VÍDEO: MURILO CAMPANHA CONTA ITATINGA

O psicanalista Murilo Campanha fala sobre Itatinga, um dos maiores bairros de prostituição da América Latina, onde ele tem seu consultório.

O nadador

Uma crônica de Hugo Ciavatta.

Ainda que as bolachas falassem

Crônica de Fábio Accardo sobre infância e imaginação

Ousemos tocar estrelas

Uma reflexão de Thiago Aoki.

Entre o amarelo e o vermelho

Uma crônica de Hugo Ciavatta

O homem cordial vinhedense

A classe média vai ao barbeiro. Uma crônica de Caio Moretto.

terça-feira, 23 de julho de 2013

Coluna do Leitor - Durou muito pouco o meu tênis Coca-Cola

. . Por Mistura Indigesta, com 0 comentários


Durou muito pouco o meu tênis Coca-Cola. Mal teve tempo de amaciá. Já não aperta mais. Meu pé torto e desajeitado deu os seus jeito de estorá ele. Nos memo lugar de sempre. Nos memo calo. Nas mema joanete. Meus tênis sempre arrebenta na sola dum jeito que tem que í pros lixo. De um jeito que num dianta nem tentá remendá. Fura tudo. Gasta tudo. Lixo.


Quando eu era guri inventaro de usá um troço caro que chamava silverteipe. Dizia que remendava tênis. Os meu nunca. Meu pé arrebenta ele dum jeito que não dá nem pra remendá. E eu só uso tênis mais barato que silverteipe. Num dá pra gastar mais no remendo que no tênis, né? O silverteipe prolonga a agonia do tênis, mais ele já tá condenado. Caio nessa não.

Parece que esse troço de silverteipe (arguém inda usa isso?) era coisa de esqueitista cabeludo, como já foi certa veiz um sabido amigo meu o tal de André Lopes. Ex-esqueitista e ex-cabeludo. Sabido e amigo meu ele continua seno. Grazadeus. Tão sabido que tudo as veiz em que começa sê bem-sucedido nos trabaio e armam prele uma promoção e aumento salarial, e bônus e celular com computador e internet de grátis; ele pede demissão. Já feiz isso umas pá de veiz. André Lopes sabe que nesses tar de capitalismo os bem-sucedido são tudo uns bando de fodido que toma remedinho pra durmí e remedinho pa cordá. Nesse mundão aí é mió sê livre que sê bem-sucedido. Parece que não dá pra sê os dois não, viu moça?

André Lopes tá em Cuba, vendo umas praia e uns tar di socialismo pra vê se inspira a estudá um pouco pra mór de consegui um emprego de pocas hora num lugar cum praia. Como eu disse, meu amigo André Lopes é sábio, socialismo com praia deve de sê bem mais legal.

Tênis da Coca-Cola eu não quero mais não. Machucô meu pé. Tinha a sola dura. Durou pouco. Uma bós di tênis. Eu gostaria que a Coca-Cola continuasse existindo lá no socialismo. A bebida. O tênis não. O tênis é uma bosta. A bebida é jóia. Diz que é boa pra desentupí pia. Eu gosto de tomá pra acompanhá umas comida, pra botá uns açúca pra drento despois do futibol e pra curá ressaca. E mias minina ia ficar tudo tristi si no socialismo não tivé Coca-Cola. Elas gosta. Diz que faiz mar. E u qui qui num faiz? Umas pá de coisa da hora diz que faiz mar. Devi di fazê memo. I daí? Si for pra ficá com esse argumento di vó eu fico com a minha bisa, que era muito mais esperta: tudo faiz mar si zagerado. Pode tomá um golinho de Coca-Cola às veiz sim, fia... pode tomá, que num tem pobrema. Mas num zagera não, viu, fia?

Dias desses eu vi o Marcos respondeno uns chato que impricava cos zapatista qui tomava Coca-Cola. Gosto muito do Marcos. Otro sabido. E tem uns zóio bonito que só veno. Gostei muito da entrevista quele deu. Uma aula. Ele não falou bem da Coca-Cola, não. Falou mal de quem imprica só ca Coca-Cola. Por que num imprica co as otra marca? Por que num imprica cos banco? Por que não imprica co'esse mundão véio sem portêra em que manda em nóis tudo? Bora impricá, aí, ô tigrada. Mai impricância tem que ser deis de da raiz. O resto é picuinha. E picuinha é cois di quem tem carinho. Mai dá uma zoiada lá na aula que o Marcos deu. [Perta no linque ali em cima, ó]. Uma aula. De oratória, de humor. Aula de vida.

Comos tar zapatistas anda dando aí pra quem quisé vê. E tudo sem gritarEssa gente aí gós do silênço. Gente sabida. Se for pra abrir a boca que seja pra falá argo mió qui o silênço. Eles tão tentano arrumá um mó di vivê menos pió do que essa merda aí que mistura bebida cum tênis e remedinho e mais um monte de porcaria. Tentano vivê mais paricido qui nem sempre vivero antes dos homi capitalista chegá lá pra enchê o saco e expulsá eles lá das terra deles. Parece que não gostam muito dos zapatista por aí, não. Pareci que os tar capitalista aí têm medo di qui as pessoa acredite que é possíve vivê uma vida mió que essa merda que tá tendo por aí. Eles não deve de pensá que que essa tar vida aí é tão boa, não. Têm que obrigar os otro a gostar dela! Tamém, remedinho pra acordar, remedinho pra dormir.... Uma merda só. Parece que tem quem gosta, mas eu num cheguei a conhecê não. Nem os rico gosta... nem os rico.


Dia desses tamém vi uma notíça boa. Dizem que fizero uns estudo aí desses instituto científico gringo que diz que tênis feito pra corrida faz mal pra corrida. E pro corredô. Diz que dá problema nas junta, nos tornozelo, nos jueio. Bom memo é correr descarço. Viram isso estudano os corredor africano que treina tudo descarço purque num tem dinhero pra comprá tênis. Diz que descarço se corre mió. Com as passada feita mais corretamente. Que o tênis faiz pisá errado. Que se corre pior. Que com tudo os dinheiro que gastaro desenvorveno tênis de 800 real pra corrê nunca conseguiro inventar um tênis mió que o pé pelado. Aí mais um monte de otros estudo de instituto científico gringo tão seno pubricado pra falá que corrê descarço é ruim. Que bom é corrê com os tênis de 800 real. Sei lá. Eu nunca vô comprá um tênis de 800 real. E eu sempre desconfio desses instituto científico gringo, não importa o que eles fala. Os africano que treina descaço mais compete de tênis (acho que não pode competi descarço) continua ganhano tudo as maratona.

