VÍDEO: MURILO CAMPANHA CONTA ITATINGA

O psicanalista Murilo Campanha fala sobre Itatinga, um dos maiores bairros de prostituição da América Latina, onde ele tem seu consultório.

O nadador

Uma crônica de Hugo Ciavatta.

Ainda que as bolachas falassem

Crônica de Fábio Accardo sobre infância e imaginação

Ousemos tocar estrelas

Uma reflexão de Thiago Aoki.

Entre o amarelo e o vermelho

Uma crônica de Hugo Ciavatta

O homem cordial vinhedense

A classe média vai ao barbeiro. Uma crônica de Caio Moretto.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Os Saltimbancos*

. . Por Thiago Aoki, com 2 comentários

Estava em um bar, sozinho, e sozinho o balcão é sempre mais confortável do que a mesa. Isso porque na mesa, as cadeiras vazias, a cada minuto que não são preenchidas, aumentam nosso desconforto com a solidão. Já no balcão, o inverso acontece, pois a qualquer momento alguém pode sentar do nosso lado, mesmo que não troque uma palavra. E se mesmo assim ninguém aparecer, temos o garçom que sempre é um ombro em potencial para uma cabeça que há tempos não é afagada. Optar entre mesa e balcão, em menor escala, é o mesmo que optar entre o privado e o público. E quem vai sozinho a um bar, ainda que normalmente possua os motivos mais privados para estar ali, sempre acaba preferindo o ambiente mais público para se aportar.

Escolhi whisky com algumas pedras de gelo. Além de refrescar o calor, a luz baixa do bar batendo no gelo criava uma imagem que, conforme o álcool subia pra minha cabeça, ia ficando mais surreal. Num momento de devaneios, pensei que, se as ciganas vissem aquilo, não escolheriam mais a borra de café para fazer suas previsões, trocariam por um belo whisky em um bar à meia luz.

Já tinha tomado alguns copos - alguns não, muitos – quando olhei para trás e reparei no ambiente. Deve ter sido a bebida, mas senti-me como em um metrô, tentando descobrir o destino e as histórias dos passageiros.

Vi dois casais de namorados que, em duplas, disputavam sem seriedade uma partida de sinuca, e a cada rodada que se entreolhavam, deixavam escapar um pouco de pecado no olhar trocado.

Vi duas amigas sentadas em uma mesa, olhando para uma mesa com dois amigos.

Vi uma mulher discutindo nervosa com seu par. Acusava-o de olhar para a bunda da mulata que rumava o banheiro. Pudera, bela bunda era.

Vi então três moças dançando sozinhas, enlouquecidamente felizes. Eram as únicas na pista de dança improvisada entre as mesas. O som foi diminuindo e, mal chegado o silêncio, uma delas correu até o antigo jukebox que ditava o som ambiente. Tirou do bolso da calça uma ficha, colocou-a na máquina, apertou alguns botões e voltou sorrindo, enquanto as outras amigas aguardavam com curiosidade para descobrir qual a música que começaria.

Para surpresa das três e de alguns que, como eu, assistiam à cena, uma voz feminina terna em ritmo cadenciado começou

“Me alimentaram
Me acariciaram
Me aliciaram
Me acostumaram”

- Nooooossaaa, aquela música que a vó colocava pra gente quando a gente era pequena? – uma das garotas reconhecera.

-Puta que pariu, de onde você desenterrou isso, menina?! – a outra também lembrara.

Deviam ser primas ou irmãs e, pela minha idade, eu podia ser o avô. A terceira moça, aquela que escolheu a música, não respondeu, apenas pegou a garrafa de cerveja vazia e usou de microfone, passando por todas as mesas, a essa altura sem a mínima vergonha, dançando e cantando sensualmente engraçada, abusando de seu vestido vermelho, feito musa de cabaré

“O meu mundo era o apartamento
Detefon, almofada e trato
Todo dia filé-mignon
Ou mesmo um bom filé...de gato
Me diziam, todo momento
Fique em casa, não tome vento
Mas é duro ficar na sua
Quando à luz da lua
Tantos gatos pela rua
Toda a noite vão cantando assim”

No estado latente de minha embriaguez, acabei não resistindo. Destrambelhado, derrubando whisky por toda minha camisa, levantei do balcão com meu copo na mão, fui até elas e, como se fôssemos íntimos, cantamos juntos, berramos juntos, brindando o refrão

“Nós, gatos, já nascemos pobres
Porém, já nascemos livres
Senhor, senhora ou senhorio
Felino, não reconhecerás”

Sabia que ali, a canção tinha significados diferente. Para elas, uma retomada da recente ingenuidade perdida, extrapolada no refrão. Um símbolo de algo que tinham em comum, de um resquício familiar. Para mim, a lembrança de uma longínqua juventude em um país politicamente sombrio, uma época em que eu, um futuro advogado caro de São Paulo, quem diria, desafiei a ordem.

Não importava, ali estávamos juntos, bêbados, abraçados, berrando o refrão de uma música. Não importava se seríamos barrados na portaria de nossas casas, sem filé ou almofada por conta da louca serenata. Não importava. Naquele momento, naquele exato momento, estávamos livres.

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* "Os Saltimbancos" foi o tema gentilmente sugerido pelo indigesto Caio Moretto

sexta-feira, 11 de maio de 2012

A marca de batom

. . Por Unknown, com 0 comentários


Eram quase sete, porque o ônibus estava marcado para sair às sete e dez daquela manhã de segunda-feira após um feriado qualquer, então o motorista deve ter chegado pouco mais de dez minutos antes para pegar todos, inclusive aquela marca de batom estorvo que aparecia no meio de todos, empilhar as malas e ainda coser uns instantes antes de partir. Talvez tivesse passado um dia santo, uma comemoração importante da nação, mas seguramente não passara o Carnaval, o que tornava tudo muito estranho, mais ainda aquela marca de batom, que após uma quarta de cinza teria razão. O Carnaval estava próximo, sim, então não fazia sentido estar frio como estava. O frio também impedia, como era óbvio, que as roupas fossem tão coloridas, já que não era Carnaval, é preciso insistir, numa manhã de segunda-feira fria, porque se as manhãs são de segunda-feria, são cinzentas, mesmo que não sejam as cinzas de uma quarta que anuncia o fim do Carnaval, que ainda não havia chegado, oras. Era uma segunda fria por dentro e por fora, e se de frio, também não deveriam ter tantas cores, ou no máximo três ou quatro que vão do cinza ao negro nas roupas de frio. O dia era muito claro, com luz intensa ainda tão cedo, e frio, não ventava, mas era claro e frio, era impossível para aquela cidade que está num buraco no meio do mapa. Era verão, só que fazia frio, sem vento e com muita luz, impossível. Tamanha confusão assim não ia embora enquanto não batesse sete e dez e o ar condicionado estivesse ligado para as quatro horas seguintes pela rodovia, e também enquanto aquela marca de batom vermelho não desaparecesse da vista.


Apesar de já pensar no frio incômodo que então proviria do ar engarrafado que passaria a circular com o movimento sonolento do ônibus, sempre encontro alívio quando lembro que as poltronas dos ônibus de viagem, por enquanto, não se inspiram naquelas dos vagões de metrô ou de ônibus circular, com suas poltronas viradas, de lado, ou que nos deixam de costas para o sentido que segue a viagem. Tranquilo por deixar aquela marca fora de lugar longe dos olhos, me atormentava imaginar aquela viagem de costas, pois em poucos instantes nessa posição fico enjoado. Janelas, corpos, tudo ao redor começa a flutuar como se eu estivesse numa piscina de perfume muito adocicado. Talvez esse fosse um mal, não um mal qualquer, mas um mal do qual muitos sofremos, o mal de paralaxe. De costas para o sentido da viagem, é como se tudo nos corresse, tudo nos fugisse, nos deixasse, nos abandonasse. De frente, o mundo vem ao nosso encontro. Sentado onde estamos, a paisagem e o movimento nos procuram, nós somente esperamos, intransitivamente, é mais cômodo. É o mal de paralaxe egocentrado, dirão os cientistas. Cuidado, não se identifique, ou você será aprisionado num esquema qualquer – o que é mais assustador ainda – no qual estará encerrado, sem razão para estar como quiser ou puder, você sobretudo será algo definido, pronto, acabado, resumido, e um eufemismo lhe restará, com um gênio irônico cujo santo não bate pelo mundo afora.


