VÍDEO: MURILO CAMPANHA CONTA ITATINGA

O psicanalista Murilo Campanha fala sobre Itatinga, um dos maiores bairros de prostituição da América Latina, onde ele tem seu consultório.

O nadador

Uma crônica de Hugo Ciavatta.

Ainda que as bolachas falassem

Crônica de Fábio Accardo sobre infância e imaginação

Ousemos tocar estrelas

Uma reflexão de Thiago Aoki.

Entre o amarelo e o vermelho

Uma crônica de Hugo Ciavatta

O homem cordial vinhedense

A classe média vai ao barbeiro. Uma crônica de Caio Moretto.

domingo, 26 de agosto de 2012

[Tradução] Viagens à Lua e Espiritualidade

. . Por Fernando Mekaru, com 1 commentário

"Bem, você obviamente deve odiar a espiritualidade. Esta palavra normalmente se refere a alguém utilizando o mundo espiritual como rejunte para preencher uma falha em si próprio: por exemplo, um cara encalhado de cinquenta-e-poucos-anos, com o rosto parecendo uma moeda gasta, subitamente temendo a própria morte e que por conta disso se matricula em uma aula sobre deusas em uma uniesquina da vida. A espiritualidade não flui dessa maneira. Ela está cagando e andando para você. Estamos no fluxo dela, e mesmo que sonhemos com rodas d'água para controlar este fluxo, não há um porto seguro ao qual se ancorar. Na maior parte do tempo, ignoramos o fato de que rumamos ao local ao qual ela vai. Isto torna a nossa condição invisível para nós mesmos.

Em situações raras, nossa condição se faz visível. Nestes momentos, ficamos desamparados, e irresistivelmente atraídos. O Programa Apollo é um bom exemplo disso.

Todos pensavam que John Kennedy, Lyndon Johnson e Richard Nixon estavam gastando quatro-e-meio porcento do orçamento federal estadounidense anualmente para provar que os Estados Unidos eram donos da Ciência.

Isso tudo é uma ficção.

O Programa Apollo foi uma demonstração elaborada de como mesmo o mais insípido entre nós está sob o jugo do espírito.

A NASA precisava de astronautas para botar uma bandeira na lua. Por razões óbvias, os astronautas eram do tipo mais confiável de homem que os EUA produzem: brancos, héteros, evangélicos caretas, da centro-direita, frutos da união entre ciência e exército. Cada um deles era o coração do coração do povão norte-americano.

Mas então eles foram atirados ao espaço, livrados da gravidade deste planeta, em direção a duzentos e cinquenta mil de quilômetros de vazio, para serem agarrados pela lua após três dias. Dezoito caras fizeram isso; doze deles foram mais a fundo, para descobrirem que poeira lunar tem cheiro de pólvora.

Cada um deles voltou inegavelmente mudado.

Os EUA mandaram os filhas-da-puta mais quadrados que conseguiu encontrar à lua, e a lua devolveu seres humanos. Neil Armstrong tornou-se professor, e depois fazendeiro. Alan Bean tornou-se pintor. Edgar Mitchell começou a acreditar em OVNIs, além de conseguir cristalizar, em texto, a experiência de ver seu próprio planeta de uma vez só:
'Você desenvolve instantaneamente uma consciência global, uma orientação coletiva, uma insatisfação intensa com a situação do mundo, e uma compulsão por fazer algo a respeito disso. Lá da lua, a política internacional parece muito mesquinha. Dá vontade de pegar um político pelas pelancas do pescoço, arrastá-lo duzentos e cinquenta mil quilômetros pra fora e dizer 'Olha isso aqui, seu filho-da-puta'.
(Fonte: People, 08 de Abril de 1974)"
=============================================
 Tradução livre deste texto para português, que levanta uma das contribuições mais curiosas que Neil Armstrong, primeiro homem a pisar na lua e falecido célebre de ontem, trouxe à humanidade.

domingo, 19 de agosto de 2012

O bicho do mato

. . Por Unknown, com 1 commentário


"Borboleta Azul
ao entrar na cachoeira,
me lembrou que a tristeza
é uma coisa passageira"
(Ouviu-se, um dia, em Amparo)  




