VÍDEO: MURILO CAMPANHA CONTA ITATINGA

O psicanalista Murilo Campanha fala sobre Itatinga, um dos maiores bairros de prostituição da América Latina, onde ele tem seu consultório.

O nadador

Uma crônica de Hugo Ciavatta.

Ainda que as bolachas falassem

Crônica de Fábio Accardo sobre infância e imaginação

Ousemos tocar estrelas

Uma reflexão de Thiago Aoki.

Entre o amarelo e o vermelho

Uma crônica de Hugo Ciavatta

O homem cordial vinhedense

A classe média vai ao barbeiro. Uma crônica de Caio Moretto.

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sexta-feira, 15 de agosto de 2014

O sermão de Pe. Antonio Vieiria sobre a morte de Eduardo Campos

. . Por Caio Moretto, com 0 comentários



Ontem, procurando um texto para compreender melhor essa reação bipolar das pessoas nas redes sociais a respeito da morte de Eduardo Campos, curiosamente encontrei um sermão de Pe. Antonio Vieira sobre o assunto. Na reflexão, o padre barroco tentava responder se era mais digna a atitude “the zoeira never ends” de Demócrito ou as lágrimas de Heráclito, o emo.

As pessoas - todos observaram o fenômeno - parecem ter se divido entre aqueles que partiram direto para as piadas ou para as análises políticas e aqueles que se sensibilizaram com a morte inesperada do ex-governador e ficaram nervosos com o desrespeito dos primeiros ao período de luto.

O padre, provavelmente observando situação semelhante nas redes sociais do século XVII, fez um interessante comentário sobre o caso, relacionando-o com uma possível origem da comédia. O riso – comentou - não pode nascer da miséria real, por sua ligação com a dor. Então, os comediantes criam ficções para que se ria da imitação da miséria - agora separada da dor -, essa sim risível. Se os problemas “fossem verdadeiros”, acrescenta, “seriam motivo de comiseração, e não de riso”.

O grande número de pessoas transformando a morte de Eduardo Campos em piada nas redes sociais parece ilustrar a distância que as pessoas sentem de seus representantes políticos, esses seres midiáticos nos quais parece ser tão difícil reconhecer qualquer traço de humanidade.

No sentido oposto, nos discursos de luto, a metáfora da proximidade parece ter sido recorrente. “Ontem mesmo eu o vi na tevê”, ouvimos as pessoas comentando, como se isso, de alguma forma o tivesse aproximado de nós e causado uma certa comiseração.

Parece que essa miséria real e a divisão de reações que ela causou acabou evidenciando uma ambivalência da mídia: ela aproxima ao mesmo tempo em que desumanisa.

Resta ainda um problema. Estivesse o Eduardo em um hospital, seria mais fácil nos juntarmos à comiseração de Heráclito.  Mas a miséria em questão sendo a definitiva, surgem algumas ponderações céticas: finda a vida, não acabou-se a miséria? Não estaria novamente o riso, portanto, separado da dor? 

Confiante no potencial desumanizador de nossa sociedade na forma como ela está hoje organizada, estou com o grupo que procura se sensibilizar com a miséria de qualquer pessoa, mesmo quando isso exige um esforço racional. Mas acredito que talvez nesse caso, ao contrário do que imaginaram os críticos, algumas pessoas tenham partido para a piada não por falta de sensibilidade em relação a miséria de uma pessoa, mas exatamente por considerar que a morte não é uma miséria, mas o seu encerramento definitivo.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Opinião Pública e Democracia Privada

. . Por Thiago Aoki, com 7 comentários

Fico pensando como seremos conhecidos daqui a 100 anos. Com a proliferação de dispositivos - tablets, redes sociais, gadgets, aplicativos - que se disseminam feito praga, a era da informação está em xeque. Digo isso pois havia um mito quase iluminista, profetizado nas escolas e na mídia, de que estaríamos em uma época onde quem tivesse acesso à informação estaria fadado a uma vida de sucesso. Hoje, com essa complexa rede de informações que se forma, e que inclusive tem ajudado a formar uma relação mais crítica com a própria mídia “oficial”, é possível perceber que divergências sobre fatos são mais do que aceitáveis e que as informações são construídas socialmente. Talvez o que vivemos seja a era da opinião.

Infelizmente, ao contrário do que um ingênuo web-entusiasta pode argumentar, isso não significa que caminhamos para um mundo de tolerância às culturas e saberes. Ou que estejamos a criar fontes saudáveis de debates e redenções intelectuais. Ou muito menos que caminhamos para uma mídia alternativa, desligada do poderio econômico. O que se vê são indivíduos ávidos por formarem opiniões sobre algum tema polêmico (ou falsamente polêmico) e fazer delas um espetáculo particular – ou, como prefere o facebook, compartilhá-las. Contemplar e ser contemplado.

Por um lado, mesmo que haja um questionamento sobre a relevância temática dos “trending topics”, é positivo que todos estejam em busca de formar sua opinião sobre os “temas do momento”, inclusive sendo obrigado a ler opiniões contrárias em seu “timeline” ou “feed de notícias”. Mas por outro temos aqui um poderoso mecanismo de manutenção da democracia meramente representativa.

Ao cravarmos nossa opinião sobre a polícia na USP, sobre a moça que matou o cachorro, sobre o estupro no big brother, sobre o massacre de Pinheirinho, sobre as fraudes do ENEM, sobre a construção de belo monte, criamos uma falsa ideia de que neste momento fazemos um papel de cidadão ou até de ativismo, quando na verdade, apenas expomos opiniões para nossos amigos, torcendo por compartilhamentos, comentários e cliques no botão curtir. É a reprodução de uma passividade vista nas sociedades que se dizem democráticas, mas onde o limite de nossa ação política é a possibilidade de nos posicionarmos sobre um tema sem sermos presos. É a possibilidade de fazermos parte de uma parte, vitoriosa ou não, da opinião pública – como se essa fosse capaz de, por si só, transformar algo.

E lá estamos, a apoiar “causes” e mais “causes”. É justamente quando me pergunto o que de fato fizeram por Pinheirinho os 3.528 que curtiram o “Somos todos Pinheirinho”. Ou em qual movimento de defesa dos animais militam todos os que colocaram a hashtag #CamilaDeMouraPresa.

Assim, consolida-se uma visão cada vez mais hegemônica segundo a qual participar de um movimento ou partido político é um descrédito. E ganha cada vez mais corpo aquele intelectual cujo único propósito coletivo é participar de um grupo de estudos, e escrever artigos influentes. Ou aquele que sabe tudo sobre tudo, mas virtualmente, sem relações orgânicas ou lutas por um ideal.

E aí, nós que criticamos as crianças de hoje por trocar a rua pelos video-games reproduzimos a mesma relação, em uma rede contemplativa onde sobram opiniões e faltam experiências.

Claro, algo já brotou daí pro mundo: um churrascão, um Sakamoto, um Malvados, um Wikileaks, um Anonymous e, há quem diga, até uma primavera árabe. E claro, também, que este Blog e sua disseminação inserem-se nessa rede. Mas cabe perguntar o que, em nossa vida a cada dia mais virtual, reflete-se em nossas práticas e em nossas lutas do dia a dia. O que, afinal, não se dissolve na roda viva onde a contemplação e o espetáculo são vias de mão dupla de uma mesma rua, a inércia.

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