VÍDEO: MURILO CAMPANHA CONTA ITATINGA

O psicanalista Murilo Campanha fala sobre Itatinga, um dos maiores bairros de prostituição da América Latina, onde ele tem seu consultório.

O nadador

Uma crônica de Hugo Ciavatta.

Ainda que as bolachas falassem

Crônica de Fábio Accardo sobre infância e imaginação

Ousemos tocar estrelas

Uma reflexão de Thiago Aoki.

Entre o amarelo e o vermelho

Uma crônica de Hugo Ciavatta

O homem cordial vinhedense

A classe média vai ao barbeiro. Uma crônica de Caio Moretto.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

O Mal de Van Gogh

. . Por Unknown, com 3 comentários

"Todo destino, por longo e complicado que seja, compreende na realidade um único momento: aquele em que o homem descobre, de uma vez por todas, quem é" (Borges, em "Biografia de Tadeo Isidoro Cruz", El Aleph)

Nunca, sem desmedida, havia me sentido daquela forma. Quando criança, o mais próximo que passava por uma situação assim era quando meus pais me levavam para hospitais, médicos, exames, clínicas, e lá estavam outras tantas pessoas esquisitas. Mesmo assim, era mais do que comum, sem perder a curiosidade, ver as mesmas esquisitices alheias: desejos por formas e novas caras, bocas, curvas, ou a ausência delas. Gente nova, velha, criança, homem, mulher, não importava, era uma esquisitice normal pra mim. Hoje, vejo aquilo como um encontro inusitado de estatísticas na sala de espera, pelo menos ali, naqueles espaços e naquela época, certa cumplicidade era compartilhada silenciosamente, mesmo que entre nós não existisse a mesma condição, já que alguns haviam escolhido estar ali, outros nem tanto, talvez alguém mais próximo tivesse escolhido por eles. O sentimento confuso, no entanto, me acometia depois dessas salas de espera, quando ouvia as mesmas perguntas, "tá ouvindo? tá sentindo? e agora?", e os mesmos pedidos, "vire a cabeça; dobre o pescoço; tente movimentar do mesmo jeito, só que agora do outro lado". Enfim, cresci e pode até ser divertido fazer e ouvir isso tudo de novo.

Ah, devo lembrar, claro, aquela vez em que caminhando pela rua, já na faculdade, fui parar no hospital. A surpresa até hoje é um mistério, porque eu estava andando até o aniversário de um amigo quando um inseto - dragão, duende, jacaré, leão, dinossauro, nunca vou saber - mordeu, picou minha perna. Doeu muito na hora, pulei, me virei e não vi nada. A marca logo atrás e abaixo do joelho foi crescendo, crescendo, até que no final da tarde eu já não conseguisse colocar o pé no chão. No corredor do pronto (sic) atendimento, enquanto eu era transferido de sala de espera em sala de espera, e depois de passar pela vagarosa sala de recepção, na primeira passagem daquela moça, não vou me esquecer, depois confirmamos, já havíamos nos reconhecido. Restava aquela pequena dúvida boba, "mas será mesmo?...?", coisa que um simples cruzar de olhos resolveria em seguida. Na terceira vez em que ela passou, não resistiu, como trabalhava ali, parou pra me perguntar, "viu, e o que você está esperando aí?". Enquanto ela pronunciava cada uma das sílabas da frase, nossos olhos se espelhavam: ela era eu, eu era ela. Já havia presenciado cenas de ciúmes, mas a que causamos foi uma das mais constrangedoras pra mim até hoje. Ela parou pra perguntar o que eu esperava, emendou o que ambos já sabíamos e em poucos minutos éramos íntimos um do outro. Tínhamos pequenas diferenças em nossa absurda convergência, mas nada demais, e ríamos justamente disso quando outro rapaz, que pra mim só poderia ser o namorado dela - e mesmo que fosse o marido, seria pior, que cara chato -, chegou amarrando a testa. Estávamos em um hospital, oras, é bom lembrar, eles trabalhavam ali, eram aprendizes de doutores, mas a insistência dele em colocar-lhe a mão, em lhe apertar, repetir gestos de abraços, carinhos, tentativas de beijos foi tão grande que ele conseguiu, sai de perto logo: muitos gravemente enfermos no corredor não precisavam saber que "ela era dele", mesmo porque, que sujeito infeliz, ela jamais iria ser. Depois de atendido por um especialista em casos que desafiam a medicina, ganhei uma receita para ir a farmácia, fui dispensado e, por fim, ela e eu nos encontramos na saída, mas apenas nos despedimos entre um sorriso e um aceno.

Só que naquele dia, já fazia muito tempo desde essa última vez, havia acordado com um barulho estranho nos ouvidos, não sabia se vinha de fora, do trânsito nas ruas, afinal já era claro o dia e mais do que rotineiro haver muito barulho seis andares abaixo, ou mesmo se era um susto qualquer vindo de um sono intranquilo, outra das coisas comuns que me acontecem. Não, não podia ser taquicardia, era cedo demais pra que já o corpo estivesse reagindo ao excesso de um vício besta como o de café, que ainda sequer tinha imaginado fazer. Tampouco poderia ser a repetição da voz daquela moça pronunciando meu nome ao preencher um formulário atrás do balcão. Era uma moça no caixa, por favor, eu jamais voltaria a vê-la, que tolice romântica, era a mais absurda obsessão tomando conta de mim, não poderia ser, claro. Alguns segundos e a confusão de pensamentos deu lugar a certeza de que, sim, era um despropósito começarem uma reforma no piso superior às sete da manhã. Tanto melhor, minutos depois eu já pensava, pois precisava mesmo trabalhar, e muito. O computador me esperava e com ele veio um dia nada produtivo, que na escala das coisas a serem feitas conseguiu atingir uma marca negativa. O tempo, obviamente, não retrocederia, e um prazo para entrega de um trabalho já tinha ficado para trás.

Caminhar pelas avenidas ao redor, no bairro, sair de casa pelo menos me ajudaria, imaginava, a fazer com que a passagem de pessoas, de automóveis, de cores, o vento, enfim, que o movimento lá fora me desanuviasse. Não me imagino um coitado, se percebo que me tratam assim fico irritado, se percebo que me tratam com certo apreço que não sei nomear, como se eu fosse "diferente" mas não inferior, também me contrario, não quero ser nada além do que sou, ponto. Infelizmente, às vezes reparo, e percebi, há uns bons metros de distância, que aquele homem lá na frente, no meio de um monte de gente, não tinha a mão esquerda. O esmalte da mulher à minha esquerda também não combinava com o vestido. Não fiquei olhando, não vejo nada demais em olhar, não me incomodo quando acontece comigo, se fosse me incomodar, também, convenhamos, estaria enrascado, só não sei o que as outras pessoas, cujos esmaltes não combinam, podem pensar. Ainda bem. Mantive o passo, não mudei de direção, quando estávamos próximos senti que o rapaz sem a mão também percebera. Confirmei rapidamente, como quem confere se vem carros do outro lado da rua pelo canto dos olhos, ele me olhava.