O sujeito é um bicho do mato, mesmo tendo crescido na cidade, é Bicho do Mato. Não é taciturno, mas é caladão, não fala muito nem pouco, fala apenas na justes. Bicho do Mato não é antipático nem boa praça, é somente rabugento, tem um mau humor particular,  quase indescritível. É assim, Bicho do Mato. Ele sabe capinar, montar, fazer e refazer hortas, o cuidado dele com um quintal é difícil encontrar. Possui saberes que não estão nos livros, que não se transmitem, que não se guardam, que não se anotam ou se experimentam, ele somente sabe. Talvez ficasse mais bem dito que os saberes é que o possuem, mas há aí metafísica por demais, não combina com Bicho do Mato. Mesmo sem ter aprendido, ele sabe, e não é sabido como eu tento ser, sabe porque é sábio e assim o é.
A última vez que o vi, ele estava diante de um mapa. Sempre querendo ser engraçado, ou pior, acreditando ser, mandei um “que que é Bicho do Mato?, tá pensando em viajar, é?, você já vive viajando!”; “Ó que eu vou hein, rapai! Duro é que é longe... duro vai ser pra muié e pros fio...”. Sim, ele fala com uma simplicidade que dói às vezes. Dói de bonito, nada de sentimento culpa, não. Bicho do Mato conversa como procede, na simplicidade. Simplicidade tão cândida que nenhum João, Antônio ou José lhe cabe.
Bicho do Mato não tem pelos, apesar de seu pai ser árabe, um tipo daqueles bem típico, barbudão, o menino é que saiu praticamente imberbe, nem bigode ele tem. Quando o conheci, Bicho do Mato já passara dos vinte, denunciava a idade maior frente à adolescência dos meus dezessete passados. A idade deve fazer as pessoas ocupadas, porque da primeira à última vez que o encontrei, ele sempre teve muitas coisas a fazer. Era o tempo da faculdade ainda, saíamos mais cedo das aulas, entortávamos o estágio, relaxávamos no emprego mequetrefe anos depois, não importava, Bicho do Mato saía mais cedo do futebol, da cerveja com o pessoal, não esperava a festa, tampouco o samba acabar, dizia sempre ter muito a resolver no dia seguinte. Misterioso é esse meu amigo, quantas vezes estive em sua casa, ou ele na minha, mas o rapaz desperta apenas para estar desperto, eu acreditava. Preconceito meu, claro, afinal, há muito por fazer quando se precisa afinar instrumentos musicais. E Bicho do Mato é músico virtuoso, mestre sem diploma nessa arte. Na cidadezinha onde cresceu, muitas e muitas vezes ele nos contou, fez sucesso com um grupo de pagode.
Se o leitor subestima o gênero, o visual de Bicho do Mato a maior parte desses anos mostra outra de suas faces, pois a coreografia pode ser inspirada no Katinguelê, mas a cabeleira faria inveja ao Robert Plant. Parece impossível conjugar tudo isso, não para Bicho do Mato. Coerência nunca foi seu ponto forte, tantas foram as guitarras, pandeiros, bandolins, cavaquinhos, baquetas e violões que cultivou nesses anos todos. Ah, aquela velha sanfona dos últimos tempos. Muitas vezes, eram instrumentos artesanais caríssimos que, no entanto, da noite para o dia desapareciam, davam lugar a uma bola de Pilates. Exatamente, certa feita Bicho do Mato trocou um violão por uma bola daquelas usadas na prática de Pilates. Queria se exercitar em casa, dizia ele. Apenas Bicho do Mato poderia explicar a equivalência que encontrou entre o violão e a bola. Mas depois descobri que a bola, enfim, deu lugar a um cavaquinho, e Bicho do Mato passou foi por esperto no fim das contas.
Nós, os amigos, nunca deixamos por menos, qualquer coisa dele era motivo de piada. Todavia, para algumas coisas Bicho do Mato não admite brincadeiras. Quando o assunto é música, especialmente, dar risada quando alguém pede Raul Seixas em mesa de botequim é uma coisa, agora trocar a imagem do velho roqueiro que Bicho do Mato leva tatuada no braço pelo Seu Madruga é de o deixar indignado.
A simplicidade também contrasta com a agitação que o rapaz apresenta dia a dia. Quantas vezes não se ouve das pessoas que, de o conhecer rapidamente, dizem ser ele um sujeito tranquilo? Ledo engano. Isso está expresso na forma em que come: pouco, é verdade, mas tantas, muitas e repetidas vezes durante o dia. O arroz com feijão do almoço não é muito, somente proporcional às frutas ou aos pãezinhos que o antecedem ou o esperam em meia-hora.
Acredito que coma bastante pois precise de muita energia. Bicho do Mato é um atleta, só assim para correr tanto. No futebol o avisamos, em tom de galhofa, para que não esqueça a bola, que a pelota é que precisa entrar no gol antes dele. Tem muita sorte, disso eu o invejo, ainda que lhe falte habilidade, ele resiste pela esperteza dos passos rápidos no gramado.
Sorte e alheamento, às vezes, que mistério aquele rapaz. Passou anos com esse jeito calado, como quem está decidida e resignadamente apaixonado sabendo não ser correspondido. Mesmo tendo um coração enorme, só se via Bicho do Mato acompanhado de suas bicicletas. E foram muitas, mais até que os instrumentos musicais. Acho que guardou, por timidez, a expressão de seus sentimentos à pessoa certa que lhe quisesse. Até hoje resiste à cerimônias quaisquer, mas acho que só mesmo a patroazinha que ele encontrou – de novo, talvez fosse melhor dizer o inverso, que foi ela quem o encontrou – para deixar Bicho do Mato feliz de amor.
Antes da patroazinha, uma vez lhe perguntaram se de mulher ele gostava. "Gosto sim, cara", foi a resposta tranquila, como que não entendendo a curiosidade. A comparação que se seguiu, confesso, nunca entendi, porque Bicho do Mato disse exultante, com muito mais ímpeto, que de Maria Joana ele gostava bastante. Não conheci a moça, só ouvia o pessoal comentar que ela passava de mão em mão nas rodinhas das festas. Bicho do Mato ficou de me apresentá-la um dia, parecia que ela realmente fazia a cabeça dele. Combinamos de nos encontrar, eu ia contente por enfim conhecer a moça do coração de Bicho do Mato, mas ele ficou lá no quintal proseando comigo, eu sentado com minha cervejinha enquanto ele separava uns matinhos, preparava seus cigarros, sorria, sorria muito aquele dia, gargalhava à toa, à toa. Maria Joana eu não vi. A patroazinha, contudo, é muito minha amiga.
Mas falo no presente quando, na verdade, o tempo hoje é pretérito. Não, ele não se foi falecido, ou algo assim – o que seria equivalente a desviver? –, não, ele não morreu, basta: ele apenas se mudou. Eu falava do mapa, ele viajou, pois, juntou as tralhas, digo, os instrumentos musicais, as bicicletas, e rumou para o oeste. Há uma controvérsia sem fim sobre isso, inclusive, uns dizem que foi a patroazinha quem lhe deu direção na vida. Outros dizem que não, que foi o bom trabalho que arranjou praquelas bandas, o destino, a vida foi quem lhe guiou. De todo modo, os fio já estão com ele. O casal de vira latas mais simpático que estas terras já viram foi embora. Ah, sim, na contenda sobre a partida, dizem ainda que foi o pulguento macho que levou Bicho do Mato. Sei não, desconfio.





*contribuíram com o texto acima  os Thiagos Aoki e Fernandes Franco, o "Peixe"