Droga, aquela marca no rosto que estorvava tudo enquanto o ônibus não chegava, droga, estava agora ao meu lado, tinha rosto, corpo, se protegera da luz com a cortina cinzenta da janela à esquerda, mas estava ao meu lado, droga, eu tinha que dividir o braço da poltrona com ela, droga. Trocar de poltrona, caramba, era só trocar de poltrona. Inclusive, na poltrona de trás e logo à direita, colada no corredor, estava aquele homem, como era mesmo o nome dele? Ficara famoso há anos, não famoso, famoso, mas reconhecido por tanta gente, foi parar na tevê, no programa de domingo, era pai daquele menino que estudou com minha irmã. Como era mesmo o nome do menino? Eu poderia dizer-lhe que me lembrava dele, que ele era mesmo muito corajoso por fazer tudo que fez, mas o que foi mesmo que ele fez? Sim, ficara minutos, muitos minutos debaixo d'água, sem respirar, quebrara algum recorde importante. Ou teria sido no gelo, ele teria ficado numa câmara resfriada muitos graus abaixo de zero, apenas com uma roupa de baixo, durante horas? Não, talvez ele tivesse ficado muito tempo debaixo de água muito muito gelada, e também sem respirar, ultrapassando os limites... os limites... do corpo e da mente, da mente sobre o corpo. Era um ícone, tinha os olhos assustados e parecia muito concentrado nas músicas que alimentavam seu fone de ouvido. Ele bem poderia ser o narrador dessa história também, um narrador em terceira pessoa que não me entregasse, como agora, na primeira do singular. Sendo ele o narrador, eu me livraria de um possível interrogatório com os porquês e os pra quês da história, da escrita, do sentido, da construção, da discussão. Porém, do lugar dele não era possível sequer ter uma vaga noção da marca despropositada no rosto da moça ao meu lado. Aquela marca de batom estava na face para o lado da janela, só mesmo quem estivesse onde eu estava podia perceber. Se ao menos o Google Street View, além de possibilitar saber o tráfego nos quilômetros seguintes, fosse capaz de dar a visão que eu tinha sentado ao lado da moça, ao mesmo tempo que deslocado para a poltrona do homem que foi para o livro dos recordes. A tecnologia não me ajudava, então eu poderia fingir ser o homem dos recordes e contar essa história. Pronto, sendo o homem dos recordes sentado na poltrona logo atrás, já sabendo da marca de batom vermelho da moça que estava ao meu lado, a história poderia enfim transcorrer e o fado por um texto como este, que não se desanuvia, estaria abandonado. Não, se o homem dos recordes decidisse ir embora, descendo antes do destino final do ônibus? A história não terminaria, seria roubada por uma decisão mesquinha do homem dos recordes, não.


A marca de batom vermelho não era grande como se não fosse possível não percebê-la, nem pequena o suficiente para somente reparar quem perscrutasse a moça com o olhar. O vermelho da marca é que era vermelho demais, não como o vermelho do rubor de uma criança flagrada cometendo um pequeno delito, mas vermelho como são as luzes fluorescentes de uma sinalização na estrada noturna, um vermelho que não cabia em vermelho. Talvez fosse o caso de dizer que era um vermelho Almodóvar, mas isso seria um clichê, ainda que o fosse aquele vermelho, clichê e Almodóvar. A moça chegara antes de mim na poltrona e, embebida de sono, imagino, logo se ajeitara, quando cheguei apenas encontrei novamente a marca de batom, que agora tinha o rosto dela, enquanto ela já parecia dormir. Em alguns minutos, e já na rodovia, eu sabia os movimentos que ela faria nas próximas horas, dada a repetição, reservando-se a apertar os braços estendidos contra o corpo, ou mesmo empurrando com uma das mãos a blusa de lã que levava aberta sobre a camiseta roxa justa por baixo. Os pés se mantiveram sobre o encosto para as pernas, e estas também ficaram esticadas pelo jeans. Os pés eram feios, a sandália também, mas não eram os pés feios pelo formato, eram feios pela sandália velha e feia, e pelo pouco cuidado que aparentavam da moça com seus próprios pés, rachados, muito mais velhos que o rosto que dormia. A moça era pequena, franzina não de fraqueza, apenas de pequenina. Os cabelos é que pareciam muito longos, longos demais para uma moça pequena, produzindo uma espécie de descompasso entre o caminhar de uma moça pequena com o cabelo tão comprido, eu imaginava. Descompasso nada comparado ao da marca de batom em seu rosto.


Quem seria capaz de usar um batom como aquele em plena manhã de uma segunda-feira fria e, além do mais, beijar com tamanho entusiasmo o rosto de uma moça pequena e de cabelos tão compridos? Tenha bons modos ao imaginar uma resposta, leitor. Apesar do sono que a moça aparentava, ela não saíra de uma festa na madrugada que se encerrou pouco antes, seguramente, tampouco teve como companhia alguém de extravagância pouco preocupada com a moralidade vigente para que se imaginasse qualquer despudor.


Nas minhas mãos, Orlando ficou esquecido, e na rodovia que conheço tão intimamente, já que vai para quase duas décadas a nossa relação constante, não encontrei a árvore arregalada e enorme à direita do asfalto depois da quinta cidade e do lago intimidado pelo canavial. A moça apertava os braços contra o corpo e empurrava com uma das mãos a blusa de lã em direção a cintura enquanto dormia. Sequer fui capaz de ser levado a meados do século XIX pelo casarão branco de uma antiga fazenda de café, encrustado num morro à esquerda, mais ou menos próximo da penúltima cidade antes do fim da viagem. Entre palmeiras que não são da região, mas que caem bem ao cenário extemporâneo, às cercas baixas e ao portão enferrujado, a fazenda e sua sede se perdem a seguir diante das indústrias, favelas e pobreza igualmente desenvolvidas na região mais progressista do país. Não dormi, não conseguia ler, a marca de batom da moça me incomodava sobremaneira. Mas também sempre tive muita dificuldade para dormir em viagens, somente consigo sacolejar com o balanço, com o movimento do veículo, não avanço o estado de vigília. É como se estivesse o tempo todo acordado, vivendo em um corpo grande demais para mim, vagueando e esbarrando em quinas e cantos imaginariamente absurdos, assistindo ao mundo que passa, de maneira desinteressada para mim, que não reconheço meu corpo e sorrio de desdém diante de um reflexo que me identifique. A moça seguia apertando os braços estendidos contra o peito e com uma das mãos puxava a blusa de lã para baixo. Tentei lhe imaginar, sem sucesso, como aquela menina que quase corria empurrando sua bicicleta num fim de tarde, quem sabe feliz pela chegada de uma noite bonita, quem sabe pela expectativa de uma viagem tão esperada que logo se realizaria, mas que de todo modo trazia nos olhos, em pequenos gestos e em cada linha do rosto, um sorriso discreto. O rosto com aquela marca de batom, não.