Dizem que correr descarço é mió purque os bicho-homem correu descarço uns milhar di ano. [Ou seria milhões? Sei lá. Pergunta pro Henrique que ele tá estudando esses troço aí de pré-história pra ver se entende a gente]. Mas também não dá pra ser tão conservador assim, né, nego? Tem umas coisa boa que fizeram nessas úrtimas centena de ano. Coca-Cola, por exemplo. Pra bebê. Pra corrê não. Pra corrê é uma bosta. Duro paca cete. Pra jogar bola eu até que gosto de ir descalço, quando o chão é de grama. Mas eu sou jogador de quadra. E na quadra o tênis é mió. As verdade nossa têm que sê pensada veiz sim vez não de acordo com as circunstânça, né não? Quem acha que tem uma resposta simples num deve di tê entendido nem a pregunta.

Num sei se é porque nos acostumaro qüela, mas pra num gostá de Coca-Cola é difícil. Só conheci o Felipe, outro sabido amigo meu que pede demissão e foge de aumento. Ele num toma Coca-Cola não. Ele toma só leite. Mas do jeito que andam maltratando nossos leite e ponhando água, e soda e mais um monte de otras porcaria nele eu desconfio que leite deve de tá fazendo mais mal que Coca-Cola. Como diria o Prata (o pai do ídolo do editor – se eu não falar dele ele fica de biquinho – SMAC editorzinho lindo!) no Brasil a única coisa transparente é o leite. Tá certo o Prata. Quem não tá muito certo é o Felipe. Parece que deram uma promoção, um celular, um computador e uma gravata pra ele e ele teve que aceitá. Coitado. O leite deve di tá fazendo mar pras idéia dele. E olha quele mora na praia. Mas não no socialismo. Ainda. Ele vai gostar do socialismo com praia. Certeza. O Felipe anda mar das idéia mais é fera!

Quando eu escrevinhei o primeiro texto sobre o tênis da Coca-Cola que eu ganhei [bota o linque aqui, ô editor] eu falei que o tal do capitalismo tava gonizando. E que apostava que meu pé durava mais. Andaro duvidando. Muita coisa mudou nesses menos de ano. Tem alguém aí quinda duvida que esse tar de capitalismo aí tá estorando por tudo os lado e arrebentando a sola que nem meu tênis? Esse trem gastou, galera. Furou tudo. Gastou tudo. E vai pro lixo logo logo.

Inda vai tê gente tentando remendá com silverteipe. Vão gastá mais de remendo que na coisa. Iguar esses empréstimo di banco. Talvez prolongue a agonia, mas já tá tudo condenado. Caio nessa não.


Continuo andano de à pé por aí, engolindo meus sapo, cantando meus pagode e jogando a minha bola. De tênis novo. Porque certo tava – como sempre – o meu amigo André Lopes. O tênis da Coca-Cola, além de tudo, era uma bosta pra jogá bola, que no fundo no fundo mesmo é o que eu gosto de fazê pra ficá cum as idéia mais jóinha.

Saudações anti-capitalistas a todos nóis que tamos no mesmo barco. Tá afundando. Mais quem disse que a gente não pode nadá e pegá uns jacaré pra mór curtí um sol?



Smac

Peixe é Thiago Fernandes Franco, pentelho de carteirinha no Mistura Indigesta.


quarta-feira, 3 de julho de 2013

Coluna do Leitor - Medo? Medo de quê?

. . Por Mistura Indigesta, com 1 commentário


(um texto confuso sobre esse momento confuso)

- Eu tenho medo… Eu tenho medo…

Assim dizia a atriz global lixo humano Regina Duarte. Isso foi em 2002 na campanha do Serra contra o Lula. Medo do Lula fazer um governo que interferisse na propriedade de acumuladores como ela que roubam do povo pra encher o cu de dinheiro. Coisa que nem de longe aconteceu até agora.

Eu poderia dizer hoje: “Tenho medo, tenho medo…”, mas não. Estou adorando o atual momento. Se foda onde vai dar – e ninguém é mãe Diná, nem o mais brilhante analista liberal do canal a cabo que seu tio venera e nem o mais brilhante analista marxista daquela universidade federal ou estadual que seu primo venera; ninguém sabe onde vai dar essa porra – mas só de sair dessa pasmacera de pacto social da Hipocrilândia fico com tesão.

Mas os fascistas bláblábláblá… os comunistas bláblábláblá… os partidos, a Dilma, o Feliciano, o Cabral, o Alckmin, os vândalos, os corruptos, os fiadaputa bláblábláblábláblá… Sempre vem alguém com um medo diferente dizer alguma groselha. Mas daí penso. Medo de que? Se tem medo, tem algo a perder, né não? Ou num é não? Diz aí, Jabor! Diz aí, Mano Brown!

Eu acho que um problema que pode acontecer – e por isso eu poderia dizer “tenho medo! tenho medo!”, mas não é medo, porque o imprevisível do que está por vir me deixa excitado, já disse – é do grupo que ascender num novo poder que poderá vir ser mais um grupo moralista que vai agir em interesse próprio sem pensar que todos os seres humanos são poços de complexidade e não existe um sistema perfeito de pessoas idôneas a ser seguido. Essa é a burrice de qualquer organização que poderá vir. (Ó eu otimista achando que algo vai mudar…)

Entendeu? Acho que não expliquei direito. Se liga nos entre aspas abaixo:

“Fora Feliciano!!! Feliciano fascista!! Evangélicos raça escrota!!”

“Fora partidos!! Oportunistas de merda!!”

“Vândalos!! Sem vandalismo!!”

“Deus, nos guie num caminho de paz e fim da corrupção…”

“Vai Neymar!!”

Sim. Todas as cenas acima existiram por esses dias atrás. Esse é a nossa nação varonil hoje.

E aí? Você é o bom e o outro é o ruim, não é isso mesmo? Hein? Hein? Mas me explica seu primo evangélico. Explica sua vó que gosta de ver novela. Me explica seu tio filiado àquele partido político que defende a estatização de tudo. Como é que vai ser já qui u qui é é u qui tá?…

É, minha filha. O poder tão logo que você imagina pode estar nas suas mãos. E até hoje na história dessa nossa Hipocrilândia só usaram o poder pra oprimir, violentar, subjugar, ensinar, lucrar. Percebam o ensinar no meio disso tudo. Porque ensinar é coisa necessária pra qualquer estado se perpetuar. A ordem necessita do ensino. Então essa sua verdade – tão nobre e pura – diferente da verdade do outro – tão podre e corrupta – pode ser a verdade perpetuada em instituições de ensino pra logo criarmos novas elites, novos opressores e novos oprimidos.

