VÍDEO: MURILO CAMPANHA CONTA ITATINGA

O psicanalista Murilo Campanha fala sobre Itatinga, um dos maiores bairros de prostituição da América Latina, onde ele tem seu consultório.

O nadador

Uma crônica de Hugo Ciavatta.

Ainda que as bolachas falassem

Crônica de Fábio Accardo sobre infância e imaginação

Ousemos tocar estrelas

Uma reflexão de Thiago Aoki.

Entre o amarelo e o vermelho

Uma crônica de Hugo Ciavatta

O homem cordial vinhedense

A classe média vai ao barbeiro. Uma crônica de Caio Moretto.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Visão em profundidade

. . Por Caio Moretto, com 0 comentários





Estudando sobre como será o desenvolvimento do Samuel, minha cabeça fica viajando com analogias. Descobri, hoje, por exemplo, que para conseguir enxergar em profundidade, o bebê utiliza três estratégias diferentes.

A primeira é um fenômeno chamado “paralaxe do movimento”: quando nós nos movimentamos, os objetos que estão mais próximos de nós parecem se mover mais do que aqueles que estão distantes. Não seria o mesmo que dizia Rosa Luxemburgo: “quem não se movimenta não sente as correntes que o prendem”? Fico aqui pensando: se eu não me mexer e tentar lutar por meus direitos, os políticos não continuarão parecendo sempre “todos iguais”?

A segunda estratégia utilizada é a diferença entre as imagens recebidas pelos dois olhos: quanto mais perto, maiores as diferenças recebidas por cada um. Quanto mais próximas das nossas são as ideias que observamos, parecem também maiores as diferenças que conseguimos reparar. No entanto, se tentarmos eliminar essas diferenças ao invés de compreendê-las, perderemos parte de nossa capacidade de colocar as ideias e objetos mais distantes em perspectiva. Essa convivência entre duas visões diferentes exige um esforço muscular, assim como olhar para nossa própria situação e cultura de forma crítica, parece exigir um esforço maior de estranhamento.

Por final, utilizamos a comparação entre objetos similares e a sua interposição. Uma vez que começamos a adquirir a capacidade de identificar objetos, conseguimos compará-los com a imagem que já gravamos deles próprios, entender quando estão parcialmente cobertos e comparar objetos similares à distância para saber qual está na frente e qual está atrás. Sem essa capacidade de memória, nossa percepção também fica comprometida.

É claro que toda metáfora é limitada, mas pensando no crescimento do Samuel, fico aqui imaginando como é importante nos movimentarmos, nos esforçarmos para estranhar nossa própria situação, para aceitar divergências internas e lembrarmos da nossa própria história para construir uma visão em profundidade.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

No estacionamento

. . Por Unknown, com 0 comentários



Saindo do Banco, no estacionamento, o carro não quis funcionar. Tentei, tentei e nada, então liguei pro meu pai. Mas não porque eu não seja capaz de ao menos tentar resolver meus próprios problemas - não tire conclusões precipitadas, por favor. Quando o senhor meu pai, que é mecânico - arrá, qualquer um ligaria logo de cara, porém, eu, teimoso e orgulhoso, ainda tentei sozinho -, chegou, logo depois um outro senhor velhinho e alto se aproximou de nós, ele percebeu que abrimos o capô e falávamos sobre o carro. O velhinho alto então disse que havia uma oficina mecânica no quarteirão de trás. Papai, acostumado com essas situações, digamos, de falha de comunição visual, ou de mal entendido, apenas agradeceu. O velhinho alto se afastou. Fizemos o carro funcionar, quer dizer, papai fez o carro funcionar. O velhinho alto, contudo, aproximou-se novamente, falou qualquer coisa outra vez sobre a oficina mecânica no quarteirão de trás. Papai olhou bem pra ele, por fim, com cara de interrogação, mas, ao mesmo tempo, dirigiu-se a ele num tom receptivo:

- Escuta, cê me desculpe, mas quem é você mesmo? Como é que é teu nome? Você... eu to te reconhcendo...
- Ah, nossa, peraí - no susto de uma lembrança -, agora que eu to reconhecendo também, a tua voz... Nossa Senhora, peraí, você, nossa... e eu ainda falando que tinha uma oficina aqui atrás, mas você é... é você... Ah, teu pai, menino - sendo gentil e virando-se pra mim, que só queria ir embora -, era um terror quando jovem.
- Ah, nossa, é? Hoje ele é só um velho teimoso - fazia o sol mais quente possível.
- hahaha
- Tsc - meu pai voltou-se pra ele -, mas o que foi que te aconteceu, um derrame ou o quê? O teu rosto... - mano, eu pensei, mano, o que você ta falando? eu pensei em silêncio, pois se interrompesse poderia deixar o absurdo daquela fala explícito, enquanto o velhinho alto respondia.
- Ah, não, eu só me tornei um velho gordo e desfigurado ...

Instalou-se um breve silêncio melancólico, dois velhos não se viam há quarenta anos, agora se olhavam somente tentando recordar os nomes, um o do outro.

Entrei no carro e, sozinho, toquei antes que ele apresentasse o mesmo defeito.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

O sermão de Pe. Antonio Vieiria sobre a morte de Eduardo Campos

. . Por Caio Moretto, com 0 comentários



Ontem, procurando um texto para compreender melhor essa reação bipolar das pessoas nas redes sociais a respeito da morte de Eduardo Campos, curiosamente encontrei um sermão de Pe. Antonio Vieira sobre o assunto. Na reflexão, o padre barroco tentava responder se era mais digna a atitude “the zoeira never ends” de Demócrito ou as lágrimas de Heráclito, o emo.

As pessoas - todos observaram o fenômeno - parecem ter se divido entre aqueles que partiram direto para as piadas ou para as análises políticas e aqueles que se sensibilizaram com a morte inesperada do ex-governador e ficaram nervosos com o desrespeito dos primeiros ao período de luto.

O padre, provavelmente observando situação semelhante nas redes sociais do século XVII, fez um interessante comentário sobre o caso, relacionando-o com uma possível origem da comédia. O riso – comentou - não pode nascer da miséria real, por sua ligação com a dor. Então, os comediantes criam ficções para que se ria da imitação da miséria - agora separada da dor -, essa sim risível. Se os problemas “fossem verdadeiros”, acrescenta, “seriam motivo de comiseração, e não de riso”.

O grande número de pessoas transformando a morte de Eduardo Campos em piada nas redes sociais parece ilustrar a distância que as pessoas sentem de seus representantes políticos, esses seres midiáticos nos quais parece ser tão difícil reconhecer qualquer traço de humanidade.

No sentido oposto, nos discursos de luto, a metáfora da proximidade parece ter sido recorrente. “Ontem mesmo eu o vi na tevê”, ouvimos as pessoas comentando, como se isso, de alguma forma o tivesse aproximado de nós e causado uma certa comiseração.

Parece que essa miséria real e a divisão de reações que ela causou acabou evidenciando uma ambivalência da mídia: ela aproxima ao mesmo tempo em que desumanisa.

Resta ainda um problema. Estivesse o Eduardo em um hospital, seria mais fácil nos juntarmos à comiseração de Heráclito.  Mas a miséria em questão sendo a definitiva, surgem algumas ponderações céticas: finda a vida, não acabou-se a miséria? Não estaria novamente o riso, portanto, separado da dor? 