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Melô do Bom Contribuinte

. . Por Thiago Aoki, com 1 commentário



- Eu pago meus impostos. Sim, eu pago meus impostos. E o que ganho com isso? Nada, apenas deixo de ser punido pelo Estado caso fosse um sonegador. Agora eu pergunto, pra onde vai esse dinheiro? O que se faz com esse dinheiro? Parece óbvio que o Estado brasileiro não tem condições de gerenciar tanto imposto, trilhões. Olha como é retrógrada a coisa: a agenda do país tem como um dos principais compromissos analisar se fulano torturou sicrano há cinquenta e tantos anos atrás. Deixa isso pra lá, já foi, já morreu todo mundo, era outra época, vamos ocupar nossa política com coisas relevantes, olhar pra frente, projetos que nos torne uma potência. Enquanto isso, quem paga os impostos necessários pro Planalto funcionar? Claro, nós, os contribuintes. É um perfeito exemplo de descaso com o dinheiro público. Há sim o imposto que funciona. Pedágios, por exemplo. Menos morte no trânsito, pistas duplas, segurança, conforto pra quem dirige. Tudo bem, você paga uma quantia lá, mas quando você compra seu carro zero quilômetro, você sorri porque sabe que poderá usufruir de toda sua potência para trafegar com segurança pelas estradas. E parando pra pensar, nem parar no pedágio precisa mais. A tecnologia a serviço do homem.  O imposto que funciona. Fico me perguntando quantas pessoas teriam acesso a telefones se o gestor da telefonia fosse o próprio governo brasileiro. E olha quantos ignorantes não enchiam o saco dia após dia, “vender o país”, como se o país fosse capaz de se administrar. O resultado tá aí, indiscutível. Melhor deixar na mão de quem tem entendimento, know-how, feeling, de quem sabe administrar, afinal, se o dinheiro fosse seu, quem você escolheria para cuidar? Investidores, managers renomados ou o braço estatal? Você pode tentar se enganar, mas no fundo não deixaria ali seu dinheiro. Você trabalhou pra isso, não vai deixar na mão de alguém que não sabe gerenciar nada. Você trabalhou. Não se conformou diante das dificuldades, não aceitou esmola do governo parado, não quis se acomodar no bolsa-miséria como muita gente.  Fez tudo pra vencer. Sabe, tem um filho de uma empregada minha que é assim. Luta, batalha, trabalha de dia, estuda de noite, está quase saindo do curso técnico. Quer ser alguém na vida. Já o irmão dele é um vagabundo. Daqueles que constitui uma família, instituição que já foi sagrada, só para receber o bolsa miséria do governo. Resultado, o rapaz fica encostado dia após dia, faz um bico ou outro, e coincidentemente sempre recebe os “benefícios”, entre aspas, do governo. “Benefícios” que saem da onde? Do dinheiro mal gerido do contribuinte. Onde estão os aeroportos para escoar a produção, a malha ferroviária, a infraestrutura necessária para produção? Viraram cinquenta reais, ou algo assim, no bolso de uma pessoa acomodada, que além de não procurar emprego, sabe-se lá onde vai gastar esse dinheiro. Dá-se o peixe, mas não se ensina a pescar. Mas o governo brasileiro é bom em acomodar as pessoas, estimular o jeitinho. O mais novo jeitinho do século XXI são as cotas. “O mundo tá injusto, vamos nivelar por baixo, vamos colocar pessoas menos capacitadas para pegar as vagas de quem se esforçou mais”. Tenha santa paciência, então vamos lá, pegue a nota do seu filho, que ele se esforçou pra poder receber a mesada, e divida com os amiguinhos. Ou então faça com que na seleção basileira seja obrigado a ter um jogador com mais de 120 quilos, para equilibrar. Até brinquei com minha filha, sugeri que ela intensificasse o bronzeamento artificial que ela faz duas vezes por semana pra ela falar que é afrodescendente, porque nesse país negros merecem mais, onde já se viu. Não sei como eles aceitam. Se eu fosse negro, numa boa, numa boa mesmo, não aceitaria esse atestado de incapacidade. Aí o cara vai lá, entra sem preparo, chega na universidade, atrasa o ritmo da turma, depois querem reclamar da qualidade da educação. Olha, eu mesmo acredito que educação é fundamental, sem mão de obra qualificada jamais chegaremos a algum lugar. Mas veja a bagunça. Não sei quantos dias de greve, daqui a pouco tá no calendário acadêmico dos caras: vestibular para os desqualificados, trote, matrícula, aulas, greve, greve, quebra-pau, aumento, aulas de novo. Meu filho mais velho poderia ingressar em qualquer faculdade, garoto inteligente, esforçado, não é um vagabundo qualquer. Mas eu preferi que ele não passasse por isso. Já pensou, não conseguir entrar por ausência de melanina na pele, ou ter que ficar à toa em casa por greve de baderneiros. Tudo errado... Outro dia um amigo mandou um vídeo no youtube, chamado “Baderneiors em greve”, pode pesquisar. Os caras numa boa fumando um baseado numa rodinha. Agora entendo porque não querem a polícia por lá... Aí a câmera dá uma rodada, tem dois caras se beijando. Isso mesmo, dois caras. Afinal, é uma greve ou pretexto pra não estudar e fazer pederastia? Não que eu seja contra dois caras... sei lá... se beijarem. Mas precisa fazer isso no meio de todo mundo, todo mundo tem que ver isso? Desnecessário. Se fosse só por gostar um do outro não iam querer ficar se exibindo.  Enfim, Deus que me livre. Coloquei logo o moleque em uma instituição privada, e quero que ele faça os dois últimos anos nos EUA, um convênio com um centro de pesquisa ótimo, “Massachusetts Institute of Technology”, referência mundial, não um antro de baderneiros que acham que o fim da universidade – paga com o dinheiro, adivinhem só, do contribuinte – é um baseadinho a mais.  É o tipo de gente que vai se formar e dar trabalho no emprego e quem vai pagar o pato mais uma vez? O empresário que contribuiu todo esse tempo e ainda tem que aturar uma mão-de-obra dessa categoria.  Ciclo vicioso. Quem sabe ele mesmo, meu filho, não seja alguém que mude tudo isso. Que volte ao Brasil com a experiência dos países sérios, chegue às instâncias de poder e mude esse sistema canalha e invertido que temos. Quem sabe ele não faça o justo, possibilite que o esforçado filho de minha empregada seja alguém na vida, talvez um supervisor de obras, um exemplo pro irmão vagabundo, que hoje deve rir por ganhar sem fazer nada. Vai ver que é por isso tanta gente pedindo dinheiro na rua, como se a unidade monetária fosse migalha de pão que se distribua aos pombos... Quem sabe meu filho não cresça e mostre que ninguém tem culpa de ter mais dinheiro, de ter mais terra, de ter um carro de luxo. Que, pelo contrário, ter mais é merecimento, que acúmulo é mérito. Quem sabe ele não inverta a lógica do jeitinho brasileiro e seja um exemplo de integridade. Quem sabe o filho acomodado da empregada não sinta orgulho de ver pela tevê uma figura de sucesso como meu filho, que eleva o nome do país, ou melhor, quem sabe ele não se sinta envergonhado de ter por tanto tempo mamado nas tetas do Estado, se acomodando em ser negro e pobre, com a sorte do destino de viver em uma terra onde a escória tem privilégios. Quem sabe ele não se envergonhe por isso, por não fazer sua parte para o país. A democracia precisa de pessoas dispostas à seguir as regras da liberdade, o capitalismo precisa de pessoas proativas. E o que estamos oferecendo ao mundo? O contrário.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Insônia

. . Por Caio Moretto, com 2 comentários

Acho que grande parte da insônia é só vontade de adiar o dia de amanhã, como se ficar acordado fosse uma forma de compensar a desagradável rotina. A insônia é o protesto silencioso, solitário e involuntário dos covardes, dos que estão insatisfeito com a vida que levam, que tem medo do futuro ou que simplesmente trabalham demais. Respeite a olheira do seu colega. É a tatuagem do orgulho que nos resta. É a greve de sono, o projeto ingênuo e incoerente de vingança que remoemos a noite inteira. É a greve legítima pela vontade de viver, que, impotente, traduzo na irônica contradição: "posso trabalhar 12 horas, mas as 8 de sono eu não engulo não". Afinal, se não for a insônia, que tempo sobra para a gente viver?

(Texto escrito em 18 de maio de 2011, às 1h33.)

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Capacetes Coloridos

. . Por Fábio Accardo, com 0 comentários


 Assista antes de ler:

Capacetes Coloridos
Paula Constante (2007) - 32'42''



Cores para diferenciar. Cores para hierarquizar. Branco é quem manda. Quem pensa. O resto? É resto, faz trabalho braçal. O engenheiro se impressiona de ter conseguido fazer ele só aquela obra. O secretário diz que as decisões são muito rápidas, um mês, 15 dias, 15 minutos, uma canetada. Uma empreiteira. Várias terceirizadas. Vários trabalhadores. Muitos capacetes coloridos. Poucos brancos.

O documentário de Paula Constante nos trás a comparação de dois canteiros de obras. Um é o canteiro da ampliação do campus da USP na Zona Leste de São Paulo. Esse canteiro é o da empresa, da empreiteira, que ganhou a licitação, e, sub-contratou diversas microempresas de trabalhadores da construção civil, terceirizando o trabalho. A relação trabalhista mostrada é do maior nível de exploração, física, mental, social e econômica. Geralmente são moradores do entorno da obra que procuram trabalho e se submetem a esse tipo de exploração. As ferramentas são da empresa. São mão-de-obra. Obedecem.

Na outra paralela, o canteiro é da Associação Paulo Freire, ligada à União dos Movimentos de Moradia de São Paulo. A obra é em mutirão autogerido. Mutirão porque é um monte de gente fazendo o trabalho. Autogerido porque é esse monte de gente que discute e decide como será feito o trabalho. Quem está executando a obra de construção dos apartamentos são as mesmas pessoas que vão morar ali. Elas decidiram o projeto, a planta, os materiais, o tipo de construção, quem vai construir, como, quando, em quanto tempo. São as próprias trabalhadoras (pois a maioria é mulher nesse processo) que decidem sobre o seu trabalho. São mãos e cabeças-de-obra.

O paralelo faz sentido quando pensamos sobre o fazer arquitetônico numa sociedade na periferia do sistema capitalista. De um lado o modo “tradicional”, “convencional”, de se fazer, de construção: a universidade pública construída por uma empreiteira, com mão-de-obra explorada, tecnologia convencional. Do outro, a construção de moradias populares: a partir da necessidade das pessoas de terem onde morar, se organizam, reivindicam, ocupam um terreno, conseguem financiamento, e decidem eles próprios, em coletivo, projetarem e construírem suas casas em autoconstrução, em mutirão autogerido.