Poderia dizer: “Tenho medo dos que se julgam puros, bons, honestos, trabalhadores, e querem um sistema contra os podres, maus, desonestos, vagabundos…”, mas não tenho não. To mais é dando risada disso tudo. Mas atente, leitor, que pode vir coisa muito escrota poraí, sob o nome que vier… Mais escrota do que já tá? Difícil, hein? Já que somos um país em guerra desde a invasão dos portugueses, com mais mortos que todas as guerras declaradas no mundo. Inclusive as mortes em Ribeirão Preto, Belo Horizonte e Rio de Janeiro que já somam mais de dez corpos e tem a ver com as novas manifestações.

- Então tu és mais um relativistinha de merda, seu Joãozinho?

Craro que não. Defendo a ampliação de direitos. Defendo as assembléias populares. Moradia para todos, terra pra todos, Passe Livre em tudo quanto é transporte, canais livres de TV pra qualquer um que quiser ter a sua, até rango como direito de fato, já que temos tecnologia suficiente pra fazer tudo isso. Mas sem essa de querer trancar gente em jaula por ser pior que você. Sem esse moralismo do trabalho que tanto direita quanto esquerda valorizam… Sem essa coisa do “eu sou lindo, ele é feio”.

Pessoas buscam o conforto. Esse é o caminho trilhado pela maioria das pessoas. Querem suas vidinhas, seus casamentos, seus filhos, seus bens de consumo, e a forma como organizamos o sistema nega isso pra maioria das pessoas pra dar privilégios para poucos. Por isso ampliar os direitos é importante. Não porque o trabalhador é bunito e o burguês é feio. Ou o pobre é nobre; o rico é lixo. Não me venham com essa de pureza. A maldade, o sadismo (e o masoquismo, seu irmão siames), a podridão, a ambição, a inveja, a exclusão, tão todos aí. Tão em todas etnias, classes e gêneros.

Podemos mudar o sistema radicalmente mas essas coisas listadas acima vão continuar. Não me venham com utopias de pureza porque isso pode dar em merda com certeza. Em violência, mortes, encarceramentos.

- Mas então por que tu chamou a Regina Duarte de lixo humano no começo do texto?

É pra agora – no fim do texto – dizer que eu e você também somos lixos humanos. Mas eu – ao contrário dela – não tenho propriedade nenhuma, moro de favor, não tenho emprego fixo (vulgo vagabundo) e quero que a Regina perca todos seus privilégios (vulgo propriedades) pra que tenha apenas direitos. Assim como eu e você e todos os seres vivos mais. Que todos tenhamos direitos, independente da vida que levamos. Mas sem essa de moralismo, sem essa de pureza, sem essa de querer punir o outro, sem essa de ser um novo estado. Ninguém deve pagar nem pela vida mais vadia. Todos temos carne, osso, sangue. Todos sofremos, choramos, sentimos prazer e dor. Todos somos isso aí que chamamos de humanos. Complexos. Lindos. Feios. Bons. Maus. E etcétara.

Que venha o novo. Tomara que não seja a repetição do velho. (Ó eu otimista de novo)

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João da Silva é morador de Cancrópolis e escreveu esse texto bêbado.




sexta-feira, 28 de junho de 2013

O que vi nesses últimos dias - Sobre as manifestações pelo país

. . Por Thiago Aoki, com 3 comentários



Mas se através de tudo corre a esperança, então a coisa é atingida. No entanto a esperança não é para amanhã. A esperança é este instante. Precisa-se dar outro nome a certo tipo de esperança porque esta palavra significa sobretudo espera. A esperança é já. Deve haver uma palavra que signifique o que quero dizer. (Clarice Lispector)

Estranho esses últimos dias.

Vi pessoas discutindo estratégias de luta no café da manhã, política de mobilidade urbana no almoço e emendas constitucionais durante o jantar. Uma campeonato internacional no Brasil, é verdade, mas este ficou no máximo para o cafezinho entre as refeições.

Vi pela primeira vez reivindicações que não são apenas contra algo, mas por algo. Vi o congresso aprovando coisas que todos queriam à toque de caixa, consensos imediatos entre situação e oposição, como se quisessem em alguns dias acabar com séculos de distanciamento do resto do país. Vi lideranças se reunindo, marqueteiros se martelando, bandeiras sem saber quem as poderia defender.

Vi a mídia olhando-se no espelho, não gostando do que via, mas nada que apavorasse tanto como quando olhava pela janela e via a multidão dizendo que o povo não é bobo. Teve cronistas especializados em verdades absolutas voltando atrás, emissoras se justificando, termos que mudaram e o apoio às manifestações, agora democráticas. Um dicionário de antônimos em menos de uma semana, que contou ainda com dois garotos bailando jornalistas e coronéis no programa de TV.

Vi gente de verde amarelo dizendo coisas absurdas sobre o Brasil. Militantes de vermelho que não aceitaram gente diferenciada no protesto. Pessoas aprendendo política na prática, que tinham interesse e nunca souberam que podia ser tão legal esse treco. E no meio disso tudo, vi muitos que pareciam nada ter a perder, esses que vi, mas não identifiquei, tinham pedras nas mãos e os rostos escondidos, dava pra ver apenas os olhos. O que traziam esses olhares? Ainda me pergunto sem respostas.

Só sei que eu vi o Caveirão da polícia recuar e uma tropa da cavalaria fugindo de uma multidão.

Vi ainda gente ser demitida por posicionamentos políticos, um rapaz morrer caindo da ponte, uma gari enfartar com o gás, repórter tomando tiro de borracha no olho, chacinas na periferia, bombas lançadas de helicópteros contra a multidão, queimaduras de terceiro grau. Não, a barbárie não triunfou, ela apenas se expôs.

Mas também vi amigos criando, quase que por necessidade visceral. Inventando poesias, músicas, crônicas, quadrinhos, teorizando às pressas, como se dissessem, “eu também não sei o que será que será”. Alguns até se tornaram referências nas redes sociais. E na efervescência de ideias e produções despertas dentro cada um, uma alegria, ainda que contida, em pensar que a ação coletiva – adormecida há tanto tempo no colo de nosso ceticismo – poderia ser possível.

E talvez por isso, ou por algum motivo que ainda não consegui colocar em palavras, entre as frestas da fumaça do gás lacrimogêneo eu vi nesses últimos dias a esperança, nebulosamente, aparecer.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

SEIS NOTÍCIAS DA FOLHA SOBRE A PM QUE PODERIAM SER DA DITADURA

. . Por Caio Moretto, com 0 comentários

Em texto anterior tentei demonstrar que o problema da violência da PM não está unicamente na índole do policial por trás da farda, mas no próprio sistema de funcionamento militar da instituição, incompatível com nosso sistema democrático. Ocorreu-me, porém, que seria interessante mostrar exemplos de atos da PM consensualmente anti-democráticos. Para evitar acusações de manipulação de dados baseadas na fonte da informação, reuni seis notícias apenas da Folha de S.Paulo que relatam algumas ações da PM ocorridas nos últimos dias de manifestação que poderiam facilmente ser confundidas com notícias de uma ditadura.