É engraçado, às vezes, nos reconhecemos muito longe um do outro e encontros desse jeito acontecem a toda hora. Logo percebo um desvio de rima labial mais acentuado, nas maças do rosto ou nas sobrancelhas. Em algumas situações, é desconcertante não saber se se é analisado, observado, ou apenas olhado (des)pretensiosamente. Contudo, não soube nomear - por que precisava? pois assim faço o que se faz por aí afora, pela comparação descabida me autoelogio -, então achei que era a casualidade mais banal possível, o encontro de duas estatísticas novamente, como no corredor do hospital naquela outra vez, ou nas salas de recepção da infância. Nesta, na esquina seguinte a do rapaz sem uma das mãos e da mulher de esmalte errado, o susto daquele homem virando a esquina e tendo apenas a mim diante de si, e eu a ele diante de mim, mesmo em meio a centenas de pessoas ao longo da avenida, revelava o Mal de Van Gogh nos nossos olhos. Este é um mal que ainda carece de investigações na literatura médica de botequim para ser melhor representado, mas que por enquanto tem apenas no nome uma identificação que diz o suficiente para aqueles que por ele são acometidos. E somos muitos, é verdade, mas nenhum dos meus encontros com um deles havia sido tão chocante até então. Naquele mesmo instante, o Thiago coçava a cabeça na frente do computador, o Fernando dava de ombros e balançava a cabeça em afirmação à pergunta da estagiária, o Fábio desenhava e apagava e desenhava de novo no meio da reunião, e o Caio, ah, ele tinha a quinta ideia brilhante do dia. Seguramente, também, naquele momento nascia uma nova Amélie. Nunca o tinha visto, nem quero mais voltar a perceber a presença daquele homem. Foram os segundos mais terrificantes de nossas vidas. Ele era eu, eu era ele. Ele tinha óculos desajustados, roupa social velha, amarrotada e - me perdoe, Adriano - era careca. Não era gordo nem magro, era barrigudinho. Carregava um livro nas mãos, tinha a mesma estatura que eu e, também, levava o rosto embexigado. Ele viu, mais ou menos vinte anos e pouco mais de um metro nos separavam. Era sua orelha direita, era a minha esquerda, nos complementávamos. O semáforo para pedestres iria se fechar, não podíamos parar, mas não importa para que lado eu vá, o que quer que eu faça a partir daquele momento, ou daqui por diante, pois eu serei ele, um dia, ele também foi como eu.

domingo, 15 de janeiro de 2012

A cidade dos (quase) invisíveis

. . Por Unknown, com 2 comentários

“O mundo era tão recente que

muitas coisas careciam de nome

e para mencioná-las se precisava

apontar com o dedo”

(Gabriel García Márquez)



Segundo dados do Programa de Assentamentos Humanos das Nações Unidas, publicado em 2003, o século XXI ruma para a generalização das favelas no mundo urbano. The Challenge of Slums [O desafio das favelas] diz ainda que a pobreza urbana se tornaria “o problema mais importante e politicamente explosivo do século”.

Na cidade de São Paulo, em 1973, 1,2% da população do município vivia em favelas. Já em 1993, esse número havia subido para 19,8%, e na mesma década o crescimento dessa população era estimado em 16,4% ao ano.


A história de Los Angeles mostra a ligação entre arquitetura, urbanismo e a conformação do Estado no país, nos anos de Ronald Reagan e George Bush. O exemplo do investimento estatal em segurança e o consequente esvaziamento e destruição dos espaços públicos aparece no termo “pessoa de rua”: “Para reduzir o contato com os intocáveis, a reincorporação urbana converteu ruas de pedestres, antes vitais, em canais de tráfego e transformou parques públicos em receptáculos temporários para os sem-teto e miseráveis” (escreveu Mike Davis). A cidade também promoveu a “contenção” – termo oficial – dos sem-teto num submundo ao longo da rua 50 a leste da Broadway, transformando sistematicamente o bairro numa favela a céu aberto. A região tornou-se possivelmente uma das mais perigosas do mundo, habitada por “maníacos de canivete” e “perseguidores noturnos”: emergia o consumo de crack, nos anos 80, elevando a taxa de homicídio na cidade.

O exemplo da cidade de Los Angeles é ainda mais emblemático. O aumento vertiginoso das favelas periféricas na cidade de São Paulo se deu no início da década de 80, portanto, na mesma época. Antes disso, no centro da cidade paulista, de antigos casarões de famílias ricas originaram-se cortiços onde pessoas mais pobres viviam em quartos alugados. Entretanto, já no final dos anos 80, a capital paulista assistia ao surgimento, tal como na Califórnia, da “era do crack”. Isso só não aconteceu como na cidade estadunidense: não foram nas periferias pobres que os usuários de crack se instalaram, ou foram confinados. Foi o mesmo centro da cidade brasileira quem viu a formação da região que até os dias de hoje é conhecida como “Cracolândia”, onde circulam pessoas de muitas regiões, de muitas classes sociais. Mas 77% dos frequentadores da cracolândia moram nas ruas e 20% estão nesta situação há mais de dez anos e, talvez, a maior parte desta população seja composta por usuários de droga, como a cola e o crack.

Em entrevista para uma revista de São Francisco, na década de 80, Harry Edwards afirmava a transformação pela qual L.A. passou, social e politicamente. Edwards, que fora organizador de protestos do Poder Negro durante os jogos olímpicos de 1968, que também havia sido ministro da propaganda do Partido dos Pantera Negras, era então professor de Sociologia da Universidade da Califórnia, quando, enfim, duvidava de outra atitude que não fosse a remoção daquela juventude, de meninos e meninas das ruas da cidade. À pergunta sobre como “recuperar” um menino que vende crack nas ruas, ele diz não existir possibilidade. Evidentemente, Edwards não era um terapeuta, ou mesmo um assistente social, para responder a questão, no entanto, não deixa de ser significativa a afirmação que questiona a própria condição de humanidade de usuários de crack, também “pessoas de rua” muitas vezes, ainda que nem sempre. De qualquer maneira, como “recuperar”, ou "reinserir" socialmente essas pessoas?

Meninos e meninas também em situação de rua em São Paulo, muitas vezes, circulam em locais diversificados, por instituições prisionais e de assistência social, entre idas e vindas de sua residência de origem e para a rua novamente. Adquirir, manipular, articular recursos de sobrevivência, como praticar pequenos furtos, é uma forma de se comunicar e se posicionar frente à cidade e aos personagens desta, como a Polícia Militar, órgãos governamentais, fundações de assistência e demais cidadãos (como escreveu Maria Filomena Gregori). Assim tem vivido homens, mulheres, jovens e crianças que, às vezes, também são usuários de crack. Ao circular constante e diariamente, ainda, eles não estabelecem relações permanentes, tampouco se fixam em algum sítio durante muito tempo. Falamos de uma forma de estabelecer relação com as pessoas muito diferente da qual nós estamos habituados.