Como podia aquela marca? As mãos pequenas dela ainda denunciavam, ao lado dos cabelos longos, ela pouco se importava com cremes hidratantes, unhas coloridas, cutículas ou lixas. Louvável. Sim, era isso, ela só poderia mesmo ser muito religiosa, de uma ordem demasiado fechada, rigorosa, controladora, moralista, repressora de algo que beirasse a exibição pública de sensualidade. Provavelmente, era de uma daquelas igrejas em que se é obrigado a pagar todo mês para crer e ter fé em Deus. Não, mas a blusinha roxa por debaixo da de lã era justa, em v, ela continuava contraindo os braços contra o corpo, levando a lã do casaco fino em direção ao colo. No sono, conforme ela se contraia, os seios cresciam de maneira imprópria para qualquer igreja, imagino. Não eram largos, nem proporcionais ao tamanho dela, tão pequena, mas ela, numa ordem religiosa dessas, não poderia usar uma blusa assim, que desse aquele movimento aos seios. Sim, ela era de uma ordem dessas, de uma religião em que o corpo dela não existia senão para a reprodução, em que sua exposição ou toque estava reservado a sociedade dos homens, para o marido, obviamente. 

Ao acordar, ela era quase como dormia, mas cobriu completamente o peito escondendo a blusa roxa, enfim, ficou contraída por inteiro. O quadril pouco mais largo que o corpo delgado dela, enterrara-se ao fundo da poltrona, quando antes estava entregue ao conforto despreocupadamente. Os braços cruzavam a cintura, ela talvez tivesse mesmo muito frio, e os olhos, semi franzidos, denunciavam a seriedade, ou apenas o contragosto de um sono atrapalhado no fim da viagem. Do rosto pouco consegui ver enquanto ela estava sentada ao meu lado, já acordada, mas enquanto dormia, levava os traços abertos, redondos, suaves. Os olhos, no entanto, entre o verde e o castanho claro, não foram capazes de me encarar enquanto lhe tentava puxar assunto, para dizer, como com surpresa minha, que havia uma marca de batom no rosto dela. Coisas banais como o tempo claro lá fora e a viagem tranquila e rápida não a fizeram movimentar o pescoço, apenas assentir com os olhos e manter-se em sua posição. Talvez fosse mau humor, talvez não, talvez eu a tivesse assustado enquanto a observava, mas ela dormia. E se me sentia uma espécie decadente de galanteador parecendo, na verdade, um sujeito estranho e babaca, o terror a assaltou quando, já com o ônibus muito próximo da plataforma de desembarque, com a ponta dos dedos toquei  o braço dela colado ao corpo lhe dizendo que havia uma marca de batom em seu rosto. Pela última vez ela comprimiu os braços, levando uma das mãos à face para limpar impetuosamente a marca, os seios não existiram nesse momento. Não sem algum sarcasmo, lhe disse para ter calma, que estava bonito assim. Ela parou, franziu ainda mais as sobrancelhas, e só me encarou quando eu, já de pé, resgatando a mochila acima para sair, me virei para o fundo do ônibus. Ela em seguida desviou o olhar.


Já na plataforma, eu era acometido não pelo arrependimento de ter gastado aquelas quatro horas em absolutamente nada, ou pela aversão ao ser que eu a mim me apresentava, com todos aqueles pensamentos. Me amedrontava imaginar rever aquela pequenina criatura só não feia enquanto dormia, ou enquanto a imaginação alheia lhe procurava alguma beleza. Quando agarrei minha outra mochila no maleiro debaixo do ônibus, senti que me olhavam, só poderia ser ela. Era. Por fim, encontrava o século XIX, os cabelos lhe tocavam uma das mãos nos braços que se mantinham comprimidos ao longo do corpo. Só que os olhos então transmitiam uma absurda clareza, e não fugiram novamente ao me encontrar, a testa não se fechou, pelo contrário, os lábios deixaram um ao outro lentamente para abrir um sorriso faceiro, gostoso. Ela já não tinha a marca de batom vermelho.









domingo, 15 de abril de 2012

O ladrão de nariz

. . Por Unknown, com 3 comentários

Gordo, ele era gordo, não era imenso, não era um pouco, mas era gordo como se é, gordo. Gordo de calvície gorda, de cara gorda, de pescoço gordo, de bigode escasso e... gordo. Gordo de nome, como era conhecido, “o Gordo”. Gordo de mãos gordas, dos pés gordos nos sapatos da sapataria do Gordo que então levava nos fundos da casa dele. A sapataria antes ficava a alguns quilômetros e ele ia com um fusca, um carro adequado para a sua estatura, e mais adequado ainda porque é um carro, como se percebe, gordo. Mas o trabalho, que como qualquer outro sempre foi, e sempre será, um passatempo, perdeu a aura de obrigação, era mais do que nunca só uma forma de ocupar as mãos e a cabeça naquela época, depois que o mais novo dos filhos, já com emprego fixo, casara-se. O Gordo se aposentou.

A formalidade talvez o levasse a se apresentar como Otávio, mas a derivação que logo se seguia era pouco óbvia, ainda que os ós no nome, de saída e término, já dissessem o que se via, era gordo. Seu Otávio também não era muito a cara dele, que para a maioria da família, talvez por ser pequeno na altura, como deixava claro mais uma vez o automóvel, ficou como o-Tavinho. Já para os mais próximos, nada mais apropriado que a derivação do Gordo, o Gordinho, o-Gordim. Com os filhos sempre fora bastante sério e responsável, com a mulher, às vezes, até duro: um mistério, porque, a despeito destes, ninguém o levava a sério, talvez nem ele mesmo.

Me lembro de sua voz, meio rouca, dizendo “Ô, véia, traz a menina pra eu ver”. Minha irmã tinha poucos meses e ficávamos na casa d'O Gordo quando minha mãe precisava ir ao centro da cidade. Naqueles meses ele não saía do quarto, só ficava na cama, diziam que a perna não estava boa.

O-Gordim era um ladrão e minha mãe, ingênua, não suspeitava. Não sei, não há relatos ou qualquer indício de que isso fosse uma prática recorrente antes. De todo modo, senti na pele os furtos dos quais ele era capaz, antes dessa época que ele ficava no quarto. Me chamava, com a mesma rouquidão, “Ô, menino, vem cá!”. Sentado naquela poltrona toda acolchoada, de ferro, mas cujos braços eram de madeira, debaixo da janela da cozinha. Até hoje, ao me lembrar, vem aquela sensação pegajosa, o Gordo costumava bagunçar o cabelo da gente, cutucar as orelhas, pentelhar, ele dominava como ninguém a arte de pentelhar. Quando eu me aproximava, ele me segurava com uma das mãos, dobrava os dedos da outra formando um “dois”, como um V, e me levava o nariz. No instante seguinte, sua mão voava em direção à janela e eu ouvia, tentando me desvencilhar, que o meu nariz estava no galinheiro do terreno nos fundos da casa. “Mentira, mentira, mentira: tá aqui ó!!”, eu dizia, enquanto mostrava-lhe que entre os meus olhos nada mudara. “Ouve só, vai lá ver então, no galinheiro, a festa que tá com esse seu nariz aí, mané”; “Não to ouvindo nada... aí ó”; “Vai lá perto então”. 

A porta dos fundos que dava acesso ao galinheiro não se fechava, emperrava-se, e com um pouco de jeito, coisa que alguém de cinco anos tem de sobra, era aberta aos solavancos e puxões suaves, abrindo com um rangido interminável. Sim, dava certo cala frio abrir aquela porta e ver o alvoroço das aves atrás da tela, enquanto imaginava meu nariz sendo alvo da algazarra. Não era possível, “aqui ó”, eu repetia, com a mão no rosto. 

Só com a mulher do Gordo se podia conversar de igual para igual: “Ô vó, o meu nariz tá no galinheiro?!”; “Ah, menino, deixe de dar confiança pra esse velho!”. Eu voltava para a cozinha disposto a resolver aquilo tudo de uma vez! “Pow, pow, pow!", mas era atingido por almofadas e mais almofadas, e uma batalha, uma guerra se iniciava! Atrás da mesa, nada me servia de armamento, tinha que desviar dos ataques, esperar, pegar as almofadas e contra-atacar. Tudo isso se repetiu umas quatrocentas e setenta e quatro mil vezes.

