VÍDEO: MURILO CAMPANHA CONTA ITATINGA

O psicanalista Murilo Campanha fala sobre Itatinga, um dos maiores bairros de prostituição da América Latina, onde ele tem seu consultório.

O nadador

Uma crônica de Hugo Ciavatta.

Ainda que as bolachas falassem

Crônica de Fábio Accardo sobre infância e imaginação

Ousemos tocar estrelas

Uma reflexão de Thiago Aoki.

Entre o amarelo e o vermelho

Uma crônica de Hugo Ciavatta

O homem cordial vinhedense

A classe média vai ao barbeiro. Uma crônica de Caio Moretto.

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quarta-feira, 7 de maio de 2014

Veja, Globo e o apoio à ditadura

. . Por Caio Moretto, com 0 comentários

Essa semana aprendi, com a Veja, que a campanha #somostodosmacacos acabou o racismo (talvez para sempre) no Brasil, e, com o Globo (http://naofo.de/6hc), que as manifestações do ano passado foram "o marco zero do atual processo de degradação da convivência social" que culminou com os linchamentos públicos de "justiceiros".

O que essas duas mentiras têm em comum?

Ambas se apoiam numa distorcida leitura da sociedade que ignora a história e as relações de poder, reduzindo os problemas sociais a discussões teóricas descontextualizadas.

No primeiro caso, resume-se o racismo à verbalização de uma ofensa discriminatória, deixando subentendido que basta esquecer o problema para que ele deixe de existir, o que, por sua vez, traz nas entrelinhas a ideia de que o racismo só existe porque há movimentos que insistem no (supostamente já superado) problema.

No segundo, da mesma forma, equipara-se a quebra de patrimônio à violência contra pessoas, como se a causa de toda violência no Brasil fosse o clima de insatisfação levantado pelos protestos. Iguala-se, assim, perversamente, a violência à denúncia da violência.

Para a Veja e para a Folha é só matar o mensageiro que todos os problemas sociais estariam resolvidos. Não bastasse à mídia corporativa brasileira não cumprir o papel de exposição dos problemas sociais, ela quer apontar aqueles que de fato lutam pelo não esquecimento e pela superação de nossos problemas como os responsáveis por eles.

Isso é apoiar a criminalização dos movimentos sociais. Isso é defender que não temos problemas sociais e que, portanto, nossos problemas devem ser resolvidos pela polícia e não pela política. Isso é continuar apoiando a ditadura que nunca deixaram de apoiar.

Para se manter informado, hoje, é preciso ouvir os gritos dos excluídos, que a mídia não mostra: os de dor e os de luta.

DG, Amarildo, Cláudia, Douglas, não esquecemos!

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Escritores Políticos, espécies em extinção

. . Por Thiago Aoki, com 3 comentários

Recentemente, em uma ida ao banheiro, não pude escapar da revista Veja, a única leitura presente no estabelecimento, se isentarmos da contagem as contracapas de pastas de dentes e desodorantes. Não que eu esteja me justificando, porque o bom sociólogo não é aquele que se nega a ler a Veja, mas sim o que se questiona sobre o porque do sucesso da revista, e para isso é preciso lê-la.. Pois bem, folheando, caí em uma matéria intitulada "Cem anos de adulação", que especulava sobre os bastidores da amizade de Gabriel Garcia Márquez (foto), autor de "Cem Anos de Solidão", e Fidel Castro, ícone político mór de Cuba. Bom, a matéria era ruim, primeiro por seu tom especulativo e panfletário. Segundo por colocar-se contra o apoio de Garcia Márquez ao regime da ilha através de argumentos pessoais, ao invés de discutir os pontos políticos que levaram o escritor colombiano a apoiar o barbudo cubano. Ao lermos, saímos com a sensação de que Márquez seria um tolo num mundo inexistente criado por sua imaginação, o que seria menosprezar por demais o conceituado autor, de biografia notável, nobel, estudioso de Simon Bolívar.