Desde o início deste mês, contudo, os governos municipal e estadual, em ação conjunta mal planejada - conforme o Ministério Público Paulista -, e executada precipitadamente pela Polícia Militar, colocam em prática a "Ação Integrada Centro Legal", especificamente na "Cracolândia". Pelas declarações públicas, o primeiro intuito da Ação é "dispersar" usuários e combater o tráfico. Depois desta primeira fase da operação concluída, entrariam agentes de saúde, assistentes sociais e agentes comunitários para procurar os usuários da região e levá-los a um centro de tratamento, bem como a outras unidades de saúde já existentes, onde seriam internados. Por fim, nesta última etapa, começaria a recuperação destes usuários.

(Foto: Nilton Fukuda, Agência Estado)


Difícil acreditar nesta ação governamental, justamente porque se a lógica que marca a relação daquelas pessoas no centro, na Cracolândia, é da circulação contínua, algo que os faz "dispersar" parece apenas reforçar a condição em que eles se encontram. Assistentes sociais, terapeutas, profissionais de saúde pública tem repetido que o trabalho de recuperação daqueles sujeitos, nas ruas, dependentes químicos, leva anos. E muitos trabalham naquela região há mais de dez anos, acompanham as trajetórias de muitos ali, sabem o nome, se tem família e quais os motivos que os levaram para aquela situação. Esses profissionais tem relações pessoais, tentam criar algum tipo de vínculo afetivo com aquelas pessoas. Agora, a Polícia Militar chegou com a primeira etapa da Ação para "dispersar" todos. Utilizando balas de borracha, bombas de efeito moral, o trabalho de anos pode ter se perdido.

A “Cracolândia” é uma favela que não está na periferia. Sem barracos, muitos ali se abrigam em edifícios abandonados, ou ficam pelas calçadas. E aqueles que ali se encontram não são tratados como cidadãos. Todos pareciam não existir, ou somente ganharam existência na medida em que não devem estar ali. Homens e mulheres que trabalham fazendo "bicos", que estão desempregados, grávidas, senhoras a procura de filhos e netos perdidos, crianças sem famílias, ex-presidiários, pequenos traficantes, vítimas de violência familiar, dependentes químicos, enfim, são muitos problemas sociais condensados num único espaço. Aquelas pessoas estão expostas, diariamente, há mais de vinte anos, e não vimos, não quisemos, preferimos não ver.

Ao lado disso, temos ignorado outro problema crescente. Todas as vezes em que se tentou discutir publicamente os inúmeros imóveis abandonados e vazios do centro da cidade de São Paulo, a mesma dificuldade que se enfrenta ao pronunciar a expressão "Reforma Agrária" assola ouvidos. Os movimentos sociais por moradia continuam sendo tratados como invasores e delinquentes. Assim como sua irmã do campo, a "Reforma Urbana" passa longe do imaginário da política brasileira.

Pobreza e dependência química tem andado junto no centro de São Paulo, e não é possível ignorar que aquela região da "Cracolândia" está inserida num processo de "revitalização" urbana cujo sentido aponta, em especial, para a retirada das pessoas miseráveis da região. Dispersar, retirar, expulsar, os verbos não mudam a situação, enquanto aquelas pessoas não tiverem possibilidade de deixar a realidade que enfrentam, voltarão, continuarão incomodando, circulando, e elas são milhares.


Ver
Mike Davis. Cidade de Quartzo. São Paulo: Editora Página, 1993.
_________. Planeta Favela. São Paulo: Boitempo, 2006.

Maria Filomena Gregori. Viração: experiências de meninos nas ruas. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Coluna do Leitor - Adeus

. . Por Mistura Indigesta, com 0 comentários

A nossa relação não fugia do padrão visto por aí. Passamos e superamos juntos inúmeras fases: algumas eu te dando mais liberdade do que em outras. Se por um tempo eu te controlava e manipulava diariamente e por outro eu te dei liberdade ampla e irrestrita, atualmente havíamos encontrado o meio termo razoável em que você podia expressar sua essência sem afetar a minha. O importante era que sua presença me dava confiança e mesmo com os reveses nunca deixamos sucumbir a nossa parceria incondicional.

O tempo foi passando e você, aos poucos, me deixando. No começo eu negava e achava que era só uma fase, afinal não havia motivos para um fim assim tão repentino. Porém as suas ausências aumentavam: bastava ver as fotografias, cada vez menos aparecíamos juntos. Toda manhã, na minha cama ou no banho, apenas rastros do que você foi outrora.

Era uma questão de lógica. Mais do que isso, era uma norma: as pessoas mais experientes sempre me indicaram que nossa relação não seria eterna. Mesmo assim, contrariado dessa fatalidade, nutria em mim a esperança de que com a gente duraria mais. No fundo eu tinha a certeza de que conosco seria diferente assim como aqueles velhinhos que conseguem manter a relação firme até o último suspiro.

Infelizmente a escolha não era minha e a sua decisão de me abandonar era um fato consolidado. A minha vida não era mais igual, até atividades mais ordinárias não tinham a mesma graça sem você. Tive que mudar meu vestuário. Passei a sair menos e até mesmo me esconder por sua culpa. Sentia vergonha, confesso.

Ainda não sei se era covardia sua ou preocupação com a minha reação, mas ao invés de sair por completo da minha vida você foi progressivamente se ausentado na espera que eu tomasse a iniciativa. Hoje, finalmente determinado, rompi por definitivo as nossas amarras e mesmo que nostálgico posso dizer: adeus cabelo, foi bom enquanto durou, pelo menos agora sei que a calvície me acompanhará para sempre.

Adriano Godoy é mestrando em Antropologia pelo IFCH/UNICAMP, parceiro de boteco no Beco Livre, escrevendo também em Livres Escritas. Mas Adriano não tem dificuldade, como muitos de nós, de admitir: está careca!

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Tipicamente argentina

. . Por Caio Moretto, com 1 commentário

Depois do abacate tipicamente chileno, eu achei que já estava acostumado com esse troca-troca gastronômico de nacionalidades. Afinal já acumulava vastos conhecimentos na área: sei que o pão francês, assim como o copo americano, é bem nosso, e que aquele sushi empanado que chamamos de hot roll não tem nada de japonês. Mesmo assim, a Argentina conseguiu me impressionar.

Logo no primeiro dia em Buenos Aires descobri, com muito entusiasmo, que uma das comidas mais típicas da cidade é a Milanesa. Não sei se você já teve esse estalo, mas a expressão à milanesa significa que algo é feito da maneira como se faz em Milão, na Itália. Da mesma forma, o queijo parmesão e a expressão à parmegiana deveriam referir-se à cidade de Parma. Sei que em São Paulo chamamos a pizza com parmesão de Napolitana. Mas tudo bem. Afinal, nada impede o ingrediente de ser de uma região e a tradição de outra.

