mente lhe iluminava a memória com o sentimento doce que não conseguira descrever, nem naquele momento e nem em outros. Somente sentira. E por mais que quisesse, e sentia vontade, de explicá-lo, não podia. Assim como não podia mais suportar a dor que sentia nas pontas do dedos. Estava prestes a se entregar. A escuridão já cegava seus olhos e não conseguia mais mirar coisa alguma a sua frente. Era demasiado forte para seu peito vazio de sentimentos. Decidiu então, num surto de racionalidade, entregar-se. Desistia daquela batalha. Não era mais uma disputa na qual queria continuar guerreando. Esvaiu-se. Seus pés já não tocavam mais o chão - estava apaixonado.

domingo, 17 de abril de 2011

Vinho: Rótulos

. . Por Unknown, com 1 commentário

Lá ia eu saindo de casa em direção ao bar, ao mesmo bar de tantas semanas e meses cotidianos enquanto duas histórias eram remoídas e aproximadas mentalmente. A primeira era uma boa e velha, na verdade sempre nova, dor de cotovelo. Nada mais fazia sentido, nunca iria descobrir algo de novo no mundo, nada teria mais graça, ou diversão que fosse. Tudo seria só chatice, as minhas veias tinham apenas acidez, ironia e sarcasmo profundos. E lembrar que estava a caminho de encontrar uma amiga chata era mais motivo pra ranhetice. Porque temos aqueles amigos que, potz, não dá, são chatos, ! Entendo se alguém me acha chato também, só não fique me dizendo, me lembrando disso, por favor! Ah, a menina é uma daquelas patricinhas (com o perdão às Patrícias de nome), enjoadas, que reclama de tudo, cheia de frescuras, que fala quase o tempo todo de roupas caras, dinheiro e sucesso, ou seja, um pé no saco! Naquela noite, ia encontrar com uma galera, porque uma amiga dessa patricinha chegara de viagem. Amiga de patricinha que chegara de viagem só poderia ser, óbvio, tão patricinha quanto a amiga...

A dor de cotovelo era, puxa vida, uma garota tão linda, uma morena de sorriso tímido, com cabelos em dreds que a faziam de uma seriedade tola. Curioso, porque os dreds deveriam dar um tom relaxado a ela, no entanto, o olhar desconfiado compunha outra expressão. Mesmo assim, as palavras lhe saiam com alegria sutil, desfazendo qualquer dureza. Nos conhecemos numa noite e já combinamos de nos encontrarmos no dia seguinte, enfim, tudo seguiu bem demais durante alguns dias, mas acabar de uma hora pra outra... por quê?! Será que fiz alguma piada que ela não gostou?! … Me perguntava. Ou será que ela fizera tal como a moça do vinho, que apareceu pra jantar em casa com uma amiga?? É a segunda história.

Acostumados a convidar os amigos pra jantar em casa, ou simplesmente beber por qualquer pretexto banal, de surpresa certa vez uma amiga nossa trouxe uma convidada dela que não conhecíamos. Preparamos a especialidade da casa, um prato à moda dos anfitriões, preguiçosos e invencionistas. Preguiçosos não, talvez fosse melhor muquiranas, pois o preparo de uma tradicional paeja, além de considerável trabalhinho na cozinha, necessitaria de ingredientes, no mínimo, um bocado mais caros. O que havíamos preparado naquela noite estava entre uma paeja e um risoto, se é que essa comparação faz algum sentido... Depois de encaminhadas as panelas, já próximo da finalização, abrimos todos os vinhos que tínhamos em casa e fomos servindo os copos. O pessoal foi ficando mais soltinho, , sabe como é, o que seria da sociabilidade não fosse o álcool?! Grandes amizades, paixões e muitos sentimentos, até de conflito, devem muito às cervejas, vinhos e tantas outras bebidas! Depois de já levemente ébrios (adoro esta palavra – porque gente muito sóbria é mesmo um fardo – taí outra de que gosto muito, enfim, melhor parar com isso e fazer um post apenas sobre as palavras de que gosto), até a comida era a mais maravilhosa do mundo! É uma tática, considere a dica, embebede seus convidados antes do jantar, assim eles vão comer já satisfeitos, encantados com a comida sem antes mesmo a terem provado! Não foi diferente naquela noite, e elogios, muitos elogios nos vieram, à casa, ao papo da noite, à comida, e ao vinho, oras! “Que vinho delicioso!” nos disse a convidada surpresa já em direção à porta, quando todos já saiam. “Quero saber qual é, vou comprar dele também!” E foi em direção à cozinha, enquanto um dos anfitriões e eu nos olhamos apenas. Existem algumas maravilhas no mundo, é verdade, apesar das dores de cotovelo, é preciso reconhecer! Uma garrafa de vinho tinto seco bom por 79 centavos, por 79 centavos (!!), é uma raridade, mas, sim, existe. O preço não estava na garrafa, evidentemente, porém, a marca e a informação “de mesa” estavam no rótulo, claro. Com isso, a expressão da convidada surpresa ao se deparar com o vinho que tanto elogiara foi indisfarçável, e difícil de esconder também foram nossas gargalhadas com a reação dela. Como já estavam todos de saída, o fechar da porta foi o sinal para uma larga crise de riso!

Mas a minha dor de cotovelo não desistia durante a caminhada: teria eu me revelado um “vinho de mesa barato” para a moreninha dos dreds?? Ao chegar no bar de sempre, lá estava a galerinha de sempre, o garçom de sempre, e eu já ia pedir a cerveja de sempre acompanhada pelo lanche de sempre, porque se tem uma coisa que cai bem para dores de cotovelo é tradição e conservadorismo de butequim! Ao chegar na mesa, contudo, a amiga da patricinha levantou-se para me cumprimentar, ela que estava de costas para a entrada. De longe, e, digamos, com o cotovelo dolorido diante dos olhos, eu só conseguira fazer um comentário maldoso e preconceituoso no pensamento, “é loira... igual a amiga patricinha... deve ser um cocô igual, certeza”.

Só consegui assentir com a cabeça, apertando suavemente os olhos enquanto alguém dizia, “esse é o Bruno”, lhe dei um beijinho de cumprimento e um leve abraço, sequer um “oi” saiu da minha boca. Acenei rapidamente pra todos presentes na mesa e me dirigi à cadeira vaga do outro lado, na posição oposta àquela da moça que já não era mais “a amiga da patricinha”, e naquele intervalo de segundos passava a ser identificada como quem “tem nome de música”, passo pós passo até a cadeira. Meu sentimento era de profunda, amarga, dolorida vergonha, me senti a convidada surpresa do vinho de mesa barato, só que às avessas. Cada sorriso, cada gesto, cada olhar, cada palavra, cada desconforto com a conversa de roupa cara e glamour vazio da amiga patricinha ao lado, cada arregalar de olhos, cada lembrança de filme, cada comentário de livro, cada simpatia contrabandiada por delicadeza e elegância, cada suavidade, cada tudo nela era a Beleza...

Troquei a cerveja de sempre por uma taça de vinho, e estava tentando inventar uma história - como escrever sobre “vinho” numa série - pra não deixar a conversa parar.

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