Num mundo onde o morar é negócio e poucos tem realmente acesso a esse direito, o pensar é, também legado a poucos. A universidade, lócus do conhecimento, onde são fabricados milhares de bacharéis, mestres e doutores, que pensam e comandam o mundo, é construído a base de sangue e suor, dos trabalhadores explorados pela construção civil.

A necessidade do morar leva as pessoas a reivindicarem um espaço, um território nesse mundo cinza da cidades. Se organizam e se movimentam para isso. A organização coletiva dos trabalhadores na luta por moradia é base para o passo seguinte, a decisão de construírem eles mesmos a própria casa. Esse fato modifica as relações de produção envolvidas no processo do fazer arquitetônico e da construção civil. Os trabalhadores não são mais livres mercadorias no mercado de mão-de-obra de desempregados, mas são donos do seu próprio fazer. Reintegram-se com o fazer do seu trabalho a partir do momento em que não estabelece uma relação de mercado, ou alienada, com seu trabalho.

É o trabalhador, ou melhor, a trabalhadora, que decide a sua necessidade. E isso se faz em coletivo. São espaços de experimentação de uma esperança. Esperança de uma nova sociedade. Outro projeto de sociedade. Onde são experimentadas nova forma de trabalho. Relações de trabalho, de companheirismos, de coletividade, de cooperação, que são contrárias as relações convencionais desse sistema que vivemos. Não só contrárias, são relações que negam essa outra forma atual. Não sem contradições e limites, os mutirões autogeridos nos mostram um novo fazer arquitetônico que nega o modo tradicional de construção, e também a autoconstrução individual (modo mais comum nas periferias urbanas – pessoas que constroem as próprias casa, com ajuda de amigos, parentes – tipo favelas, barracos, etc).

De certa forma as técnicas, a tecnologia, os artefatos, estão presentes em todas as etapas da nossa vida. Se apontamos para o novo, para um novo projeto de sociedade temos que apontar, tratar e modificar, essa relação com a tecnologia, que nos domina, e, para além disso, modificar a própria tecnologia. Creio, assim como Sérgio Ferro, que “os canteiros de autoconstrução coletiva, autogeridos pelos trabalhadores, são laboratórios experimentais em que estas coisas podem, devem ser encaradas”. E Sérgio continua, “mais: a autogestão na construção tem repercussões que saem do canteiro, atingem outros níveis da vida social. A cantina, a creche, o posto de saúde coletivos já avançam outras pistas. A surpreendente e numerosa presença das mulheres na construção estremece o machismo tradicional, a ideologia dos sexos. As negociações para obtenção do terreno, de financiamento, de compra, etc., fortalecem a perspectiva socializante destas iniciativas. E etc., etc., etc...”.

O filme nos traz o privilégio visual dessa comparação entre canteiros de obras, o da empreiteira e o do mutirão autogerido. Os textos e prática do Coletivo Usina e escritos de Sérgio Ferro, mostram que a atuação desses arquitetos são uma modificação do fazer profissional, são verdadeiros arquitetos-educadores que optaram por trabalhar com a classe trabalhadora que luta pelos seus direitos, sendo, nesse caso, um dos direitos mais básicos da população, o acesso a habitação. Necessidade que deveria ser a base da Universidade, na educação de capacitados para lidar com as necessidades dos trabalhadores.

A luta lado a lado, desde o início das ocupações de terras, conquista do terreno, até o trabalho cotidiano de uma assistência técnica compartilhada, é capaz de produzir nesses espaços de mutirões autogeridos, novas formas de relações, solidárias, de coletividade, de experiência de um vir a ser, de uma sociedade nova, autogerida. Como João Bernardo que diz que “gerir as empresas e a sociedade é algo que se aprende de uma única maneira: gerindo as próprias lutas. Só assim os trabalhadores podem começar a emancipar-se de todo o tipo de especialistas e de burocratas. E com este objetivo não há experiências simples demais. Por mais modesta que seja uma experiência, os participantes vão se habituando a dirigir a sua atividade e vão aprendendo na prática aquilo que opõe essa solidariedade e esse coletivismo ao Estado capitalista. É esta a única maneira sólida como os trabalhadores podem, no plano prático, reforçar progressivamente a sua capacidade de organizar as empresas e a sociedade e, no plano ideológico, forjar uma consciência de classe”.

sábado, 28 de julho de 2012

Como me tornei gastrítico

. . Por Unknown, com 0 comentários


Os meninos, donos e senhores da casa, 
fecharam portas e janelas,
 e quebraram a lâmpada acesa de um lustre da sala.
 Um jorro de luz dourada e fresca feito água
 começou a sair da lâmpada quebrada,
 e deixaram correr até que o nível chegou a quatro palmos. 
Então desligaram a corrente,
 tiraram o barco, e navegaram com prazer
 entre as ilhas da casa.” 
(A luz é como a água
Gabriel Gárcia Márquez)

Tudo começou quando passei a levar as coisas a sério. Mas isso não foi uma opção minha, uma escolha, ao mesmo tempo, tampouco foi fruto de condições que me foram impostas por outras pessoas ou circunstâncias, uma necessidade obrigatória e inescapável. Só hoje percebo que, simplesmente, a partir de determinado momento, de um período, passei a levar as coisas a sério. É o único comentário que encontro.

Eu devia ter uns 14 anos, ou talvez já estivesse passado dos 27, não me lembro, já faz muito, mas, apesar da diferença entre as datas, minha gastrite deve ter começado nesse intervalo. Ali me encontrei enquanto sujeito, ser humano, como se diz, e não enquanto alface, claro. E se parece absurdo falar de um adolescente para um homem a beira dos trinta indiferentemente, quando tudo isso já passou há tanto não existe diferença alguma. Sabe como são as lembranças, meio imprecisas, embaçadas, esfumaçadas, envolvidas de incerteza. Assim, fica mais difícil ainda falar da minha gastrite, que me acompanha desde então. Nalguns momentos, não percebo mais a respiração pelo movimento do diafragma, ou palpitações que sejam, não penso num conceito importante, ou sequer me ocorre aquela citação precisa, apenas sinto que, por dentro, da altura do umbigo ao queixo, tenho um enorme e vibrante estômago sofrendo.

A primeira recordação me vem de uma namorada, óbvio, que me deixou sem que eu tenha imaginado qualquer esfacelamento, ausência ou perda de encanto. Andávamos pela rua, no caminho da minha casa, quando ela, enquanto eu mordiscava meu pão de queijo, me disse que encontrara outra pessoa, e também sobre como era compreender a condição de nossas vidas: às vezes, para alguns, de estoica solidão. O pão de queijo, carnudo, quente, macio, autêntico, naquele instante, ressecou-se, tornou-se praticamente uma massa de polvilho velha: a saliva eu perdera. Segundos depois, o entendimento, o raciocínio enfim compreendeu o que o corpo, por meio do paladar, já havia entendido. Não era só mais um fora, como se diz hoje, mas o tom cerimonioso fizera daquelas palavras uma ameaça de destino. Levei muitos anos para digerir aquele pão de queijo.

Depois disso, duas coisas me marcaram profundamente o desentendimento.

