"Todo destino, por longo e complicado que seja, compreende na realidade um único momento: aquele em que o homem descobre, de uma vez por todas, quem é" (Borges, em "Biografia de Tadeo Isidoro Cruz", El Aleph)
Nunca, sem desmedida, havia me sentido daquela forma. Quando criança, o mais próximo que passava por uma situação assim era quando meus pais me levavam para hospitais, médicos, exames, clínicas, e lá estavam outras tantas pessoas esquisitas. Mesmo assim, era mais do que comum, sem perder a curiosidade, ver as mesmas esquisitices alheias: desejos por formas e novas caras, bocas, curvas, ou a ausência delas. Gente nova, velha, criança, homem, mulher, não importava, era uma esquisitice normal pra mim. Hoje, vejo aquilo como um encontro inusitado de estatísticas na sala de espera, pelo menos ali, naqueles espaços e naquela época, certa cumplicidade era compartilhada silenciosamente, mesmo que entre nós não existisse a mesma condição, já que alguns haviam escolhido estar ali, outros nem tanto, talvez alguém mais próximo tivesse escolhido por eles. O sentimento confuso, no entanto, me acometia depois dessas salas de espera, quando ouvia as mesmas perguntas, "tá ouvindo? tá sentindo? e agora?", e os mesmos pedidos, "vire a cabeça; dobre o pescoço; tente movimentar do mesmo jeito, só que agora do outro lado". Enfim, cresci e pode até ser divertido fazer e ouvir isso tudo de novo.
Ah, devo lembrar, claro, aquela vez em que caminhando pela rua, já na faculdade, fui parar no hospital. A surpresa até hoje é um mistério, porque eu estava andando até o aniversário de um amigo quando um inseto - dragão, duende, jacaré, leão, dinossauro, nunca vou saber - mordeu, picou minha perna. Doeu muito na hora, pulei, me virei e não vi nada. A marca logo atrás e abaixo do joelho foi crescendo, crescendo, até que no final da tarde eu já não conseguisse colocar o pé no chão. No corredor do pronto (sic) atendimento, enquanto eu era transferido de sala de espera em sala de espera, e depois de passar pela vagarosa sala de recepção, na primeira passagem daquela moça, não vou me esquecer, depois confirmamos, já havíamos nos reconhecido. Restava aquela pequena dúvida boba, "mas será mesmo?...?", coisa que um simples cruzar de olhos resolveria em seguida. Na terceira vez em que ela passou, não resistiu, como trabalhava ali, parou pra me perguntar, "viu, e o que você está esperando aí?". Enquanto ela pronunciava cada uma das sílabas da frase, nossos olhos se espelhavam: ela era eu, eu era ela. Já havia presenciado cenas de ciúmes, mas a que causamos foi uma das mais constrangedoras pra mim até hoje. Ela parou pra perguntar o que eu esperava, emendou o que ambos já sabíamos e em poucos minutos éramos íntimos um do outro. Tínhamos pequenas diferenças em nossa absurda convergência, mas nada demais, e ríamos justamente disso quando outro rapaz, que pra mim só poderia ser o namorado dela - e mesmo que fosse o marido, seria pior, que cara chato -, chegou amarrando a testa. Estávamos em um hospital, oras, é bom lembrar, eles trabalhavam ali, eram aprendizes de doutores, mas a insistência dele em colocar-lhe a mão, em lhe apertar, repetir gestos de abraços, carinhos, tentativas de beijos foi tão grande que ele conseguiu, sai de perto logo: muitos gravemente enfermos no corredor não precisavam saber que "ela era dele", mesmo porque, que sujeito infeliz, ela jamais iria ser. Depois de atendido por um especialista em casos que desafiam a medicina, ganhei uma receita para ir a farmácia, fui dispensado e, por fim, ela e eu nos encontramos na saída, mas apenas nos despedimos entre um sorriso e um aceno.
