segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Banksy, Assange e a Subversão Premiada

. . Por Thiago Aoki, com 7 comentários

Duas possibilidades de premiações polêmicas movimentaram o cenário artístico e político durante as últimas semanas. No primeiro, o misterioso, supostamente inglês, Banksy, artista guerrilheiro e de identidade desconhecida – há até quem diga que na verdade o nome represente um coletivo de artistas que subvertem a vida urbana - tem seu documentário indicado ao Oscar 2011. No segundo, o australiano, fundador da organização Wikileaks, Julian Assange, que já teve a cabeça pedida pelos republicanos norte-americanos por divulgar informações confidenciais da política externa ianque, concorre ao Nobel da Paz.

Banksy já deu sinais, em seu site oficial, de que aceitará o prêmio, apesar de não estar de acordo com o conceito de cerimônias de premiação. Tem sido frenquente este movimento na carreira do artista, que não se furta de buscar os holofotes para então, agir como guerrilheiro urbano. O trabalho que fez para a série “Os Simpsons”, já comentado em post anterior, é um exemplo sintomático. Não se sabe o que pode acontecer na celebração mais luxuosa no mundo, caso seja mesmo agraciado. Lembrei-me agora de quando os Racionais MCs aceitaram participar do Video Music Brasil, festa pop da MTV e causaram desconforto quando Mano Brown agradeceu sua mãe que “lavou muita roupa pra playboy” para ele poder estar ali. No caso de Banksy, o artista marginal já deu um aperitivo para que os membros da gigantesca indústria cinematográfica norteamericana não esperem dele um discurso de celebridade. Vejam (abaixo) como apareceu um célebre mural de Los Angeles, terra do Oscar. Ele não assumiu a autoria do painel, mas de qualquer modo, são traços típicos, com soldados já desenhados em outros trabalhos.

Por trás de uma suposta loucura dos homens que mandam em Hollywood é preciso levar em consideração que teremos um dos Oscar menos badalados dos últimos tempos, com superproduções que decepcionaram e com um filme favorito (A Rede Social) que não teve tanto sucesso, sendo relativamente fraco em renda e público, apesar de todo o conluio para que o longa emplacasse. A ideia de levar Banksy à festa, longe de insana, é também um modo de voltar as atenções e retomar o diz-que-diz que necessariamente deve acompanhar o evento. Banksy e a Indústria Cultural vivem em uma retro-alimentação que parece tênue por ser paradoxal, mas que vem dando muito certo a ambos. Até agora.

Já para Assange, concorrer ao Nobel da Paz é um capital político fundamental para manter suas ações e redes políticas. O grande trunfo que possibilitou sua indicação e que pode levá-lo de fato à conquista é o precipitado prêmio dado, em 2009, a Barack Obama, sob o pretexto de que o estadista americano teria “ideias de boas intenções para reforçar o papel da diplomacia internacional e a cooperação entre os povos”. Premiar o hacker australiano que causa amálgama na política internacional estadunidense seria também um esforço em recuperar a credibilidade da premiação que privilegiou os Estados Unidos nas duas últimas edições, tanto ao premiar Obama como ao premiar em 2010 – a meu ver justamente - Liu Xiaobo, preso político da China, que tem polarizado a hegemonia global com os EUA. Assange, já havia conseguido apoio de diversas entidades e de alguns estadistas, como o ex-presidente Lula, agora tem a chance de levar uma das mais importantes e respeitadas premiações internacionais. O fato de poder ser contemplado com o prêmio, ridicularizaria ainda mais a perseguição política que sofre, sob a forma de um bizarro processo que está respondendo a organismos internacionais por ter feito sexo sem camisinha. Já pensaram um “criminoso sexual” com o Nobel da Paz?

Os dois casos, de Banksy e Assange, mostram nas entrelinhas como dois atores sociais, que têm atuado com êxito e certa popularidade em suas ações políticas contestatórias, são “reconhecidos” pelo campo hegemônico e centros de poder. Para Banksy, fica o enigma de como demonstrar ao maior público que já obteve em suas intervenções, o que um “artista guerrilheiro” faz diante de uma situação de tanto glamour e status. Já para Assange, um fôlego político e o desafio de que a responsabilidade em ser considerado um dos que mais contribuíram para a paz mundial não seja um empecilho para que suas subversivas revelações venham à tona. É aguardar os próximos capítulos.

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Misturas Relacionadas:
Os Descaminhos da Arte de Rua Paulistana
Quem é Banksy?
Banksy e Os Simpsons
Quem tem medo do Wikileaks?

7 palpites:

Há algum tipo de avanço nos protestos ou ações que esses tais artistas fazem?

Eu acho particularmente que a arte não tem uma função social transformadora, ou pelo menos não deve este ser seu fim. O que ela traz é o retrato de uma sociedade, as ideias não caem do céu e mesmo algumas das mais abstratas artes contemporâneas estão retratando de algum modo a sociedade. Acho que fazê-lo criticamente,como Banksy, muito interessante. Quanto Assange, que não é um artista, me agrada muito o novo formato de ação política que ele coloca, partindo do novo para a transformar o novo. Uma dificuldade que boa parte da esquerda tem é em se adaptar as novas tecnologias e, por isso, acaba muitas vezes fazendo um discurso no mínimo conservador, colocando tudo que é novo como "alienação", "ideologia". Acho que ele escapa dessa armadilha e também de uma certa partidarização de um movimento político com tamanha visibilidade.

Mas é uma ótima questão que você colocou, minha opinião não é tão convicta assim, que voce pensa sobre isso?