Então a milanesa é tipicamente argentina. Até aí, sem crise. Sei que houve uma forte imigração italiana na Argentina, tudo ainda poderia ser explicado. E, meio turistas meio antropólogos, ficamos sempre nos divertindo no limite entre o exótico e o mal-explicado. Fomos, então, jantar em uma magnífica rede chamada El Club de la Milanesa.

Mas, che, o futebol não é mais inglês. E já no nome os porteños deixavam claro que lutariam pela receita italiana. Numa faixa abaixo do logo, sem muitos dribles, estamparam que o novo nome do prato agora é Argentinadas. Faltou fair play? Faz parte do jogo, pensei.

milanesa-napolitana2No cardápio, porém, o item mais pedido desafiava qualquer lingüista ou geógrafo. Estava lá, debaixo de meus olhos, num controverso gol de mão, o prato mais pedido: a argetiníssima milanesa napolitana, um tenro bife à milanesa com molho vermelho e queijo. Uma delícia. Igualzinho ao parmegiana brasileiro, só que argentino milanês e napolitano.

Era tão boa que saí arrasado. Quis voltar cinco vezes, para não sair por baixo e passar uma mensagem. Mas éramos turistas. Respeitamos a casa e voltamos só três.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Coluna do Leitor - Dona Maria José

. . Por Mistura Indigesta, com 1 commentário

Alguns amigos acompanharam o périplo que fiz para chegar a Aracaju a fim de comemorar as festividades de final de ano com minha família. Havia perdido meu voo, e após passar a madrugada no aeroporto de Guarulhos, consegui finalmente embarcar em um voo rumo a Salvador, onde me dirigi a rodoviária local para comprar uma passagem de ônibus que chegaria à capital sergipana. Só sairia no início da tarde. Então fui ao shopping Iguatemi, que ficava nas proximidades, almocei, descansei, e me dirigi por volta das 12:45 à rodoviária, para esperar o ônibus, que sairia às 14. Aproveitei todo esse tempo para finalmente concluir uma tarefa que há alguns anos procurava fazê-lo: concluir a leitura integral da bíblia sagrada.

Era isto que eu fazia quando uma senhora, por volta dos seus sessenta anos, se aproximou de onde eu estava sentado. Porém, logo em seguida, precisou voltar ao guichê da empresa de ônibus onde havia comprado sua passagem. Não queria carregar suas coisas até lá, e então solicitou que eu observasse suas coisas e guardasse sua cadeira no setor de espera, para que finalmente resolvesse seus problemas. O que, tranquilamente, não objetei.

Passaram-se cerca de 30 minutos até ela retornar. Tempo bastante demorado, por sinal. E eu, naturalmente, estava preocupado: "Ela vai retornar?"; "e se der meu horário, o que que eu faço?". Preocupações desfeitas com seu regresso...

Após se sentar, a senhora aguardou um tempo, observou-me, e resolveu perguntar-me a respeito do capítulo de Apocalipse, que eu estava lendo. Começamos, desta forma, uma conversa agradável, conde falávamos sobre nossa fé, o que entendíamos a respeito das traduções da bíblia, qual era melhor, qual era pior, sobre como agir na vida, sobre agradecimento, etc.

Neste tempo, aquela senhora, cujo nome eu ainda não sabia, resolveu me fazer uma confissão.

Ela contou pra mim que estava muito preocupada pelo problema com a passagem. E como precisava acertar aquilo, mas não sabia o que fazer com suas coisas, acabou confiando a mim, um garoto qualquer com o qual ela nunca tinha conversado, seus pertences. Disse que confiou no fato de eu estar com uma bíblia no colo, lendo-a. Confiou em uma ética e retidão de caráter que ela associou ao fato de eu estar com minha bíblia em mãos. Acho que não preciso dizer que, mesmo em uma circunstância como essa, tal procedimento não costuma ser o adotado por qualquer pessoa. Pra ser sincero, eu mesmo não agiria assim...

Quando ela resolveu o problema, ela se dirigiu equivocadamente ao setor de desembarque da rodoviária de Salvador, que é bastante parecido com o setor de embarque, onde eu me encontrava. Daí sua demora. Ficou procurando aquele garoto com a bíblia na mão, pensando onde, afinal, ele estaria. "Escafedeu-se? Sumiu com minhas coisas?", ela pensou. Depois de um tempo me procurando, finalmente descobriu que estava no lugar errado, e aliviou-se ao me encontrar sentado na mesma cadeira de espera de antes.

Depois deste relato, ela olhou pra mim e disse que falava aquilo em tom de confissão, pedindo perdão a mim e a Deus por ter pensado qualquer coisa que desconfiasse da minha moral, daquele garoto que podia colocar a perder sua imagem de um rapaz de fé por ter feito qualquer coisa contra ela. Que estava feliz por ter me encontrado, e desculpando-se por ter, em determinado momento, desconfiado de minha retidão.

Aquelas palavras me deixaram profundamente emocionado, e era extremamente difícil para mim encontrar um chão. Ela nunca havia me visto. Ela não havia feito nada contra mim. Não havia me criticado. Ela poderia simplesmente deixar a história passar, e seguir feliz pra sua casa, com suas coisas. Mas não. Ela confessou um "pecado" para mim e para Deus!

Eu poderia terminar o meu ano orgulhoso das conquistas e dos aprendizados que tive, de cada batalha à qual a vida me conduziu. Mas todos os motivos, todos os ensinamentos e vitórias pelos quais posso agradecer neste ano dificilmente superam este aprendizado que apareceu de surpresa e cicatrizou o meu cotidiano. Antes de qualquer possível vanglória, Deus dava um tapa na cara do meu orgulho, me conduzindo a reflexões de horas, dias, a respeito daquele momento. Me fazendo pensar onde estavam meus planos, minha postura frente às pessoas e aos acontecimentos. Para onde eu estava destinando o meu caráter e os meus esforços.

Descobri que seu nome era Maria José. E agradeci: "foi um prazer conversar com a senhora, dona Maria José".

Se há algum desejo que eu deva fazer para o ano novo que vem por aí, o faço para ela, bem como para todos vocês, familiares, amigos, leitores: a possibilidade de refletir frequentemente sobre o destino que se deseja assumir para sua própria vida, e no que isto vai implicar. O quanto de vitória, de perdão, de gratidão, de luta, de união, estarão presentes na sua rotina. E olha que o mundo anda realmente carente destas coisas...

Feliz ano novo.

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Sydnei Melo é sociólogo, autor do blog "A vida de Sydnei", onde foi publicada essa reflexão de ano novo. Cristão crítico, sempre se posicionou sem medo sobre todos os assuntos. Participou anteriormente da "Coluna do Leitor" com o texto "Um laicismo equivocado".