(Clique com o botão direito no endereço e selecione "abrir link em janela anônima" para acessar o conteúdo)

1 - PRISÃO POR AVERIGUAÇÃO

2 - CENSURA DE IMAGENS OBRIGANDO MANIFESTANTES E REPÓRTERES A APAGAR ARQUIVOS

3 - APREENSÃO DE LIVRO EM CASA DE SUSPEITO PARA JUSTIFICAR PRISÃO POR PERFIL SUBVERSIVO

4 - TIRO DE BORRACHA NO OLHO DE PROFISSIONAL COBRINDO A MANIFESTAÇÃO

5 - OMISSÃO DE SOCORRO E TIROS CONTRA QUEM TENTAVA SOCORRER JOVEM FERIDO

6 - ASSASSINATO DE INOCENTES

Fora essas que a Folha revelou, temos visto diversas outras acusações contra ações da PM que não têm saído nos jornais, como abuso de manifestantes mulheres por parte de policiais, a instauração do toque de recolher em Belo Horizonte, fechamento do espaço aéreo durante manifestações para impedir fotos jornalísticas que possibilitem contagem mais precisa do número de participantes, bombas de gás lacrimogêneo em ambientes fechados e dentro de carros, tiros contra pessoas que estavam em suas residências apenas filmando as manifestações, policiais atuando sem identificação e outras que circulam pelas redes sociais por meio de denúncias e vídeos gravados por manifestantes.

Todas essas são notícias sobre a PM que circularam em apenas duas semanas de manifestações. Podemos seguir acreditando no discurso de que são abusos isolados e culpando os PMs que cumpriram as ordens ou podemos nos colocar seriamente a discussão sobre a coerência de termos uma polícia militar em um regime democrático e aproveitar esse período para democratizar e desmilitarizar nossa polícia.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

A PM e o equilíbrio de poderes

. . Por Caio Moretto, com 1 commentário

Vejo pessoas falando muito de equilíbrio de poderes após a ideia de constituinte. Que bom! Mas vamos manter a coerência e falar também do equilíbrio de poderes quando a Polícia Militar cria o pânico e mata antes de julgar. Quem foi juiz, legislador e executor? Não vejo ninguém falando de equilíbrio de poderes contra a PM.

Falar pela desmilitarização da polícia é respeitar o homem e a mulher por trás da farda, pois não há possibilidade de humanização do profissional nessa lógica militar. O direito militar funciona na lógica dos fins, não se preocupa com a legitimidade dos meios. Se um PM descumpre uma ordem injusta não há nada que a população possa fazer para que pague quem deu a ordem e não quem se recusou a cumpri-la, porque o que diz se a ordem foi boa ou não, pela lógica militar, é se foi alcançada ou não sua finalidade (que não é proteger o cidadão, e sim à ordem, deixemos de ingenuidade). Desmilitarizar a polícia é dar ao policial a garantia de que ele não precisará cumprir ordens injustas, que é o mínimo de garantia que uma pessoa precisa ter para trabalhar de forma digna. Desmilitarizar a polícia é estender aos policiais os direitos democráticos que já conquistamos.

A mídia incentiva a ação da PM contra o vandalismo como se isso fosse defender a democracia, mas a PM não se submete às nossas leis civis, a essa que chamamos de Constituição e que tantos têm falado em proteger após essa ideia de constituinte. Se vamos falar de Estado democrático de direito não temos que incluir a polícia nessa lógica? A gente vai comprar o discurso da mídia e fingir que não viu que o "vândalo" que deu o pontapé inicial para começar a invasão do Congresso era fuzileiro infiltrado? Que não vê as chacinas no Rio? A prisão para averiguação?

Se quisermos (e aqui me incluo como cristão) falar de não violência, não podemos ver a PM como exceção. Quem traça essa linha? Se não adotarmos uma postura crítica acabaremos defendendo o opressor achando que está defendendo a democracia. Que democracia é essa em que o poder militar assume todos os poderes e não se submete a leis criadas pelo povo?

Não vai ter golpe nenhum porque não precisa: vivemos em uma guerra civil não declarada. Quando Martin Luther King apontava as vitórias do movimento não violento tinha uma que era especialmente significativa: trazer para a luz do dia e para o centro da cidade a violência que é cometida à noite na periferia. É isso que eu tenho visto.

Se o objetivo é a democracia, não é necessário que a polícia se submeta às leis democráticas?

domingo, 16 de junho de 2013

Editorial: o Mistura Indigesta e o vandalismo do mundo

. . Por Mistura Indigesta, com 1 commentário


O Mistura Indigesta nunca teve um editorial, porque editorial é coisa de mídia grande, organizada, com CNPJ, não de um grupo de amigos com quatro ou cinco postagens mensais.


E também porque achamos que é pretensão querer dizer pro leitor a opinião de um coletivo, para influenciá-lo ou coisa assim. Nossa opinião está em tudo que escrevemos, nas notícias que postamos. É fácil saber, não precisamos forjar uma imparcialidade, ela não existe em lugar algum, até quem está neutro toma um partido.


Mas tem alguns momentos de nossa história, muito ímpares, em que a coceira bate, e é preciso coçar, mesmo que as unhas estejam afiadas e sangre um pouquinho a pele, sabe? Talvez um desses momentos tenha sido no dia 13/06, quando, pasmos, assistimos às imagens que todos viram da repressão desproporcional, descabida, entre outros dês, da polícia de vários lugares do país.

Nós aqui do blog, somos chatos, classe médias, temos graduação em ciências sociais. Pouco usamos ônibus. Mas talvez a partir desse dia, não seja mais de ônibus que estejamos falando. De repente, a gente percebe que o preço do ônibus, as quarenta e quatro horas de trabalho, a o massacre do Pinheirinho, as ocupações pelo mundo, da marcha das vadias, do cara lá que engana o patrão pra jogar bola, são todas várias faces de uma mesma coisa, de um mundo que por vários motivos nos cerceia. Você deve saber, “no primeiro dia eles vêm roubam uma flor”, “quem não se mexe não sente as amarras”, “os poderosos podem matar até três rosas” e etc.

Em algum momento esse monte de citação que, por algum motivo, estavam dentro do armário, testados pelo tempo, mais próximos à prateleira de literatura do que de história, voltaram a fazer sentido. E mesmo sem usarmos ônibus, gostamos e precisamos dizer que, mais do que contra a repressão policial, somos à favor das ocupações das ruas, dos engarrafamentos gerados, dos questionamentos dessa tal democracia e de seus pilares (governo, mídia, etc) que ruem a cada barulho de bomba contra um ativista desarmado só porque ele não é padrão FIFA, porque não grita baixinho, porque insiste em incomodar, porque atrapalha o trânsito, porque picha, porque não se conforma com uma ordem e conjunto de regras que lhe foram dadas.