Abraços.

Há uma citação que aparece algumas vezes por aí, atribuída a Fernando Pessoa: "O essencial da arte é exprimir; o que se exprime não interessa". Acho isso bastante provocativo.
Quando o Fábio pergunta por "tipo de avanço", do lado de cá já torço o nariz de cara pensando em expressões como "progresso" e "evolução".
Mas sei que não é bem nesse sentido que ele diz, e sim, imagino, que ele esteja pensando na oposição, ou melhor, na relação entre Arte e Educação.
A Arte é sim utilizada com fins pedagógicos, digo, no intuito de formar pessoas críticas, para transformar as pessoas, realizar uma crítica social e, também, espera, anseia por mudanças e transformações humanas e sociais.
A questão é: Arte não se resume a sua relação com a Educação.
Banksy, se ao fazer sua Arte se coloca essa perspectiva "transformadora", acho que não é o caso, exatamente, de nos perguntarmos. Porque simplesmente o fato de o discurtirmos, e imagino que muitas partes do mundo o fazem, de alguma forma, isso já altera a percepção das pessoas sobre a própria Arte à qual ele se reporta, e, inclusive, produz criticamente, mas produz, como no caso da abertura do desenho da FOX.
E aí entra o meu distanciamento do Fábio, por que se perguntar por avanços? Como se avalia isso, no fim das contas?
Lembro do exemplo de um cineasta brasileiro, meio maluco, Carlos Reichenbach, que certa vez dissera ficar contente toda vez que, por acaso, algum desconhecido o aborda dizendo, "ei, vi aquele filme teu, muito interessante isso, isso e aquilo" coisas para as quais, muitas vezes, ele nem se atinha, e coisas de fato também bastante críticas.
Outros são exemplos de produções acadêmicas sobre determinados grupos sociais. Uma dissertação, uma tese, não se apresenta, imagina-se, como "avanço" nenhum para os "objetos estudados" muitas vezes. Velha discussão universitária. Daí podemos nos supreender, por exemplo, quando uma tese começa a ser utilizada nas discussões de sindicatos e grupos de representação organizados desses mesmos "grupos sociais". E então me arriscaria, inclusive, a dizer, ironicamente, "poxa, não é que tem um 'avanço' aí?!".
Voltando pra "Arte", acho complicado pensar isso tudo, principalmente porque, muitas vezes, propostas e objetivos são muito díspares e nem sempre condizem com a recepção, e o resultado pode acabar uma surpresa.
Acho inclusive que as alterações que se pensa a partir da produção-recepção das obras artísticas (e isso vale para a Política também, no caso do Assange, talvez), muitas vezes, tem uma noção de intervalo temporal muito curta. Daqui dez, quinze anos, sei lá, a diplomacia mundial pode passar por uma outra postura depois desse auê todo ...
Enfim, minha visão vai mai o meno por aí.

Beijos

Fala Thiago, vc chegou a ver o documentario do Banksy? Se não viu veja. Assisti hoje inspirado pelo seu post e achei simplesmente brilhante.

Ainda não vi Márcio, tanto que preferi não entrar no mérito dele na postagem. Mas com certeza será nele que gastarei algumas das próximas horas reservadas ao cinema hehehe...

Lisonjeado por sua visita.

(e fala pro seu irmão voltar a escrever hehehe)

Abraços!

Eita! Essa discussão é boa.

O Tom Zé num show falou: Nobel - o inventor da dinamite - da paz...

Arte é arte. Fabinho quer evoluir pra onde? Cê pode pensar no efeito de algo que cê vai fazer e dar em outra coisa totalmente diferente. No que vai dar não dá pra saber. Rodrigão um dia disse: "É a síntese das múltiplas determinações. O complexo dos complexos" (dizem que quem disse antes foi o Lucáquis, mas eu ouvi do Rodrigão. Já viram ele tocando bateria??)

Arte é arte. Eu quero dizer algo com o meu desenho e neguinho entende outra. Que graça tem os quadrinhos de Cancrópolis? Tem neguinho que morre de rir. Eu não acho a menor graça. Dói pra fazer.

Arte é arte. Conversar é arte. Trepar é arte. Cozinhar, construir pontes, plantar quiabo... e por aí vai. Todo mundo é artista. O problema são as remunerações desiguais, não?

Arte é arte. Já ouviram Vital Farias?? Putaqueupariu!!

Teve uma sobre arte no passapalavra. Deêm uma olhada:
http://passapalavra.info/?p=32287

E viva o Bansky, o Assange, o Fabinho, o China e o Hugo!

E eu nem to bêbado!!

Grande e sagaz João, honradíssimo, concordo em gênero, número e degrau..

Mas to de acordo com tudo isso... A função social não é o fim da arte em si, mas consequência em retratar seu tempo.

Um coletivo interessantíssimo, por exemplo, é o grupo "Bijari" ( http://www.bijari.com.br/ ). Em uma das intervenções urbanas eles soltam uma galinha dentro dos shoppings. Em outra eles colocaram uns 50 joão-bobos na Praça da Sé e os moradores de rua batiam violentamente nos bonecos. Provocando a apatia das pessoas. O que eles estavam transformando no mundo não dá pra saber, mas como você disse, arte é arte.

Gostei bastante do passapalavra, aliás, engraçado, eu tinha escrito algo bem semelhante alguns meses antes, em abril do ano passado:

http://misturaindigesta.blogspot.com/2010/04/um-spray-na-mao-e-uma-bienal-na-cabeca.html

Vou acreditar que você não estava bêbado hehehe...

Abraços a todos!

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