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Coluna do Leitor - O cocô do astronauta i otros causo

. . Por Mistura Indigesta, com 8 comentários

Um filósofo certa vez disse – e se não disse, deveria ter dito – que, no fundo, as únicas perguntas realmente importantes são aquelas que podem ser formuladas por uma criança. Esta pequena crônica é sobre a simplicidade das crianças e sua infinita capacidade de nos surpreender com ela. Prometo me esforçar – mas não muito, afinal, devemos evitar a fadiga! (*ver notas no fim do texto) – para desviar do assunto principal somente o necessário – o que quer que faça do necessário, necessariamente, o necessário.


Neste semestre, em que minha filha mais velha se encantou com os dinossauros; com o Justin Bieber [nem tudo sai como o planejado, nesta vida de meudeus!]; e com os astronautas, calhou de eu ser apresentado na condição de aluno à excepcional figura do Professor Laymert (**) em seu pouco óbvio curso sobre
amor-ódio-tecnologia-dominação-capitalismo-política-economia-guerra-greve-crise-universidade-ciências-sociais-e-tudo-o-que-mais-aparecer-pela-frente [afinal, como diria o centro-avante: pipocar, jamais!]. Não pude resistir a contar pra ela que às quartas pela manhã o papai ia pra escola pra estudar sobre os astronautas. Tento – sempre que minha torta moral cristã assim mo permite – mentir pra minha filha dizendo que é possível estudar coisas legais e de um jeito legal na escola, esperando que ela sofra as desilusões dela por ela mesma, ou, tanto melhor, que encontre professores doidos e criativos o suficiente para subverter a chatice institucionalizada em forma de (manicômio?) escola (***).
Estava menos ou mais preparado para explicar pra ela sobre a corrida armamentista e a Guerra Fria; os porquês e os comos da exploração espacial; sobre as conseqüências psicossociais do confinamento dos astronautas na estação espacial; sobre a metáfora consubstanciada na figura do herói no imaginário social do século XX; ou sobre os limites e as possibilidades de subversão do uso da tecnologia espacial no contexto pós-contemporâneo universal; e sobre mais um monte de perguntas com as quais eu me acostumei a fazer/responder [mais responder que fazer] aqui nesta dita Academia [a escola do papai]. Grande coisa. Eu não estava preparado para responder à única pergunta que ela queria que eu – pai, oráculo, especialista – respondesse:

– Papai, como os astronautas fazem xixi e cocô?


Tenho que confessar (****): a pergunta, de tão simples, não tinha nem passado pela minha cabeça. E olha que não foi por falta de aviso. Dentre as infindáveis possibilidades reflexivas que partem dos pouco ortodoxos vídeos escolhidos pelo Professor Laymert para nos provocar, esta certamente estava ali, tão óbvia que sequer pudemos conversar sobre ela. Estavam ali os astronautas – ou cosmonautas, dependendo de quem os mandou pra lá – brincando com as gotinhas de Coca-Cola; com aquelas pseudo-comidas pastosas; com os cabelos recém-cortados a pairar no ar indiferentes às leis e às forças da gravidade (*****). O que chamou a nossa atenção foram as complexas questões da filosofia aliada às condições de gravação e edição de imagens em contextos de dificuldades exageradas.
•
É claro que eu falei pra ela que eu não sabia como os astronautas faziam xixi e cocô, mas que ia pesquisar e depois contava (******). É mais claro ainda que eu – postergador profissional que o sou – adiei isso um monte – um pouco pra criar nela a expectativa e um muito porque esquecia e/ou tinha preguiça. O que tudo isso me fez pensar e alterou profundamente o modo como voltei para os vídeos do Faroqui exibidos pelo Professor Laymert é que, no espaço, como aqui na Terra, os grandes problemas não são os que exigem as mais complexas tecnologias e os maiores investimentos, mas os problemas mais simples, mais cotidianos, os problemas que as crianças são perfeitamente capazes de formular: O que comer? O que beber? O que vestir? Como amarrar o tênis? Como fazer xixi e cocô? Tem algo babando embaixo da cama?
•
Depois, eu fiz a pesquisa e até contei pra ela. Não me surpreendi que ela achou a resposta meio brochante e não entendeu direito o que era gravidade, e – muito menos – porque os astronautas têm que fazer xixi e cocô numa mangueirinha que puxa o xixi e o cocô pra dentro de uma cápsula [ela adorou essa palavra] que eles guardam para trazer de volta pro planeta Terra quando voltam. Ficou revoltada quando eu disse que, às vezes, se a volta demorar demais, eles têm que jogar essa cápsula no espaço [– Que porcalhice!] e que ela é atraída pela órbita da Terra e explode que nem estrela cadente.


– Estrela cadente de cocô (*******)??

•
Essa história de cocô de astronauta me fez lembrar daquele causo – pra mim, o melhor causo de astronauta de todos os tempos – de que ao constatar a impossibilidade das canetas usuais escreverem na ausência de forças de gravidade, os estadunidenses gastaram milhões de dólares para desenvolver uma que escrevesse no espaço, debaixo d’água, no meio de um furacão ou de uma erupção vulcânica. Já os russos, conta o causo, usaram lápis.
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A mim, pouco me importa se o causo é verdadeiro ou não. Estou nessa [e em muitas outras] com Adoniran Barbosa, que se inventou uma pá de veiz: – Se o meu inventado for melhor que sua história, eu fico com o meu inventado e você que fique com a sua história.
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Mas confesso que, ingenuamente, como se ainda fosse uma criança – quem me dera! –, fiquei pensando... Bem que eu gostaria que toda a merda feita pelos homens e pelas mulheres pudesse ser mandada pro espaço. E melhor ainda se virasse estrela cadente.
•
Qual foi o seu pedido, meu amor? (********)
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Notas
* Neste texto, astericos são notas de rodapé, portanto, são fundamentais à leitura, volte sempre aqui.
** Por favor, senhor editor, não cometa o despropósito de inserir aqui um linque para (a capivara virtual?) o lattes do Professor Laymert. Se for necessário para atender às linhas editoriais da sua (Feitoria?) Editoria, escolha algum “lugar” menos deselegante.
*** Jornal do CAECO (Centro Acadêmico de Economia), IE (Instituto de Economia), UNICAMP.
**** Com efeito, não tenho. A folha está em branco e eu poderia digitar o que quisesse, mas adoro essa técnica literária de demonstrar fraqueza ante @ leitor@. De algum modo el@ gosta de ver a fragilidade do escritor e a sua submissão @(o) leitor@, que pensa que é muito mais importante que o escritor. Aliás, é mesmo. [Viu como funciona?] Se você ainda se lembrar do que trata o texto, tiro pra você o meu chapéu e o convido a voltar à leitura no ponto por mim interrompido para essa gostosa [para mim] e completamente desnecessária digressão ao final da qual fica demontrado que, por mais importante que o leitor seja, qualquer escritorzinho de meia tigela é capaz de manipulá-lo, forçando-o a segui-lo ou a abandonar o texto imediatamente. O que, definitivamente, quero que você não faça e, portanto, volto ao texto e você volta junto comigo.
***** Curioso como longe da gravidade [nota para a ironia!] a primeira reação de todo mundo parece ser o sorriso. Ou é isso o que nos fazem acreditar os editores de imagens de astronautas, não sei dizer.
****** Recurso mais ou menos (picareta?) verdadeiro que todo professor de crianças precisa aprender a utilizar muito rapidamente para sobreviver numa sala de aula em que a um clique se pode saber o nome do pai de Tutankamón ou com quantos paus se faz uma canoa. Apesar de que ainda hoje me pergunto sem saber a resposta se, neste sentido, o professor não se tornou, de fato, um artigo mais obsoleto que o giz sobre o quadro negro.
[ps: quando criança, nunca entendi porque chamavam lousa verde de quadro negro e até hoje ainda não sei, mas parei de me perguntar. Me venceram. E eu nem sequer sei quem eles são. Mas sei – se é que serve de consolo – que “eles”, nessa oração, são um sujeito muito indeterminado.]
******* Aliás, minha filha mais nova achou essa coisa de estrela cadente de cocô de astronauta muito engraçada e até hoje me pede para contar essa história pra elas e quase morre de rir, mesmo depois de eu ter contado cerca de 1039 vezes exatamente a mesma história, como, aliás, elas exigem. Jamais tente mudar uma história contada pra uma criança. Ela quer ouvir exatamente do mesmo jeito que você contou da outra vez, o que faz com que seja praticamente impossível inventar de cabeça – por que depois não dá pra lembrar di-rei-ti-nho – e constitui a principal razão de ser de livrinhos de historinha e da permanência em nosso imaginário de histórias ancestrais como a chapeuzinho vermelho e a branca de neve e os sete anões – que nem são tão boas assim, vai...
******** Se o leitor habituado a frequentar esse blogue pensar que o final foi feito pelo Hugo Tia Vatta, saiba que não foi. Mas fica a ele por mim dedicado. Na minha opinião, orna com o seu modo todo meigo de escrevinhar quando não fica com chatices antropologéticas.