Naquela cozinha, durante aqueles anos e muito tempo depois, entre a porta que dava acesso ao quintal e aquela para a sala, estava o Morumbi, o Maracanã, ou apenas o Santa Cruz. Talvez o Gordo preferisse o Palma Travassos. Naqueles anos, também, já estava anunciado, nem eu, ou qualquer outro primo seria engenheiro, ou arquiteto, não passaríamos das construções de Lego. Era a vó mesma quem fazia as bolas de meia, porém, qualquer tampa de plástico ou algo que deslizasse o piso branco manchado de marrom era suficiente para fazer cadeiras, janelas, persianas, mesa, porta e armário tremerem feito traves e arquibancadas. Muitos craques desfilaram ali. Neymar ficaria com inveja.

O Gordo não viu. Imagino que aqueles homens vestidos de branco que o levaram do quarto um dia, quem sabe, tivessem razão. Um ladrão não poderia ficar assim, à solta. Minha mãe me veio com uma conversa dias depois, dizendo que eu ia ficar em casa com uma prima muito alta durante aquela noite. O galinheiro depois disso sumiu. Ficou o pomar no quintal. O-Gordim, bandido, na certa deve ter levado tudo ao fugir. Mas ele perdeu a guerra, mané, e eu ainda tenho meu nariz.

A poltrona pelo menos ficou, foi para a sala. De lá, via-se também as janelas dos quartos, e o mundo sim era muito grande lá fora.

domingo, 8 de abril de 2012

Folha em Branco

. . Por Thiago Aoki, com 1 commentário

A folha em branco é desafiadora. A vontade de escrever parece latente, quase um litro de café já se foi, e a casa está harmoniosa... Tudo perfeito... Mas onde diabos está aquilo que devia estar no papel?

A folha sobre a mesa. Eu olhando pra ela enquanto giro o lápis pelos dedos. E nada. Uma consulta pode ser um bom caminho: bloquinhos de anotações, jornais, livros, wikipedia, filmes, aforismos, algo inspirador... Mesmo assim, mais vazia que a folha parece minha cabeça, que teima em não ter ideias. Quando enfim parece estar surgindo, o barulho da geladeira, ou uma simples formiga que trafega sobre a folha parecem suficientes para repelir qualquer indício de inspiração.

Olho pra folha em branco e me sinto herege. Tantas pessoas morreram por aí para que eu tivesse direito a esse momento, de escrever sem medo de ser preso. De publicar algo sem justificativa e revisão de superiores. E eu aqui, entre titubeios e distrações. Vai ver essa folha em branco é mesmo como a democracia, onde se é livre, mas não se sabe bem o que fazer com aquilo.

O primeiro parágrafo é o mais difícil, mas sem ele nada acontece. Algumas vezes custa a sair, mas quando é parido, o texto todo engrena com relativa fluência. Em outras, no entanto, ele até aparece rápido, mas mais pra frente fica fácil perceber que ele influenciou tudo o que veio depois a ser ruim como ele.

O melhor então é aproveitar o fio da mínima meada e ir escrevendo tudo, quase um fluxo de consciência, sem se importar com erros gramaticais ou palavras repetidas. Depois teremos tempo para isso. E só assim, conseguimos descobrir que o fio, antes pequeno, pode estar ocultando um novelo de ideias. Como é bom destrinchar esse novelo, ainda que desordenadamente. E pouco a pouco surge um texto em crochê.

Agora sim, é hora de maquiá-lo. Algumas correções cá ou lá. “Será que esse acento está de acordo com a nova regra ortográfica?” Mudar parágrafos de lugar também é mais corriqueiro do que se imagina. “Esse segundo parágrafo podia ser o quarto, também preciso extrair uma parte do terceiro parágrafo para fazer um enxerto no quinto”. Outra parte importante é trocar palavras que entravam a fruição, dar alguma poética ou pelo menos tornar a leitura mais agradável. “Hum... ‘É hora de ir’ fica melhor do que ‘vou-me já’, certamente”. Só mais alguns detalhes e... Pronto, lapidado!

Depois do fluxo de ideias e da maquiagem, é impossível publicá-lo sem mais uma revisão minuciosa de conteúdo. Dar uma olhada no argumento, conferir se as ideias têm nexo e se aquilo realmente expressa minimamente o que você acredita. Parece simples, mas é tão difícil como o começo, sempre tem um senão pra incomodar. “Será que se meu chefe ler ele vai brigar comigo?”, “Será que o Drummond salvaria alguma frase daqui?”, “Será que eu posso dizer ‘tribos’ ou soa evolucionista?”, “Será que está claro que foi uma ironia?”, “Será que vou me envergonhar quando ler isso aqui, daqui um ano?”. O drama é tão grande que João Cabral mesmo dizia que, depois de escrito, gostava de deixar um poema na gaveta por meses, para lê-lo de novo e só então decidir se queria mesmo ser autor daquilo. Em tempos de blog, fica difícil.

Mas enfim, a folha está preenchida, e até o corpo parece aliviado por colocar pra fora aquilo tudo. Há poetas que dizem que a poesia de algum modo já existe em algum lugar, e cabe ao escritor apenas encontrar a combinação de palavras que estão escondidas. Uma teoria um tanto quanto espiritualista, é verdade. Mas, de fato, na hora de escrever tem algo que deve sair, que precisa ser escrito. Fazer da fagulha um incêndio. Não fosse essa sensação, seria fácil desistir na primeira formiga, no primeiro barulho.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Para alguém que acredita em um mundo diferente

. . Por Thiago Aoki, com 1 commentário

Ser adulto tem dessas. A vida, ávida por resposta, pergunta, cem vezes ao dia, onde vamos. A resposta, sempre tão clara ou que nunca se fez necessária aparecer, agora se esconde por entre a paz do caixa eletrônico e a audácia do tempo.

Sinto, metafisicamente, que todos que algum dia militamos ou acreditamos na possibilidade de um mundo diferente, estamos imersos em uma crise. Não é uma crise financeira, moral, ou política. Trata-se de uma crise de ideias. Ainda não preenchemos a lacuna deixada pelo muro de Berlin e os gritos esparsos de poucos acabam dissolvidos no vento. Quando finalmente tem-se muitos de voz grossa a gritarem juntos, não se sabe pelo que se grita. Sabe-se apenas contra o que se grita. E que gritar é preciso.

E neste instante, quando as respostas teimam em se ocultar, o mundo parece uma difícil dicotomia entre a dignidade e a conveniência, que brigam entre si dentro de cada um de nós.

Kafka, em um personagem preso sem motivo aparente, mostrou como parecemos imbecis quando buscamos o avesso das regras do mundo, por mais que saibamos da opressão que sofremos. Parece ainda mais tola uma contestação em plena liberdade democrática. É também dele uma frase que diz muito sobre nossa sinuca de ideias: “o verdadeiro caminho passa por uma corda que não está esticada no alto, mas logo acima do chão. Parece mais destinada a fazer tropeçar do que a ser percorrida”. Albert Nobbs, que está nos cinemas, estava tranquilo e conformado com uma vida de humilhação onde não podia ser ele(a) mesmo(a), até que despertou sua teimosa vontade de se libertar.

Optar entre ser como o leão que mata o leopardo para que seus filhotes não sejam atacados ou como a hiena, que sorri por não ser ela a vítima da vez. Machado de Assis expôs todo esse dilema em Prudêncio, um escravo que, logo após conseguir a alforria, tem como primeiro ato de liberdade a compra de um escravo para si. Tornar-se senhor de si mesmo não bastava, precisava ser senhor dos outros.

A resposta pra tantas indagações não são encontradas em livros. Nem pensadores, nem romancistas. Nossa geração acabou sendo, pra bem ou pra mal, a geração da bricolagem, onde misturamos Kafka com Fellini, Marx e Buñuel, batemos tudo no mesmo liquidificador e tentamos criar algo novo. Mas para além da bricolagem teórica, é a vez da bricolagem prática.

