"A gente quis, desde o começo, dessacralizar a literatura. Não sei quem disse que a gente odeia ler e que literatura é chato. E a gente quis fazer justamente o contrário, associar ao aplauso, ao barulho à festa, a literatura. Talvez seja por isso que alguns intelectuais e a academia não perdoem a gente, porque não tão gostando de ver palavra bonita na boca de gente feia, né. E isso assusta um pouco as pessoas."
"o que me revolta muito é ir em alguns bairros bons e falar: por que que a gente não tem isso, por que que a gente não tem teatro, por que que a gente não tem livraria?"
"se você analisar, nós [da periferia] estamos vivendo a nossa tropicália, a nossa primavera de Praga. Nós estamos vivendo a nossa bossa-nova."
"hoje você olha na periferia, as pessoas estão procurando pobres, laçando pro edital. Uma coisa meio Glauber Rocha, um pobre na mão e um edital na cabeça"
"esses dias foi uma jornalista muito generosa lá, assistiu o Sarau, me chamou e disse 'Vem cá, eu vou ajudar você a melhorar isso aqui'. Aí, diante de tanta generosidade eu falei: 'Ó, se você não vier mais já começa a ajudar!'"
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Prezado Poeta Sérgio Vaz,
Acabo de me formar na Unicamp, no curso de Ciências Sociais (sociologia). Assisti atrasado, porém atentamente à sua entrevista ao escritor Ferréz, no programa Interferência. Permita-me a reflexão de alguns pontos.
Minha experiência na Academia resumiu-se às pessoas falarem sobre os pobres, sobre os trabalhadores. A grande maioria deles sem nunca ter sido pobre, sem nunca ter trabalhado, dentre os quais me incluo, sem constrangimento... na verdade com um pouco. Mas esse constrangimento se dá porque durante os quatro (se você tiver uma graninha extende até uns cinco ou seis) anos de faculdade aprendemos a idealizar a pobreza. Chico Buarque, guru da intelectualidade artística, junto com Vinícius de Moraes já diziam "Igual a como quando eu passo no subúrbio / eu muito bem, vindo de trem de algum lugar / e aí me dá uma inveja dessa gente / que vai em frente sem nem ter com quem contar". Na Unicamp, o desafio colocado pelos alunos e pesquisadores (boa parte deles) da Sociologia, por definição aquela ciência que estuda a sociedade, é o de "como iluminar o caminho dessa gente", "como ultrapassar a ideologia capitalista que está impregnada na cabeça dos desavisados" para chegar à Revolução. Dizemo-nos contra o assistencialismo e inimigos da elite nacional, sem perceber que nossas teorias, em geral isentas de trabalhos práticos e belas no papel, não fazem mais que reproduzir a apropriação do conhecimento por nossa pequena classe. Somos uma minoria que se vangloria por ler os livros das livrarias que não chegam aos bairros de vocês, de conhecer as peças que não chegam ao palco de vocês. Precisamos disso, de sermos exclusivos, de sermos anti-democráticos, ainda que brandemos, por voiciferação, a democracia ou o socialismo. Afinal, qual a graça de discutir a Folha Mais se todos entenderem o que ali está escrito? Revoltem-se e nós teorizaremos.
Quando saímos da faculdade e vamos para a realidade, mesmo que seja para laçar pobres em editais, percebemos que vivemos, nesses anos universitários que nos fazem ser mais "capacitados" que os demais, um mundinho de mentira. De disputa de ego, teses e conceitos que, fora do mundo das ideias, em nenhum lugar pode ser encontrado. Bora mundo afora, pregar a revolução e recebermos, em contraponto, pedidos de empregos. Bora mundo afora, não entender a linguagem de nossos "objetos" de estudo. Bora mundo afora, perceber que talvez não tenha sido exatamente aquilo que Guimarães Rosa quis dizer com "pão ou pães é questão de opiniães". Nos damos conta, então, que somos privilegiados, mas não era nossa função combatê-los? Pensar que os pobres não reconhecem o quanto são explorados tem sido a melhor saída e a mais ilusória. Precisamos, nosso ego exige, pensar que vocês precisam de nós para se salvarem da barbárie da qual estamos alheios, sem perceber que somos nós os bárbaros. Todos nós, da elite intelectual das humanidades, temos um pouco da "generosa" jornalista descrita em sua entrevista com o companheiro Ferréz. É por isso que não podemos ver vocês fazerem poesia, música, artes plásticas. Palavra feia na boca de gente bonita, é o que tentamos ao manter termos prolixos e padrões de beleza.