Thiago Fernandes Franco é recém ingressante no doutorado em História Econômica, no IE/ UNICAMP, mas hoje é só o "papai Peixe".

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Selo Pinochet de Direitos Humanos 2011

. . Por Caio Moretto, com 5 comentários

selo_pinochet3 Trabalhei algum tempo como redator publicitário. Durante a crise de consciência que começou a me afastar deste ofício, um amigo, na tentativa de me convencer a continuar na área, acabou me dando o empurrão final que eu precisava para sair. Na época estávamos fazendo a propaganda de um selo ambiental para uma companhia de papel, que carinhosamente apelidei de Selo Pinochet de Direitos Humanos. Tentando aliviar minha consciência ele me disse: “Armas não matam pessoas, pessoas matam pessoas.”
procusto Existe uma figura da mitologia grega que se repete em algumas outras mitologias. Não sei a explicação. Trata-se do sádico Procrusto. Gentil, ele recebia os estrangeiros em sua casa. Se o hóspede fosse menor do que a cama oferecida, ele o esticava até ocupar todo o espaço. Caso fosse maior do que o leito, toda parte do corpo que ficasse para fora era amputada. Reza a lenda (e a wikipedia) que alguns habitantes de Sodoma e Gomorra utilizavam esse método de tortura com forasteiros. Novamente, não sei o que é verdade. A parte mais cruel, porém, é que Procusto tinha duas camas, de tamanhos diferentes.
Nós não somos muito diferentes. Quando convém, subordinamos o problema moral e individual ao coletivo ou ao próximo e nos acomodamos no fatalismo de suas determinações: “sou assim porque não tive educação”, “meus pais não me deixavam fazer nada/ não impuseram limites”, “é o sistema” ou ainda outra que costuma passar desapercebida “se eu não fizer este trabalho outro fará em meu lugar”. Porém, quando não convém, ignoramos toda forma de determinação e culpamos os erros individuais: “o problema não é a forma de governo, é o governante corrupto”, “não é a polícia, é o policial que abusa do poder” ou “só pessoas matam pessoas”. E assim vamos fazendo nossa sociologia desregrada, alternando culpados para não mudar nada e continuar com nossa consciência tranquila ou  para arranjar bodes expiatórios, executá-los secretamente num porão, no deserto ou no oceano e seguirmos com nossas vidas.
Não há, porém, nenhum determinismo no mundo que anule uma intenção. Marketing é maquiagem: você pode usar para esconder os defeitos ou para realçar as qualidades. Mas neutro não pode ser. Marketing toma partido por princípio. Tem sempre uma intenção. Essa é a própria ideia do marketing. As empresas que mais poluem são as que mais investem em programas (e em publicidade) de responsabilidade ambiental. Isso para não falar em responsabilidade social e escravidão moderna.
Por isso fiquei em alerta quando vi a seguinte notícia: Estigmatizada, PM paulista quer investir em Direitos Humanos. Nos dias seguintes vi uma imagem, duas notícias e um pm_spray_criancarelato chocante sobre a polícias paulista, carioca e americanas. A imagem é esta ao lado. As medidas já foram tomadas e o capitão da PM Bruno Schorcht, que disparou o spray na criança foi promovido! Nos EUA circula um vídeo semelhante, do policial John Pike esvaziando seu spray de pimenta em manifestantes sentados e pacíficos no campus da UC Davis, na Califórnia. O relato é o espancamento do antropólogo Danilo Paiva Ramos por um PM na Avenida Paulista. E as notícias foram, primeiro, a doação de US$ 4,6 milhões feitas pelo banco JP Morgan Chase à polícia de Nova York, a maior já feita à fundação em sua história. A nota foi publicada no site do banco sem grandes preocupações. Nos dias seguinte mais de 700 manifestantes do movimento Occupy Wall Street foram presos nas cercanias do banco. Por fim, li com desgosto a nomeação do tenente-coronel Salvador Modesto Madia, co-executor do massacre do Carandirú, ao comando da Rota.
Portanto, é com muita insatisfação que entrego este Selo Pinochet de Direitos Humanos à Policia Militar, seus representantes Bruno Schorcht, Salvador Modesto Madia e John Pike, aos bancos e instituições que desinteressadamente investem na militarização da polícia e do exército e à todos nós que continuamos acreditando que o preço da liberdade é a eterna e militarizada vigilância.
A minha alma tá armada e apontada para cara do sossego
Paz sem voz, não é paz, é medo
As vezes eu falo com a vida, as vezes é ela quem diz:
"Qual a paz que eu não quero conservar, prá tentar ser feliz?"

domingo, 4 de dezembro de 2011

Dia do Doutor

. . Por Unknown, com 2 comentários

(" 'É gozado', refleti, 'ver o que nós pensávamos há cinco anos'.
'Concordamos (...) que o objetivo da vida
é formar boas pessoas e produzir bons livros'. (...) 'Um bom homem
deve ser ao menos honesto, apaixonado
e desinteresseiro'." V. Woolf)