Os mesmos megafones não vão conseguir resolver. As mesmas seis mil pessoas desnorteadas ao ouvir o megafone também não serão suficientes. A bricolagem prática está mais próxima da ação direta, das Zonas Autônomas de Hakim Bey, da guerrilha urbana de Banksy, do teatro de rua paulistano, das prostitutas espanholas, da revista Miséria, das novas ocupações. Mais do que palavras de ordem, e busca de teorias, são as práticas de cada dia, em cada microcosmo, em cada escolha pela dignidade, que vão levar ao fim da crise de ideias. Parece uma teoria empresarial, mas quando nenhum procedimento está consolidado, só mesmo a tentativa e o erro para construí-lo. Neste caso, a incoerência é uma virtude. Não temos padrões de condutas pré estabelecidos, mas não façamos disso um limite, pelo contrário.

Ou, em mais uma bricolagem, agora com John Lennon, “a vida é aquilo que acontece enquanto você está planejando o futuro”.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Cartas - O país mais caro do Brasil

. . Por Mistura Indigesta, com 0 comentários

Arthur,

Que saudade, carinha. Uma pena que não nos encontramos no começo deste ano, mas, ao mesmo tempo, agora vejo que talvez tenha sido melhor assim, pois, quando você voltar, espero que tenhamos mais a conversar sorrindo que se lamentar, no meu caso. Calma, digo isso mais para fazer um belo e mesquinho drama do que de fato para apontar qualquer catástrofe. Minha mudança para o país mais caro do Brasil acabou atrapalhada, pra variar, cheia de emoção - risos. Dizem que a cidade de São Paulo não dorme, e acho perfeitamente possível viver de insônia - me perdoe o trocadilho infame -, mas custava ficar quietinha cinco minutos por dia?! Pode até não dormir, é só fazer silêncio um pouquinho que seja! Néca. Me mudei para a Rua da Consolação no começo de janeiro. Não importava a hora em que fosse me deitar, tampouco aquela em que me levantava, a sensação de ter uma construção, uma obra, uma reforma, uma verdadeira sinfonia de britadeiras, buzinas e quebra-quebra não me abandonava. Coisas de um jeca na capitar, eu sei, mas enfim, passou, não estou mais lá.

Tive que me mudar. Por sorte, ou não, um dos meninos que morava ali comigo, um dia me disse que, com a renovação do contrato do apê, precisávamos ir à imobiliária, há menos de uma quadra, e incluir nossos nomes, de um outro menino e o meu, no contrato. Cheirava mal a história, digo isso agora, é verdade. Ele havia me falado em dezembro do reajuste no aluguel que, até aí, é normal, acontece todo ano. Mas trocar os nomes numa renovação de contrato, diria vovó, cheirava a chifre queimado. Não me pergunte como é esse cheiro, não sei, mas que cheirou, cheirou depois.

A senhora que nos atendeu, não se levantou da cadeira para cumprimentar os três marmanjos que chegaram, mal acenou com a cabeça um "olá". Ela parecia estar há séculos atrás daquela mesa fumando e tomando cafés, deixando escapar gotas de saliva entre uma palavra e outra, cheia de olheiras. Por alguns instantes, pensei que nunca mais fosse conseguir colocar uma xícara de café na boca novamente. Atrás daquela mesa, ela parecia também controlar tudo que a mantinha viva, resignando-se ao computador, a uma linha telefônica e à cadeira móvel e giratória. Já o café e as bolachinhas da pequena mesa justaposta ao lado chegavam através de uma ordem qualquer, imagino. Se fosse exagerar mais, bancando o blasé de vez, diria que ela parecia ter saído de uma novela do Kafka, mas talvez seja mais parecida com um daqueles personagens de "O Guia do Mochileiro das Galáxias", o filme. Raivosa, mal educada, grosseira, estúpida, ela basicamente não nos ouviu, foi falando, dizendo que o Mercado – eu só conseguia imaginar um senhor distinto, garboso – mostrava como estavam as coisas, que poderíamos conferir com o Mercado como estavam os imóveis na região e na cidade, afinal, o novo contrato com um "reajuste" de 100% no valor do aluguel não era absurdo. Oi?!

Falei de Kafka, ou d'O Guia do Mochileiro das Galáxias, não. Faz muito tempo, li aquele "Memórias do Subsolo", do Dostoiévski – dizem, ele gostava de flamingos –, o narrador-personagem daquela história sim me parecia a mulher da imobiliária. Já nos primeiros parágrafos vemos isso: “Faz muito tempo que vivo assim – uns vinte anos. Agora estou com quarenta. Antes eu trabalhava no serviço público, mas agora não trabalho mais. Fui um funcionário cruel. Era grosseiro e encontrava prazer nisso. (…) Quando os solicitantes se aproximavam da minha mesa para pedir uma informação, eu rangia os dentes para eles e sentia um prazer infinito quando conseguia contrariar alguém. Quase sempre conseguia. (…)”. Se não conhece esse livro, Cão, não estrago mais nada, porque é uma leitura... marcante... vale a desestabilização em que nos deixa.

Depois daquela senhora se negar a nos passar o contato do proprietário, o que é normal, já que uma imobiliária faz a intermediação, né, conseguimos falar com o sujeito e ele ficou de falar com ela, vendo uma nova proposta. Nada aconteceu e, no fim, depois de uns dez dias, ele pediu o apartamento pelo telefone, conversando comigo. Paciência. A voz dele era muito agradável, me parecia um vovô tão gente boa, tão dahora, que desliguei o telefone sorrindo. Foi um amor, só gentileza. Sério, eu me queixava da má educação da mulher, dizendo que por isso entrávamos em contato com ele, e, com toda calma do mundo, ele, “por favor, Sr. Hugo, não se importe com isso, essas coisas são pequenas demais, a verdade é que eu quero o apartamento, quero reformá-lo e, quem sabe, me mudar pra essa região”. A verdade é que eu nem quero saber a verdade depois disso, porque ser tratado educadamente faz diferença...

Mas reparei, outro dia, que algo me ficou marcado daquele apartamento, além dessas coisas chatas. Gostava da visão que dele se podia ter. Na sala e na cozinha, as janelas miravam a Rua da Consolação em sua parte mais baixa. Era possível ver um canto da parte superior, talvez a torre, da Igreja que dá nome à rua, e também os edifícios Itália e um pedaço do Copan, entre tantas outras construções. A fragmentação, a distância e mesmo as cores, verdes perdidos, compunham uma paisagem muito bonita. Naquelas semanas que fiquei ali, choveu demais, quase todos os dias, e, de alguma forma, era divertido encostar na janela da sala tentando adivinhar o que se fazia no prédio vizinho, atrás dos vidros negros do Tribunal Regional do Trabalho, e então assistir à formação das nuvens, o escurecimento do céu e mesmo o desaparecimento dos edifícios numa tempestade. Da cozinha, ainda, ficava a imagem, um quadro, um mural bem grande na lateral de um colégio, em que um padre, de pé, mostrava a duas crianças indígenas a palavra dita sagrada. Durante os primeiros dias eu até quis pensar alguma traquinagem com aquele mural, falo de puro vandalismo mesmo, porém, junto à falta de criatividade, batia o medo de ser identificado e pego, a vergonha por não respeitar a crença que a imagem de alguma forma representa, e, claro, uma preguiça enorme.

Bom, no mais, por aqui acho que as coisas mais relevantes foram a ação conjunta dos governos municipal e estadual, via polícia militar, no centro da cidade, lá na “Cracolândia”. Um horror. Sem contar que dias depois veio o desfecho(?) do Pinheirinho, em São José dos Campos. Um horror enorme. Dia desses mais uma morte besta de uma ciclista aqui perto, na Paulista. Não há ciclovia nesta que é a avenida economicamente mais importante da cidade, acho que do país. Oi?! Foi assustador pra mim, cruzando aquele lugar quase todos os dias. Mas não sei o que é mais assustador, se nos colocarmos no lugar daquela moça, ou se assistir à indiferença e inércia que se segue depois disso, para a Cracolândia, para o Pinheirinho, para a maluquice da vida que se leva por aqui, ao redor... Nacionalmente, o assunto parece que é a Copa, se se vende bebida alcoólica ou não. Esquecemos Belo Monte, o novo código florestal...