Esse editorial é principalmente um mea-culpa de nós mesmos, que não escrevemos editoriais e adoramos uma contradição. Talvez uma forma de dizer foi mal, alguns de nós não fomos às ocupações, nos envolvemos em movimentos coletivos como se envolve a classe média, sim, desencantada mas criticamente. Em meio a nosso ceticismo nos conformamos em ser contra, porque o mundo que nos deram, a gente não quer. Porque o não também constrói um mundo, mesmo que a gente sequer imagine como ele seja. Estamos dizendo basta como quem porta vinagre na avenida, como quem usa caneta bic ao invés de gás lacrimogênio e bala de borracha, como quem acredita que quebra quebra é também juntar um monte de letrinhas e não deixá-las apenas sobre o papel ou na tela do computador, porém, levando tudo isso para encarar a violência, a miséria e o descaso cotidiano.

Hoje temos algo para ser a favor, então, o mínimo que fazemos com esse editorial, ou o que quer que seja, é divulgar: Dia 17 de Junho, às 17 horas, lá em São Paulo, Dia 20 de Junho, às 17h no Largo do Rosário, em Campinas, ou onde você estiver.

Finalizamos com alguns textos nossos, individuais, mas também de cada um de nós, por que não?

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Felizes aqueles que dormem o sono dos acríticos,

Que desdenham as súplicas
Ouvidas na subida da rua
Por vozes vivas e lúcidas
Que sonham dormir em paz.

Felizes aqueles que dormem o sono dos acríticos,

Que travam o feixe e fecham o vidro frente ao farol
Sem saber quem é aquele que sua sob o sol.

Felizes aqueles que dormem o sono dos acríticos,

Pois deles são o reino da apatia.
Lá são amigos da moral,
Têm a mulher que querem
Com o dinheiro que pagarão.

E empoderados pela boa conduta

Decretam como equívoco
O mais puro infantil sorriso
E a mais indignada lágrima adulta.

Felizes aqueles que dormem o sono dos acríticos

Por não terem em seus olhos submissos
As lentes lamuriosas da subversão
Para que sigam versando verdades sensatas
Em poemas métricos e rigorosos
Do jornal trágico de cada dia. 

Felizes aqueles que dormem o sono dos acríticos.


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Quando me cobram pela liberdade que é inata, você acha natural,

Mas quando a cobro de volta sou vândalo no seu jornal.
Não se faça de besta como se fosse atrocidade:
Não se trata de justificar a violência,
Mas de deslegitimar a desigualdade.
Você sabe bem quem está certo e quem está errado.
Violência é parar uma avenida ou nascer paralisado?

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ontem, mais ou menos às 18h, eu sai do computador, não liguei a tv, não vi nada do que aconteceu "em tempo real" em São Paulo. hoje de manhã, tentei, apenas tentei passar pela avalanche de informação, imagens, textos, discussões, vídeos, tudo que apareceu.
eu não quero viver nesse mundo.

é terrível estar em um "lugar público" para ler essas coisas e se sentir constrangido até pra chorar.

sinto muita vontade de estar em São Paulo, queria estar. sinto muita raiva, sinto meu estômago no céu da boca. ninguém acerta vários olhos por acaso. eles miravam nos rostos. ninguém acerta tanto jornalista por acaso. eles começaram uma guerra, e faz tempo, não é de ontem. só que não entenderam que não podem mais se esconder. não é uma questão de passagem de ônibus.

eles não vestem apenas fardas, eles não são apenas de partidos, eles não são só a grande mídia, eles, eles, eles... eles não estão só do lado de lá. eles, eles, eles, eles...

chega.




sexta-feira, 17 de maio de 2013

Coluna do Leitor - Sobre a homofobia, a influência religiosa na política e... o mesmo amor

. . Por Mistura Indigesta, com 1 commentário



Hoje, dia 17 de maio, é o Dia Internacional de Combate à Homofobia. A data não foi uma convenção aleatória: há exatos 23 anos, em 17 de maio de 1990, a Organização Mundial da Saúde retirou a homossexualidade da Classificação Internacional de Doenças (CID), declarando que a mesma não constituía doença, distúrbio ou perversão. Até então, o homossexualismo constava na lista da CID desde o ano de 1977 (“homossexualismo”, com o termo em itálico, mesmo, só para que atentemos ao sufixo “ismo”, que atribuía à homossexualidade -- e ainda atribui, simbolicamente -- caráter patológico).

Curiosamente, o Brasil “despatologizou” a homossexualidade antes mesmo da resolução da OMS. Em 1985, o Conselho Federal de Psicologia deixou de considerá-la doença e, em 1999, normatizou a conduta dos profissionais da área frente à questão. “Os psicólogos não colaborarão com eventos e serviços que proponham tratamento e cura das homossexualidades.”, afirma passagem que consta na resolução 1 de 22 de março de 1999 do Conselho. Digo “curiosamente” porque, apesar de tal avanço na época, os episódios ocorridos particularmente nos últimos três meses em nosso cenário político mostram uma realidade bastante retrógrada.

Claro que todos sabem que estou falando da polêmica atuação do deputado-pastor Marco Feliciano na presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias. Desde que o pastor foi eleito, em março, reações revoltadas e acaloradas vêm sendo desencadeadas devido às suas declarações, sempre conflitantes com a função que exerce. A última sandice de Feliciano foi a decisão de colocar em pauta a suspensão da mesma resolução do Conselho Federal de Psicologia, de 1999, além de propor cadeia por até três anos para quem discriminar pessoas que se atraiam pelo sexo oposto(!!!). Como se existisse algo como “heterofobia”.

Parece piada digna de figurar entre as postagens do Piauí Herald, Sensacionalista ou G17, mas não é. E o lado bom de tudo isso – e provavelmente o único – é que, a cada declaração carregada de ignorância e preconceito do “homem de Deus” que ocupa a CDH, trazem-se à tona novamente questionamentos acerca da laicidade do Estado e da negligência dos direitos civis de minorias (em especial da comunidade LGBT). Enquanto isso, o cenário de polarização de posicionamentos mostra-se cada vez mais radical: de um lado, os religiosos intolerantes travestidos de defensores da “moral e da família”, bradando contra a “ditadura gay”; do outro, os defensores da liberdade individual e da igualdade de direitos, mas também os que atacam crenças e religiões de terceiros de forma ignorante e generalizada.