Confiante no potencial desumanizador de nossa sociedade na forma como ela está hoje organizada, estou com o grupo que procura se sensibilizar com a miséria de qualquer pessoa, mesmo quando isso exige um esforço racional. Mas acredito que talvez nesse caso, ao contrário do que imaginaram os críticos, algumas pessoas tenham partido para a piada não por falta de sensibilidade em relação a miséria de uma pessoa, mas exatamente por considerar que a morte não é uma miséria, mas o seu encerramento definitivo.

domingo, 27 de julho de 2014

Acidentalmente

. . Por Unknown, com 0 comentários



Tosse, tosse, tosse. Para, presta atenção. Tosse, tosse, tosse, tosse, tosse. Fecha a torneira. Tosse, tosse. Tia, tá tudo bem? Tosse, tosse. Tia? Abaixa o fogo da panela de arroz. Tosse, tosse, tosse, tosse. Vai ao quarto. Tia? A saliva escorria boca afora. Tia? A boca tinha se virado toda para o lado esquerdo, acompanhando o desenho do corpo, que se inclinava, debruçando-se sobre o mesmo lado. Tia, fala comigo, tia. Os joelhos, que viviam próximos quando ainda levavam os pés, ao caminhar, fazendo das canelas um v de passo demorado, de pé pra dentro, encavalaram-se. A tia acabrunhara-se muito. Revirados, os olhos não viam nada. A tia parou de tossir.

A tia não respondeu. A vizinha deve saber o que é. Vai até a vizinha e a vizinha vem ver o que é que é com a tia. A vizinha diz, ué, melhor chamar um médico, uma ambulância. Chama a ambulância. As pessoas que chegam na ambulância dizem que é grave: é um acidente, mesmo para quem estava parada, sentada, numa cadeira de rodas, assistindo à tv. A tv é grave mesmo. Mas o acidente aconteceu por dentro da tia. Deram um nome completo: vascular cerebral. No hospital, dizem, o médico é quem vai mesmo dizer, ou redizer o já dito, o que está todo mundo vendo. Tá todo mundo vendo desde que a tosse parou, pensa.

Começou foi quando a tia caiu, né, quebrou o fêmur e a bacia. Foi lá, ano passado. Não. Começou quando ela não quis mais sair de casa, parou de trabalhar, ficava só em casa, saía muito pouco, só às vezes, só de vez em quando, ia ao mercado. Foi quando traziam as coisas pra ela, os conhecidos, os vizinhos. Foi aí. Não, foi quando o marido faleceu, lá atrás: ela ficou sozinha. Ah, a solidão faz isso com as pessoas. Mas pessoas que vivem rodeadas de gente também ficam assim. É a solidão de si mesmo, o abandono dos outros e o próprio abandono. Foi isso, foi quando a tia deixou todos pra trás, não quis mais saber dos irmãos, dos sobrinhos, da família. Demorou muito pra ter algum contato depois. Família, não, ah, ela sempre foi assim, como se diz, difícil, mentia, escondia as coisas, não falava, guardou muita coisa, não suportou, era muita coisa ruim dentro de si. A tia foi na direção contrária àquela seguida pelas estrelas que, perto do fim, se expandem antes da explosão que lhes dá cabo, viveu foi nessa direção contrária a tia.

Não, não sabe. Aliás, o não era a palavra que a tia mais repetia. É isso, ficou assim de tanto não. Era não de manhã, não quero sair. Não de tarde, não quero ir pra sala, prefiro ficar no quarto. Não, não vou fazer, já vai começar o programa que ensina a cortar as unhas, já vai começar a novela das seis, a novela das sete, aquele filme agora é que vai passar, não. Durante a noite, repetia em sonho o não, não, não, não, não. Foi assim que no hospital também lhe disseram não: não tem o que fazer. Primeiro não pode ir pra UTI. Depois que vai, não pode sair ainda. Quando sai, não pode ir embora. Não vai levantar da cama, já não tem consciência, não vai voltar a falar, não, não, não.