Mas o fato da revista dedicar tal espaço para uma matéria deste naipe nos faz refletir como o posicionamento político dos escritores já tiveram influência grande, embora hoje tenham sido descreditadas.

Pela esquerda, poderímaos citar, além de "Gabo" Márquez, os controversos posicionamentos políticos do português José Saramago que apoiou e desapoiou Cuba durante tempos ou mesmo Eduardo Galeano, cujo famoso "Veias Abertas da América Latina", que virou espécie de manifesto contra a opressão estadunidense-europeia sobre os latinos. Tem também o poeta chieleno Pablo Neruda que fazia dobradinha com Salvador Allende. Se voltarmos um pouco mais no tempo, em terras tupiniquins, temos Jorge Amado, na tentativa de fundar o "realismo socialista" brasileiro, ou mesmo Graciliano Ramos que esreveu seu "Memórias do Cárcere" baseado em memórias enquanto preso pela repressão de Getúlio Vargas. O próprio Oswald de Andrade e toda a penca modernista. Mais adiante, os incontáveis poetas e escritores da geração que lutou contra a Ditadura Militar brasileira.

A direita também não fica atrás. Recentemente, um livro intitulado "Cartas a favor da escravidão" balançou os hitoriadores ao mostrar diversos documentos escrito por José de Alencar, nos quais o autor defende a escravidão no país. Na Argentina, o ótimo Jorge Luís Borges disse que faltou aos argentinos lerem mais Domingo Sarmiento, historiador estampado até hoje nas notas de 50 pesos argentinas, cuja principal tese, a grosso modo, é a da supremacia civilizatória dos brancos de características europeias do centro da Argentina sobre os gauchos e índios das províncias mais isoladas. Que dizer então de nosso Nelson Rodrigues, além de escritor, um dos maiores dramaturgos brasileiros, que se auto-considerava moralista e conservador, autor de máximas como "As feministas querem reduzir a mulher a um macho mal-acabado" ou "Toda mulher gosta de apanhar. Todas não, só as normais, as neuróticas revidam" e franco apoiador do regime militar, embora tenha lutado para tirar amigos como Hélio Pellegrino e Zuenir Ventura da prisão.

Isso porque ficamos nos escritores, sem partir para cineastas, músicos, entre outros campos artísticos. Porém, hoje, pouco vemos dessa ligação íntima entre arte e política. Os escritores acabam por limitar-se a escrever, num repúdio à política jamais vista anteriormente. As críticas dos escritores contemporâneos, mesmo nos bastidores, limitam-se aos costumes (estilo Simpsons) ou à política de gabinete (estilo CQC), sem extender-se ao fazer política como um movimento maior, organizado. Provavelmente devido à crise causada pela confluência entre direita e esquerda e a aversão à política quase como um senso comum dos meios de comunicação dominantes. Apoiar o PT hoje, por exemplo, significa ser de esquerda? Ou que você está buscando um tipo de resistência ao capitalismo? Há até quem diga que Serra está à esquerda de Lula, PT, PSDB e DEM fazem acordão por doação oculta, dentre outras bizarrices que nos provocam saudades de tempos em que a batalha entre direita e esquerda era travada por Carlos Lacerda e Brizola, respectivamente. Após a queda do muro, pouca separação e alternativa tivemos quanto ao fazer política tradicional, isso somado-se ainda às crises dos movimentos sociais e inexpressão dos partidotes da extrema-esquerda. Afinal, que editora contrataria um empregado demodé e invendível, com esse papo de transformação social e apoio a esta ou aquela organização (argh!) política? (o que é, na verdade, uma balela porque o fato de você não ter uma postura política já está sendo político a partir do momento que beneficia àqueles que lucram com uma sociedade nulamente pensante)

Se continuarmos assim, preparemo-nos, por enquanto os escritores estão mergulhados na apatia política, mas logo chegarão os escritores ambientalistas, de livro feito com material reciclável e letras verdes, cujas fábulas serão mais moralizantes e politicamente corretas que as de Esopo.

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