Entre a Bossa-Nova e a Tropicália, acho que vocês estão mais para Tropicália, pois era dela a principal característica de recriar, inventar, criar uma nova linguagem, questionar o velho, o dominante. Neste sentido a contestação estética é bem maior do que a da bossa-nova, ainda que Tom Zé talvez seja o único tropicalista, mas essa é outra discussão. Porém o fato que interessa é que a estética que surge da periferia e que nós, agora à reboque, temos acesso apenas depois que vocês inventaram e difundiram na comunidade, mostra-se uma revolução jamais vista nas artes brasileiras. E não precisou o Chico Buarque dizer que o Rap era a nova MPB para nos darmos contas. Não precisou que Sérgio Buarque dissesse que somos "desterrados em nossa própria terra". Vocês cruelmente fizeram e fazem sem nós e sem nosso aval politicamente correto, sem nosso tapinha nas costas, sem nossas monções de apoio votadas em assembleia, sem nossa doação. Até na bienal vai ter pichadores! Quanta audácia! Dessacralizar a literatura? Que profano, para nós, puristas teóricos! Por isso entramos com a represália de ignorarmos o que vocês fazem, de apenas citarmos as expressões artísticas ou linguísticas que vêm da marginalidade se for para ridicularizarmos vossos costumes, vossos cabelos enrolados vossos mal-educados-ruídos que interferem na fala do poeta, bem como a linguagem suja e ritmada que utilizam, mesmo que, durante toda a faculdade, neguemo-nos a ir ao McDonalds para ir ao Bar do Garcia, ouvindo samba desconhecidos, pensando que assim estaríamos sendo revolucionários. Nossa revolução é linda, mas quando o PCC aparece, melhor nos enclausurarmos em nossas KitNet's.
Mas que porra você quer dizer com isso tudo? - você deve estar pensando.
É apenas um pedido: ilumine nossa gente. Nós, intelectuais, precisamos enxergar para além da ideologia dominante.
Atenciosamente,
(o escritor não quis se identificar com medo de possíveis retaliações como perder o orientador, a bolsa de pesquisa ou até mesmo seu garantido lugar em uma revista alternativa cult, meio intelectual, meio-de-esquerda, porém, ressalta sua linha de pesquisa, seu doutorado na França, ter conhecido o Louvre, sua extensa biblioteca particular e que fala seis línguas...opa, esqueceu-se do português...sete línguas)
"o que me revolta muito é ir em alguns bairros bons e falar: por que que a gente não tem isso, por que que a gente não tem teatro, por que que a gente não tem livraria?"
"se você analisar, nós [da periferia] estamos vivendo a nossa tropicália, a nossa primavera de Praga. Nós estamos vivendo a nossa bossa-nova."
"hoje você olha na periferia, as pessoas estão procurando pobres, laçando pro edital. Uma coisa meio Glauber Rocha, um pobre na mão e um edital na cabeça"
"esses dias foi uma jornalista muito generosa lá, assistiu o Sarau, me chamou e disse 'Vem cá, eu vou ajudar você a melhorar isso aqui'. Aí, diante de tanta generosidade eu falei: 'Ó, se você não vier mais já começa a ajudar!'"
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Prezado Poeta Sérgio Vaz,
Acabo de me formar na Unicamp, no curso de Ciências Sociais (sociologia). Assisti atrasado, porém atentamente à sua entrevista ao escritor Ferréz, no programa Interferência. Permita-me a reflexão de alguns pontos.
Minha experiência na Academia resumiu-se às pessoas falarem sobre os pobres, sobre os trabalhadores. A grande maioria deles sem nunca ter sido pobre, sem nunca ter trabalhado, dentre os quais me incluo, sem constrangimento... na verdade com um pouco. Mas esse constrangimento se dá porque durante os quatro (se você tiver uma graninha extende até uns cinco ou seis) anos de faculdade aprendemos a idealizar a pobreza. Chico Buarque, guru da intelectualidade artística, junto com Vinícius de Moraes já diziam "Igual a como quando eu passo no subúrbio / eu muito bem, vindo de trem de algum lugar / e aí me dá uma inveja dessa gente / que vai em frente sem nem ter com quem contar". Na Unicamp, o desafio colocado pelos alunos e pesquisadores (boa parte deles) da Sociologia, por definição aquela ciência que estuda a sociedade, é o de "como iluminar o caminho dessa gente", "como ultrapassar a ideologia capitalista que está impregnada na cabeça dos desavisados" para chegar à Revolução. Dizemo-nos contra o assistencialismo e inimigos da elite nacional, sem perceber que nossas teorias, em geral isentas de trabalhos práticos e belas no papel, não fazem mais que reproduzir a apropriação do conhecimento por nossa pequena classe. Somos uma minoria que se vangloria por ler os livros das livrarias que não chegam aos bairros de vocês, de conhecer as peças que não chegam ao palco de vocês. Precisamos disso, de sermos exclusivos, de sermos anti-democráticos, ainda que brandemos, por voiciferação, a democracia ou o socialismo. Afinal, qual a graça de discutir a Folha Mais se todos entenderem o que ali está escrito? Revoltem-se e nós teorizaremos.