[Poxa, quanto lamento...] Devo confessar, Cão, mesmo já tendo me mudado muitas vezes, dividido casas, repúblicas e apês com pessoas muito diferentes e em lugares também diversificados, nunca uma adaptação pra mim foi tão complicada. São Paulo é excessiva. É a única forma que encontro pra falar algo em poucas palavras.

E quem tem batido um bolão é o Romário, na Câmara. O teu Palmeiras, quem diria, era líder no Paulista, ensacou o meu querido Botinha em Ribeirão um tempo atrás - doeu, viu (risos) -, mas vacilou, perdeu pro Curínthia e ficou pra trás.

Ah, vi um filme mês passado que me lembrou de você por vários motivos, "Les Noms des Gens". E, por favor, se puder, arranje um fim de semana qualquer e corra até Granada durante a primavera, visitar Alhambra e passear por aquela cidade nessa estação deve ser incrível!

Abração,
Hugo
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O que é isso?! Pra quê?! Por quê?!
Cansados de twitter, facebook, MSN, skype e e-mails, achamos - o verbo é esse mesmo, incerto - que seria legal copiar a ideia do blog do Instituto Moreira Salles, na seção correspondência. Ideia retrô?! "Poser"?! Fitinha?! Que só quer aparecer?! Ah, é claro, do contrário nem blog faríamos. E como espaço de conversa informal, muitas vezes, de ideias soltas, vagas, nada melhor do que se aproveitar do formato carta, correspondência, para falar com amigos distantes. Pretexto. Assim, também, paramos, pensamos em nossas vidas, no que está acontecendo ao nosso redor, e tentamos nos comunicar sem a velocidade, a urgência do instantâneo que uma mensagem via celular, uma chamada no skype, uma publicação no mural de uma rede social, ou mesmo um e-mail apressado fazem, mas apenas conectamos nossas vidas ao tempo delas mesmas, longe dos salões aristocráticos, das conversas programadas de corredor. Ou não, esperemos para ver até onde isso vai.

terça-feira, 27 de março de 2012

Coluna do leitor - Considerações sobre Belo Monte

. . Por Mistura Indigesta, com 0 comentários

Por Márcio M. Ribeiro



"Estou na amazônia e todos meus amigos correm desesperadamente atrás de pequenos animais silvestres.

Muitos deles já tinham conseguido pegar algum filhote de onça ou de crocodilo e o levam de baixo do braço.

Eu quero ajudá-los mais minhas pernas não se mexem.

De repente eu sou a menina de Pinheirinho, aquela da foto,

mas ao mesmo tempo vejo o olhar fulminante dela/meu e é como se ela olhasse pra dentro de mim.

A água já está acima do umbigo. É o dilúvio do fim do mundo entregue dentro do prazo pela CCBM.

Meus amigos seguram os filhotes acima da cabeça procuram desesperadamente por uma arca que nunca vem."



Em janeiro viajei com amigos para Altamira para, além de curtir as férias, conhecer mais sobre a construção de Belo Monte. Ouvíramos falar muito sobre o assunto durante os meses acampados sob o viaduto do chá, mas sabíamos da importância de ir até lá para ver de perto. Fora o relato da viagem, não escrevi nenhum outro texto sobre o assunto desde então, por isso, faço-o agora.



O Crime


A usina de belo monte está sendo construída na região do município de Altamira e, se concluída, irá custar por volta de 25 bilhões de reais. A montante (acima) da barragem do rio irá alagar as propriedades de 16 mil pe... 24 mil pessoas. Pouco se sabe sobre o impacto na ictiofauna (nos peixes) local, mas certamente milhares de animais serão sacrificados e algumas espécies serão extintas. A jusante (para baixo) da barragem do rio irá secar privando centenas de indígenas e ribeirinhos de sua única forma de sustento.


Outros 4 projetos de barragem existem para o rio Xingu e especialistas afirmam que a construção de Belo Monte só será economicamente viável caso se considere a construção destas outras barragens. Isto significaria o alagamento de uma área ainda maior da amazônia que incluiria dezenas de terras indígenas e o extermínio de mais alguns milhares de animais e plantas.



Mas claro que cada habitante desalojado receberá uma indenização justa previamente acordada, vide o seu Sebastião. Os índios obviamente estão sendo consultados e a Norte Energia já providenciou a arca que irá salvar meia dúzia de animais antes do dilúvio.


Porém, mais importante do que isso. Todo este sacrifício é por um bem maior. Afinal, o fim justificam os meios, né?



O Discurso


De um lado temos um investimento público bilionário em um país carente de tudo, milhares de desapropriados, extermínio de espécies animais e vegetais. E do outro lado?


Bom, do outro lado temos o crescimento econômico. A energia barata de Belo Monte irá atrair investimentos. O país manterá seu lugar como principal produtor de alumínio e papel e a industria nacional irá se desenvolver forte e competitiva.


Mas o que EU tenho a ver com isso? Bom, mais energia, mais investimento, mais recursos, mais empregos. Para manter nossos empregos, atribuímos à Amazônia um papel de provedor de energia, assim como para manter seus empregos os japoneses atribuem ao Brasil o papel de provedor de alumínio. Está tudo conectado - nos dizem - tudo globalizado.


E me pergunto: porque nos esforçamos tanto para compreender a conexão econômica entre São Paulo, Altamira e Tókio e somos TÃO preguiçosos para compreender a conexão entre nós, nossas famílias, os ribeirinhos, os índios, os peixes e as árvores de Altamira? Aí - nos dizem - estamos sendo metafísicos. Vocês acreditam mesmo nesta baboseira de Gaia, Pacha mama, Baba Nam Kevalam?



A Resistência


Poderia escrever mais algumas dúzias de linhas pra convencê-lo(a) da materialidade de nossa conexão, mas não vou fazê-lo porque sei que você sabe do que eu estou falando. Sei que você também chora quando ouve a história da Maria do Espírito Santo e do José Claudio, que você sente a injustiça no olhar da menina do pinheirinho. Não tenho que te explicar porque você sente em você a dor do décimo terceiro tiro no mineirinho.


Queria só que você soubesse que não está sozinha, que eu sinto isso também e que, como eu, outros tantos também o sentem e gritam. Sei disso porque vejo um grafite, um lamb, um vídeo, uma música, uma pequena manifestação... e nessas horas tenho certeza, e sei que você também tem, de que essa conexão é tão real quanto a outra.




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Marcio Moretto Ribeiro (@marciomoretto) é doutor em ciências da computação pela USP, pós-doutorando em lógica pela Unicamp e indigesto por parentesco. Já escreveu aqui no Mistura Indigesta sobre a Ocupação do Viaduto do Chá e compartilha agora suas considerações sobre Belo Monte após retornar de Altamira.

domingo, 18 de março de 2012

O cinza de David Small

. . Por Unknown, com 3 comentários

"(...) cuando el enfermo se acostumbraba a su estado de vigilia,
empezaban a borrarse de su memoria los recuerdos de la infancia,
luego el nombre y la noción de las cosas,
y por último la identidad de las personas
y aun la conciencia del proprio ser,
hasta hundierse en una especie de idiotez sin passado."
(G.G. Márquez)

Nos últimos anos, muitas são as HQs (Histórias em Quadrinhos) autobiográficas. Uma rápida pesquisa pela internet traz nomes como “Fun Home”, de Alison Bechdel, “Mas ele diz que me ama”, de Rosalind Penfold, “Essa Bunch É um Amor”, de Aline Kominsky-Crumb, e “Persépolis”, de Marjane Satrapi. Essa última, inclusive, ficou bastante conhecida com a adaptação ao cinema. Mas inventariar essas publicações - curiosamente escritas por mulheres -, numa verdadeira obsessão "estatística" a procura de elementos recorrentes nesse cenário, não parece responder à razão do suposto crescimento de títulos desse gênero. Mesmo que um hipotético painel dessas publicações fornecesse uma visão das temáticas presentes nas histórias de cada desenhista, suas mais variadas origens pelo mundo, épocas e influências, traços e grafias igualmente diversificadas, haveria de haver aquela historia pra nos deixar desconcertados. Foi assim que passei dias, semanas com “Cicatrizes”, de David Small.