Religião e (in)tolerância: quatro parágrafos foram necessários para chegar até aqui, o objetivo inicial de todo o texto. Por quê? Porque a luta representada pelo dia de hoje é contra um problema ainda gritante no Brasil. Temos número recorde de violência contra homossexuais, apesar de sediarmos a maior Parada do Orgulho Gay do mundo e de, há poucos dias, o casamento civil igualitário ter sido oficializado em território nacional; porque o discurso de ódio propagado por alguns líderes religiosos que exercem tamanha influência no universo político e midiático é extremamente nocivo, em um país de maioria cristã; porque, no meio religioso, aqueles que se dispõem ao diálogo para ir além das limitações de pensamento e imposições totalmente incompatíveis com o período que vivemos são censurados ou afastados de suas posições (vide caso da excomunhão de padre Beto, em Bauru). Porque homofobia não é apenas violência física, não é só lâmpada na cara de um passante na Av. Paulista.

Por todas as consequências geradas pela forte influência cristã no meio político, que interferem diretamente na vida cotidiana e no direito das minorias (especialmente da grande minoria LGBT), a dicotomia “religião vs. tolerância” se reafirma cada vez mais. Mas essa não é a única realidade, e é saudável e necessário que não seja.

É interessante mencionar pesquisas recentes que apresentam dados que vão de encontro à ideia de que homossexualidade e religião são incompatíveis e não podem coexistir: o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou, em 2012, que 47,4% dos casais homossexuais no país se dizem católicos, e 20,4% afirma não ter religião -- o que não é sinônimo de descrença em Deus ou de ausência de qualquer fé; outra pesquisa curiosa, “O Crente e o Sexo”, foi realizada pelo BEPEC – Bureau de Pesquisa e Estatística Cristã. Segundo a mesma, uma parcela de evangélicos já teve ou mantém relações sexuais com pessoas do mesmo sexo, mesmo os casados.

Tais dados mostram que, claramente, dogmas e passagens bíblicas não são suficientes para suprimir qualquer comportamento, sentimento ou modo de ser, ao menos no que diz respeito à vida privada (velada), e não pública, de um sujeito. Independente do discurso religioso, muitos oprimidos pelo mesmo ainda assim se mantém fiéis ao que creem – e talvez isso signifique que, assim como sentimentos homoafetivos, a crença em algo não é exatamente uma escolha.

Frente às estatísticas que as pesquisas citadas anteriormente apresentam, há lugar para a fé e a religião na vida de homossexuais. Porém, a questão é outra: há lugar para homossexuais crentes, sejam eles católicos ou protestantes?




Luiza Judice, recém formada em jornalismo e uma das diretoras-produtoras do curta-metragem O Mesmo Amor.



segunda-feira, 13 de maio de 2013

Coluna do Leitor - Ainda sobre cadeias e ladrões

. . Por Mistura Indigesta, com 1 commentário

Acabei de tomar boldo isprimido na água. Cê pega o boldo, amaça ele com uma colher de pau em três dedos d'água. Depois deixa uma hora na geladeira. Daí toma. Remedião bom contra essa ressaca.
*          *          *

vida

nasce
estuda
estuda
estuda
estuda
trabalha
trabalha
trabalha
trabalha
trabalha
trabalha
trabalha
aposenta
e morre

Fiz esse “poema” há uns dois meses atrás. Declama-se bem devagar. Na primeira declamação que fiz minha amiga gargalhou. Na segunda, uma outra amiga não gostou muito não. “Nossa! Que visão triste das coisas...” Não. É só um jeito de enxergar um troço que eu tratei como deus durante muito tempo: o trabalho.

Minha família sempre ensinou que trabalhar era bonito. Comecei aos treze como panfletista. Entregar papel na rua, manja? E ófice bói. Eu gostava. Eu tinha a vida pela frente. Eu tinha muitos trabalhos ainda pra fazer. Muitos trabalhos bonitos. Tinha muito a crescer.

Tinha que crescer. Minha mãe era professora de educação infantil, tinha sido bancária. Eu ia ser algo assim. Fui criado pra isso. Esse seria o fim. O sonho. Imagina passar num concurso? Estabilidade. Salarinho todo mês. Nossa! Ia ser muito bom.

Da mesma forma que um filho de médico vai ser médico ou engenheiro ou juíz, um filho de gari pode ser gari ou ajudante de pedreiro ou mesmo pedreiro - ou até professor ou enfermeiro quem sabe? -, o filho de grande empresário vai continuar os negócios do pai assim como o filho do dono da mercearia pode cuidar também da budega, eu ia me encaixar dentro de alguma regra dessas aí. Não ia ser ajudante de pedreiro. Nem médico. Nem empresário. Nem dono de budega. Essas profissões estavam fora do meu universo. Ia ser burocrata, bancário, professor. E foi o que fui.



*          *          *

O boldo é um remédio impressionante. Você planta ele em qualquer vaso ou tanque com terra. Se gostas de álcool e sentes ressaca tenha um pé de boldo em casa. É praga, dá em qualquer lugar. 
Não compre o boldo de fazer chá não, esse industrializado. É uma merda. Boa é a receita que dei no início do texto. O boldo é um santo remédio. Meu novo deus chama boldo.


*          *          *

Passei no concurso pra bancário com vinte e um anos. Fiquei muito feliz. Era a realização do meu sonho pessoal. Lembro bem das pessoas me parabenizando. Foi porque cancelaram algumas questões de conhecimentos de informática – queu não tinha nenhum – que passei. Banco público. Concursado. Estável.

Setenta dias depois pedi demissão.

Setenta dias depois eu estava deprimido.

Setenta dias depois minha vida passou diante dos meus olhos.

Atribuí primeiramente minha depressão – e o fato deu me sentir um merda por não conseguir me manter no trabalho dos sonhos – ao fato do trabalho dos sonhos ser num banco. Um lugar que dá muito dinheiro pra quem tem muito dinheiro e muitas dívidas pra quem tem muitas dívidas. O sistema. A representação do mal do capitalismo. E meu gerente-chefe era um gradessíssimo filho da puta. Dá vontade até de dizer o nome dele aqui, mas não vou fazer. Só pra você ter uma noção fiquei sabendo que ele sofreu um acidente de carro um ano depois deu ter saído e a única coisa que eu conseguir dizer foi: “ele morreu? ele morreu?” e o fato de ter sobrevivido me decepcionou muito.

Então bora pular essa parte que tá ficando chato o texto. Parece que to fazendo terapia aqui cocês. E por que raios o título é ainda sobre cadeias e ladrões?? Já chego lá. Uma nova pausa aí embaixo. Agora sem boldo.