Estava num ônibus cruzando a cidade para o trabalho e, descendo uma avenida movimentada, ouvimos todos ali dentro, de repente, a sirene esganiçada, como todas o são, é verdade, de uma ambulância. O motorista, como todos nós, assustou-se ao mesmo tempo em que tentou tirar o enorme veículo que dirigia do caminho. No movimento brusco, um rapaz lá no fundo, mais ou menos na mesma direção que a minha, um pouco atrás, gritou que ali não viajavam vacas e bois, não. O motorista não se manifestou, já o cobrador, que ainda naquele tempo era uma profissão, não se conteve. Segundos antes da manifestação do sujeito, o cobrador estava a vontade, esparramado, com as pernas voltadas para a frente do ônibus, o corpo para trás. No entanto, ao reagir, ajeitou-se na poltrona, fez-se imperioso. Aqui não tem vagabundo pra você sair gritando, não, viu, irmão, disse, aqui é tudo pai de família, dobrava as mangas da camisa para trás, erguendo o indicador. Você não viu, não percebeu a ambulância que passou, não, questionou. Sentado, mais ou menos na mesma direção para a qual o cobrador olhava ao falar, não assistia às mangas serem dobradas assustado ou com medo, mas não é coragem minha, confesso. A discussão mudou de tom. Não venha justificar o erro do outro, cara, pela voz, o rapaz transmitia um nervoso soluçar. Esse motorista vem dirigindo assim lá desde baixo, feito louco, completou. Não havia mais mangas e o dedo do cobrador estava decidido a não se abaixar, enquanto ele finalizou. Olha só, aqui ninguém é obrigado a ouvir gritaria, se você quer se queixar, ao descer, anote o número do veículo e ligue no telefone que está ao lado do mesmo número na parte de trás do ônibus, mas não venha gritar com pai de família, rapaz, finalizou o cobrador. Nunca o barulho do trânsito lá fora foi tão alto enquanto aquele rapaz não desceu no ponto que o esperava. A saída mesmo foi espetacular, com mochila sendo jogada no ponto e coreografia improvisada para anotar os tais números. Todos estávamos num silêncio que possibilitou ouvir o arfar do motorista ao arrancar, muito mais veloz do que vinha anteriormente. Talvez fosse o estômago dele reagindo, quem sabe.

Não me vinham por quês, não procurava por explicações, esclarecimentos ou resoluções, não pensava em nada, apenas sentia meu estômago.

Outra vez foi tentando relaxar, fugir do trabalho que colocava o jaleco em mim 24h. Como qualquer menino chorão, corri para os braços de mamãe. Já muito mais esperto diante dessas situações, abraçava o sarcasmo antes que a desfaçatez do absurdo se ajustasse ao conveniente. Em menos de quarenta minutos de estrada, diante das mais de seis horas de viagem que me esperavam, ouvi tapas e pequenos gritos de me devolve, é meu. Quando sai da vigília, os gritos e tapas ficaram mais altos, não eram apenas irmãos ou uma mãe e crianças num entrevero, como eu imaginava sonhar. É bom lembrar,  algumas pessoas usavam músicas altas nos aparelhos celulares naquela época. Então, a mulher pediu para a moça abaixar o volume da música, a moça não abaixou, a mulher tomou da moça o aparelho e foi feito o alvoroço. Quando achei que deveria levantar a cabeça da poltrona e olhar, somente ver mesmo o que já tinha ouvido, o aparelho celular cruzou os ares do corredor do ônibus. O aparelho ainda bateu as costas de uma poltrona lá na frente e caiu no colo de outra moça, esta se levantou como... como tudo aqui desde o começo, que se percebe pobre literária e metaforicamente, em uma película de zumbis lado B. Você está louca, sua gorda, escrota, se esse negócio acerta a minha cabeça eu te estouro. Uau, engoli. A moça, dona do aparelho, tinha uma criança de três anos que àquela altura estava em muitas lágrimas, escondida debaixo da poltrona da mãe. Enquanto isso, seguia a troca de tapas e ameaças ao som de Jesus, Deus, põe Deus no coração, gente, repetidos por uma senhora de voz adocicada. Outros gritos avisaram o motorista: já era tempo de parar aquela viagem. A polícia foi chamada, a briga foi separada, a criança tirada debaixo da poltrona e dos berros. A mulher quase atingida pelo aparelho celular, contudo, ainda se mantinha de pé, retrucou uma das ameaças de agressão, alternava dois passos a frente e um para trás, dois para trás e um para a frente, fazendo esvoaçar a jaqueta longa e ressoar o tamanco no assoalho: ê, você cala a sua boca, sua gorda, escrota, vai emagrecer, faz só dois anos que eu to na rua de novo e a última pessoa que me ameaçou tá morta. Mata, mas sem barulho que eu quero dormir, gente, alguém poderia ter dito.

Essas lembranças não são do pensamento, são do corpo, são dor física, nesses momentos o que eu tenho é um estômago queimando. No ônibus de viagem, foi um período em que eu já não queria uma crença renovada para enfrentar o mundo, reconhecer-me diante das coisas e entender onde eu estava, não, preferia o cinismo, uma franqueza cretina. Eu, que nunca fui um bêbado, que nunca fui de comida gordurosa, que cruzei a infância com fama de menino tranquilo, distraído, alegre, bem humorado, ploft, passei a sujeito preso numa caixa de Omeprazol, com dicas para reconhecer excessos de ansiedade e nervosismo, com exercícios de relaxamento e auto-controle para não enfrentar crises de gastrite. O mundo e as pessoas não eram o que eu queria ou esperava que fossem, me diziam, como se diz aos adolescentes, aos jovens, aos adultos imaturos. Não, mas já naquela época, eu sabia que eu não era nada, que era apenas mais um, e tampouco estive à procura de um caminho, de um lugar para ir, sabia resignadamente que o que nos resta na vida é esmiuçar uma diversão qualquer diante de tudo. Alguns diziam que eu precisava de fantasia e imaginação para o meu realismo fatalista. Nos livros, para eles, eu deveria encontrar um remédio. Que mundo.

Pois bem, hoje pouca coisa mudou, não saio sem comprimidos para o caso de um ataque, mas paro e retiro do real-absurdo que me aparecer as duas palavras que compõem a mesma expressão. Sonho com as coisas, fragmentando-as, até que percam o lastro: como um sobrado azul de portão branco, paredes arranhadas pelo tempo e jardim desgovernado, quando eu tenho um chapéu também azul que me cobre o rosto, uma máscara, enfeites e algum desconcerto, talvez revolta, encerrado aos pés de uma grande árvore que não entende o inverno. Encontro nas paredes do sobrado o número 183, mas queria que fosse o 44, não, o 77, e faço do que vejo combinações que me deem um 4 ou um 7 repetidos. Minto, só queria escrever.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Anti-Soneto ou Cenas de Uma Loja de Eletrônicos

. . Por Thiago Aoki, com 0 comentários


Lendo nos jornais, a realidade parece um soneto métrico e rimado, que não sabe se lindo ou se chato. Mas certamente insuficiente.

Entretanto, a vida urge. A luta de todo homem é ter motivo pra se desafiar. Pode até ser divertido. Deitar nos trilhos com os olhos aberto para ver por debaixo do trem. Usar espelho no sapato para dançar com a moça de saia sem que ela perceba.

E assim, com esse espírito, o senhor que assobia na construção só pensa na morena que conheceu no samba do domingo à tarde. O maluco que vagueia pela rua só pensa em conseguir dinheiro pra pinga. O homem que compra ouro – pelo menos é o que se lê em seu colete azul – pede um pingado na pastelaria, parece apressado. Pelo barulho das lojas se abrindo, é mesmo hora de correr atrás do dourado.