Passei boa parte da infância e da adolescência indo a um estádio de futebol. Não ia à escolinha, não treinava, mas acompanhava meu tio e meus primos ao Santa Cruz, estádio do Botafogo Futebol Clube, de Ribeirão Preto. Ali nasceu a minha paixão pelo futebol, e não que eu não torcesse nem acompanhasse antes, o São Paulo era o meu clube até então, mas ir ao estádio rotineiramente me encantou. Eram jogos da segunda, até da terceira, e, felizmente, inclusive da primeira divisão dos campeonatos estadual e nacional. Emoção, raiva, tristeza, decepção, alegria, felicidade, quantos sentimentos a gente experimenta em tão poucos minutos.
Um campeonato foi muito especial pra mim, e pra muitos botafoguenses, claro, o paulista de 2001. Nele o Botinha foi vice campeão, perdendo a final para o Corinthians. A semifinal com a Ponte Preta, contudo, foi um dos momentos mais bonitos, uma vitória apertada em casa, num dois a um cheio de gols perdidos, defesas, o estádio completamente lotado, a enorme bandeira da torcida do Bota. E naquele dia, eu que nunca havia ido com a camisa do clube ao campo, quis ir, era especial. Antes de entrar no estádio, porém, ao cruzar com torcedores adversários, entendi que futebol não era só esporte, diversão, aprendizado, envolvimento humano. Futebol é uma loucura, não tenho a menor dúvida, hoje. Tive que retirar a camisa, meu tio e eu fomos chutados e empurrados até a porta do estádio por torcedores da outra equipe enquanto policiais assistiam a tudo... Nenhuma novidade pra ninguém. Continuei indo ao estádio muitos anos depois disso, mesmo assim.
Mas muitas coisas, especialmente fora do campo, na política do futebol que muitas vezes não diz respeito somente ao esporte, foram me levando até mesmo a vontade de assistir a uma partida. Neste campeonato brasileiro que se encerrou hoje, por exemplo, mal vi os jogos, tal a repulsa pelas notícias que envolvem a Copa do Mundo de 2014 no Brasil, Ricardo Teixeira, a construção dos novos estádios, o uso do dinheiro público. A péssima declaração do ídolo Ronaldo na semana passada é só mais um exemplo. E o Corinthians nunca foi a equipe de que mais gostei, pelo contrário, como é de se imaginar. A mesma antipatia que tenho pelo Juvenal Juvêncio só se reflete na sua imagem mais jovem, pra mim, dentro do parque São Jorge, com Andres Sanches. O futebol brasileiro parece ser resolvido, administrativamente, como se fosse o sofá da cozinha aqui de casa... não consigo aceitar...
Na manhã de hoje, porém, tomei um enorme susto, porque a primeira notícia veiculada na data de meu aniversário era a morte do Doutor Sócrates. Chorei. Tenho um amigo, meio japonês, meio boliviano, meio barrigudinho, que vive dizendo que eu torno os acontecimentos ao meu redor, especialmente os infortúnios, uma espécie de mania de perseguição, ou de teoria da conspiração, como se o mundo estivesse contra mim: o coitadinho. Ele também é meio (sic) exagerado. Tenho é sorte por ter os amigos que tenho. Em poucos minutos, não conseguia deixar a lembrança das palavras de um senhor pequenino que sempre estava ao nosso lado no estádio anos atrás. No meio de um jogo, ele contava, diante da perda de um jogador nosso que saia machucado, a esperança que tinha sempre que isso acontecia, que o absurdo de uma tarde nos anos 70 se repetisse. Ainda no poliesportivo do clube, num jogo importante, valendo a classificação da equipe, logo no primeiro tempo o craque de então se machucou, fazendo com que muitos no campo se desesperassem, só poderia ser um sinal do fim trágico... Mais desesperançados ainda ficaram quando um sujeito completamente esguio, aparentando uma fragilidade gritante, e de cerca de 1,90 de altura fora chamado para substituir o jogador que saía contundido. O primeiro passe de calcanhar daquele que entrara fez com que seu nome não mais saísse da memória de todos: era Sócrates.
Impossível recontar a história que se seguiu. A vida no Botafogo, no Corinthians, a Democracia Corinthiana, a Seleção de 82, a medicina, a clareza e o posicionamento polí­tico. Só posso, só podemos, todos, afirmar, destacar a dignidade de um sujeito, de um ser humano. Pra quem o viu senão muitas, pelo menos algumas vezes, era sem dúvida um cara muito legal, simplesmente, admirável, muito acima de qualquer idolatria banal.
Me perguntei a manhã toda se não fora o destino (se é que ele existe) quem retirou de Sócrates a oportunidade de ver o quinto tí­tulo brasileiro do Corinthians. Será que Sócrates queria ver este título? Será que vivia também alheio a emoção do esporte que tanto encheu de arte ao jogar, que tanto preencheu de reflexão e crítica ao trazer o que nunca esteve longe dos gramados, a vida social e política do país? Será que de tanto o futebol se tornar... se tornar... se tornar isso, uma mercadoria, uma ilusão para muitos adolescentes e uma desgraça para tantos profissionais, permeados pela escrotice de dirigentes e administradores, até mesmo o Doutor Sócrates, um apaixonado pelo futebol, ironicamente, teria preferido não ver o tí­tulo por tudo isso? Não... não... triste casualidade, só podem ser delírios pretensiosos de minha parte, colocando-o na mesma condição que a minha, um aniversariante neurótico. Redundância dizer que se Sócrates não se calou diante de tudo isso que é o futebol recentemente, ele também não escondia de ninguém a alegria de sentir a felicidade de tanta gente, de tantos torcedores pelo paí­s... Porque pra além da arte, da política, há a vida. Ele estaria muito feliz.
E eu, que continuo um secador do Corinthians, depois de não conseguir entender tamanho acaso hoje, por causa do Doutor, me vi no meio da tarde morrendo de vontade de correr até a janela e comemorar o meu aniversário gritando: VAI CURÍNTHIA!!

(blog do Juca Kfouri)

sábado, 26 de novembro de 2011

Na esquina de uma cidade

. . Por Thiago Aoki, com 2 comentários

Na esquina de uma cidade, o encontro entre ruas distintas. Beirando a quina, pessoas trocam olhares, informações, decifram-se sem palavra alguma. Por que aquela velhinha não atravessa na faixa de pedestre? Meu Deus, onde está a mãe daquele garoto? Pra onde vai aquele japonês? Será que ela estava olhando pra mim?

Na esquina de uma cidade, as mesas pra fora do bar indicam fim do expediente do cliente, início do expediente do garçom. O primeiro gole do chope, experiência única do dia, libertação, finalmente se vive! É hora de discutir futebol, olhar as pernas das moças, falar mal do chefe, fazer amizade com o garçom na utopia de uma saideira gratuita. É hora de sentir o por-do-sol, que não queima ardido, mas é suficiente para não deixar a alma congelar.