Não conhecia “Cicatrizes”, nunca tinha sequer ouvido falar do autor, mas a capa (à esquerda), o cinza, a opacidade, a fresta pela qual corre a luz do quarto depois da escada, tudo isso me assustou. Eu tampouco sabia que o livro era autobiográfico. Mas com ele em mãos, era apenas uma história que parecia envolver medo, suspense e, quem sabe, terror. A contra capa (à direita), no entanto, diz que o rosto de um jovem, de um homem, carrega o menino que outrora foi. Qualquer obviedade, porém, fica para trás com a leitura, que se torna apressada a cada página, tal é o envolvimento que provoca. Uma tarde, uma manhã ou uma noite, que seja, é o suficiente para não descansar enquanto não virar a última página do livro. É como se fôssemos engolidos pelo papel.

Engolido tal como o menino David nesta imagem (abaixo). A referência a Lewis Carroll e ao “Alice No País das Maravilhas” é explícita, já que Alice cai na toca de um coelho e vive uma aventura fantástica, imaginária, como que adentrando os meandros de seus sonhos. David Small, todavia, foge da mensagem de Carroll e mergulha no real, duro, pétreo. Os quadrinhos, os desenhos dele talvez fossem o recanto de seus sonhos, a forma de não ver tão de perto o mundo ao redor.


Porque o mundo de Small, então menino e adolescente, é mais de sombras que de lugares, é mais de esguelha, mais de fechaduras, mais de repreensões que de sorrisos. E isso se reflete em quase todos os personagens da trama, em seus familiares, especialmente. A câmera que os retrata tem a lente torta, quebrada, desajustada, esvazia-os, eles raramente têm olhos, muitas vezes, somente os óculos preenchidos de branco encontram o leitor. A vida de Small não é uma história de terror, é apenas real, demasiadamente.

A exceção é o analista com que o jovem David Small conversa. Novamente, a referência a Carroll é evidente, pois o analista aparece como um coelho, como aquele que guia ou inquieta Alice. É ele quem lhe diz o que é quase impossível para qualquer um, ainda mais para uma criança, aceitar: a mais absurda revelação, tão clara ao longo daqueles anos todos. Se nossas convenções não permitem imaginar, o traço de Small não, era apenas uma questão de tempo para nos assaltar, percebemos em seguida. Depois das palavras do coelho, o que Small descobre não tem nada demais, é absolutamente normal. O casamento insosso dos pais, a infelicidade de todos e a dificuldade por representar uma vida que eles não queriam. Após aquelas palavras do terapeuta, segue o silêncio de Small, o grito, o sufoco e, finalmente, o universo dele parece humanizado. Seus familiares, seu mundo, a Detroit em que viveu, todo o cinza, se não adquire cor depois disso, pelo menos o faz deixar o absurdo e encarar cruamente a tristeza.

Por fim, me lembrei de François Dosse, em “O desafio biográfico”. O filósofo francês, ao recuperar diversos pensadores desse gênero tão controverso, diz que textos (auto)biográficos quase que desidratam o passado para consumo, como se retirassem dele a intensidade do trágico, ao mesmo tempo em que o deixariam doce, singelo, agradável para o hoje. Assim, nessas escritas de si, o passado passaria a ser visto de maneira encantada. Para Dosse, ainda, poderíamos imaginar encontrar nesse gênero a conhecida reafirmação do Eu, dos escritores, do autores desses textos, ou da busca por modelos de vida para os leitores. Dosse, porém, talvez não dissesse isso se tivesse diante dele a história e os desenhos de David Small.

(para Fábio Accardo de Freitas, que faz anos hoje)

quarta-feira, 14 de março de 2012

Como fazer perguntas?

. . Por Fábio Accardo, com 3 comentários

Desde agosto do ano passado que não escrevo um post. Tenho me perguntado por que. O mesmo tempo em que tenho feito de muitas indagações sobre a vida, muitas perguntas, muitos por ques. Acho que estou fazendo as perguntas erradas. Algumas delas não me levam a nada. Outras ao imobilismo. Talvez por isso não tenha conseguido produzir nada.

Nesse tempo, li Diálogo e Conflito. O livro é um diálogo franco entre três educadores populares: Sérgio Guimarães, Moacir Gadotti e Paulo Freire. De leitura clara e dinâmica, o livro aborda o tema do diálogo. Conta um pouco da trajetória dos três “personagens” e se propõem a responder as perguntas de pessoas que passaram pelas diversas palestras, aulas e oficinas em que estiveram presentes Gadotti e Freire. Sérgio é o entrevistador, mas também está na conversa, ou melhor, no diálogo. Num momento do livro, Paulo se diz inferiorizado, frustado, pois Gadotti disse a ele uma vez que havia guardado todas as perguntas que fizeram para ele até hoje. Paulo disse que as deixava em cima da mesa. Se sentiu envergonhado e desrespeitoso. Resolveram então fazer a conversa, e o livro, para tentar trabalhar com essas perguntas guardadas por Gadotti. O livro parte dessas perguntas, mas não se colocam a respondê-las. Dizem que "no fundo, a própria maneira de fazer a pergunta já continha uma resposta." Como assim?

Essa afirmação ficou na minha cabeça e a todo momento tenho me dado conta disso. As perguntas que todos fazemos já trazem consigo a resposta prévia. Será? Creio que, principalmente nós, homens e mulheres da academia, da Universidade, não fomos educados para fazer perguntas. Aprendemos durante 4 anos (ou mais) a questionar, criticar, a desconstruir, se colocar, a constrager. Nunca aprendemos a verdadeiramente dialogar. O ponto não está na pergunta. Não é a mensagem mas quem a faz. As pessoas parecem que não sabem, e não querem, dialogar. Os questionamentos aparentam, em sua maioria, veleidades de poder. As criticas são o argumento da punição. Você está errado, ponto. Não se desconstrói para ir a outro lugar. É simplesmente desmoronar o cabra. A mensagem, aqui a pergunta, é ferramente de poder. Não faz dialogar, só mostra o caminho do qual se parte para te oprimir.

Isso porque penso que uma pergunta só é diálogo quando constrói. Quando leva tanto o emissor quanto ao receptor, por intermédio da mensagem (aula básica de comunicação – não passei disso!), a um diálogo que supera o momento anterior. Um pouco do que Paulo dizia, da denúncia e anúncio, da educação popular. Talvez em Marx, da tese, antítese e sintese. Não sei. Sei que a pergunta não deve ser estática, não deve imobilizar, não é para criticar, para desconstruir. Se pergunta para ir além, para saber, para superar as barreiras que emissor e receptor tem.

Talvez as perguntas nos levem a verdade. A verdade que cada um busca, que estamos buscando. As nossas verdades. Logicomix, outro livro que acabei de ler, conta um pouco da história de Bertrand Russel em busca da verdade. Russel foi um grande pensador que, por meio da matemática e filosofia, queria cegar aos limites da possibilidade da razão para, a partir da lógica, chegar a verdade. O livro é uma história em quadrinhos divertida. História e ficção se reúnem para nos contar o caminho tortuoso do nosso (anti-)herói em “busca da verdade”. Um pouco de história da matemática, dos seus fundamentos. Mas também um pouco da história das perguntas. E nos perguntamos, ele então conseguiu chegar na “verdade”? O que acham?