É só mais uma manhã que demarca o início de mais um dia no centro da cidade.

Na televisão do mostruário da loja de eletrônicos é possível assistir à rica socialite lamentando a violência de seu país – “por que não nasci na Europa?”. Deitados no chão da calçada da loja, dois mendigos discutiam para saber quem tem razão sobre a existência de Deus, antes de serem expulsos pelo segurança.

Malandro que é malandro sabe negociar. Ou, como disse o tio do pastel, bamba que é bamba não tem medo de bacharel. Com os raios de Sol, os mais friorentos fogem das sombras, é inverno em julho.

Em poucos minutos já não se vê os mendigos, tampouco a socialite, animais se atacando deixam a tela mais bonita.

Esqueça todas as certezas, compartilhamentos de razões absolutas e lições de equilíbrio proferidas pelos puristas formadores de opiniões. No mundo real, há que se ser dionisíaco, perder a compostura. Escrever torto por linhas retas, buscar o anjo torto que atormenta o poeta. Este, na busca do imensurável, já não mede mais os versos, apenas grita em autodefesa poesias para sobreviver ao gauche destino.

Na vitrine da loja de eletrônicos, ainda embaçada pela neblina matinal, agora se vê uma criança desenhando com sua mão um coração distorcido. E, nesse momento, tanto faz quem inventou o Bóson de Higgs.

- Filho, vamos embora, senão o moço vai brigar com você.

A mãe aponta para o segurança, que não esboça reação enquanto o menino chora escandalosamente. Desconcertada, a jovem tenta ainda contornar a situação enquanto afasta o garoto da vitrine.

- Olha lá, que lindo, o leão correndo atrás do veadinho.

O menino ainda não parece convencido, mas vai se afastando aos poucos da vitrine. Pouco importa, em meio a tudo, ainda é possível ver a esperança na ponta de seus dedos.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Coluna do Leitor - Quem está vendo?

. . Por Mistura Indigesta, com 0 comentários


Publicidade é a alma do negócio, diz o ditado popular, e nada é mais verdadeiro em política internacional. Não vamos confundir com propaganda, que tem um cunho muito mais de manipulação, e o pessoal confunde com “publicidade” de um jeito assustador. Mas hoje vamos falar de publicidade mesmo – ou melhor, da falta dela. Enquanto o noticiário internacional se esbalda com a guerra civil na Síria e o morno debate da eleição presidencial dos EUA, temos um monte de questões que passam como nota de rodapé (quando passam). Você sabia que Cuba está passando por uma epidemia de cólera? Ou que o Tribunal Penal Internacional (TPI) sentenciou pela primeira vez um condenado por crimes contra a humanidade? Ou que o Congo está se tornando uma nova Ruanda?
Essas duas últimas estão relacionadas. O tal condenado é Thomas Lubanga, um líder de milícia congolês que mandava crianças para a morte nos idos de 2002-2003. Foi o primeiro julgamento em que saiu uma sentença (de 30 anos), em que vítimas puderam testemunhar pessoalmente contra o réu, e o primeiro em que se conseguiu fazer uma acusação formal contra o uso de crianças-soldado. Como marco, uma vitória simbólica, mas muito pouco perto do que a realidade apresenta por lá. Na semana passada, muita gente ficou chocada com o relato de Marie Nzoli, que mostrou como a situação das mulheres é difícil na região, e que o espectro do conflito ainda paira por lá. Nessa semana começa uma reunião da União Africana em que o tema é justamente o crescimento desses conflitos, mas entre a discussão dos líderes na sala com ar condicionado e as camionetes com guerrilheiros fuzilando a população, estuprando as mulheres e roubando crianças, há um abismo.
A questão é, por que esse tipo de notícia passa longe do noticiário convencional, espremido em 10 ou 20 segundos no jornal do almoço. Talvez seja para não chocar demais o espectador brasileiro, que já enfrenta desgraça demais no cotidiano, certo? Afinal, não tem como fazermos nada pra impedir esse tipo de massacre tão distante. É fácil julgar a mídia, dizer que não mostra por que não dá retorno, mas se formos pensar com frieza, realmente, por mais cruel que pareça, não há muito mesmo a fazer – a não ser que você seja um consumidor regular do mercado de diamantes, um dos motores desses conflitos, e resolva boicotar essa indústria diabólica, em qualquer lugar do mundo, mas não acho que seja o caso. O que podemos fazer? Denunciar, dar voz aos que não têm, e pressionar nossos próprios governantes. Mas, é pouco, e aqui entra o Tribunal Penal Internacional (TPI).
Não é nada animador saber que os responsáveis pela tragédia que se aproxima (ou já está acontecendo) vão ser julgados (se forem) apenas num futuro distante. Mas, essas primeiras vitórias do TPI são um recado aos violadores, de que já não estão 100% impunes, e uma esperança, ainda que pequena, de que no futuro seja uma instituição forte o suficiente para dissuadir esse tipo de massacre. Vai ser uma publicidade negativa danada, podem ter certeza, mas enquanto isso, o Congo e tantas outras nações em crise continuam no rodapé.


Álvaro Panazzolo Neto é mestrando em Relações Internacionais pela Unb e colaborador do Página Internacional.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Asterios Polyp: Arte (d)e Narrativa

. . Por Fernando Mekaru, com 0 comentários



PREMISSA PARA ROTEIRO. Após evento fortuito e inesperado, homem que parece ter tudo na vida perde tudo e, face aos horrores que lhe restaram após a recém-acontecida tragédia, vai para longe, até onde seu dinheiro lhe permite, para viver uma vida que nunca cogitaria viver antes. Ao mesmo tempo em que tenta deixar o passado para trás, homem busca nesse processo de reinvenção o sentido de sua própria vida, em uma mal-disfarçada tentativa de encontrar a si próprio em meio a anseios de redimir-se por erros de outrora que parecem inescapáveis. Homem, após ter de encarar de frente suas angústias, sofrimentos e, princpalmente, o seu próprio orgulho, descobre na mudança da personalidade a solução não de todos, mas de vários de seus problemas.

Vamos convir: essa não é uma premissa das mais originais para se escrever uma história.

Isso não impede, porém, que obras magistrais possam ser desenvolvidas a partir desta proposta, reinventando-a e mostrando que os limites da arte se dão verdadeiramente nas execuções infinitas de uma mesma ideia, bastando apenas uma execução suficientemente criativa dela.

Asterios Polyp (David Mazzucchelli, Cia. Das Letras, 2009, primeira reedição em 2012), um volumoso calhamaço de quase 400 páginas coloridas de quadrinhos, não faz parte do panteão de obras que se propõe a pegar essa proposta de narrativa e reinventá-la. Muito pelo contrário, a fórmula é seguida à risca, com muito pouco espaço para o desenrolar de um certo tipo de história que, com certeza, já vimos antes.

Por que, então, esta é considerada a magnum opus de David Mazzucchelli, mais até do que trabalhos mais conhecidos do mesmo autor como Batman: Ano Um e Demolidor: Renascido, nos quais personagens clássicos tem as suas carreiras reinventadas e suas histórias recomeçadas de um ponto de partida original, que rompe com outras leituras do mesmo? Por que uma das premissas mais recontadas da história, sem nenhum tratamento digno de nota, é reconhecido por diversos veículos como um dos quadrinhos mais inovadores dos últimos anos?