Quando saímos da faculdade e vamos para a realidade, mesmo que seja para laçar pobres em editais, percebemos que vivemos, nesses anos universitários que nos fazem ser mais "capacitados" que os demais, um mundinho de mentira. De disputa de ego, teses e conceitos que, fora do mundo das ideias, em nenhum lugar pode ser encontrado. Bora mundo afora, pregar a revolução e recebermos, em contraponto, pedidos de empregos. Bora mundo afora, não entender a linguagem de nossos "objetos" de estudo. Bora mundo afora, perceber que talvez não tenha sido exatamente aquilo que Guimarães Rosa quis dizer com "pão ou pães é questão de opiniães". Nos damos conta, então, que somos privilegiados, mas não era nossa função combatê-los? Pensar que os pobres não reconhecem o quanto são explorados tem sido a melhor saída e a mais ilusória. Precisamos, nosso ego exige, pensar que vocês precisam de nós para se salvarem da barbárie da qual estamos alheios, sem perceber que somos nós os bárbaros. Todos nós, da elite intelectual das humanidades, temos um pouco da "generosa" jornalista descrita em sua entrevista com o companheiro Ferréz. É por isso que não podemos ver vocês fazerem poesia, música, artes plásticas. Palavra feia na boca de gente bonita, é o que tentamos ao manter termos prolixos e padrões de beleza.
Entre a Bossa-Nova e a Tropicália, acho que vocês estão mais para Tropicália, pois era dela a principal característica de recriar, inventar, criar uma nova linguagem, questionar o velho, o dominante. Neste sentido a contestação estética é bem maior do que a da bossa-nova, ainda que Tom Zé talvez seja o único tropicalista, mas essa é outra discussão. Porém o fato que interessa é que a estética que surge da periferia e que nós, agora à reboque, temos acesso apenas depois que vocês inventaram e difundiram na comunidade, mostra-se uma revolução jamais vista nas artes brasileiras. E não precisou o Chico Buarque dizer que o Rap era a nova MPB para nos darmos contas. Não precisou que Sérgio Buarque dissesse que somos "desterrados em nossa própria terra". Vocês cruelmente fizeram e fazem sem nós e sem nosso aval politicamente correto, sem nosso tapinha nas costas, sem nossas monções de apoio votadas em assembleia, sem nossa doação. Até na bienal vai ter pichadores! Quanta audácia! Dessacralizar a literatura? Que profano, para nós, puristas teóricos! Por isso entramos com a represália de ignorarmos o que vocês fazem, de apenas citarmos as expressões artísticas ou linguísticas que vêm da marginalidade se for para ridicularizarmos vossos costumes, vossos cabelos enrolados vossos mal-educados-ruídos que interferem na fala do poeta, bem como a linguagem suja e ritmada que utilizam, mesmo que, durante toda a faculdade, neguemo-nos a ir ao McDonalds para ir ao Bar do Garcia, ouvindo samba desconhecidos, pensando que assim estaríamos sendo revolucionários. Nossa revolução é linda, mas quando o PCC aparece, melhor nos enclausurarmos em nossas KitNet's.
Mas que porra você quer dizer com isso tudo? - você deve estar pensando.
É apenas um pedido: ilumine nossa gente. Nós, intelectuais, precisamos enxergar para além da ideologia dominante.
Atenciosamente,
(o escritor não quis se identificar com medo de possíveis retaliações como perder o orientador, a bolsa de pesquisa ou até mesmo seu garantido lugar em uma revista alternativa cult, meio intelectual, meio-de-esquerda, porém, ressalta sua linha de pesquisa, seu doutorado na França, ter conhecido o Louvre, sua extensa biblioteca particular e que fala seis línguas...opa, esqueceu-se do português...sete línguas)