*          *          *

É possível você fazer o que quiser na hora que quiser do jeito que quiser? Claro, sem ferir o corpo de ninguém, apenas o seu próprio, se quiser. É possível? Tem gente que vive sem estar enquadrado ou tudo é sistema, tudo é capitalismo, tudo é submissão ao relógio?? Ando bebendo de manhã. Assim como nos melhores carnavais da minha vida. Liberdade era abrir uma lata de cerveja pela manhã. Ando abrindo.


*          *          *

O banco não rolou. Bora prestar outro concurso. E passei. Agora burocrata fazedor de crachá para trabalhadores terceirizados numa universidade pública. E já no terceiro dia senti uma vontade doida de quebrar tudo. Mas eu tinha que resistir. Não se pode matar um deus de repente. Resisti por quase dois anos. Faltava muito no serviço. Sempre tinha que ir de tarde no postinho dizer queu tava com caganeira ou outra indisposição qualquer. Pra ter o atestado.

Saí, mas ainda precisava desse deus. Então segui entrando e saindo de trabalhos. E toda vez me sentia triste por não conseguir continuar. E toda vez me desapontava comigo mesmo. Me sentia um merda. Segue nova pausa, acho que a penúltima.


*          *          *

Eu tinha um monte de quadrinhos guardados numa gaveta. Sempre li muitos quadrinhos. Na revista do Geraldão tinha um cartunista, irmão do Glauco, chamado Pelicano, que fez um quadrinho chamado Operário Pedrão. É na revista Geraldão número 3, quando o pai do Geraldão volta pra casa. Quando vi aquele traço do Pelicano percebi que podia ser cartunista. Mas esses sonhos a gente mata bem cedo. Com 15 anos, panfletista, futuro burocrata, já nem pensava mais nisso.

*          *          *

Depressão pós pedir demissão pela enésima vez. Dirijo pra relaxar. Ideias. Desenho. Objetivo: matar o Deus Trabalho. O Espremedor de Culhões do Bukowsky, o melhor conto dele, entrando na mente. Amigos desenhistas, vários. E dois que resolveram fazer uma empreitada humilde que acabou virando trabalho também. Só que com possibilidade de se fazer na hora que quiser. Ou de não fazer, se quiser. Ou de fazer chapado, alcoolizado, “livre”.

*          *          *

O melhor termo é vagabundo. Vagabundo mesmo. É isso que sou. E somos vários. E estamos em todos os lugares. Em todas as ruas. E já assumimos isso. E uns já nem ligamos pra opinião de quem acredita no deus trabalho. E vamo se virando como podemos. E tamo vivo. 


*          *          *

A nova profissão eu chamava de vendedor de gibi. Ou vendedor de zine. Tem gente que chama de mangueio, pra diferenciar de trabalho. Pode ser também. Tem gente que gosta de chamar de trabalho mesmo. E tem gente que faz malabares no semáforo, e vende artesanato, poesia, quadro, caricatura, ou vende o alimento que faz e por aí vai... Tem muita gente não obedecendo nem relógio e nem patrões. A merda é que todos necessitamos duns papéizinhos picados com assinatura da presidenta pra trocarmos pelas coisas básicas à sobrevivência.

Tem o filho de gari, que mora na periferia da capital, e faz malabares no semáforo.
Tem o meu caso. Que tive acesso a livros, a quadrinhos do Geraldão, Henfil, Laerte, Angeli, desde criança, e vendo minhas brisa sobre esse mundo doido.
Tem o caso do filho do megaempresário que vive com dinheiro do pai sem trabalhar.
Tem o caso do filho do médico, que largou medicina no terceiro ano e foi viajar pra europa.

Tem o caso do filho do dono da budega, que virou professor de violão.
Mas tem também o caso do Miltinho, filho da costureira Maria, mãe-solteira de 5, que conviveu com o padrasto alcoólatra que vendia cocaína(1) pra sobreviver, e que – ao contrário dos 4 irmãos que tem carteira assinada – sobrevive praticando furtos.
E aí a gente vai prender o Miltinho?
E se vamo, vamo prender o Miltinho por quê?
Porque ele nasceu onde nasceu e “Ó! Roubou meu celular!!! Ó! Furtou minha bicicleta!! Ó! Levou meu carro!! Pega!! Prende!! Vagabundo!!”
Você nasceu onde nasceu. Eu nasci onde nasci. O Miltinho nasceu onde nasceu. Acaso. Não temos culpa. E não devemos ser encarcerados porque somos o que somos.

Não há culpado nem inocente. Cada pessoa ou coisa é diferente. Então baseado em que você pune quem não é você? Raul Seixas disse isso em 1975 no Novo Aeon.

Como disse o Capinam, ninguém deve pagar nem pela vida mais vadia. Eu despedi o meu patrão.

Assim como muita gente anda despedindo. Muito amigo meu. Assim como o Miltinho.

Eu ia terminar com alguma frase retumbante igual no primeiro texto mas encerro aqui. Acho que me fiz entender.


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(1). Mais um entorpecente desse mundão. Tem gente que bebe álcool. Tem gente que fuma maconha. Tem gente que toma lexotan. Tem gente que cheira pó.
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João da Silva é um vagabundo sem vergonha (http://quadrinhosecharges.blogspot.com.br/)

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Coluna do Leitor - Sobre cadeias e ladrões

. . Por Mistura Indigesta, com 2 comentários


Parto do princípio de que toda propriedade é um roubo. Portanto quanto mais propriedades uma pessoa tem, mais ladra ela é. Portanto quanto mais dinheiro uma pessoa tem mais ladra ela é. Portanto o maior ladrão do Brasil é o Eike Batista. Se alguém nesse país tivesse que ser encarcerado por roubo esse alguém é o Eike Batista.

Só que também parto de outro princípio. De que ninguém deve ser encarcerado por roubo. O primeiro motivo é óbvio, só não vê quem não quer: no Brasil¹ só são presos os pobres, na maioria negros; descendentes da relação escrota entre nativos, brancos europeus e negros africanos. Adivinha quem até hoje lotam as cadeias? Os que tinham armas menos mortais na época dessa relação escrota, claro. Até hoje, esses, com armas menos mortais na época, são os mais roubados, os que menos tem propriedades, e os que são encarcerados por roubo. Ou não é? São todos presos políticos.

O segundo motivo é porque parto do princípio já dito de que toda propriedade é um roubo. Logo, deve-se abolir a noção de propriedade - que é um roubo - e, conseqüentemente, abolir as cadeias que prendem pessoas por essa atitude - o roubo. 

LIBERDADE AO EIKE BATISTA!!!