O estatuto concedido a esta obra se dá, principalmente, porque Mazzucchelli arrisca fazer algo que, no passado, muitos artistas falharam tentando: o foco dele é na forma de fazer quadrinhos, e não no conteúdo narrativo contido nos mesmos. Ao contrário do que normalmente acontece, isso não significa que isso desmereça a obra, pelo contrário: ao invés de se colocar somente como um deleite aos olhos e nada mais, a arte de Asterios Polyp é, antes de tudo, um convite a se afundar mais e mais no roteiro, colocando na obra todos os não-ditos, pressupostos, reflexões e demais elementos responsáveis por tornar os personagens profundos e a história, cativante.


A arte opera dessa maneira incrível de várias maneiras: a que mais se sobressai é a estilização de cada um dos personagens, que em primeiro lugar tem todas as suas falas e pensamentos escritos em fontes distintas uma das outras - essa mudança estilística, irrelevante à primeira vista, é um primeiro sinal ao leitor para que a individualidade de cada personagem, por menor que seja, seja estabelecida tanto na narrativa quanto na sua mente. Esta mesma postura de desenvolvimento dos personagens a partir da arte acontece de maneira mais impactante quando a história entra no plano de análise subjetiva de cada um deles: são todos (todos!) desenhados de maneiras distintas, de maneira a ressaltar características psicológicas e personalísticas que, se o único meio utilizado fossem as palavras, não seriam colocadas de maneira tão contundente e chamativa. A arte, nesse sentido, coloca tudo que o texto não coloca sobre a personalidade de cada uma das pessoas com as quais Asterios cruza durante sua jornada de auto-conhecimento: a partir dessa base, a mente do leitor se encarrega de fazer o resto do processo de construção dos personagens.




Mais do que colocar em evidência o pequeno universo artístico que cada personagem carrega em si, Mazzucchelli se utiliza da arte também para colocar uma questão que, com menos sensibilidade, é tratada de maneira simplista e muito pobre: o choque entre visões de mundo de duas pessoas muito diferentes entre si. O contraste visual entre estilos de arte gritantemente diferentes, junto à simplicidade dos balões de fala/pensamento, geram uma maneira de comunicar, durante a narrativa, os momentos de tensão e conflito entre as partes envolvidas, deixando o conflito implícito ou explícito conforme os elementos narrativos de cada página se coordenam entre si para desenhar cada elemento do roteiro.

       

Além de servir como instrumento narrativo, o contraste entre estilos de arte muito diferentes entre si coloca, em diversos momentos, uma questão que gera muitos debates: quando cada um de nós é inescapavelmente único e singular em seu âmago, é possível que essa unicidade/singularidade seja compartilhada, ou até mesmo compreendida, pelos outros seres únicos e singulares que nos cercam? Asterios Polyp dá uma possibilidade de solução para esta pergunta, e também dá pistas para que o leitor chegue às suas próprias conclusões, sem que para isso precise que a graphic novel leve-o pela mão até elas.

                                       

Obviamente, além de questões levantadas pela arte, a graphic novel não se resume ao roteiro-modelo colocado no início desse texto: a história possui alguns outros pontos levantados, a maior parte deles referente à construção da personalidade de Asterios, o personagem principal, mas não é possível falar dos mesmos sem que isso revele detalhes importantes da história. Se a descrição inicial da história sugere falta de profundidade, não se engane: ainda que não seja extremamente complexa e envolva diversos planos de narração, esta história em quadrinhos apresenta uma história sólida e envolvente, que vale muito a pena ser lida.

Em suma, Asterios Polyp reconta uma história que você já ouviu antes, mas dentro dos limites dela, faz coisas incríveis, singelas e bonitas, com alta carga emocional e que invariavelmente se comunicam com histórias que já ouvimos (e passamos) antes. Por conta de sua arte incrível, cada leitura permite novas reconstruções de cada um de seus personagens e eventos, bastando para isso apenas um novo olhar e análise para cada cena que o delicado jogo entre palavras e imagens coloca em cada folha de papel. Na opinião deste que vos escreve, é simplesmente uma história de quadrinhas imperdível, que reafirma o estatuto de arte concedido às histórias sequenciais e escapa de praticamente todas as soluções fáceis que esta forma artística normalmente propõe e não se deixa escapar.

domingo, 1 de julho de 2012

Desavisado*

. . Por Unknown, com 0 comentários



"
Ver você como uma coisa, que eles são capazes de ver você como uma coisa. 
Sabe o que isso quer dizer? É terrível, nós sabemos como isso é terrível enquanto ideia,
 que é errado, e achamos que sabemos todas essas coisas sobre direitos humanos
 e dignidade humana e como é terrível tirar a humanidade de alguém,
 é só isso que a gente diz, a humanidade de alguém,
 mas ver a coisa acontecer com você, ver, e agora você sabe de verdade.
 Não é só uma ideia ou uma causa para ficar todo careta.
 Faça acontecer isso e você terá um gostinho de verdade (...)
 E agora você sabe o poder que isso tem.
 O poder total.
 Porque se você consegue realmente ver alguém como uma coisa
 você pode fazer com o outro qualquer coisa,
 fica tudo de fora, humanidade, dignidade, direitos, justiça - tudo de fora."
(David Foster Wallace)