Não era uma manhã de sexta-feira, mas tanto faz, que dia era mesmo não sabe. Os dias já não fazem diferença. Não sabe o começo dessas coisas, mas sabe o fim, que aguarda, dá assistência ao que não parece fazer diferença à tia. Chega, senta ao lado dela, fala qualquer coisa com ar de naturalidade, como quem dá bom dia, pergunta pelo programa de tv, troca de canal, mexe nas revistas ao lado da cama. Espanta o silêncio. A tia às vezes abre os olhos. Ao lado dela, cochila, sente medo, faz crochê, pergunta-se pelo próprio destino. Percebe que o fim é uma espera que, absurdamente, tem até mesmo um começo, aquele que não é uma escolha, e que perdura na estranha obrigação de não aceitar o inevitável.


quarta-feira, 2 de julho de 2014

Coluna do Leitor - Polícia Militar e a democratização das bombas

. . Por Mistura Indigesta, com 0 comentários



ATENÇÃO
 Este texto pode conter doses altas de sarcasmo e ironia. Leia com moderação e ponderação1.



A Polícia Militar do Estado de São Paulo tem sido nos últimos meses um exemplo de democratização e bom uso do dinheiro público. Até meados de 2013, alguns dos artefatos adquiridos pela corporação com dinheiro público há muito tempo estavam estocados nos almoxarifados dos batalhões, empoeirados, alguns até com prazo de validade expirado (conforme verificamos em 2013, quando a PM usou bombas de gás lacrimogênio vencidas). Um verdadeiro desrespeito com o dinheiro público. Milhões gastos em munições não letais, abarrotando os batalhões.


Mas do ano passado pra cá, a corporação passou por um choque2 de gestão – como costuma dizer nosso excelentíssimo Governador do Estado de São Paulo Geraldo Alckmin – e muita coisa mudou de lá pra cá. O grande arsenal – até então ocioso – foi democraticamente distribuído à população, marcando um processo de retorno dos investimentos públicos àqueles que, com seus impostos, financiam a ação estatal. E não são apenas as bombas de gás lacrimogênio e efeito moral, balas de borracha e os litros e mais litros de spray de pimenta que estão retornando aos cidadãos. As práticas da PM comumente aplicadas a negros e pobres, como as prisões arbitrárias, tortura, confissões forçadas, flagrantes forjados, agora não são mais uma exclusividade das periferias urbanas. Todos e todas podem ser presos de forma ilegal e injustificada por um policial militar sem identificação.


Observa-se aqui um alargamento da atuação desta corporação que antes restringia sua atuação a alguns aglomerados de pessoas de baixa renda, marginalizados, em especial jovens negros. As Polícias Militares dos estados brasileiros, em especial a de São Paulo e Rio de Janeiro, perceberam o quão antidemocrática era esta restrição de atuação. Afinal, jovens negros e pobres não representam a totalidade da sociedade. É preciso ampliar o escopo de atuação. E para isso, novas formas de atuação foram adotadas pelas corporações, em perfeita consonância com os governadores de seus estados. A ordem agora é: qualquer aglomeração de pessoas terá direito a receber uma cota significativa de munições e artefatos, além é claro das atitudes enfáticas dos policiais militares. Não importa se é preto, se é mulher, se é morador de rua, se é estudante, professor, aposentado, metroviário, criança, black bloc, pacifista, torcedor da Argentina, do Brasil; não importa se você estava ali só de passagem, se estava só esperando o ônibus pra ir pra casa, se está num bloco de carnaval em Campinas ou se é advogado em exercício de sua função. Choque de gestão! CHOQUE! Democratização das bombas e das arbitrariedades policiais é a palavra de ordem do momento.


E este processo de democratização não está restrito às munições “não-letais”3. Nos últimos meses vimos também o uso de armas letais4 quando o objetivo é dispersar qualquer aglomerado de pessoas.


