Ter o pensamento social como objeto de nossa profissão, significa viver, dia-a-dia, um dilema. Quase sem querer somos levados a uma certa arrogância, pensando que fomos um dos poucos iluminados que tivemos a capacidade de sair da redoma de dominação dentro da qual o resto do mundo está trancafiado. Por eufemismo, trocarei o termo “arrogância” para “dificuldade em lidar com o senso comum”.
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Situação 1:
O acadêmico está em uma livraria lendo manuscritos inéditos de Dostoievski quando escuta por de trás da prateleira:
- Esse livro deve ser bom. “Seja um vencedor”. Um amigo leu, disse que foi ótimo para ele superar suas dificuldades e ser alguém na vida. Quero comprar, talvez me inspire pra conseguir um novo emprego, uma vida nova.
Nesse momento o acadêmico já está mordendo a camisa, suando a mão, costurando com os pés. É quando ele não aguenta vai ao outro lado e desabafa sereno:
- Meu querido, sinto muito, mas a desilusão que você vive é fruto de um problema estrutural da sociedade capitalista e mesmo suas ideias, costumes e preferências refletem a sua posição dentro dessa estratificação social. Portanto, não será com pensamento positivo e figas que você sairá dessa lástima. Melhor você tentar entender o processo de luta de classes instalado na atual conjuntura econômica...
Situação 2:
O acadêmico está tomando seu café sem açúcar na padaria que usa grãos árabes quando escuta da mesa ao lado:
- Uma coisa que não admito é pirataria. Vai saber o que você não está financiando quando compra um filme pirata: assassinatos, drogas, crimes. Deus me livre. Quem hoje em dia não tem 5 reais pra alugar um filme? Eu mesmo já passei fome, mas corri atrás, estudei, aprendi a investir na bolsa e hoje estou aqui. Pra mim, pirataria é coisa de vagabundo.
É quando se escuta o tilintar um pouco mais forte da xícara sobre o pires. Olha-se pro lado e o acadêmico, já em pé, voicifera:
- Você sabe quantos milhões giram em torno da indústria cultural? Quantas expressões artísticas são deixadas de lado, quantas padronizações são feitas em nome dessa indústria? Qual a autenticidade da arte perante sua mercantilização? Além disso, parabéns, você venceu na vida e faz uma coisa “digna”, jogar na bolsa de valores. Se você tivesse investido nas ações daquela marca de roupa espanhola que usa mão-de-obra escrava, será que saberia o que estava por trás dessa ação limpa e pudica?
Situação 3
O acadêmico está em um ônibus lotado quando se percebe um enorme trânsito. Logo alguém diz que professores estão fazendo greve e fechando a passagem na rua. Ao saber disso, um tiozinho brada:
- Por isso que digo, melhor mesmo é na época dos militares, pelo menos esses vagabundos não faziam baderna.
Um sujeito solta-se do apoio e cambaleia, quase caindo no chão do ônibus, é o acadêmico. Que se recompõe, respira fundo, conta até 10 e lá vai:
- O senhor tem mesmo noção do que acabou de dizer? Que um sistema que torturava e matava pessoas sistematicamente, proibia a expressão de manifestações políticas e repreendia nossas referências culturais é realmente melhor? Além disso, sabe qual o salário de um professor da rede pública? O caminho da emancipação humana perpassa uma educação crítica que transforme a apatia das pessoas e, para isso, os professores têm sim que ser bem remunerados. O que você chama de baderna, eu digo que é uma justa manifestação social da classe trabalhadora!
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Em resumo, a bolha acadêmica corre muitas vezes paralelamente ao mundo. É normal incomodar-se com comentários conservadores de um almoço em família e ao mesmo tempo é um saco ficar se policiando a cada situação para encaixar o que se pensa com o que é aceitável. Também não é o caso de culpar-se por preferir Gramsci a Augusto Cury, tampouco de compará-los. Mas, convenhamos, os grandes pensadores socias, foram aqueles que, sem abdicar de seus ideais, tiveram a capacidade de se distanciar da situação e dialogar com o senso comum, com plena consciência de que estavam também inseridos nessa roda viva. Nas ciências humanas, por outro lado, somos sempre estimulados a criticar o senso comum, mas esquecemo-nos de que, para isso, é necessário conhecê-lo e, para conhecê-lo, é preciso experimentá-lo. Sair pro mundo que existe e, confessemos em voz alta, independe de nós. Pior do que estar no senso comum é isolar-se dele. Não sintamos raiva ou pena de quem não possui a mesma lente que a nossa para enxergar o mundo, não façamos do embate de ideia um massacre de sete pedras sobre o gato, mas uma possibilidade real de troca. É preciso a coragem necessária para se contaminar. Abaixo os puristas.
