domingo, 31 de outubro de 2010

Coluna da Leitora - Metalíngua

. . Por Mistura Indigesta, com 4 comentários

Escritor: não somente uma certa maneira especial de ver as coisas, senão também uma impossibilidade de as ver de qualquer outra maneira.
- Carlos Drummond de Andrade

Todo escritor é intolerante e todo leitor é curioso, mas apesar de estas serem características um tanto quanto distintas, ambos são regidos pelo mesmo motivo. A expressão escrita não permite que o outro incomode suas vírgulas, lacunas e pontos finais, é a expressão dos impacientes, daqueles que não querem ter que discutir muito. Você joga suas idéias, alguém lê e se não concordar, que procure outro texto. Se não lhe entendeu, que interprete, que se vire, que vá as favas. Há certa dose de prepotência na escrita, que reside na possibilidade de sempre dizer que o outro lado que foi incapaz de sentir e por isso o texto não lhe serviu. Escritores nunca se admitem medíocres, é uma raça insuportável apoiada nessa premissa de culpar o outro. Drummond sabia bem disso: não somente uma certa maneira especial de ver as coisas, senão também uma impossibilidade de as ver de qualquer outra maneira.

O leitor é parecido, já que não quer lhe olhar nos olhos e perder suas horas entre conversas e vinhos, ele só quer saber o que você pensa, não quer tentar lhe mudar ou lhe convencer. Muito pelo contrário, o leitor quer que alguém fale por ele e vai buscar, de palavra em palavra, algo que possa roubar para sua realidade. Diga-se de passagem, foi isso que fiz ao roubar a frase de Drummond, deixei que ele se expressasse por mim, por julgar que possui mais clareza e elegância.

Existe um sem fim de poesias de Drummond das quais me valho ao tentar entender porque escrevo tanto. Sou compulsiva, posso passar horas e horas ouvindo o barulho do grafite arranhar no papel. Ele me ridicularizaria, já que minha expressão é intencional, meus textos tem uma finalidade estabelecida. Ele estava certíssimo ao dizer que a arte de verdade é aquela que deixa escapar, sem querer, uma ponta de beleza. Eu não, não transbordo essa beleza ao acaso, cada palavra aqui é forçada e sua posição no texto é escolhida depois de uma análise lógica digna de jogadores de xadrez. Não consigo me culpar por isso, sou engenheira e a beleza que enxergo nessa dança de ritmos e cadências vem exclusivamente do ato de vê-las como argumentos estratégicos. O papel não julga seu tom de voz, não percebe seus vícios através da pupila, ele apenas aceita. Qualquer coisa, nunca vai dizer que aquela mão que o rabisca pertence a um péssimo fingidor.

Fernanda Maria Ribeiro Fernandes, é contra indicada. Mentira. O título aham, Cláudia, senta lá é um outro bom exemplo. Impaciência e grosseria podem ser pensados quando se vê a já famosa frase da "Rainha dos Baixinhos" num dia inspirado (sic). Ironia da Fernanda, claro, no Tumblr, uma mistura de blog e microblog, ela faz de uma espécie de diário, um espaço incrível de criação e reflexão sobre os mais variados temas.

O Mistura Indigesta espera contribuições, críticas, comentários, xingamentos, desabafos, choros, e até textos! Escreva-nos: misturaindigesta@gmail.com

4 palpites:

Texto muito bem escrito esse da Fernanda. Enfático, chega a ser provocador. O uso do "todo" nas primeiras orações, de cara, já me fez torcer o nariz: "como assim?" (risos).
Mas "a expressão dos impacientes" me pareceu muito legal.
Já sobre a mediocridade e a culpa ao outro, acho que dá pra encontrar exemplos nem tão fechados nisso, só que não é o caso aqui, claro.
O leitor é um ladrão, concordo! Muito boa essa.
E a expressão escrita entre o par inspiração (associado a uma beleza quase transcendente, romântica, sublime) e transpiração, me lembra sempre o Tom Zé falando do processo de composição dele: sempre muito esforçado, conforme ele mesmo, num trabalho quase artesanal, persistente, cansativo, de ourives sem pedra preciosa.
(excesso de modéstica, cá entre nós)
Porém, a relação que o texto da Fernanda acaba criando é entre a arte da escrita e da representação. No último parágrafo, fiquei pensando que o "fingidor" pode também ser visto como um ator, enquanto o escritor está protegido pelo papel.

Obrigado, Fernanda!
Escreva sempre!
E sempre pra gente e com a gente por aqui também!

Gostei bastante, principalmente da escrita fluida. "Horas e horas ouvindo o barulho do grafite arranhar no papel" é o melhor trecho: simples, sinestésico e acho que todos que gostam de escrever entenderam bem, ainda que eu seja da geração do tec tec do teclado.

Acho mesmo é que muitas vezes os leitores buscam, nos escritores, a legitimação de sua própria ideia por modo diferente do que está habituado. Mas tenho que confessar que muitas vezes os melhores escritores foram aqueles que me provocaram, pelo contrário, um desvio de rota.

Agora estou angustiado, não sei porque escrevo...

Vou pesquisar no google e já volto...

Hugão, vc eh foda! a outra descrição, usando o trecho do Kerouac me deixou besta, amei!

Aoki, nada eh mais gostoso doq o tec tec de uma maquina de escrever! nao sei se vc jah teve uma. nao bate o som do grafite, mas é sensacional!

nhaaaa nem tenho oq dizer, adorei ver meu texto aki sendo "digerido" :]

obs.: esse texto ia pra um concurso mas eu perdi o prazo de inscrição! aí tmb deixei sem titulo, mas talvez fosse se chamar "metalingua"!

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