Certamente haverá aqueles que discordam de tal política adotada pelos governos estaduais e das PMs, dizendo que esta democratização é ainda muito restrita, já que não atinge aqueles que pagaram mil reais pra ver um jogo da Copa, ou que, vestidos com seus ternos Armani, se reúnem na FIESP ou no Palácio dos Bandeirantes. Para estes críticos, a PM discrimina este grupo que nunca na vida teve a oportunidade de sentir o cheiro agridoce de um spray de pimenta; que nunca pôde ter os olhos cheios de lágrimas por conta da fumaça tóxica de uma bomba; que nunca sentiu na pele (literalmente) o suave ricochetear de uma macia bala de borracha. Pobres coitados... Nunca terão essa oportunidade.


A PM está democratizando seu arsenal de arbitrariedades, mas não é pra todos. A democracia não é pra todos.


É democracia, mas tem dono.



1 O termo “ponderação” empregado neste caso não faz nenhuma referência ao filósofo das elites coxinhas Luiz Felipe Pondé.

2 Choque mesmo! Batalhão de CHOQUE!

3 Não-letais, mas que podem matar. Deveriam se chamar munições possivelmente-não-letais.

4 Essas são letais mesmo. Sem eufemismos.



Ricardo Normanha de Almeida faz charges e é doutorando do Programa de Doutorado em Ciências Sociais – IFCH / Unicamp. É professor de Sociologia, além de correr de balas de borracha e bombas de gás lacrimogênio, pois não é muito afeito à democratização à moda da Polícia Militar de São Paulo.



 

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Poesia Conceitual

. . Por Caio Moretto, com 0 comentários

Poesia conceitual I

Manifestante é detido sem motivos, agredido com spray de pimenta após imobilizado, colocado em automóvel não identificado pela PM, levado a uma delegacia não informada e a ação dos advogados é obstruída.
- Noticia de jornal não é poesia.
- Não saiu em nenhum jornal.

Poesia conceitual II

Manifestante é detido sem motivos, agredido com spray de pimenta após imobilizado, colocado em automóvel não identificado pela PM, levado a uma delegacia não informada e a ação dos advogados é obstruída.
- Isso não é poesia.
- Também não é democracia.

Poesia conceitual III

Manifestante é detido sem motivos, agredido com spray de pimenta após imobilizado, colocado em automóvel não identificado pela PM, levado a uma delegacia não informada e a ação dos advogados é obstruída.
- Por que insiste nesse tema?
- Porque o tema existe.

Poesia conceitual IV

Para o espetáculo internacional, jornalismo em tempo real.
Para denunciar o abuso estatal, a violência policial e o escambau,
se virem com o boca a boca.

Poesia conceitual institucional número V

E quem falar será detido, agredido após imobilizado, colocado em automóvel não identificado pela PM, levado a uma delegacia não informada e a ação dos advogados será obstruída!

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Coluna do leitor: Tá Chegaaando a Hora

. . Por Mistura Indigesta, com 0 comentários

(por Márcio M. Ribeiro)

Minha relação com o futebol sempre foi muito mais de admirador do que de jogador, mas gosto de lembrar de duas partidas nas quais entrei em campo. Em nenhuma delas joguei com Pelé [1]. A primeira foi no começo dos anos 2000 em uma praia isolada de Ilha Bela. Lembro de como me senti em casa jogando na areia com um grupo de caiçaras que acabara de conhecer, mas que em menos de 45 minutos já me chamavam de Magrão. A segunda foi na Grécia, dez anos depois, com colegas de laboratório. Havia algo de certo na primeira partida e algo de errado na segunda. Sempre desconfiei que isso se relacionava com o fato de que os primeiros, como eu, jogavam se imaginando como seus ídolos. Cada jogada, ou era a frustração de não conseguir estufar aquele filó como sonhávamos, ou a consagração da firula exata invejada pelo compositor [2]. Além desta referência ao imaginário da infância, outra dimensão que deve ter alguma relevância é toda a gama de significados que eu compartilhava com aqueles de pés descalços, mas não com meus colegas de trabalho. Apesar de tudo o que tínhamos em comum, os europeus jamais compreenderiam o orgulho de Jackson do Pandeiro em 62 [3], as ironias de Moreira da Silva em 66 [4] ou a frustração de Luís Americo em 74 [5]. 