Na esquina de uma cidade, são tantas buzinas, tanta pressa pro fim, que o melhor a fazer é incorporá-las à paisagem. Buzina de sinal abriu, buzina de vai logo, buzina de seu lerdo, buzina de oi - esta cada vez mais rara. Têm aqueles que quando dirigem, ligam o som bem alto, acho que para ausentar seus ouvidos da buzina alheia, ou, quem sabe, para reagir ao trânsito parado da única maneira possível: movimentando o corpo a dançar de dentro do carro.

Na esquina de uma cidade, a praça fica em frente ao bar e nela, em pé sobre bancos, missionários disputam atenção, cada qual com seu Deus, que dizem ser de todos. Há também aqueles deitam nos bancos e cujo único Deus é a cachaça, esses já não sabem o dia, a hora e o local. Têm dificuldade em articular sujeito-verbo-predicado e, deitados, sentem o sol acariciar a futura ressaca.

Na esquina de uma cidade, guardas observam a tudo e todos: japonês perdido, velha imprudente, garoto sem mãe, o gole de cada chope, motoristas dançantes, missionários, bêbados, buzinas. Difícil saber o que pensam, mas é fácil reparar que todos que passam olham para as suas cinturas, admirando as suas armas, ainda que sob temor.

Na esquina de uma cidade há um prédio, e dentro desse prédio, vivo sozinho num andar mais ou menos alto. Daqui, gosto de observar toda a gente a viver no por do sol, agentes de minha paisagem. E é nesse horário, todas às sextas feiras, que vejo uma loira, atrás de uma árvore da praça beijando - um longo beijo - a boca de um jovem rapaz. Tímida, olhando pros lados, vez em quando olha pro meu prédio, pro meu andar, até criar coragem para se despedir do moço.

Na esquina de uma cidade, choro um pranto resignado, mas é tarde, sempre foi tarde. Ela não sabe que tenho binóculos, nem que os coloco por entre a persiana na sexta-feira, nem como me machuca carícias tão ternas ao por do sol. Mas já é hora de abrir as persianas, guardar lágrimas e binóculos. A qualquer momento a porta há de se abrir e ela - loira, sorridente e dissimulada - entrará em nossa casa perguntando como foi meu dia, beijando-me os lábios.

Na esquina de uma cidade, minha vida é aguardar o dia em que, tomado por uma coragem que inexiste em mim, responderei com sinceridade absoluta à essa pergunta.

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Misturas Relacionadas:

Esquinas, Caixas e Luzes

terça-feira, 22 de novembro de 2011

[Tradução] Nos Divertindo Até A Morte

. . Por Fernando Mekaru, com 3 comentários

Discussões sobre o impacto midiático, sobre o comportamento e o pensamento humanos e da chamada media ecology (tradução grosseira: ambiente midiático) ocorrem com certa frequência atualmente: em geral, tratam-se de discussões e ensaios que buscam expor, de uma maneira ou outra, como os grandes instrumentos de veiculação de informações (em especial a internet) podem colocar tanto um brilhante futuro de democratização cada vez mais massiva e efetiva dos meios de informação das pessoas, ou então como a decadência dos antigos instrumentos de veiculação (em especial a mídia impressa) conjuntamente aos problemas ignorados dos novos veículos, que acabarão por gerar uma sociedade em que a quantidade de informações é mais importante que sua qualidade, o que resulta em uma sociedade onde todos tem conhecimento, mas muito pouco dele.

Independente da visão que esses debates procuram colocar, a impressão que fica é que esse tipo de discussão só surgiu após o advento da internet, que evidenciou em escala exponencial as potencialidades positivas e negativas de um veículo midiático relativamente barato e de fácil acesso: com tamanho impacto sobre a sociedade, fica difícil não surgir um sem-número de análises que procuram dizer se o impacto da internet sobre o mundo dá a ela o papel de messias ou de precursor do fim-do-mundo.

Este debate, porém, é mais antigo do que se pressupõe: o título de "veículo midiático que mudou o mundo e a maneira de se relacionar com as informações que possuímos" não é exclusividade da internet. Mais: as questões que ele coloca continuam praticamente as mesmas, apesar da passagem do tempo.

Abaixo, segue a tradução livre de um dos textos pioneiros sobre essa discussão: ele é da autoria de Neil Postman, um dos discípúlos de Marshall McLuhan - pai da máxima "o meio é a mensagem" e importante guru dos estudos de mídia e comunicação social. O texto foi escrito como um prefácio do livro Amusing Ourselves to Death (Nos divertindo até a morte), que se dedica a descrever duas possibilidades disópicas em relação ao impacto que a televisão poderia ter sobre a sociedade com base nos olhares de Aldous Huxley e George Orwell, mas o texto envelheceu muito bem e pode ser considerado como um olhar interessante sobre a sociedade atual.

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Estávamos prestando atenção em 1984. Quando ele chegou e a profecia não se concretizou, americanos pensativos se deram o direito de elogiar a si mesmos calorosamente: as raízes da democracia liberal se mantiveram firmes e, enquanto terrores aconteciam em outros lugares, os EUA ao menos não haviam sido visitados por pesadelos orwellianos.

Nos esquecemos, porém, que além da visão sombria de Orwell, havia outro ponto de vista - ligeiramente mais antigo, ligeiramente mais obscuro, mas igualmente assustador: aquela colocada por Aldous Huxley em Admirável Mundo Novo.

Ao contrário do que o senso comum dita até mesmo entre os mais intelectualizados, Huxley e Orwell não descreveram a mesma coisa: Orwell alerta que seremos subjugados pela opressão imposta de maneira externa, mas na visão de Huxley o Grande Irmão não é necessário para privar as pessoas de sua autonomia, maturidade e história. Na visão de Huxley, as pessoas acabarão por amar seus opressores e adorar as tecnologias que desfazem as suas capacidades de pensar.

Orwell temia aqueles que desejavam banir livros; Huxley temia que não haveria razão para banir livros, já que não haveria ninguém desejoso de lê-los.

Orwell temia aqueles que desejavam privar as pessoas da informação, enquanto Huxley temia aqueles que nos dariam tanta informação que seráimos reduzidos à passividade e ao egoísmo por conta disso.

Orwell temia que a verdade fosse escondida de nós; Huxley temia que a verdade fosse sufocada em um mar de irrelevâncias.

Orwell temia uma cultura que é refém constante de uma única pessoa, enquanto Huxley temia uma cultura trivial, obcecada com entretenimento, hedonismo e lazer.

Como Huxley comentou na edição revisada de Admirável Mundo Novo, os movimentos pela liberdade e intelectuais que estão sempre alertas para se opor à tirania não levaram em conta o apetite quase infinito dos homens por distrações.

Em 1984, Huxley comentou, as pessoas são controladas pela administração da dor; em Admirável Mundo Novo, elas são controladas pela administração de prazer.

Em resumo, Orwell temia que aquilo que odiamos seja a causa de nossa ruína; Huxley temia que aquilo que amamos seja a causa de nossa ruína.

Este livro é sobre a possibilidade de que Huxley, e não Orwell, tenha acertado.

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