Sei que tudo isso tem me levado a concordar com meu amigo que escreveu um texto neste mesmo blog, a um tempo atrás: no fundo, as únicas perguntas realmente importantes são aquelas que podem ser formuladas por uma criança.

Vou alá! (do português voilá!)

Ps: agora me pergunto – quanto tempo mais vou levar para escrever um novo post? (nessa pergunta já estão incluídas as informações que fazia tempo que não escrevia, que há uma necessidade e uma cobrança em escrever um post, que vou necessariamente levar um tempo, etc, etc, blá-blá-blá....talvez essa não seja a pergunta certa. Essa me leva a um imobilismo. Alguém pode me ajudar?)

domingo, 11 de março de 2012

O Milagre

. . Por Thiago Aoki, com 3 comentários

Foi há algum tempo, me lembro bem. A estrutura de nossa casa era velha e, nos meus dezessete anos, foi uma das poucas vezes em que vi algum brilho no olho de meu pai.

- Vamos reformar a casa! Coisa rápida, dois ou três meses. Aumentar o quarto seu e de sua irmã, colocar um barzinho na sala e arrumar toda a cozinha. Se tudo der certo, teremos ainda uma garagem para nosso carro parar de dormir no sereno.

Não havia como não gostar daquele ímpeto, e logo nos mudamos, provisoriamente, para um apartamentinho, apertado, mas suficiente. Foram exatas três semanas passadas, quando vi meu pai colocar whisky em seu copo e, eu já sabia, não era bom sinal. Ele estava quieto quando minha mãe chegou e perguntou o que havia acontecido.

- Fui demitido.

A frase me fez sentir um frio na barriga, raro, já devia ter sentido algo semelhante em alguma bronca, mas não com aquela intensidade, sabia que meu pai falava sério. Teríamos que nos apressar para mudar para a minúscula casa de minha avó materna até que a reforma fosse acabada.

Queria ajudar de alguma maneira e, com a mesma facilidade que adulto inventa problema, jovem inventa solução. Decidi que moraria na república de um pessoal da faculdade com quem eu jogava bola vez ou outra, tudo que um jovem poderia almejar. Meu pai hesitou, mas depois de se culpar pelo fracasso financeiro da família, não quis podar meu sorriso e aceitou que eu passasse o mês por lá.

E foi lá mesmo que tive grandes momentos, o primeiro porre, a primeira noite de sexo, mas, por incrível que pareça, nada me ensinou tanto quanto um quiproquó que tive com a vizinha da nossa república, dona Zilda.

A velha devia ter uns setenta, e era conhecida por ter grande influência na pequena cidade, sendo irmã do delegado, prima do prefeito e viúva de Ernesto Rosário, um grande magnata local. Ela era linha dura, não tolerava barulho após as oito e já tinha pedido pro seu irmão mandar a polícia umas três vezes para nossa casa por perturbação da ordem. Pra piorar, a velha morava sozinha, ou melhor, com seu poodle, Fifó, um xodó e talvez a única razão de viver da ranzinza.

Nós, por outro lado, tínhamos um grande vira-lata preto, Brutus, que latia alto pra burro, principalmente quando o maldito poodle insistia em passar bem pertinho do nosso portão, como quem diz “estou passeando enquanto você está preso”.

Um dia voltei da casa de minha vó e todos meus amigos estavam em frente à república, chamando Brutus desesperadamente. Ele havia fugido durante a dedetização da casa. “Vamos torcer para ele não atacar alguma criança que estiver passando” comentei antes de sair correndo à sua procura.

Foram dois quarteirões pra cima, em um terreno baldio, que vi uma cena aterrorizante. Era Brutus, viril, jogando o Fifó da vizinha para cima e para baixo, mordendo-o com determinação como se fosse uma bolinha de pelos. O poodle branco já estava marrom de terra e vermelho de sangue quando apartei o vira-lata. Levei o cachorrinho junto com Brutus pra república, escondendo o cadáver embaixo de minha camiseta. De longe, meus amigos comemoravam aliviados a chegada de Brutus, quando perceberam que eu estava sério e queria falar com todos no quintal dos fundos.

Com os moradores reunidos, respirei fundo e tirei o pequeno cachorrinho debaixo de minha blusa, destruído. Por um minuto ninguém teve palavras, considerei um minuto de silêncio. Iniciou-se, então, um debate. Parte da república defendia que deveríamos enterrar o bicho e fingir que nada aconteceu. Outra parte, da qual me incluo, achava errado não contar para a velha que seu único companheiro havia morrido.

Estava empatado quando Pablo, o voto de minerva, decidiu em um desses momentos raros de inspiração na vida de um homem:

-Vamos lavá-lo e jogá-lo de volta na casa da velha. Parecerá uma morte natural.

O pior foi que todos toparam. Como eu já havia cumprido o dever de achar o cachorro, resolvi tirar um cochilo enquanto os rapazes começavam o trabalho de limpeza que incluía desde detergente pra limpar a terra até talco nas mordidas para recompor o poodle.

Acordei umas duas horas depois e, quando olhei no canto da sala, lá estava Fifó, limpinho. Confesso que se eu não tivesse visto a inesquecível cena de Brutus esfolando o pequeno, poderia jurar que ele havia morrido de febre ou qualquer coisa que não sangra.

Esperamos a velha sair para igreja - devia estar desesperada, rezando pro cãozinho aparecer - e lá o jogamos, por cima do muro. O coitado caiu estatelado, a farsa estava pronta.

Ficamos esperando a noite, ansiosos para ver a reação da velha, um pouco orgulhosos de nossa decisão em não omitir a morte de seu companheiro. Ela simplesmente enterrou seu companheiro, e nada mais. Engraçado foi que passaram um, dois, três dias e nenhum sinal da antipática senhora. Fazia uma semana e nada da velha se manifestar, sequer um resmungo ou um questionamento sobre a morte misteriosa. Muito estranho, havia algo de mal resolvido no ar e aquilo começou a nos incomodar, nos sentíamos um pouco culpados e o ambiente na casa estava sempre pesado.

No décimo dia após o assassinato, enquanto almoçávamos, decidíamos se falaríamos ou não com a velha. Foi quando a campainha tocou e lá estava ela. Tremíamos a perna e tentávamos esconder com um sorriso amarelo nosso nervosismo. Como eu estava de favor na casa, criei coragem e resolvi atendê-la.

- Oi dona Zilda, tudo bem?

- Tudo sim.

Ficamos imersos em um silêncio meio constrangedor.

- Quer almoçar? – sabia que a velha não aceitaria.

- Não, não.

Mais uma pausa longa que começou a me incomodar.

- Posso ajudar em alguma coisa?

-Bom.. Não sei muito por onde começar.. É que... Fifó morreu.

Engoli seco e todos os rapazes na cozinha não conseguiram evitar olhar em nossa direção para ouvir o rumo da conversa.

- Mo...Morreu, foi? Poxa, sinto muito, muito mesmo...

- Pois é, mas não é exatamente esse o problema.

- Não, é?

-Não.

-E o que é então?

-É que algo estranho aconteceu...

-Es..Estranho? O que foi?

- Olha, Fifó morreu há onze dias, e, com muita dor, o enterrei em um terreno baldio dois quarteirões pra cima. Já estava me conformando com a perda após muito rezar na igreja, zelando por sua alma. Mas eis que chego em casa e lá está ele, limpinho, em minha garagem, como se nada tivesse acontecido!

Alguns talheres caíram, um dos rapazes engasgou, o outro derrubou um copo e eu, sem reação na frente de dona Zilda, só consegui dizer:

- Que milagre!

- Foi mesmo... A única explicação... Um milagre!

A velha abriu um sorriso satisfeito e se foi, gastaria sua tarde contando para toda a vizinhança a dádiva recebida.

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PS: Baseado em fatos reais, mas, juro, não me lembro de quem

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