Passada a nostalgia que vem forte quando estamos longe, a pergunta que nunca me saiu da cabeça sempre foi: de onde vem esses significados compartilhados? Esse sentimento ufanista que doentemente me faz achar poético o menino que deixa a vida pela bola? [6] 

Já no começo do século XX Carmem Miranda repetia incansavelmente que "todos têm seu valor" [7], muito mais para convencer a si própria do que ao resto do mundo do valor do "povo brasileiro" em geral e do "caboclinho" em particular. Nem Leônidas, nem o tal povo brasileiro jamais precisariam disso, mas por aqui parece difícil se livrar deste sentimento. Eis que no fim dos anos 50 e começo dos 60, enfim, "provamos" nosso valor. Didi, Garrincha e Pelé mostraram pro mundo o que era "nossa" escola, como cantou Tom Zé anos depois: "[nessa época] ninguém sabia que diabo era brasil, se a capital disso aqui era la paz ou buenos aires (...) a gente não era nada. E deus se manifestou na forma dessas criaturas Pelé, Garrincha etc. para nos engrandecer como povo. Para a admiração do mundo" [8]. Pouco depois veio o golpe e os militares não perderam a chance de transformar esse sentimento de país colonizado em puro e simples ufanismo. "Torci, sofri, mas afinal ganhei o mundo. Sou tricampeão do mundo" cantavam os Golden Boys nessa época [9] (lembro desta música sempre que ouço aquela propaganda com o Paulo Miklos e a Fernanda Takai). Mas foi também na década de 70 que se acentuou o processo inverso. Nunca mais seria lançada uma música enaltecendo o futebol sem que viesse outra a reboque criticando-o. Se Jorge Ben homenageava Pelé [10], Gonzaguinha lembrava que craque mesmo é o povo brasileiro que carrega esse time de terceira divisão [11], povo que sempre soube que aqui só não há revolução porque nosso time sempre é campeão [12]. Enquanto Wilson Simonal tentava nos convencer de que aqui era o país do futebol e a deixarmos todo o resto pra fora [13] (como o Pelé no comercial do supermercado), Gabriel Pensador nos lembrava de que, se aqui era o país do futebol, é porque futebol não se aprende na escola e que, se de vez em quando nasce por aqui um Brazuca, o tempo todo morrem Zé Batalhas assinados pela PM [14].

Este ano a copa do mundo de futebol masculino será aqui perto. Neymar continuará fazendo seus gols e continuaremos sendo presos (por aqui, atacar pela esquerda é caso de polícia [15]) e haverá comemoração e haverá luta.

2  O Futebol - Chico Buarque
3  Scratch de Ouro - Jackson do Pandeiro
4  Morengueira contra 007 - Moreira da Silva
5  Camisa 10 - Luis Americo
7  Deixa falar - Carmen Miranda 
8  Frevo do Bi - Jackson do Pandeiro/Tom Zé
9  Sou tri-campeão - Golden Boys
10 O nome do rei é Pelé - Jorge Ben
11 E por falar em Pelé - Gonzaguinha
13 Aqui é o país do futebol - Wilson Simonal
14 Brazuca - Gabriel Pensador
15 Bola pra frente - Tom Zé

---

Márcio M. Ribeiro começou sua carreira como goleiro-artilheiro em partidas de gol-a-gol com seu irmão. Quis a vida lhe oferecer novos destinos, logo passou a treinar como pivô de três dentro três fora com os amigos da rua. Jogador dedicado, sempre focado no trabalho em equipe, conquistou respeito. Hoje, atua no time de professores da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP, continua se destacando por seu posicionamento dentro e fora de campo e por suas belíssimas assistências.

    • + Lidos
    • Cardápio
    • Antigos