Só que naquele dia, já fazia muito tempo desde essa última vez, havia acordado com um barulho estranho nos ouvidos, não sabia se vinha de fora, do trânsito nas ruas, afinal já era claro o dia e mais do que rotineiro haver muito barulho seis andares abaixo, ou mesmo se era um susto qualquer vindo de um sono intranquilo, outra das coisas comuns que me acontecem. Não, não podia ser taquicardia, era cedo demais pra que já o corpo estivesse reagindo ao excesso de um vício besta como o de café, que ainda sequer tinha imaginado fazer. Tampouco poderia ser a repetição da voz daquela moça pronunciando meu nome ao preencher um formulário atrás do balcão. Era uma moça no caixa, por favor, eu jamais voltaria a vê-la, que tolice romântica, era a mais absurda obsessão tomando conta de mim, não poderia ser, claro. Alguns segundos e a confusão de pensamentos deu lugar a certeza de que, sim, era um despropósito começarem uma reforma no piso superior às sete da manhã. Tanto melhor, minutos depois eu já pensava, pois precisava mesmo trabalhar, e muito. O computador me esperava e com ele veio um dia nada produtivo, que na escala das coisas a serem feitas conseguiu atingir uma marca negativa. O tempo, obviamente, não retrocederia, e um prazo para entrega de um trabalho já tinha ficado para trás.
Caminhar pelas avenidas ao redor, no bairro, sair de casa pelo menos me ajudaria, imaginava, a fazer com que a passagem de pessoas, de automóveis, de cores, o vento, enfim, que o movimento lá fora me desanuviasse. Não me imagino um coitado, se percebo que me tratam assim fico irritado, se percebo que me tratam com certo apreço que não sei nomear, como se eu fosse "diferente" mas não inferior, também me contrario, não quero ser nada além do que sou, ponto. Infelizmente, às vezes reparo, e percebi, há uns bons metros de distância, que aquele homem lá na frente, no meio de um monte de gente, não tinha a mão esquerda. O esmalte da mulher à minha esquerda também não combinava com o vestido. Não fiquei olhando, não vejo nada demais em olhar, não me incomodo quando acontece comigo, se fosse me incomodar, também, convenhamos, estaria enrascado, só não sei o que as outras pessoas, cujos esmaltes não combinam, podem pensar. Ainda bem. Mantive o passo, não mudei de direção, quando estávamos próximos senti que o rapaz sem a mão também percebera. Confirmei rapidamente, como quem confere se vem carros do outro lado da rua pelo canto dos olhos, ele me olhava.
É engraçado, às vezes, nos reconhecemos muito longe um do outro e encontros desse jeito acontecem a toda hora. Logo percebo um desvio de rima labial mais acentuado, nas maças do rosto ou nas sobrancelhas. Em algumas situações, é desconcertante não saber se se é analisado, observado, ou apenas olhado (des)pretensiosamente. Contudo, não soube nomear - por que precisava? pois assim faço o que se faz por aí afora, pela comparação descabida me autoelogio -, então achei que era a casualidade mais banal possível, o encontro de duas estatísticas novamente, como no corredor do hospital naquela outra vez, ou nas salas de recepção da infância. Nesta, na esquina seguinte a do rapaz sem uma das mãos e da mulher de esmalte errado, o susto daquele homem virando a esquina e tendo apenas a mim diante de si, e eu a ele diante de mim, mesmo em meio a centenas de pessoas ao longo da avenida, revelava o Mal de Van Gogh nos nossos olhos. Este é um mal que ainda carece de investigações na literatura médica de botequim para ser melhor representado, mas que por enquanto tem apenas no nome uma identificação que diz o suficiente para aqueles que por ele são acometidos. E somos muitos, é verdade, mas nenhum dos meus encontros com um deles havia sido tão chocante até então. Naquele mesmo instante, o Thiago coçava a cabeça na frente do computador, o Fernando dava de ombros e balançava a cabeça em afirmação à pergunta da estagiária, o Fábio desenhava e apagava e desenhava de novo no meio da reunião, e o Caio, ah, ele tinha a quinta ideia brilhante do dia. Seguramente, também, naquele momento nascia uma nova Amélie. Nunca o tinha visto, nem quero mais voltar a perceber a presença daquele homem. Foram os segundos mais terrificantes de nossas vidas. Ele era eu, eu era ele. Ele tinha óculos desajustados, roupa social velha, amarrotada e - me perdoe, Adriano - era careca. Não era gordo nem magro, era barrigudinho. Carregava um livro nas mãos, tinha a mesma estatura que eu e, também, levava o rosto embexigado. Ele viu, mais ou menos vinte anos e pouco mais de um metro nos separavam. Era sua orelha direita, era a minha esquerda, nos complementávamos. O semáforo para pedestres iria se fechar, não podíamos parar, mas não importa para que lado eu vá, o que quer que eu faça a partir daquele momento, ou daqui por diante, pois eu serei ele, um dia, ele também foi como eu.