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(¹) Não se iludam. Em todos os países do mundo é a mesma coisa.
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João da Silva é vendedor de zines, rouba ideia de todo mundo, pode ser encontrado, por assim dizer, em Cancrópolis, e tá sempre viajando.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Seu João, as abelhas e o velho

. . Por Unknown, com 0 comentários



Fui hoje de manhã lá no garapeiro seu João, como diz a placa acima do carrinho da venda. Foi uma verdadeira viagem pela manhã, no quarteirão logo abaixo de casa. Ali, sentado naquele banco de madeira ao som de um sertanejo que lamentava a véspera de Conceição – mesmo nome de minha mãe: que será, pois, que minha mãezinha andou aprontando?, eu me perguntava –, uma moda de viola bonita, me faltaram apenas um córrego que fosse, um chapéu de palha e uma varinha de pescar pra completar o cenário beira de rio no interior. Seu João é simpático que só, sorridente, quando eu cheguei ele já foi me perguntando se eu queria o meu caldo de cana com limão:

- Ô, seu João, um limãozinho vai sempre bem, né?!

Enquanto seu João cortava os limões, justo nesse momento a infeliz da faquinha de serra resolveu praticar ginástica olímpica. A faquinha deu um salto mirabolante, escapou da mão de seu João, rodopiou pelo chão, na terra, e seu João, com a tranquilidade de quem administra o tempo, pegou-a novamente, deu uma sopradinha e voltou a cortar os limõezinhos. Um popular se aproximou de nós, nos contando que em Minas é uai e na Bahia é oxente. Pois é, pensei.

Depois que seu João passou a cana pela máquina, colocou o caldo na vasilha com gelo, misturou o limão já cortado e espremido no copo, ele ia me servir e percebeu uma abelha na saída da vasilha. A abelha em seguida caiu no fundo do copo com um pouquinho de garapa, mas seu João foi rápido, sacou aquela mesma faquinha olímpica, tirou a abelha e me sorveu o copo com garapa geladinha.

Quando eu já estava na metade do copo, ele me ofereceu o restante. Não tive dúvidas, não pestanejei, "ô, seu João, faz favor". E ploft ploft ploft: caia o suco e três pequeninos corpos vieram junto:

- Ih, menino - como é gentil o seu João - acho que tem mais abelhas aí ó... tó - ele sacou a faquinha, aquela, a mesma, a sopradinha, a olímpica, e me deu - tira aí...
- Ah, sim - vlapt vlapt vlapt. Pronto, pronto, brigado, seu João, já tirei as abelhinhas - e continuei tomando a garapa. Sabe, seu João, já tinha tomado caldo de cana com limão, com gengibre, com abacaxi, mas com abelha é a primeira vez!! - seu João mais o popular sorriram.

Fiquei curioso com a máquina de espremer cana ali no meio do canteiro da avenida. Perguntei pro seu João de onde é que vinha a energia elétrica e ele me explicava sorrindo, falando baixinho, que era da casa dele mesmo, ali embaixo, dois quarteirões descendo. Me apontou o chão, mostrando o caminho escondido na terra do canteiro por onde passava a extensão de energia. A fiação saía da casa dele, cruzava a avenida pelo alto até uma árvore e de lá vinha por debaixo da terra. Seu João tinha os papéis todos da prefeitura, alvará e tudo, pra fazer o estabelecimento formalmente, mas não compensava pagar duas contas, me dizia, as vendas são pequenas. 

O popular do meu lado, enquanto a gente conversava, tinha, como se diz, um tique nervoso. Um não, uma porção deles, uma combinação de tiques nervosos irritante de se ver. No fundo no fundo todos nós temos um tiquezinho mal escondido, né não?! O popular, todavia, misturava vários, e num intervalo de poucos segundos, sacudia o ombro, o cotovelo e contorcia o pulso numa sequência impressionante. Assim que ele começou a piscar e dobrar a cabeça girando o pescoço, aí não, achei que ele estava era de sacanagem comigo. Mas não, ele apontava para um senhorzinho grisalho do outro lado da calçada, sentado em frente à borracharia. Só seu João entendeu de pronto. Segundos depois me dei conta, seu João sorria e comentou: ê velho esquisito! "Por quê, seu João?!", não resisti à curiosidade.

- Ih, menino - no mesmo tom baixinho, sereno, se achegando e contando um caso como quem descasca uma laranja, volteando mas certeiro -, esse velho é uma encrenca só. Tá vendo o galpão que começa atrás da lanchonete na esquina?
- Hum... ah, to sim, seu João.
- Então, veja que o galpão percorre aquela casa no meio, o botequim do lado, até a borracharia ali ó - sem apontar, claro -, veja o telhado.
- Ah, sei, aham...
- É tudo desse velho aí, o galpão todo, ele aluga tudo, e vive nessa casa do meio. Se é que dá pra chamar isso de casa, né, menino - sorriu de canto. 
- Uai, por que, seu João?!
- Ih, é que agora aquela garagem ali tá fechada, porque se estivesse aberta, nossa, dá pra ver a sujeira em que esse velho vive sozinho lá dentro, credo.
- É mesmo, seu João?!
- Ih, menino, depois que a senhora dele faleceu, e isso já vai pra mais de quinze anos, ele deu de implicar com o pessoal da lanchonete na esquina, chama a polícia pra qualquer barulhinho... Mas pra bagunça pelas madrugadas, do botequim que é alugado dele, né, ele não fala nada... Depois que a senhora dele se foi, uma mulher bonita, rapaz, um coração, uma mulher bondosa, ele ficou aí, fechado nessa casa. Olha como tá abandonada a frente, tudo quebrado, sem cor. Ele até mandou arrancar as duas árvores aí da frente, tinha um jardim bonitão também, que morreu de descuido... Deve ser duro, né, ficar sozinho aí... Ele deve ter é muito dinheiro, sabe, mas de que adianta, né, menino, tá aí, desse jeitão que você tá vendo aí... É um cabeça dura...

De calça jeans e chinelo de dedo, o velho grisalho apertava as mãos contra o peito na camisa polo desbotada, descia-as até o umbigo às vezes, trocava a posição dos pés e, não sei se pelo relato de seu João, parecia ter olheiras enormes.

Eu já tinha cruzado com aquele velho no ponto de ônibus na esquina de casa, mas não tinha posto reparo. Ele agora me parecia exatamente do mesmo jeito, desde aquele dia, sobrancelhas parcialmente serradas, estando uma delas arqueada. Fiquei com medo: seu João, fofoqueiro, me pintou um personagem assustador. Qualquer dia crio coragem, puxo conversa com o velho só pra tentar desfazer essa impressão.

Mesmo assim, não dá pra falar mal do seu João, puxa vida, observador, grande filósofo da paróquia. Além de um cliente, ele ganhou um amigo agora. Enquanto eu bebia a garapa, pensava, se seu João vendesse caldo de cana e pão de queijo eu perderia todas as minhas economias! Pão de queijo também, a gente não sabe, né, vai que não é do gosto do velho. Vai que ele encrenca com pão de queijo... aí não!





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