Meu nome? Inês, doutor. 'Doutor' não? Tá. Senhor me desculpe então, por favor. 'Senhor' também não? Tá. Ainda não é doutor, né – sorri. E 'Senhor' tá no céu, a gente sabe... mas se esquece, né, ou é Ele que se esquece da gente – sorri. Onde é que eu tava nos dias 21 e 22 de janeiro deste ano? Mas isso o senhor já sabe. Ai, me desculpe, 'senhor' não: você, você já sabe. Ah, tá, quer escrever, contar o que aconteceu lá no dia 22, como foi tudo. Olha, vai ser difícil, quase impossível, viu, eu acho. Porque talvez mesmo com aquelas câmeras por todas as ruas e cantos do condomínio da dona Matilde, que eu trabalho aqui em São José mesmo, na saída da cidade, e mesmo que você entreviste a porção de gente que vivia e estava lá, não vai conseguir contar o que meu menino viu e sentiu aquele dia. Disso você já sabe, né, pois só to avisando. Por que falei do menino e não do que eu passei? Porque a gente esperava já, né, esperava era pelo pior e ele veio. Ah, a gente estava lá fazia uns anos, eu mais meu menino e meu marido também, meu segundo marido. A gente veio de Piquiurama, eu nasci foi ali pertinho no Paraná mesmo. Meu menino é do primeiro marido, um desgraçado que larguei, depois foi que arranjei esse outro traste aí – sorri. A gente primeiro foi pra São Paulo, ficou lá um tempo. Norival, meu marido hoje, estava trabalhando pra uma transportadora, mas eu não queria ficar naquela cidade lá, não, Deus que me livre, lá perto daquela estação da Luz, num prédio velho, sem nada. A gente é muito simples, sabe, mas não queria meu menino crescendo pra ver tudo aquilo lá não... Nada por nada, Norival arranjou uma outra transportadora em São José e a gente veio, depois consegui ficar de doméstica numas casas que o pessoal indicou. A gente veio direto pra cá, quer dizer, pra lá, né. Quem foi que falou pra gente de lá? Não, não teve nada de movimento – sorri – de partido político, não. Falaram pro Norival lá na transportadora mesmo, nosso vizinho lá trabalhava com o Norival. Se não tinha partido e movimento lá, organização? Claro que tinha, moço, mas que coisa isso que vocês tem que falar, credo. Tinha pra lá de mil de gente lá, daí umas dez pessoas, to exagerando, vai, era de um partido, outras cinco, de outro, e eles tudo brigavam, né, nossa, só confusão. Vinha lá um pessoal da faculdade, nos fins de semana, faziam reuniões, coisa pequena, mas nunca fui, não, eles passavam avisando todo mundo. Eles faziam trabalhos, cuidavam das crianças, nada demais. Tinha reunião toda semana também, por setor, nestas eu ia às vezes, pra gente saber como é que estavam as coisas. Eles ofereciam uns cursos técnicos até, e não era dos partidos, era da prefeitura, moço, olha o rolo que vocês criaram. Mas o espaço, o terreno era todo bem organizado, isso a gente tem de reconhecer. A gente tinha energia elétrica da prefeitura, vieram os caminhões uma vez e desenharam direitinho as ruas, iam asfaltar, falaram. Todo mundo cadastrado, preocupado com a questão do esgoto. As pessoas falam, aqueles meninos dos jornais, da faculdade, sempre falavam também: os partidos. Nosso partido lá era o da sobrevivência, né. Eles acham que a gente é muito malandro de ir morar lá, é... Malandragem agora é medo de passar fome. Ô mundo esse, viu – sorri. É engraçado isso, as pessoas falam aí, comentam, né, ah, os traficantes, ah, os bandidos, os presidiários. Claro que tinha, tinha de monte, mas daí a dizer que só tinha gente assim é maluquice, né. E por que é que quem um dia foi preso sempre será bandido, me diz? Tanta gente diferente lá, gente trabalhadora, dedicada, respeitadora, era um bairro igual aos outros, moço, só isso. Pra onde é que essa gente vai, onde é que essa gente fica se não tem nada, gente? Acaba assim mesmo. E vem pra onde a gente tá tudo agora, né. É isso. Que que as pessoas pensam? Norival já teve preso também, já roubou, já deu tiro pra fugir da polícia, não é santo, não, eu também já vendi baseado vagabundo, pacotinho de pó quando o medo de faltar comida foi maior que o de encarar uma cama de cimento e um sol gradeado. A gente lá era tudo como se fosse só “ex-” alguma coisa, né, ex-traficante, ex-ladrão, ex-preso, só que aí, como você já sabe, você viu, tem foto, tem vídeo, vocês tudo viram, naquela manhã de domingo a gente virou foi ex-mulher, ex-homem, ex-criança: ex-ser humano. A gente então era sei lá o quê, pior que bicho. A gente já estava alerta fazia tempo, mas no sábado, como todo sábado, mesmo que para alguns todo dia seja sábado – sorri –, a gente tomou uma cervejinha, queimou umas gordurinhas até de noite, pessoal lá tocou música, dormi mais tarde e acordei com meu menino gritando “mãe!!, mãe!!, mãe!!” do meu lado. Os olhos dele estavam do tamanho do barraco, coitado. Eu ainda meio zonza, o Norival foi saindo pra ver o que acontecia. Meu menino dizia que estavam gritando fazia tempo, que parecia que era a polícia, que tava correria. Foi tempo dele dizer isso, eu ficar de pé, o Norival entrou de novo no barraco gritando, e eu, que já ia ralhar com o menino pra parar de repetir a mesma coisa, me assustei também, porque o Norival foi juntando o que viu pela frente, roupa, documento, o que deu mesmo, enquanto dizia que era a polícia mesmo, que era o Choque, que a gente estava sendo posto pra fora. Estava meio escuro ainda, mas no final do corredor dos barracos dava pra ver os escudos juntinho, um do lado do outro, avançando. Os gritos de que era pra gente sair na outra direção iam ficando cada vez mais perto, cada vez mais perto. Norival e os vizinhos, o pessoal lá fora ainda ficou pedindo calma pros Choque, que tinha criança, bebê lá, pra esperar as mulheres saírem direito primeiro. Eles iam avançando. Dava pra ver, vocês viram as fotos, né, policial entrando nos barracos lá na frente, quebrando e derrubando tudo. A gente ouviu tiro, sim, não sei o que era, não, deviam tá atrás de bandido, incriminar alguém, foragido, não sei. Disseram que morreu gente, não vi, não sei, vai ver que sim. Morre tanta gente toda hora. Bateu a raiva só lá fora, sabe, aí eu gritava, xingava, filhos de uma puta. Puta não, né, que puta não tem nada com isso. Desgraçados. Era como se nada do que ficou lá fosse nosso, como se eu não tivesse trabalhado, suado todo dia pra comprar e montar as coisas do nosso barraco. O sol ainda não tinha nascido direito e a gente lá fora foi juntando umas madeiras, tacando fogo, como se quisesse avisar o que estava acontecendo. Mas avisar pra quem, né... Alguém vai dizer, "pros partidos" - sorri. Ah, tá. As crianças ficaram amuadinhas, todo mundo com medo, a gente gritando, um monte de gente correndo, as pessoas foram percebendo que o bairro todo estava cercado. Não tinha o que fazer. Além deles fazerem aquilo, tirar tudo da gente quase na madrugada de um domingo, queriam que a gente assistisse a tudo, de pertinho, sem poder fazer nada, porque crueldade pouca é besteira, né – sorri. Foi muito rápido. Depois a gente foi levado lá praquelas tenda que vocês viram. Era pra triagem, diziam. Triagem, gente, se a gente era tudo cadastrado lá... A gente não é boi, não. Aí foi esperar, né, esperar o dia passar, acabar todo aquele inferno. Minha vó, mãe da minha mãe, dizia que não podia falar essas palavras porque atraía, não podia falar 'desgraça', não podia 'câncer', não podia, atraía coisa ruim. Vai ver ela estava certa, mas não foi a gente que atraiu, não, porque a desgraça, o inferno já está aí antes da gente, e ele vem sem nem a gente chamar. Tá tudo errado, né, desde o começo. Meu pai errou quando se juntou com minha mãe, os pais do Norival a mesma coisa, eu também, quando me juntei com aquele primeiro desgraçado, mas a gente quer acertar, né, e carece é de sorte. Agora é ver até quando vai durar essa bolsa aluguel que a gente tá recebendo, e tanta gente ficou sem... Com o dinheiro, a gente tá num quarto nesse cortiço aqui atrás, sabe. To lá na dona Matilde, o Norival na transportadora fazendo os bicos de sempre, o menino tá no colégio: vê se estuda, né, é melhor. Quero mais filho não, gosto do menino, sei o que é ter um monte de irmão, é bom, mas é duro também. Passei lá no Pinheirinho outro dia, vi que não fizeram nada, teve corrida de carro lá, né, na terra, mas teve gente que foi morar lá de novo, fez barraco e tudo e foi despejado de novo também, né. Tem que ir atrás do dono daquele lugar lá, moço, porque tá feio lá, viu, abandonado, fiquei com medo, estava parecendo as noites lá perto da onde a gente morava em São Paulo. Os nóias, uns coitado que nem consegue para em pé direito, tudo sujo, jogado, ziguezagueando. Não é medo deles, sabe, é também, é estranho, é dó, um clima que dá medo, sabe. Daqui a pouco, aquele lugar vira sei lá o quê, ou a gente mesmo acaba voltando pra lá, né...


*texto ficcional, fruto dessa história de desafio no blog: foi proposto pela leitora Lais Fraga, indigesta por aliança

    • + Lidos
    • Cardápio
    • Antigos