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Misturas Relacionadas:
Entrevista com MC Leonardo
O Meta-Intelectual
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O acadêmico está em uma livraria lendo manuscritos inéditos de Dostoievski quando escuta por de trás da prateleira:
- Esse livro deve ser bom. “Seja um vencedor”. Um amigo leu, disse que foi ótimo para ele superar suas dificuldades e ser alguém na vida. Quero comprar, talvez me inspire pra conseguir um novo emprego, uma vida nova.
Nesse momento o acadêmico já está mordendo a camisa, suando a mão, costurando com os pés. É quando ele não aguenta vai ao outro lado e desabafa sereno:
- Meu querido, sinto muito, mas a desilusão que você vive é fruto de um problema estrutural da sociedade capitalista e mesmo suas ideias, costumes e preferências refletem a sua posição dentro dessa estratificação social. Portanto, não será com pensamento positivo e figas que você sairá dessa lástima. Melhor você tentar entender o processo de luta de classes instalado na atual conjuntura econômica...
Situação 2:
O acadêmico está tomando seu café sem açúcar na padaria que usa grãos árabes quando escuta da mesa ao lado:
- Uma coisa que não admito é pirataria. Vai saber o que você não está financiando quando compra um filme pirata: assassinatos, drogas, crimes. Deus me livre. Quem hoje em dia não tem 5 reais pra alugar um filme? Eu mesmo já passei fome, mas corri atrás, estudei, aprendi a investir na bolsa e hoje estou aqui. Pra mim, pirataria é coisa de vagabundo.
É quando se escuta o tilintar um pouco mais forte da xícara sobre o pires. Olha-se pro lado e o acadêmico, já em pé, voicifera:
- Você sabe quantos milhões giram em torno da indústria cultural? Quantas expressões artísticas são deixadas de lado, quantas padronizações são feitas em nome dessa indústria? Qual a autenticidade da arte perante sua mercantilização? Além disso, parabéns, você venceu na vida e faz uma coisa “digna”, jogar na bolsa de valores. Se você tivesse investido nas ações daquela marca de roupa espanhola que usa mão-de-obra escrava, será que saberia o que estava por trás dessa ação limpa e pudica?
Situação 3
O acadêmico está em um ônibus lotado quando se percebe um enorme trânsito. Logo alguém diz que professores estão fazendo greve e fechando a passagem na rua. Ao saber disso, um tiozinho brada:
- Por isso que digo, melhor mesmo é na época dos militares, pelo menos esses vagabundos não faziam baderna.
Um sujeito solta-se do apoio e cambaleia, quase caindo no chão do ônibus, é o acadêmico. Que se recompõe, respira fundo, conta até 10 e lá vai:
- O senhor tem mesmo noção do que acabou de dizer? Que um sistema que torturava e matava pessoas sistematicamente, proibia a expressão de manifestações políticas e repreendia nossas referências culturais é realmente melhor? Além disso, sabe qual o salário de um professor da rede pública? O caminho da emancipação humana perpassa uma educação crítica que transforme a apatia das pessoas e, para isso, os professores têm sim que ser bem remunerados. O que você chama de baderna, eu digo que é uma justa manifestação social da classe trabalhadora!
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Em resumo, a bolha acadêmica corre muitas vezes paralelamente ao mundo. É normal incomodar-se com comentários conservadores de um almoço em família e ao mesmo tempo é um saco ficar se policiando a cada situação para encaixar o que se pensa com o que é aceitável. Também não é o caso de culpar-se por preferir Gramsci a Augusto Cury, tampouco de compará-los. Mas, convenhamos, os grandes pensadores socias, foram aqueles que, sem abdicar de seus ideais, tiveram a capacidade de se distanciar da situação e dialogar com o senso comum, com plena consciência de que estavam também inseridos nessa roda viva. Nas ciências humanas, por outro lado, somos sempre estimulados a criticar o senso comum, mas esquecemo-nos de que, para isso, é necessário conhecê-lo e, para conhecê-lo, é preciso experimentá-lo. Sair pro mundo que existe e, confessemos em voz alta, independe de nós. Pior do que estar no senso comum é isolar-se dele. Não sintamos raiva ou pena de quem não possui a mesma lente que a nossa para enxergar o mundo, não façamos do embate de ideia um massacre de sete pedras sobre o gato, mas uma possibilidade real de troca. É preciso a coragem necessária para se contaminar. Abaixo os puristas.
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