segunda-feira, 14 de maio de 2012

Os Saltimbancos*

. . Por Thiago Aoki, com 2 comentários

Estava em um bar, sozinho, e sozinho o balcão é sempre mais confortável do que a mesa. Isso porque na mesa, as cadeiras vazias, a cada minuto que não são preenchidas, aumentam nosso desconforto com a solidão. Já no balcão, o inverso acontece, pois a qualquer momento alguém pode sentar do nosso lado, mesmo que não troque uma palavra. E se mesmo assim ninguém aparecer, temos o garçom que sempre é um ombro em potencial para uma cabeça que há tempos não é afagada. Optar entre mesa e balcão, em menor escala, é o mesmo que optar entre o privado e o público. E quem vai sozinho a um bar, ainda que normalmente possua os motivos mais privados para estar ali, sempre acaba preferindo o ambiente mais público para se aportar.

Escolhi whisky com algumas pedras de gelo. Além de refrescar o calor, a luz baixa do bar batendo no gelo criava uma imagem que, conforme o álcool subia pra minha cabeça, ia ficando mais surreal. Num momento de devaneios, pensei que, se as ciganas vissem aquilo, não escolheriam mais a borra de café para fazer suas previsões, trocariam por um belo whisky em um bar à meia luz.

Já tinha tomado alguns copos - alguns não, muitos – quando olhei para trás e reparei no ambiente. Deve ter sido a bebida, mas senti-me como em um metrô, tentando descobrir o destino e as histórias dos passageiros.

Vi dois casais de namorados que, em duplas, disputavam sem seriedade uma partida de sinuca, e a cada rodada que se entreolhavam, deixavam escapar um pouco de pecado no olhar trocado.

Vi duas amigas sentadas em uma mesa, olhando para uma mesa com dois amigos.

Vi uma mulher discutindo nervosa com seu par. Acusava-o de olhar para a bunda da mulata que rumava o banheiro. Pudera, bela bunda era.

Vi então três moças dançando sozinhas, enlouquecidamente felizes. Eram as únicas na pista de dança improvisada entre as mesas. O som foi diminuindo e, mal chegado o silêncio, uma delas correu até o antigo jukebox que ditava o som ambiente. Tirou do bolso da calça uma ficha, colocou-a na máquina, apertou alguns botões e voltou sorrindo, enquanto as outras amigas aguardavam com curiosidade para descobrir qual a música que começaria.

Para surpresa das três e de alguns que, como eu, assistiam à cena, uma voz feminina terna em ritmo cadenciado começou

“Me alimentaram
Me acariciaram
Me aliciaram
Me acostumaram”

- Nooooossaaa, aquela música que a vó colocava pra gente quando a gente era pequena? – uma das garotas reconhecera.

-Puta que pariu, de onde você desenterrou isso, menina?! – a outra também lembrara.

Deviam ser primas ou irmãs e, pela minha idade, eu podia ser o avô. A terceira moça, aquela que escolheu a música, não respondeu, apenas pegou a garrafa de cerveja vazia e usou de microfone, passando por todas as mesas, a essa altura sem a mínima vergonha, dançando e cantando sensualmente engraçada, abusando de seu vestido vermelho, feito musa de cabaré

“O meu mundo era o apartamento
Detefon, almofada e trato
Todo dia filé-mignon
Ou mesmo um bom filé...de gato
Me diziam, todo momento
Fique em casa, não tome vento
Mas é duro ficar na sua
Quando à luz da lua
Tantos gatos pela rua
Toda a noite vão cantando assim”

No estado latente de minha embriaguez, acabei não resistindo. Destrambelhado, derrubando whisky por toda minha camisa, levantei do balcão com meu copo na mão, fui até elas e, como se fôssemos íntimos, cantamos juntos, berramos juntos, brindando o refrão

“Nós, gatos, já nascemos pobres
Porém, já nascemos livres
Senhor, senhora ou senhorio
Felino, não reconhecerás”

Sabia que ali, a canção tinha significados diferente. Para elas, uma retomada da recente ingenuidade perdida, extrapolada no refrão. Um símbolo de algo que tinham em comum, de um resquício familiar. Para mim, a lembrança de uma longínqua juventude em um país politicamente sombrio, uma época em que eu, um futuro advogado caro de São Paulo, quem diria, desafiei a ordem.

Não importava, ali estávamos juntos, bêbados, abraçados, berrando o refrão de uma música. Não importava se seríamos barrados na portaria de nossas casas, sem filé ou almofada por conta da louca serenata. Não importava. Naquele momento, naquele exato momento, estávamos livres.

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* "Os Saltimbancos" foi o tema gentilmente sugerido pelo indigesto Caio Moretto

2 palpites:

Nós gatos já nascemos livres. Tinha imaginado que sairia algo totalmente diferente. Mas essa é a graça. Muito bom.

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